Cyteen – C. J. Cherryh

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Cyteen
  2. Nome do autor: C. J. Cherryh
  3. Nome da editora: Aspect (Reedição 1995)
  4. Data e local de publicação: EUA, 1988;
  5. Número de páginas: 696 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Nota: ★★ (2)

Cyteen é um romance de ficção científica escrito por C. J. Cherryh em 1988 e vencedor dos prêmios Hugo e Locus de 1989. A história situa-se no universo Aliança-União criado por Cherryh que é recorrente em seus livros de ficção científica. Cyteen foi fundado em 2201 por um grupo de cientistas e engenheiros dissidentes, incluindo o planeta Cyteen e as estações espaciais interiores e exteriores ao planeta. A independência de Cyteen veio em 2300, e agora serve como a capital da União.
A atmosfera do planeta é moderadamente tóxica aos seres humanos, que precisam viver em cidades semi-encapsuladas, conhecidas como enclaves ou cidades-estado.
Em face à necessidade de expansão das colônias da União, uma instituição científica conhecida como Reseune centraliza toda pesquisa e desenvolvimento de clonagem humana, recurso que é deplorado pela Terra e a Aliança, principais rivais da União.
Em Reseune são criados os humanos incubados in vitro “azi”, e os “CIT”. A principal diferença entre os azi e os CIT é que os azi são educados desde o nascimento via “fita”, uma combinação controlada por computadores de técnicas de condicionamento e treinamento por biofeedback. A técnica também é utilizada nos CIT, mas em escala muito menor, para educação, mas normalmente apenas depois dos seis anos de idade. O resultado é uma profunda diferença entre esses dois tipos de clones. Enquanto os CIT tem melhores capacidades de lidar com situações inesperadas e incertas, os azi são capazes de melhor concentração em problemas específicos. Como efeito colateral da educação por “fitas” os azi tendem a serem emocionalmente instáveis.

Análise de Cyteen

É perfeitamente aceitável escrever lixo – desde que você edite ele brilhantemente.

C. J. Cherryh

Eu venho lendo os vencedores do Prêmio Hugo em sequência, conforme é possível acompanhar através deste post. A experiência é recompensadora, mas nem sempre é fácil, pois as vezes encontramos livros que não foram traduzidos para o português, que são grandes demais (é o caso de Cyteen, com quase 700 páginas), ou até mesmo possuem uma linguagem e estrutura complicada demais (como Stand in Zanzibar).
Assim como o livro anterior de Cherryh que também recebeu o Hugo, Downbelow Station, também não recomendo a leitura deste livro. Não que o livro seja ruim, apenas considero que possui alguns problemas que desestimulam até os leitores mais fiéis ao gênero:

  1. O livro é longo demais. Isso não seria um problema se estivéssemos diante de um livro com um estilo mais rico e envolvente como os livros de Gene Wolfe, que merecem a leitura no idioma original, e não assustam pelo tamanho. Mas Cyteen realmente não precisava ser tão grande, se ele fosse enxugado pela metade ainda sobraria muito espaço para o desenvolvimento da história.
  2. Existem muitos personagens. Contei mais de vinte personagens, com uma alternância constante entre os protagonistas, o que é cansativo e causa perda de foco na leitura. Quase todos os personagens são tão secundários que é fácil perdê-los no background da história, e acabamos por considerá-los dispensáveis.
  3. Muita política. Não tenho nada contra política, acredito que o tema faz parte das nossas vidas e é muito importante, mas a autora gasta tantas páginas para tratar da aprovação de alguma projeto de lei, e perde-se de tal forma nos meandros políticos entre a União e a Aliança, que as vezes até esquecemos que estamos lendo um livro sobre clonagem. São esquemas e agendas políticas em excesso, e como praticamente todos personagens estão envolvidos até o pescoço na política é fácil perder-se em meio aos esquemas políticos.
  4. Muita falação, pouca ação. Páginas e mais páginas de discussões políticas e quase nenhuma ação.
  5. Um assassinato sem explicação. Apesar do livro ser descrito na contra capa como um “livro de mistério de assassinato”, o mistério sobre o assassinato de Ari é mal explicado, e fica a dúvida se tratou-se de um acidente ou suicídio. Apenas na sequência deste livro, Cyteen Regenesis (2009) Cherryh esclarece o mistério, mas acredito que depois de tanto tempo ninguém mais se importa com isso.

Apesar dos problemas o livro é escrito com competência, e com diálogos interessantes, apesar de cansativos. Ele é muito realista ao explorar problemas atuais na nossa sociedade, como questões éticas envolvendo clonagem e aperfeiçoamentos genéticos artificiais. Mas definitivamente não é uma leitura recomendável, mesmo para quem possui algum conhecimento do idioma inglês.
O livro poderia seguir o caminho distópico de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, mas Cherryh preocupou-se muito mais com diálogos políticos cansativos do que com as questões éticas e morais. É uma pena.

The Uplift War (A Guerra da Elevação) – David Brin

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: The Uplift War (A Guerra da Elevação) – Uplift #3
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Nome da editora: Bantam Spectra
  4. Lugar e data da publicação: Eua, 1987
  5. Número de páginas: 294 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Nota: ★★ (3)

The Uplift War (A Guerra da Elevação) é um romance de ficção científica escrito em 1987 por David Brin, e o terceiro livro do Universo Elevação que é composto por seis livros. O livro foi indicado ao Prêmio Nebula de melhor romance em 1987 e venceu os prêmios Hugo e Locus de melhor romance em 1988.
Os dois livros anteriores, Sundiver e Star Tide Rising, conforme escrevi nas análises anteriores, para mim foram desapontadores, o primeiro por ter sido conduzido de forma ingênua, com personagens fracos e pouco envolventes. O segundo, apesar de ter recebido vários prêmios, também foi desapontador devido ao uso de uma estrutura de narrativa rotativa com capítulos muito curtos com quebra constante de ritmo, uma falha estilística que considerei grave. Infelizmente David Brin manteve o mesmo estilo nesse livro, insistindo na rápida alternância entre os personagens o que liquidou com o ritmo do livro.

Ainda encontramos capítulos muito curtos, com mais de um capítulo por página, alguns capítulos com menos de 3 sentenças, o que produziu absurdos 111 capítulos! Por que dividir o livro em sete partes? E por que a parte sete teria apenas um  capítulo? Por que não chamar o último capítulo de epílogo? Apesar de alguns capítulos serem mais longos, muitas vezes ele perde tempo em trechos desnecessários (como o capítulo 24, que descreve um bar de stripers tão repleto de clichés que parece ter saído de algum filme de faroeste, só que com atores chimpanzés).

Apesar do título mencionar uma guerra, não se trata de uma ficção científica militar. Sim, trata-se de uma guerra, mas o foco da história mais uma vez é a Elevação de espécies à condição de senciência e não a guerra em si. Assim como nos livros anteriores, David Brin fez um bom trabalho na sua construção dos Galáticos. Cada raça alienígena possui uma cultura própria, cheia de peculiaridades, algumas curiosas, outras até mesmo bizarras. Os Gubru, por exemplo, que iniciam o ataque à colônia de terrenos (humanos e chimpanzés) em Garth, são descritos como algo parecido com passarinhos superdesenvolvidos, que possuem uma atitude guerreira que não combina com sua aparência (assim como os Angry Birds). Pode parecer ridículo, mas o resultado é genial, pois ao fugir do estereótipo da ficção científica, que insiste em retratar raças alienígenas agressivas como algo parecido com felinos ou outras raças predadoras, o autor acaba surpreendendo o leitor com sua guerra contra os Angry Birds.

