O Carteiro – David Brin

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: O Carteiro (The Postman)
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Tradutor: Fábio Fernandes
  4. Data e local de publicação: Internet, 2014;
  5. Número de páginas: 253 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Sub-Gênero: Ficção Pós-apocalíptica;
  8. Nota: ★★★ (3)

    O Carteiro (The Postman) é um romance de ficção científica pós-apocalíptica escrito por David Brin em duas partes: “O Carteiro” em 1982 e ¨Cyclops” em 1984. Posteriormente o livro foi publicado na sua forma completa, tendo sido indicado aos prêmios Hugo e Nebula, e recebeu os prêmios John W. Campbell e o Locus, em 1986. No Brasil o livro foi publicado apenas em duas partes, pela saudosa Isaac Asimov Magazine, a primeira no nº21 e a segunda no nº 23.
No link abaixo você encontrará a edição brasileira na íntegra, apenas foi feita a correção para a nova ortografia e a edição para epub, mobi e PDF.
A tradução não é minha, mas coloquei na categoria Minhas Traduções apenas facilitar a localização.

O Carteiro – David Brin (PDF)
  O Carteiro – David Brin (MOBI)
 O Carteiro – David Brin (EPUB)

   A maioria das pessoas deve conhecer essa história apenas através do péssimo filme com o Kevin Costner. No Brasil o título foi traduzido erroneamente como O Mensageiro. O filme é uma bomba, como quase tudo que Kevin Costner já fez na vida, mas felizmente eu tinha lido o livro na revista Isaac Asimov Magazine antes de assistir ao filme, e sabia que a história era muito mais do que aquilo que foi mostrado. O filme é sem sentido e simplesmente estúpido, Costner apenas tenta imitar Mad Max. Ele é baseado apenas nas primeiras 40 ou 50 páginas do livro. Caso você já tenha perdido tempo assistindo o filme espero que tenha sido há bastante tempo e espero que já tenha esquecido de boa parte dele, para ter um começo limpo nessa história.
O Carteiro é um livro no clássico sub-gênero pós apocalíptico. O mundo enfrentou uma guerra mundial, cujos detalhes (e até mesmo os oponentes dos EUA) são deixados de lado pelo autor. O uso maciço de armas nucleares, armas biológicas e o inverno nuclear destruiu completamente a civilização. O protagonista do livro, Gordon, era um miliciano em Minnesota, que tentava proteger alguns sobreviventes locais até que todos seus companheiros morreram e ele fugiu para o oeste. O livro começa quando Gordon está sendo roubado por uma gangue e sobrevive ao descobrir um carro postal abandonado e o corpo de um carteiro que morreu há muito tempo. Isso acaba salvando sua vida, pois ele tinha sido roubado e morreria de frio se não vestisse o casaco do carteiro. Ele acaba pegando a sacola de cartas do carteiro, sem pensar muito sobre isso. Quando ele chega à Pine View os habitantes locais reagem de forma inesperada e emocionada com a visão do uniforme, e ele acaba vendo-se tentado a encarnar o papel de carteiro.
Gordon acaba fazendo uso dessa mentira para conseguir respeito, atenção, abrigo e alimento. Ele mente dizendo que representa o governo dos Estados Unidos Restaurados, e as pessoas estão tão desesperadas para acreditar em algo que aceitam facilmente suas mentiras. Gordon se reconhece como uma fraude, e fica tentado a desistir da farsa, mas acaba rapidamente preso no papel. O autor mostra Gordon como um personagem amargurado e oportunista, no entanto ele possui uma moralidade inata esperando para mostrar-se.
O livro questiona o significado de heroísmo e liderança, e como alguém nessa situação pode acabar sendo dominado por um papel se desempenhá-lo muito bem ou por muito tempo.
Mas esse livro tem alguns problemas muito sérios. Na primeira metade, que é basicamente um livro de aventura e exploração de um ambiente pós-apocalíptico, existe uma certa estranheza na dinâmica da narrativa, uma impressão de que o autor está enfiando a narrativa goela abaixo do leitor ao invés de conduzi-la suavemente. Mas o pior acontece na segunda parte, quando Gordon irá enfrentar os sobrivencialistas: o livro sai completamente dos trilhos!
David Brin mostra uma reversão do status das mulheres à um padrão quase feudal, como se os direitos femininos fossem uma espécie de produto da civilização moderna. Quando Gordon chega à uma cidade onde existe uma espécie de nova onda de feminismo surgindo, Brin introduz algumas ideias bizarras sobre a necessidade das mulheres em controlar a violência dos homens, e sobre uma espécie de dicotomia no comportamento masculino entre o heroico e o vil, e faz um claro paralelo com a comédia antiguerra Lisístrata escrita por Aristófanes em 411 A.C.. Nessa comédia as mulheres de Atenas fazem uma greve de sexo e conseguem assim fazer com que seus maridos desistam da luta e busquem a paz. Esse paralelo com Lisístrata está até na dedicatória do livro. Próximo do fim do livro tudo se resume à uma briga cheia de testosterona no estilo saloon de filmes de faroeste. David Brin fica preso à esse modelo binário de gêneros, indo da condescendência sincera em tentar reconhecer a força das mulheres à simplificação na descrição do comportamento masculino, agressivo e superficial.
Para piorar tudo, David Brin simplesmente puxa o tapete debaixo dos pés do mundo que ele criou. O tema principal de O Carteiro até próximo do fim é a substituição da ênfase na tecnologia pelo aumento da importância das pessoas, e a necessidade de cooperação entre elas. Em um trecho bem conduzido Brin consegue mostrar as possibilidades de se utilizar a tecnologia como ferramenta para a salvação, e esse tema encaixa perfeitamente com a natureza heróica de Gordon. Mas logo depois o autor introduz vilões caricatos, típicos de revistas em quadrinhos, tudo descamba para a simples violência e acaba desviando o foco para as partes ruins do livro.
Sem dúvida alguma o livro é melhor que o filme, mas isso não quer dizer muita coisa. O livro começa devagar, mas o meio dele é até melhor do que poderíamos esperar. Mas o embaraçoso sub-enredo envolvendo o feminismo e o colapso do mundo que ele criou deixou um gosto amargo na boca do leitor.
Apesar de tudo é um livro que recomendo a leitura, e apesar dos problemas que possui é um livro pós-apocalíptico regular. Se você está procurando um livro pós-apocalíptico melhor experimente ler Um Cântico para Leibowitz (veja minha análise).

