Where Late the Sweet Birds Sang (Onde os Últimos Pássaros Cantaram) – Kate Wilhelm

Wherelate

Where Late the Sweet Birds Sang, é um romance de ficção científica escrito por Kate Wilhelm. Publicado em 1976, recebeu o prêmio Hugo de melhor romance em 1977, e foi indicado para o prêmio Nebula em 1976. O título é um trecho do Soneto 73 de William Shakespeare:

Em mim tu vês a época do estio
Na qual as folhas pendem, amarelas,
De ramos que se agitam contra o frio,
Coros onde cantaram aves belas.

Tu me vês no ocaso de um tal dia
Depois que o Sol no poente se enterra,
Quando depois que a noite o esvazia,
O outro eu da morte sela a terra.

Em mim tu vês só o brilho da pira
Que nas cinzas de sua juventude
Como em leito de morte agora expira

Comido pelo que lhe deu saúde.
Visto isso, tens mais força para amar
E amar muito o que em breve vais deixar.

O livro foi publicado recentemente em Portugal, sob o título Onde os Últimos Pássaros Cantaram, que está sendo vendido através do site da Fnac.pt, por apenas €3,50 mas como o frete sai por absurdos €24,39 recomendo a leitura da versão em inglês pois infelizmente não encontrei nenhuma versão epub ou mobi da edição em português.

Introdução ao roteiro

Em um futuro próximo mudanças climáticas e poluição em larga escala causam o colapso da civilização em todo o mundo. Em países como o Brasil (que é um dos destinos de um dos personagens principais do livro) técnicas agrícolas ultrapassadas e ineficientes, desmatamento, queimadas e mau uso do solo causam a perda completa das áreas cultiváveis. Uma família está empenhada em construir um hospital em uma comunidade isolada no interior da América e em seu laboratório de pesquisas de clonagem acabam descobrindo que a poluição e doenças causaram a infertilidade universal da humanidade. Tumultos violentos, saques, fome e doenças causam o declínio quase total da população humana, e a esterilidade universal se encarregará de concluir a extinção em poucos anos.
Mas uma esperança surge quando David, um promissor biólogo da família, descobre que a infertilidade pode ser revertida depois de algumas gerações de clones, então o laboratório inicia a clonagem de membros da comunidade, na esperança de que após algumas gerações de clones a reprodução sexuada possa voltar a normalidade.
No entanto, quando os clones começam a crescer e ganhar poder eles rejeitam a ideia de restabelecer a reprodução sexuada. Os membros originais da comunidade, muito velhos e em menor número não podem resistir e são obrigados a respeitar a nova ordem social, ou são condenados ao exílio.
Com o passar dos anos as novas gerações de clones eliminam completamente a ideia de individualidade da sua estrutura social. Como os clones são produzidos em grupos de quatro a dez indivíduos idênticos, eles crescem dependendo enormemente um dos outros, em uma espécie de personalidade coletiva compartilhada entre grupos de gêmeos idênticos.Ao poucos a capacidade de reprodução começa a retornar, mas a sociedade de clones não aceita abandonar o sistema de clonagem, e utiliza as mulheres férteis como reprodutoras com o objetivo de gerar novas linhagens de clones. Os clones ficam cada vez mais dependentes da personalidade coletiva e tornam-se incapazes de explorar o mundo devido a uma estranha fobia a outros ambientes que não seja o vale onde vivem. O isolamento e ambientes abertos ou afastados causa pânico incontrolável e até mesmo loucura.
Ao iniciarem uma exploração das ruínas de Washington, Molly do grupo de irmãs Miriam acaba separando-se dos outros membros de seu grupo, o que causa o desenvolvimento de uma personalidade individual, o que é considerado uma grave patologia psicológica. Ela torna-se um problema para a comunidade de clones, sendo então afastada do convívio social, mas acaba engravidando de outro clone que também estava na expedição. Os clones descobrem que ela gerou uma criança, Mark, que possui a habilidade única de conseguir se afastar da comunidade sem enlouquecer, e após muita resistência começam a perceber que a falta de individualidade esta causando a extinção da criatividade e da capacidade de resolver problemas.  A falta de reposição de equipamentos de clonagem, aliada a essa crise de criatividade, ameça interromper o processo de clonagem, o que consequentemente causaria o fim do que restou da humanidade.
Mark então tentará convencer os clones a abandonarem esse estilo de vida insustentável, mas será uma tarefa difícil.

Considerações sobre o livro

Esse poderia apenas ser mais um livro pós-apocalíptico, mas Kate Wilhelm conseguiu tratar da questão ética da clonagem e das controvérsias envolvidas de forma muito competente, e talvez por esse motivo tenha ganho o prêmio Hugo.
Se você não imaginava que a clonagem era um problema ético que já era discutido na metade da década de 70, então bem vindo ao clube. Eu acreditava que a questão só tinha se tornado relevante nos anos 90, com a clonagem da ovelha Dolly, mas parece que o assunto já era importante antes disso.
O romance está estruturado em três partes: a primeira mostra de forma um tanto superficial o declínio da humanidade, focando totalmente no início da sociedade de clones, através do gênio de David Sumner como o cientista/salvador/herói; a segunda parte trata da transformação psicológica de Molly em uma sociedade já estabelecida e antes de iniciar o declínio; a terceira parte trata do declínio da sociedade de clones e a tentativa (messiânica?) de Mark em salvar a humanidade.
A sociedade americana cultua as liberdades individuais como nenhuma outra sociedade no mundo. A autora explora esse culto à individualidade e a resistência dos americanos em aceitar a coletividade trabalhando com a seguinte ideia: e se o fim da individualidade acontecesse não pelo uso da força mas como uma consequência biológica? O veredito da autora é claro: o fim da individualidade significa a morte da criatividade e do espírito humano.
A autora também deixa claro que a causa da catástrofe no início do livro aconteceu devido a forma como tratamos a natureza e o meio ambiente, em uma referência à possibilidade do esfriamento global que era previsto nos anos 60 e 70:

Os invernos estão ficando mais frios, começando mais cedo, durando mais com mais neve do que ele podia lembrar-se de sua infância. Assim que o homem parou de adicionar seus megatons de sujeira na atmosfera todos os dias, ele pensou, a atmosfera reverteu-se ao que deve ter sido há muito tempo atrás, com verões e invernos mais úmidos, mais estrelas do que ele jamais tinha visto antes, e mais estrelas a cada noite: o céu estava mais claro, azul sem fim durante o dia, veludo preto em uma noite com estrelas brilhantes que o homem moderno nunca tinha visto.

Mark assume o papel de tentar reunir o que restou da humanidade em direção ao retorno à uma vida mais simples em contato com a natureza.
A narrativa pode ser meio confusa, mas é fácil nos envolvermos com os personagens pois temos essa tendência a nos identificar com os heróis das estórias pós-apocalípticas. Em tempos de Walking Dead ou Eu Sou a Lenda é fácil fantasiarmos que também poderíamos ser sobreviventes, e que provavelmente agiríamos da mesma forma.
Parece que a autora é um tanto obcecada pela ideia do incesto, que é mostrado várias vezes durante a narrativa.
Where Late the Sweet Birds Sang é o melhor livro sobre clonagem já escrito. Um pouco confuso em alguns momentos, mas com personagens bem desenvolvidos, excelentes descrições das ruínas das cidades e da paisagem, que nos levam a relevar sobre qualquer falha que a ideia central da clonagem possa apresentar e nos fazem querer continuar lendo até o fim.

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2 comentários sobre “Where Late the Sweet Birds Sang (Onde os Últimos Pássaros Cantaram) – Kate Wilhelm

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