Os Tymbrini são umas das poucas espécies galáticas aliadas dos terrenos, e foram maravilhosamente construídos pelo autor. A capacidade de adaptação dos Tymbrini permite que eles executem alterações fisiológicas e anatômicas drásticas, e como empatas são capazes de comunicar-se mentalmente percebendo coisas que os terrenos não podem ver. Além disso surge um interessante caso amoroso entre um humano e uma tymbrini, que leva os leitores a considerar o que poderia acontecer com uma integração intensa entre espécies tão diferentes.
A estória acontece em Garth, um planeta arrendado pela Terra para um esforço de recuperação do planeta após o desastre ecológico causado por uma espécie elevada que falhou miseravelmente e quase destruiu completamente a vida do planeta.
Os Gubru estão determinados em descobrir o que aconteceu com a espaçonave Streaker (veja minha análise), então eles iniciam uma guerra dentro das regras galáticas, mas conforme mencionei anteriormente a guerra em si não é o mais interessante, mas sim o que é descrito paralelamente.
No livro anterior o autor ocupou-se em descrever os golfinhos elevados, com o foco principalmente em sua linguagem, pois tratava-se de uma população restrita à tripulação da nave Streaker. Já neste livro ele conseguiu descrever melhor a sociedade dos chimpanzés em Garth, que mostra uma semelhança maior com os seres humanos.
Apesar de começar bem, o autor perdeu a mão mais uma vez em Uplift War, insistindo na alternância constante na narrativa, muitas vezes com capítulos desnecessários e sem importância. Mais uma vez David Brin mostra que não é um bom escritor, apesar de possuir uma imaginação privilegiada.

Startide Rising (Maré Alta Estelar) – David Brin

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Startide Rising – Uplift #2 – (Maré Alta Estelar)
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Tradutor: Maria Helena Fernandes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 116 e 117;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1986
  6. Número de páginas: 294 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Nota: ★★ (3)

Startide Rising (Maré Alta estelar) é o segundo livro da trilogia Uplift (Elevação), de David Brin. Foi escrito em 1983 e recebeu o prêmio Nebula no mesmo ano, e os prêmios Hugo e Locus de 1984, sendo portanto um dos poucos livros laureados com os três maiores prêmios da ficção científica. Existe uma edição em português, mas infelizmente é muito difícil de encontrá-la em sebos. Se você está procurando este livro recomendo tentar no site Estante Virtual. Para piorar a situação, o livro foi publicado em dois volumes, e só encontrei uma cópia do segundo volume, portanto tive que ler o primeiro em inglês.

Veja minha análise de Sundiver antes de prosseguir (o link abrirá em uma nova janela).

A ordem cronológica da série é a seguinte:

Observação: (A leitura de Sundiver pode ser considerada uma boa introdução ao universo Uplift, mas não é obrigatória. Muitos consideram que a série inicia efetivamente em Startide Rising)

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 O ano é 2489. A história começa cerca de um mês após a espaçonave terrena Streaker (com uma tripulação de 150 golfinhos, sete humanos e um chimpanzé) realizar a descoberta de uma frota abandonada que supostamente teria pertencido aos Progenitores, uma lendária raça que teria iniciado o processo de elevação de outras espécies. A origem, história e destino dos Progenitores é um dos maiores mistérios da galáxia. Um transporte da Streaker foi destruído ao investigar a frota abandonada, matando vários membros da tripulação. Apesar disso eles conseguiram recuperar alguns artefatos e um corpo de uma espécie alienígena desconhecida, mas muito bem preservado. Eles transmitem por psi-cast para a Terra informações sobre a descoberta e um holograma do corpo do alienígena. A resposta, enviada em código, dizia simplesmente “Fujam. Aguardem ordens. Não respondam”. Durante a fuga a Streaker é emboscada em um Ponto de Transferência Morgan, consegue fugir mas sofre várias avarias e acaba sendo obrigada a pousar no planeta aquático Kithrup.
Os alienígenas que estão perseguindo a Streaker são conhecidos como Galáticos — civilizações que conquistaram a inteligência milhares de anos antes dos humanos. A narrativa inicia-se então em meio a uma luta feroz entre os galáticos para decidir quem irá ficar com as informações e artefatos dos Progenitores, enquanto a tripulação da Streaker irá realizar uma tentativa desesperada de reparar a nave em um ambiente alienígena hostil e cheio de mistérios.

A estória é contada pelo ponto de vista dos personagens humanos, golfinhos elevados e até mesmo do ponto de vista de outras espécies dos Galáticos. Para os golfinhos o autor desenvolveu um padrão de linguagem no estilo Haiku, uma forma de poesia japonesa curta caracterizada pela justaposição de duas ideias, com 17 on (também conhecido como mora, ou algo como as nossas sílabas) divididas em três frases com 5, 7 e 5 ons.  O resultado é no mínimo curioso. A Streaker, foi adaptada para comportar uma tripulação em sua maior parte de golfinhos, com ambientes aquáticos, mas os golfinhos também podem circular entre outros compartimentos e comunicar-se com humanos em chimpanzés utilizando exoesqueletos conhecidos como aranhas.

A imaginação de David Brin é realmente impressionante, e seu rigor científico permite algumas postulações aceitáveis do ponto de vista tecnológico. A comunicação entre as espécies humanas, golfinhos e chimpanzés, bem como a interação entre eles é bastante convincente. Por exemplo, a Streaker é a primeira nave terrestre a ser capitaneada por um golfinho, o capitão Creideiki, portanto ele demonstra estar sob pressão devido sua responsabilidade em provar tanto aos humanos quanto aos outros de sua espécie que eles são totalmente capazes de cuidar de si mesmos. Os humanos também lidam com suas próprias preocupações e frustrações, bem como algum romance entre eles. O único chimpanzé à bordo é ranzinza e egoísta. Nos capítulos mostrados do ponto de vista dos Galáticos podemos notar um nítido sentimento de desdem e superioridade em relação aos humanos e as outras duas espécies terrenas patrocinadas por nós.

A estrutura rotativa da narrativa, alternando entre os pontos de vistas conforme muda o narrador,  é um recurso valioso e vários livros que já li fizeram excelente uso dessa técnica, mas David Brin pecou na brevidade desses capítulos. Os capítulos são tão curtos (alguns têm menos de uma página, ou até mesmo apenas poucas sentenças) que dificilmente permitem ao leitor acostumar-se ao novo ponto de vista. A narrativa acabou ficando cheia de saltos, o que prejudica a conservação do momemtum (ritmo) na leitura, deixou a narrativa confusa e à todo momento Brin joga um balde de água fria nos momentos onde a estória começava a ficar interessante.