Serpente do Espaço – Vonda N. McIntyre

55 - Serpente do Espaço

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Serpente do Espaço (Dreamsnake)
  2. Nome do autor: Vonda N. McIntyre
  3. Tradutor: Margarida Gomes, Eduardo Gomes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 55;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1983
  6. Número de páginas: 264 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Sub Gênero: Ficção Científica Social
  9. Nota: ★★ (4)

Serpente do Espaço (Dreamsnake) é um romance de ficção científica escrito por Vonda N. McIntyre em 1978 e vencedor dos três prêmios mais importantes da ficção científica (Hugo e Locus de 1979 e Nebula de 1978), feito que foi igualado por apenas 13 livros até hoje, o que a coloca ao lado de autores consagrados como Asimov (Os Próprios Deuses), Clarke (Encontro com Rama), Le Guin (Os Despossuídos), Haldeman (Guerra Sem Fim) e Pohl (Gateway).
Não se deixe enganar pela capa e título — no pior estilo anos 70 — pois certamente esse livro merece um lugar de destaque entre os clássicos do gênero.
O livro conta a história de uma curandeira com o sugestivo nome Serpente (Snake) que vaga entre as tribos e clãs de um mundo devastado em um futuro distante, curando os doentes e trazendo conforto aos moribundos, utilizando-se do veneno de algumas cobras que leva consigo para produzir medicamentos. Logo no início uma de suas cobras, que é capaz de induzir torpor e alucinações em seres humanos, sua “cobra dos sonhos”, é morta. Ela então tentará encontrar uma nova cobra para substituí-la, e ao mesmo tempo irá ajudar muitas pessoas em seu caminho.
A história se passa na Terra, mas em um futuro pós-apocalíptico, muito diferente tanto tecnologicamente quanto socialmente do nosso mundo moderno: Uma guerra nuclear tornou vastas regiões da Terra radioativas demais para suportar a vida humana, mas a biotecnologia avançou bastante e a manipulação genética de plantas e animais é coisa rotineira.
Apesar de ter avançado em algumas áreas da ciência, como a biotecnologia, a humanidade regrediu a um tribalismo primitivo, e as tribos ou clãs encontram muitas dificuldades em meio a uma terra devastada, exceto em uma cidade murada e fechada que ignora completamente os clãs e vive em completo isolamento.
Vonda N. McIntyre construiu uma aventura repleta de idéias, utilizando uma prosa ágil, elegante mas sem excesso de ornamentação, bastante evocativa principalmente com suas descrições breves mas intensas dos cenários que conduzem o leitor diretamente ao estranho mundo desértico e devastado por uma guerra nuclear, mas que apesar disso ainda nos é familiar.
A autora abraça completamente a ideia de que a ficção científica deve ser um espelho da nossa sociedade contemporânea, e apesar de descrever um mundo que em muitos aspectos é mais primitivo que o nosso, ela pretende fazer com que questionemos o mundo em que vivemos. Mas, como esse livro foi escrito nos anos 70 ele é repleto de ideias de poliamorismo, bissexualismo,  amor livre e comunalismo, e isso pode causar certa estranheza ao leitor moderno. Recomendo a você um pouco de paciência e que evite entrar em questionamentos sérios que possam ser causados por sua perspectiva idiossincrática, e que evite tratar esse livro como uma leitura política ou ideológica, pois este livro não foi escrito como um crítica disfarçada à nossa realidade sociopolítica, ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.