Apesar de apresentar vários problemas, Maré Alta Estelar ainda pode ser considerado um grande livro, escrito dentro do melhor da tradição do gênero: mostrando o impacto que a ciência e tecnologia produzem sobre a humanidade.

Recomendo a leitura, mas apenas para fãs do gênero.

 

A Garra do Conciliador – Gene Wolfe

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: A Garra do Conciliador (Tetralogia do Livro do Novo Sol #2)
  2. Nome do autor: Gene Wolfe
  3. Tradutor: Maria de Lourdes Medeiros
  4. Nome da editora: Publicações Europa-América
  5. Data e local de publicação: Portugal, 1981;
  6. Número de páginas: 272 páginas;
  7. Gênero: Fantasia Científica;
  8. Sub-Gênero: Morte da Terra (Dying Earth);
  9. Nota: ★★★★★ (5!)

A Garra do Conciliador (The Claw of the Conciliator) é o segundo livro da tetralogia do Livro do Novo Sol, de Gene Wolfe. Recebeu os prêmios Nebula em 1981 e o Locus em 1982. Narrado em primeira pessoa, o livro dá continuidade no relato da história de Severian, um exilado da Ordem dos que Procuram a Verdade e a Penitência (Ordem dos Torturadores), descrevendo sua viagem ao norte em direção à cidade de Thrax. No Brasil Gene Wolfe é um ilustre desconhecido, nunca um livro seu foi publicado por aqui. Existe uma edição da Publicações Europa-América, mas infelizmente é muito difícil encontrar um exemplar em sebos brasileiros.
Se você gosta de George R. R. Martin, já leu todos os livros das Crônicas de Gelo e Fogo, já assistiu várias vezes a série da HBO e está apenas aguardando que o Sr. Martin termine logo a série, dou uma dica para você: Considere ler os livros de Gene Wolfe! São várias as razões que justificam que se invista nessa série.
Em primeiro lugar, e o que é uma grande vantagem, a série de Gene Wolfe está completa. São doze livros excelentes que podem garantir a você meses ou até mesmo anos de diversão e deslumbramento com a riqueza do trabalho do autor.
Em segundo lugar, como já disse no meu post anterior, Gene Wolfe é um dos melhores autores da literatura inglesa atual. Seus livros são profundos, complexos e fantásticos muito além do que eu poderia descrever aqui.

Mas a obra de Gene Wolfe não é uma leitura fácil. O leitor deve permitir que o narrador apresente o seu mundo, não se deve criar expectativas ou tentar imaginar o mundo que ele criou antes da hora certa. Se você fizer isso muito provavelmente irá decepcionar-se com o autor. A narrativa em primeira pessoa é convincente, mas segue o ritmo determinado pelo narrador, exigindo que o leitor enxergue o estranho mundo de Urth através dos olhos de Severian, e se você deixar que ele conte sua história, sem criar falsas expectativas, será recompensado por uma das histórias mais estranhas, surpreendentes e convincentes de todo universo da ficção fantástica e científica.

Em A Garra do Conciliador podemos encontrar uma nítida referência à mitologia criada por H. P. Lovecraft, quando Severian ao entrar na caverna dos híbridos símios-humanos (ou humanos degenerados) consegue dominá-los com a Garra do Conciliador, mas assusta-se com passos de alguma criatura gigantesca nas profundezas da terra. Mais tarde, conversando com seu amigo Jonas, ele menciona os monstros gigantescos Erebus e Abaia, criaturas tão grandes quanto montanhas que viveriam nas profundezas do mar. Severian teme o retorno das criaturas, mas Jonas o lembra que são criaturas tão grandes que não poderiam conter o próprio peso, confirmando um sonho que Severian teve anteriormente. Erebus é o vulcão extinto da Antártica em que os exploradores do livro As Montanhas da Loucura de Lovecraft , encontram a misteriosa criatura da raça dos antigos. Já Abaia, a outra criatura citada, é uma criatura da mitologia Melanésia, uma enguia gigante capaz de causar grande destruição ao produzir ondas gigantes com sua cauda.

Outra referência mitológica neste livro (mas dessa vez à mitologia grega) é a história que Severian lê para seu amigo Jonas mais tarde, enquanto ele está convalescendo. É A História do Estudante e do Filho, que Jonas reconhece como sendo a história de Teseu e do Minotauro: Era exigido que a cada nove anos sete rapazes e sete garotas fossem enviados para serem devorados pelo Minotauro.
Decidido a acabar com isso Teseu se ofereceu para matar o monstro de Minos, prometendo a seu pai, Egeu, que ordenaria que o navio que o traria de volta erguesse velas brancas em caso de sucesso, ou negras caso ele tivesse morrido. Após matar o monstro o herói esquece de erguer as velas brancas e seu pai, ao ver as velas negras imagina que seu filho morreu então se arremessa ao mar e morre, e desde então o mar leva o nome de Mar Egeu. No futuro longínquo de Urth toda história e mitologia da Terra sofreram profundas transformações, mas na essência podemos notar a permanência dos elementos principais. Jonas mostra conhecer muito mais do passado de Urth que supúnhamos até então, e mais à frente veremos que Jonas não é um simples homem com alguns implantes biônicos.

Um trecho estranho do livro envolve uma chocante cerimônia (uma comunhão?) onde Severian, Vodalus e outros de seu grupo consomem carne do corpo de Thecla, após a utilização de uma droga extraída de uma glândula de uma misteriosa criatura, e com isso adquire muitas das memórias de Thecla e de sua vida na Casa Absoluta, a sede do governo do Autarca.
A Garra do Conciliador é um estranho artefato, que acaba em poder de Severian por acidente mas este logo percebe que a Garra pode ser utilizada para curar doentes, reparar ossos quebrados, afugentar animais selvagens ou até domar touros bravos!
Em A Espada do Lictor, no capítulo XVII, Gene Wolfe chama a Garra do Conciliador de gegenschein do Novo Sol:

A pedra brilhou na luz do sol, mas seu brilho era mero reflexo do sol e não a Luz do Conciliador, o gegenschein do Novo Sol, e então eu a guardei novamente.

Gegenschein é um termo alemão para um efeito astronômico também conhecido como brilho de oposição. É uma mancha elíptica de luz, oposta ao sol no céu, muito mais sutil e difícil de se observar do que a Luz Zodiacal. É causada pelo espalhamento da luz solar pelas partículas interplanetárias de poeira. Gene Wolfe, dessa forma, associa a luz do artefato com a possibilidade de um Novo Sol para Urth, sendo o brilho da pedra uma espécie de reflexo sutil dessa luz prometida.

Para quem deseja iniciar a leitura em inglês, os livros podem ser encontrados na Amazon através dos links abaixo. Desejo boa sorte para quem tentar garimpar a edição portuguesa nos sebos brasileiros, não será uma tarefa fácil! Um bom começo é tentar o site Estante Virtual. É confiável, já comprei dezenas de livros através dele e nunca tive problemas, mas hoje existe apenas uma cópia de A Cidadela do Autarca disponível.

O Livro do Novo Sol (Book of the New Sun)

Book of the Long Sun

Book of the Short Sun

A história independente que Severian conta em A Garra do Conciliador, “A História do Estudante e do Filho,” foi publicada de forma independente e separada na revista The Magazine of Fantasy & Science Fiction, October 1981.

O Carteiro – David Brin

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: O Carteiro (The Postman)
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Tradutor: Fábio Fernandes
  4. Data e local de publicação: Internet, 2014;
  5. Número de páginas: 253 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Sub-Gênero: Ficção Pós-apocalíptica;
  8. Nota: ★★★ (3)

    O Carteiro (The Postman) é um romance de ficção científica pós-apocalíptica escrito por David Brin em duas partes: “O Carteiro” em 1982 e ¨Cyclops” em 1984. Posteriormente o livro foi publicado na sua forma completa, tendo sido indicado aos prêmios Hugo e Nebula, e recebeu os prêmios John W. Campbell e o Locus, em 1986. No Brasil o livro foi publicado apenas em duas partes, pela saudosa Isaac Asimov Magazine, a primeira no nº21 e a segunda no nº 23.
No link abaixo você encontrará a edição brasileira na íntegra, apenas foi feita a correção para a nova ortografia e a edição para epub, mobi e PDF.
A tradução não é minha, mas coloquei na categoria Minhas Traduções apenas facilitar a localização.

O Carteiro – David Brin (PDF)
  O Carteiro – David Brin (MOBI)
 O Carteiro – David Brin (EPUB)

   A maioria das pessoas deve conhecer essa história apenas através do péssimo filme com o Kevin Costner. No Brasil o título foi traduzido erroneamente como O Mensageiro. O filme é uma bomba, como quase tudo que Kevin Costner já fez na vida, mas felizmente eu tinha lido o livro na revista Isaac Asimov Magazine antes de assistir ao filme, e sabia que a história era muito mais do que aquilo que foi mostrado. O filme é sem sentido e simplesmente estúpido, Costner apenas tenta imitar Mad Max. Ele é baseado apenas nas primeiras 40 ou 50 páginas do livro. Caso você já tenha perdido tempo assistindo o filme espero que tenha sido há bastante tempo e espero que já tenha esquecido de boa parte dele, para ter um começo limpo nessa história.
O Carteiro é um livro no clássico sub-gênero pós apocalíptico. O mundo enfrentou uma guerra mundial, cujos detalhes (e até mesmo os oponentes dos EUA) são deixados de lado pelo autor. O uso maciço de armas nucleares, armas biológicas e o inverno nuclear destruiu completamente a civilização. O protagonista do livro, Gordon, era um miliciano em Minnesota, que tentava proteger alguns sobreviventes locais até que todos seus companheiros morreram e ele fugiu para o oeste. O livro começa quando Gordon está sendo roubado por uma gangue e sobrevive ao descobrir um carro postal abandonado e o corpo de um carteiro que morreu há muito tempo. Isso acaba salvando sua vida, pois ele tinha sido roubado e morreria de frio se não vestisse o casaco do carteiro. Ele acaba pegando a sacola de cartas do carteiro, sem pensar muito sobre isso. Quando ele chega à Pine View os habitantes locais reagem de forma inesperada e emocionada com a visão do uniforme, e ele acaba vendo-se tentado a encarnar o papel de carteiro.
Gordon acaba fazendo uso dessa mentira para conseguir respeito, atenção, abrigo e alimento. Ele mente dizendo que representa o governo dos Estados Unidos Restaurados, e as pessoas estão tão desesperadas para acreditar em algo que aceitam facilmente suas mentiras. Gordon se reconhece como uma fraude, e fica tentado a desistir da farsa, mas acaba rapidamente preso no papel. O autor mostra Gordon como um personagem amargurado e oportunista, no entanto ele possui uma moralidade inata esperando para mostrar-se.
O livro questiona o significado de heroísmo e liderança, e como alguém nessa situação pode acabar sendo dominado por um papel se desempenhá-lo muito bem ou por muito tempo.
Mas esse livro tem alguns problemas muito sérios. Na primeira metade, que é basicamente um livro de aventura e exploração de um ambiente pós-apocalíptico, existe uma certa estranheza na dinâmica da narrativa, uma impressão de que o autor está enfiando a narrativa goela abaixo do leitor ao invés de conduzi-la suavemente. Mas o pior acontece na segunda parte, quando Gordon irá enfrentar os sobrivencialistas: o livro sai completamente dos trilhos!
David Brin mostra uma reversão do status das mulheres à um padrão quase feudal, como se os direitos femininos fossem uma espécie de produto da civilização moderna. Quando Gordon chega à uma cidade onde existe uma espécie de nova onda de feminismo surgindo, Brin introduz algumas ideias bizarras sobre a necessidade das mulheres em controlar a violência dos homens, e sobre uma espécie de dicotomia no comportamento masculino entre o heroico e o vil, e faz um claro paralelo com a comédia antiguerra Lisístrata escrita por Aristófanes em 411 A.C.. Nessa comédia as mulheres de Atenas fazem uma greve de sexo e conseguem assim fazer com que seus maridos desistam da luta e busquem a paz. Esse paralelo com Lisístrata está até na dedicatória do livro. Próximo do fim do livro tudo se resume à uma briga cheia de testosterona no estilo saloon de filmes de faroeste. David Brin fica preso à esse modelo binário de gêneros, indo da condescendência sincera em tentar reconhecer a força das mulheres à simplificação na descrição do comportamento masculino, agressivo e superficial.
Para piorar tudo, David Brin simplesmente puxa o tapete debaixo dos pés do mundo que ele criou. O tema principal de O Carteiro até próximo do fim é a substituição da ênfase na tecnologia pelo aumento da importância das pessoas, e a necessidade de cooperação entre elas. Em um trecho bem conduzido Brin consegue mostrar as possibilidades de se utilizar a tecnologia como ferramenta para a salvação, e esse tema encaixa perfeitamente com a natureza heróica de Gordon. Mas logo depois o autor introduz vilões caricatos, típicos de revistas em quadrinhos, tudo descamba para a simples violência e acaba desviando o foco para as partes ruins do livro.
Sem dúvida alguma o livro é melhor que o filme, mas isso não quer dizer muita coisa. O livro começa devagar, mas o meio dele é até melhor do que poderíamos esperar. Mas o embaraçoso sub-enredo envolvendo o feminismo e o colapso do mundo que ele criou deixou um gosto amargo na boca do leitor.
Apesar de tudo é um livro que recomendo a leitura, e apesar dos problemas que possui é um livro pós-apocalíptico regular. Se você está procurando um livro pós-apocalíptico melhor experimente ler Um Cântico para Leibowitz (veja minha análise).