De certa forma podemos considerar Serpente do Espaço como um livro que nada mais é que uma construção de mundo, sendo que a história é apenas uma desculpa para autora mostrar sua visão. Enquanto outros livros dedicam a narrativa a realizar a construção de mundos, neste livro a autora faz isso de forma muito delicada, em doses pequenas e diluídas no meio da tensão da narrativa. Muitas vezes podemos fazer falsas suposições, para logo em seguida percebermos que estávamos concluindo tudo de forma errada.
Uma das características que não considero uma falha, mas talvez uma fraqueza nessa obra é que existe uma clara divisão entre bons e maus. Os personagens maus não passam de seres desprezíveis que são obstáculos para os bons. E que maldades eles são capazes! São capazes até mesmo de cometer abuso sexual infantil. As pessoas boas são raras, mas muito prestativas e pouco reais. Uma coisa bem anos 70 nesse livro é a tendência que duas pessoas boas tem de se apaixonar à primeira vista, apenas porque são criaturas boas e raras. A personagem principal é sólida e bem construída, mas os demais personagens são muito superficiais e pouco convincentes. Essa superficialidade é uma fraqueza da autora, mas a história é tão original que facilita muito que a perdoemos por isso.
Serpente do Espaço é um livro muito estranho, diferente de tudo que existe no gênero, o que talvez explique nunca ter sido publicado no Brasil, mas você poderá encontrar com relativa facilidade em sebos online uma cópia da edição portuguesa.

Estranheza e méritos de Serpente do Espaço

  • Cobras:  Sim, o livro é repleto de cobras… cobras, cobras e mais cobras… para quem sofre de ofidiofobia este livro pode ser um pesadelo. A personagem principal, além de chamar-se Serpente possui várias cobras que são mais que instrumentos de trabalho, são verdadeiros bichinhos de estimação, que sobem em seu corpo, enrolam-se em seu pescoço e braços. A intimidade dela com as cobras é no mínimo estranha.
  • Controle de natalidade: Controle de natalidade via bio feedback. Sem dúvida uma ideia bastante imaginativa, e apreciada por muitos leitores de McIntyre que não gostam muito de ficção científica high-tech e da dominância do gênero masculino no gênero.
  • Casamentos entre três pessoas: Peguemos o exemplo de uma personagem, Merideth. Apesar da estranheza do nome (pronúncia equivalente à Merry + death, ou morte alegre), o mais interessante é que ela mostra uma característica curiosa da sociedade, os casamentos entre três pessoas. Merideth é casada com um homem e uma mulher… até aí tudo bem, mas quem são os maridos ou esposas? Ei, afinal Merideth é homem ou mulher? Nunca saberemos. Essa androginia e indefinição de papéis é uma característica interessante no livro, que infelizmente perdeu-se na tradução para o português, pois a tradutora em alguns trechos assumiu tratar-se de um homem, mas no original podemos nitidamente perceber a indefinição. Veja os trechos:

Beneath deep tan, Merideth was pale. “Then do something, help her!”
Em português:
Sob o seu tom escuro, Merideth estava pálido:
— Então faz qualquer coisa! Salva-a! (página 52)

“Dear Merry, Alex knows,” Jesse said. “Please try to understand. It’s time for me to let you go.”
Em português:
— Meu querido Merry, Alex tem razão — disse-lhe Jesse — Por favor, tenta compreender. É tempo de eu vos deixar ir. (página 57)

Eu entendo a dificuldade que seria manter essa indefinição entre masculino ou feminino no português, uma língua mais exigente quanto aos gêneros, mas a tradução acabou eliminando um aspecto muito interessante do livro ao determinar que Merideth é homem, o que a autora nunca fez.