Serpente do Espaço – Vonda N. McIntyre

55 - Serpente do Espaço

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Serpente do Espaço (Dreamsnake)
  2. Nome do autor: Vonda N. McIntyre
  3. Tradutor: Margarida Gomes, Eduardo Gomes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 55;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1983
  6. Número de páginas: 264 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Sub Gênero: Ficção Científica Social
  9. Nota: ★★ (4)

Serpente do Espaço (Dreamsnake) é um romance de ficção científica escrito por Vonda N. McIntyre em 1978 e vencedor dos três prêmios mais importantes da ficção científica (Hugo e Locus de 1979 e Nebula de 1978), feito que foi igualado por apenas 13 livros até hoje, o que a coloca ao lado de autores consagrados como Asimov (Os Próprios Deuses), Clarke (Encontro com Rama), Le Guin (Os Despossuídos), Haldeman (Guerra Sem Fim) e Pohl (Gateway).
Não se deixe enganar pela capa e título — no pior estilo anos 70 — pois certamente esse livro merece um lugar de destaque entre os clássicos do gênero.
O livro conta a história de uma curandeira com o sugestivo nome Serpente (Snake) que vaga entre as tribos e clãs de um mundo devastado em um futuro distante, curando os doentes e trazendo conforto aos moribundos, utilizando-se do veneno de algumas cobras que leva consigo para produzir medicamentos. Logo no início uma de suas cobras, que é capaz de induzir torpor e alucinações em seres humanos, sua “cobra dos sonhos”, é morta. Ela então tentará encontrar uma nova cobra para substituí-la, e ao mesmo tempo irá ajudar muitas pessoas em seu caminho.
A história se passa na Terra, mas em um futuro pós-apocalíptico, muito diferente tanto tecnologicamente quanto socialmente do nosso mundo moderno: Uma guerra nuclear tornou vastas regiões da Terra radioativas demais para suportar a vida humana, mas a biotecnologia avançou bastante e a manipulação genética de plantas e animais é coisa rotineira.
Apesar de ter avançado em algumas áreas da ciência, como a biotecnologia, a humanidade regrediu a um tribalismo primitivo, e as tribos ou clãs encontram muitas dificuldades em meio a uma terra devastada, exceto em uma cidade murada e fechada que ignora completamente os clãs e vive em completo isolamento.
Vonda N. McIntyre construiu uma aventura repleta de idéias, utilizando uma prosa ágil, elegante mas sem excesso de ornamentação, bastante evocativa principalmente com suas descrições breves mas intensas dos cenários que conduzem o leitor diretamente ao estranho mundo desértico e devastado por uma guerra nuclear, mas que apesar disso ainda nos é familiar.
A autora abraça completamente a ideia de que a ficção científica deve ser um espelho da nossa sociedade contemporânea, e apesar de descrever um mundo que em muitos aspectos é mais primitivo que o nosso, ela pretende fazer com que questionemos o mundo em que vivemos. Mas, como esse livro foi escrito nos anos 70 ele é repleto de ideias de poliamorismo, bissexualismo,  amor livre e comunalismo, e isso pode causar certa estranheza ao leitor moderno. Recomendo a você um pouco de paciência e que evite entrar em questionamentos sérios que possam ser causados por sua perspectiva idiossincrática, e que evite tratar esse livro como uma leitura política ou ideológica, pois este livro não foi escrito como um crítica disfarçada à nossa realidade sociopolítica, ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.
De certa forma podemos considerar Serpente do Espaço como um livro que nada mais é que uma construção de mundo, sendo que a história é apenas uma desculpa para autora mostrar sua visão. Enquanto outros livros dedicam a narrativa a realizar a construção de mundos, neste livro a autora faz isso de forma muito delicada, em doses pequenas e diluídas no meio da tensão da narrativa. Muitas vezes podemos fazer falsas suposições, para logo em seguida percebermos que estávamos concluindo tudo de forma errada.
Uma das características que não considero uma falha, mas talvez uma fraqueza nessa obra é que existe uma clara divisão entre bons e maus. Os personagens maus não passam de seres desprezíveis que são obstáculos para os bons. E que maldades eles são capazes! São capazes até mesmo de cometer abuso sexual infantil. As pessoas boas são raras, mas muito prestativas e pouco reais. Uma coisa bem anos 70 nesse livro é a tendência que duas pessoas boas tem de se apaixonar à primeira vista, apenas porque são criaturas boas e raras. A personagem principal é sólida e bem construída, mas os demais personagens são muito superficiais e pouco convincentes. Essa superficialidade é uma fraqueza da autora, mas a história é tão original que facilita muito que a perdoemos por isso.
Serpente do Espaço é um livro muito estranho, diferente de tudo que existe no gênero, o que talvez explique nunca ter sido publicado no Brasil, mas você poderá encontrar com relativa facilidade em sebos online uma cópia da edição portuguesa.

Estranheza e méritos de Serpente do Espaço

  • Cobras:  Sim, o livro é repleto de cobras… cobras, cobras e mais cobras… para quem sofre de ofidiofobia este livro pode ser um pesadelo. A personagem principal, além de chamar-se Serpente possui várias cobras que são mais que instrumentos de trabalho, são verdadeiros bichinhos de estimação, que sobem em seu corpo, enrolam-se em seu pescoço e braços. A intimidade dela com as cobras é no mínimo estranha.
  • Controle de natalidade: Controle de natalidade via bio feedback. Sem dúvida uma ideia bastante imaginativa, e apreciada por muitos leitores de McIntyre que não gostam muito de ficção científica high-tech e da dominância do gênero masculino no gênero.
  • Casamentos entre três pessoas: Peguemos o exemplo de uma personagem, Merideth. Apesar da estranheza do nome (pronúncia equivalente à Merry + death, ou morte alegre), o mais interessante é que ela mostra uma característica curiosa da sociedade, os casamentos entre três pessoas. Merideth é casada com um homem e uma mulher… até aí tudo bem, mas quem são os maridos ou esposas? Ei, afinal Merideth é homem ou mulher? Nunca saberemos. Essa androginia e indefinição de papéis é uma característica interessante no livro, que infelizmente perdeu-se na tradução para o português, pois a tradutora em alguns trechos assumiu tratar-se de um homem, mas no original podemos nitidamente perceber a indefinição. Veja os trechos:

Beneath deep tan, Merideth was pale. “Then do something, help her!”
Em português:
Sob o seu tom escuro, Merideth estava pálido:
— Então faz qualquer coisa! Salva-a! (página 52)

“Dear Merry, Alex knows,” Jesse said. “Please try to understand. It’s time for me to let you go.”
Em português:
— Meu querido Merry, Alex tem razão — disse-lhe Jesse — Por favor, tenta compreender. É tempo de eu vos deixar ir. (página 57)

Eu entendo a dificuldade que seria manter essa indefinição entre masculino ou feminino no português, uma língua mais exigente quanto aos gêneros, mas a tradução acabou eliminando um aspecto muito interessante do livro ao determinar que Merideth é homem, o que a autora nunca fez.

  • Subversão através da simpatia: Fugindo dos meios tradicionais de subversão (força, ameça, terror, choque e dor) a autora apresenta uma nova forma de subversão através da bondade da protagonista, que está longe de ser sentimentalista ou cínica. O efeito dessa subversão é paradoxal, age de forma lenta e acaba sendo mais durável, e o leitor é a principal vítima da subversão de McIntyre!
  • Feminismo: De certa forma, o feminismo da autora é mais eficiente até que  o de Ursula K. Le Guin (veja minha análise de A Mão Esquerda da Escuridão), ao mostrar personagens femininos fortes, indefinição de papéis e gêneros, além dos casamentos livres de papéis pré-definidos pela sociedade. Apesar disso o trabalho de Le Guin é muito melhor conceituado que o de McIntyre.
  • Desconstrução de gêneros: Todas as nossas expectativas relacionadas à gêneros e seus papéis na sociedade, que estão solidificados em nossas mentes, são questionados de forma muito competente pela autora, expondo nossos preconceitos e abrindo nossas mentes. Essa desconstrução é típica da contracultura dos anos 70, mas mesmo assim ainda é interessante para o leitor moderno.

Avaliação do livro

  • Enredo: Possui alguns momentos emocionantes, mas em outros é a narrativa é um pouco lenta. História muito original e intrigante, focada mais no aspecto social que no tecnológico. Nota 4 (★★★★ ).
  • Personagens:  Os personagens ou são completamente bons, ou completamente maus, o que demonstra um pouco de superficialidade. Apesar disso a autora foi muito competente na caracterização deles. Nota 4 (★★★ ).
  • Narrativa: A prosa é elegante, mas sem exageros. Excelente ambientação e criação de mundo. Nota 5 (★★★).
  • Tradução: Existem erros de tradução na edição portuguesa, o mais grosseiro foi a remoção da indefinição do gênero do personagem Merideth. Nota 3 (★★★).
  • Geral: Certamente é um livro que merece ser lido, principalmente por sua originalidade, mas também por sua estranheza. Um verdadeiro clássico que vem sendo esquecido e ignorado há décadas por leitores brasileiros. Nota 4 (★).

Gateway – Frederik Pohl

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: A Porta das Estrelas (Gateway)
  2. Nome do autor: Frederick Pohl
  3. Tradutor: Eurico da Fonseca
  4. Nome da editora: Livros do Brasil – Lisboa, Coleção Argonauta N°355 e n°356
  5. Lugar e data da publicação: Lisboa, 1987;
  6. Número de páginas: Volume 1: 180, Volume 2: 171
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Nota: ★★★★

Gateway (A Porta das Estrelas) foi escrito por Frederik Pohl em 1977 e recebeu os Prêmio Hugo e Locus de 1978, o prêmio Nebula de 1977 e o Prêmio Memorial de John W. Campbell de melhor romance de ficção científica. É o primeiro livro da saga Heechee, que teve várias sequências tendo até mesmo sido adaptado para um jogo de computador em 1992. Existe apenas uma edição em português, na famosa coleção argonauta, em dois volumes (355 e 356), recomendo a compra através do site Estante Virtual, existem alguns poucos (e raros) exemplares à venda.

Introdução ao Roteiro

No ano de 2077 o planeta Vênus tornou-se a mais nova fronteira para uma Terra super populosa (mais de 25 bilhões de habitantes), faminta e desesperada. Apesar de Vênus ser considerado um planeta gêmeo da Terra, tendo quase o mesmo tamanho e massa, sua atmosfera difere radicalmente da nossa devido à sua densa atmosfera de dióxido de carbono (96,5%), o que produz o mais forte efeito estufa do sistema solar, fazendo com que a temperatura ultrapasse facilmente os 420°C. Os colonizadores tem que lidar com as elevadas temperaturas e pressões dessa atmosfera.
Mas o verdadeiro interesse da humanidade em Vênus está abaixo dessa superfície infernal, em uma grande rede de túneis escavados ha mais de 500 mil anos atrás por uma raça alienígena tecnologicamente muito mais avançada que a nossa e que desapareceu misteriosamente, os Heechee. (Será que veio daí a ideia dos mundos labirínticos em Hyperion, de Dan Simmons? )
A esperança em encontrar tecnologias que ajudem a resolver o problema da super população da Terra levou centenas de exploradores a se aventurar nesses túneis. A maioria das descobertas eram de apenas artefatos sem utilidade aparente, sendo considerados apenas como curiosidades, pois os Heechee tinham limpado muito eficientemente os túneis antes de partirem ou desaparecerem, ou pelo menos assim parecia até que um explorador chamado Sylvester Macklin encontrou uma nave espacial funcional. Sylvester não anunciou sua descoberta, e tentando descobrir sozinho alguma forma de fazer funcionar a nave acabou acionando algum controle que fez com que a nave disparasse para fora da atmosfera de Vênus. Assim que a nave saiu do planeta ela acionou algum propulsor desconhecido que causou o desaparecimento da nave do espaço conhecido, entrando no que o autor chamou de espaço Tau, e ao retornar Sylvester descobriu aliviado que tinha voltado ao nosso sistema solar, e estava se dirigindo para uma imensa estação espacial em um asteroide ou núcleo de cometa oco que orbitava o Sol entre a órbita de Vênus e Mercúrio, mas estranhamente em outro plano que não o da eclíptica. A nave estacionou automaticamente em um hangar cheio de outras naves similares. Sylvester deixou a nave e começou a explorar a estação cheio de admiração e expectativa com a descoberta. Infelizmente ele não tinha alimentos ou água, e não conseguia partir com a nave novamente. Vendo-se preso e incomunicável, ele decidiu que sua morte não seria em vão: ele começou a mexer com as células de combustível até que causou uma enorme explosão. A explosão foi detectada pela NASA que enviou uma missão para o asteroide, e então revelou para a humanidade que a estação espacial Heechee tinha milhares de naves capazes de viajar para longínquos lugares no universo, transformando a estação na porta de entrada para as exploração de outros sistemas estelares.
Depois de muitos conflitos e discussões, decidiu-se que a estação era muito importante para ser entregue a apenas uma nação, e então foi criada a Companhia Gateway Enterprises, encarregada da exploração da tecnologia Heechee em nome dos Estados Unidos, da União Soviética, do Novo Povo da Ásia, da Confederação Venusiana e dos Estados Unidos do Brazil (sim, Frederick Pohl imaginou o Brasil como uma potência mundial no futuro).
Surge então uma nova forma de exploração espacial: a prospecção através das naves Heeches, e a estação em que estão essas naves passa a ser chamada de Gateway. Os prospectores são voluntários que partem nas naves rumo ao desconhecido na tentativa de descobrir novos artefatos, ferramentas ou tecnologias que possam ser úteis à humanidade, numa espécie de corrida do ouro galáctica.
Apesar de muito esforço, os cientistas humanos não são capazes de realizar engenharia reversa com as naves, e todas tentativas de abrir os motores causa uma grande explosão. O sistema de controle também é uma incógnita, e os destinos das viagens são desconhecidos. Muitas vezes as naves levam suas tripulações de uma pessoa, três ou no máximo cinco (dependendo do tipo de nave), até um destino catastrófico como um pulsar, uma nova ou muito próximo de uma estrela, causando a morte da tripulação. Todas as naves dispõe de um módulo que possibilita o pouso na superfície de planetas habitáveis.
A taxa de sucesso nas missões de prospecção no início da estória é de cerca 2357 lançamentos para 841 retornos das naves (ou seja, menos de 36%), muitas vezes sem que a tripulação volte viva ou bem.
Como forma de recompensar e estimular os voluntários, a corporação oferece prêmios como esses:

  • Bônus caso encontre uma civilização alienígena: 100 milhões de dólares;
  • Bônus se encontrar uma nave Heechee para mais de cinco pessoas: 50 milhões de dólares;
  • Bônus se encontrar um planeta habitável: 1 milhão de dólares;
  • Bônus de perigo: 0,5 milhões de dólares; O bônus nesse caso é para repetir destinos em que a tripulação de outra missão não retornou, para tentar descobrir o que aconteceu;

Os prospectores vivem o sonho de ficarem milionários da noite para o dia, e apostam suas vidas nisso.
Apesar dos riscos, muitos sonham abandonar a empobrecida, super populosa e faminta Terra com a esperança de enriquecer em Gateway. Robinette Stetley Broadhead — conhecido como Robin, Rob, Robbie ou Bob, dependendo das circunstâncias e de seu humor — é um jovem mineiro de comida na Terra que vence um prêmio de loteria que lhe garante dinheiro suficiente para comprar um bilhete só de ida para o Gateway, na esperança de enriquecer como prospector.
Inicialmente ele fica assustado com o perigo envolvido e atrasa o máximo possível sua primeira missão, mas como começa a ficar sem dinheiro ele acaba partindo em três viagens. Não escrevo mais sobre o roteiro para não estragar a surpresa, apenas adianto que a sorte de Robinette acabará trazendo além de dinheiro muitos problemas para sua já atormentada psique.

 Considerações sobre o livro

Robbie pode ser descrito como um perdedor: nasceu pobre, com sérios traumas de infância que causaram problemas psicológicos que o persiguiram por toda sua vida. Apesar de tudo isso ele acaba tendo sorte (ou não?) com suas viagens espaciais.
O livro foi escrito de forma muito competente, com uma narrativa que alterna entre a experiência de Robinette em Gateway e suas sessões de terapia com Sigfrid, um avançado computador psiquiatra, culminando no momento traumático de sua terceira e última viagem em uma nave Heechee. Além disso, no meio da história existem trechos de notícias, anúncios ou entrevistas onde o autor esclarece alguma coisa sobre os Heechees e o cotidiano em Gateway.
As sessões de terapia com Sigfrid são verdadeiras pérolas cheias de bom humor e tiradas inteligentes, e só por isso já valeriam a pena a leitura desse livro.
Pohl é um expert em expor ideias esotéricas de uma forma compreensível e fundamentadas fisicamente,  e até mesmo teorias complexas a dos buracos negros e pulsares são mostradas de forma a não assustar o leitor comum.
As descrições que o autor faz de detalhes tangíveis como os cheiros desagradáveis do ar reciclado e os inconvenientes do espaço confinado em Gateway e das naves Heechee são muito competentes e convincentes.
Em uma primeira análise parece incompreensível que os prospectores atirem-se de forma tão louca em direção ao desconhecido, utilizando a Heechee da mesma forma que um chipanzé usaria uma nave espacial humana! Mas na verdade isso pode ser considerado um paralelo com a obssessão com jogos de azar tão comum em tantas pessoas.

 Um livro cheio de bom humor e ironia, recomendo a leitura!

Encontro com Rama – Arthur C. Clarke

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Encontro com Rama (Rendezvous with Rama) é um livro de ficção científica hard escrito por Arthur C. Clarke em 1972, e vencedor do Prêmio Nebula de 1973 e Prêmios Hugo e Locus de 1974. A estória está situada no século 22, quando uma misteriosa espaçonave cilíndrica de 20 Km de diâmetro e 54 Km de comprimento entra no sistema solar, e mostra o ponto de vista de um grupo de exploradores humanos que partem em uma missão exploratória para tentar revelar seus segredos. Esse livro é considerado um dos melhores trabalhos de Arthur C. Clarke, e após o sucesso desse livro o autor juntou esforços com Gentry Lee — outro grande escritor de ficção científica — para escrever outros três livros, criando o que considero a melhor série de ficção científica hard já escrita.

Introdução ao Roteiro (sem spoilers)

Após um desastre em 2077 causado pela colisão de um asteroide no noroeste da Itália, o governo da Terra iniciou um projeto conhecido como Spaceguard, para rastrear e avisar com antecedência possíveis colisões com outros asteroides.

Em 2130 um objeto de grandes proporções é detectado além da órbita de Júpiter. Inicialmente confundido com um asteroide, sua órbita e velocidade mostram que trata-se de um objeto que veio de fora do sistema solar. O interesse pelo objeto cresce quando um astrônomo descobre que ele possui um período de rotação de apenas 4 minutos, mesmo sendo excepcionalmente grande. Há muito tempo os astrônomos já tinham esgotado a mitologia grega e romana, e agora estavam explorando o panteão hindu, o objeto então foi batizado com o nome do deus Rama.

Uma sonda batizada de Sita é lançada a partir de Phobos, uma das luas de Marte, para interceptá-lo e fotografá-lo, e acaba revelando que Rama é um gigantesco cilindro construído artificialmente, fazendo desse o primeiro encontro da humanidade com uma nave alienígena.

A nave tripulada de pesquisa solar Endeavour é rapidamente redirecionada para explorar Rama, por tratar-se da única nave próxima o suficiente para alcançar a nave alienígena durante sua breve visita pelo sistema solar. A Endeavour consegue alcançar Rama um mês após a a sonda Sita revelar tratar-se de uma nave alienígena, sendo que esta já estava dentro da órbita de Vênus. A tripulação de cerca de vinte homens, liderados pelo Comandante Bill Norton, tem pouco tempo para entrar em Rama, e explorar a vastidão de seu mundo interior.

Considerações sobre o livro

Nessa estória você não encontrará casos de amor entre os personagens; os personagens são cientistas sensatos e não existem conflitos psicológicos entre eles; não há personagens malvados (apesar de uma ação do governo de Mercúrio adicionar algum drama ao enredo); não existem alienígenas malignos; não existe ameaça real à vida na Terra em nenhum momento; o livro parte de uma premissa ingênua e comum na ficção científica: seres humanos tropeçando em um objeto alienígena cheio de mistérios (apesar da escala monumental do objeto, claro). Agora você perguntará: Então o que há de tão especial em Encontro com Rama para ter recebido tantos prêmios e ser considerado um dos melhores livros de ficção científica de todos os tempos?

A genialidade de Arthur C. Clarke, é óbvio!

Agora falando sério, Clarke realizou um trabalho primoroso de ficção científica hard, aquele gênero de ficção que tem um forte apreço pela realidade e leis da física.

O principal foco do livro (e o autor nunca desvia desse caminho) é desvendar os mistérios dessa nave alienígena gigantesca, com as possibilidades que tal encontro poderia apresentar.

O autor realiza um excelente trabalho descrevendo a força centrífuga gerando o equivalente a força gravitacional, a força coriolis e os autômatos ramanianos, abandonando a ficção científica hard apenas para introduzir a Propulsão Espacial, uma clara violação da física (até onde sabemos, claro).

Acredito que a melhor coisa nesse livro é que ao lê-lo sentimos que estamos novamente na companhia daquele nosso tio-avô que, quando éramos crianças, era capaz de expandir nossos horizontes e aumentar nossa admiração pela ciência e natureza, e, assim como fazíamos na época, acabamos perdoando suas manias e piadas sem graça pelo simples prazer da sua companhia, e pelo encanto que sua paixão pela ciência produzia em nós.

Os Despossuídos – Ursula K. Le Guin

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Mais uma capa horrível típica dos anos 70… Não se deixem enganar por ela!

Os Despossuídos (The Dispossessed: An Ambiguous Utopia) é um romance de ficção científica utópica/distópica escrito em 1974 por Ursula K. Le Guin, e sua estória situa-se no mesmo universo ficcional de A Mão Esquerda da Escuridão (veja o review aqui). O livro recebeu o prêmio Nebula em 1974 e os prêmios Hugo e Locus em 1975. É considerado um trabalho de ficção científica pouco usual, por explorar várias ideias e temas, incluindo anarquismo, sociedades revolucionárias, capitalismo, individualismo e coletivismo além da Hipótese Sapir-Whorf. Essa hipótese foi criada nos anos 30 pelos linguistas Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, que chegaram a uma tese que é a base do relativismo linguístico, que pode ser a grosso modo resumida da forma: as pessoas vivem de acordo com suas culturas em universos mentais muito diferentes entre si, sendo que esses universos mentais são exprimidos (e até determinados) pelas línguas que as pessoas falam. Desse modo, o estudo das línguas que as pessoas falam pode levar à elucidação da concepção do universo mental dessas culturas. Essa tese foi muito influente entre antropólogos, psicólogos e linguistas nos anos 40 e 50, e apesar de enfraquecida pela corrente cognitiva e de ser refutada por diversos estudiosos, até hoje a teoria ainda é importante.

Contexto do Livro e do Ciclo Hainish

O livro Os Despossuídos apresenta a teoria fictícia envolvendo o ansible, um dispositivo de comunicação instantânea que tem um papel crítico no Ciclo Hainish de Le Guin. A invenção do ansible coloca esse livro no início da cronologia interna do ciclo, apesar de ter sido o quinto livro a ser publicado, portanto a ordem dos livros é a seguinte:

  1. Os Despossuídos (The Dispossessed) – 1974;
  2. Floresta é o Nome do Mundo (The Word for World Is Forest) – 1976;
  3. Rocannon’s World – 1966;
  4. Planet of Exile -1966;
  5. City of Illusions – 1967;
  6. A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) – 1969;
  7. The Telling – 2000;
    (Veja mais detalhes sobre o Ciclo Hainish e A Mão Esquerda da Escuridão neste outro review).

A estória de Os Despossuídos é ambientada nos mundos de Anarres e Urras os planetas gêmeos habitados por seres humanos em Tau Ceti.

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Urras é dividido em vários estados que são dominados por dois dos maiores, que são rivais, numa clara referência aos EUA e URSS, pois um é capitalista  e patriarcal e o outro é um sistema autoritário que governa em nome do proletariado. As relações dos dois blocos é conturbada, da mesma forma como o nosso cenário político mundial na época da guerra fria. As diferenças sociais em Urras são gritantes: o governo representa os ricos e governa para os ricos, que garantem que os pobres recebam apenas um mínimo suporte e educação do estado. As tensões sociais levaram a uma revolução 150 anos atrás — mas no lugar do resultado tradicional que seria a deposição dos opressores, os revolucionários decidiram fundar sua própria sociedade ideal em um planeta próximo a Urras, chamado de Annares, onde então fundou-se uma sociedade anarquista baseada nos princípios do bem comum, responsabilidade e bens compartilhados. Superficialmente essa sociedade funciona. Mas no início do livro logo percebemos que as coisas não estão indo tão bem assim. Os ideais da revolução estão estagnados. Novas ideias surgem e são temidas, enquanto pessoas gananciosas e egoístas (conhecidas como ‘proprietarianos’, na linguagem que eles criaram) começam a ganhar poder. O descontentamento está crescendo.
Um jovem e brilhante físico chamado Shevek está empreendendo uma viagem de Annares para Urras, sendo que no livro isso é mostrado alternando-se capítulos pares e ímpares entre os dois mundos, onde podemos acompanhar sua crescente desilusão com as duas sociedades. Essa estrutura de alternância entre os mundos, assim como tudo mais nesse livro, serve à um propósito: Shevek está criando a ‘teoria da simultaneidade’ que meche com as ideias de tempo, começo e fim, com o passado acontecendo ao mesmo tempo que o presente. Portanto não estranhe essa estrutura dos capítulos, tudo faz parte do plano de Le Guin.
Em Annares descobrimos que os poderosos não gostam da teoria da simultaneidade porque ela promete fornecer um método de comunicação instantânea que acabaria acabando com sua providencial isolação. Já em Urras descobrimos que o interesse dos poderosos é em conseguir utilizar a tecnologia para esmagar as outras sociedades existentes nos demais planetas humanos. Shevek acaba sendo confrontado com uma série de dilemas morais que Le Guin explora com muita competência.
Um dos maiores méritos de Ursula K. Le Guin é conseguir criar uma espécie de laboratório fictício para estudar como uma sociedade anarquista, que lembra uma comunidade hippie dos anos 70, poderia funcionar (ou não funcionar). O livro é cheio de insights sobre a natureza da liberdade, do livre arbítrio, vida em comunidade, poder e igualdade.
A linguagem falada em Annares, o pravic, foi construída para refletir os aspectos e fundamentos do anarquismo utópico. Por exemplo, não existem palavras para descrever conceitos simples do capitalismo como a propriedade privada, o uso de pronomes possessivos é extremamente desencorajado (vem daí o título do livro!), crianças são treinadas para falar apenas sobre assuntos que possam interessar à coletividade. Uma personagem diz em determinado momento “você pode compartilhar o lenço que eu uso,” no lugar de “Você pode usar o meu lenço” como diríamos normalmente. Tudo isso é uma excelente representação da Hipótese Sapir-Whorf, ou seja, da ideia de que a linguagem pode definir o universo mental e a cultura de uma sociedade. Uma prova do talento da autora é justamente o fato dela ter conseguido fazer essa hipótese funcionar no livro.
Qualquer um que leia um livro de Le Guin percebe rapidamente que a autora escreve bem. Sim, é verdade que muitas vezes a prosa é densa demais, obscura em alguns pontos e até mesmo ocasionalmente absurda; ela simplesmente não se preocupa em facilitar a vida do leitor. Mas encontrei no livro algumas belas descrições da vida em Annares, dos horrores e alegrias em Urras. Temos também uma belo gancho romântico envolvendo Shevek, que evolui delicadamente. Mas Shevek também pode ser considerado o ponto fraco do livro, pois Le Guin não consegue convencer muito que tal personagem possa ser real: A incapacidade dele perceber as falhas do modelo odonista e em reconhecer que o ideal seria um meio termo entre os sistemas existentes em Urrás e Anarres persiste até os momentos finais do livro, o que parece muito estranho ao leitor.
Encontrei também alguns elementos do feminismo que permeia toda a obra da autora, assim como expliquei melhor na análise de A Mão Esquerda da Escuridão.
Uma das melhores características de um bom trabalho de ficção científica é a criação de sistemas sociais para ver como eles poderiam se comportar, e isso foi feito de forma extremamente competente nesse livro.