  • Subversão através da simpatia: Fugindo dos meios tradicionais de subversão (força, ameça, terror, choque e dor) a autora apresenta uma nova forma de subversão através da bondade da protagonista, que está longe de ser sentimentalista ou cínica. O efeito dessa subversão é paradoxal, age de forma lenta e acaba sendo mais durável, e o leitor é a principal vítima da subversão de McIntyre!
  • Feminismo: De certa forma, o feminismo da autora é mais eficiente até que  o de Ursula K. Le Guin (veja minha análise de A Mão Esquerda da Escuridão), ao mostrar personagens femininos fortes, indefinição de papéis e gêneros, além dos casamentos livres de papéis pré-definidos pela sociedade. Apesar disso o trabalho de Le Guin é muito melhor conceituado que o de McIntyre.
  • Desconstrução de gêneros: Todas as nossas expectativas relacionadas à gêneros e seus papéis na sociedade, que estão solidificados em nossas mentes, são questionados de forma muito competente pela autora, expondo nossos preconceitos e abrindo nossas mentes. Essa desconstrução é típica da contracultura dos anos 70, mas mesmo assim ainda é interessante para o leitor moderno.

Avaliação do livro

  • Enredo: Possui alguns momentos emocionantes, mas em outros é a narrativa é um pouco lenta. História muito original e intrigante, focada mais no aspecto social que no tecnológico. Nota 4 (★★★★ ).
  • Personagens:  Os personagens ou são completamente bons, ou completamente maus, o que demonstra um pouco de superficialidade. Apesar disso a autora foi muito competente na caracterização deles. Nota 4 (★★★ ).
  • Narrativa: A prosa é elegante, mas sem exageros. Excelente ambientação e criação de mundo. Nota 5 (★★★).
  • Tradução: Existem erros de tradução na edição portuguesa, o mais grosseiro foi a remoção da indefinição do gênero do personagem Merideth. Nota 3 (★★★).
  • Geral: Certamente é um livro que merece ser lido, principalmente por sua originalidade, mas também por sua estranheza. Um verdadeiro clássico que vem sendo esquecido e ignorado há décadas por leitores brasileiros. Nota 4 (★).

Where Late the Sweet Birds Sang (Onde os Últimos Pássaros Cantaram) – Kate Wilhelm

Wherelate

Where Late the Sweet Birds Sang, é um romance de ficção científica escrito por Kate Wilhelm. Publicado em 1976, recebeu o prêmio Hugo de melhor romance em 1977, e foi indicado para o prêmio Nebula em 1976. O título é um trecho do Soneto 73 de William Shakespeare:

Em mim tu vês a época do estio
Na qual as folhas pendem, amarelas,
De ramos que se agitam contra o frio,
Coros onde cantaram aves belas.

Tu me vês no ocaso de um tal dia
Depois que o Sol no poente se enterra,
Quando depois que a noite o esvazia,
O outro eu da morte sela a terra.

Em mim tu vês só o brilho da pira
Que nas cinzas de sua juventude
Como em leito de morte agora expira

Comido pelo que lhe deu saúde.
Visto isso, tens mais força para amar
E amar muito o que em breve vais deixar.

O livro foi publicado recentemente em Portugal, sob o título Onde os Últimos Pássaros Cantaram, que está sendo vendido através do site da Fnac.pt, por apenas €3,50 mas como o frete sai por absurdos €24,39 recomendo a leitura da versão em inglês pois infelizmente não encontrei nenhuma versão epub ou mobi da edição em português.

Introdução ao roteiro

Em um futuro próximo mudanças climáticas e poluição em larga escala causam o colapso da civilização em todo o mundo. Em países como o Brasil (que é um dos destinos de um dos personagens principais do livro) técnicas agrícolas ultrapassadas e ineficientes, desmatamento, queimadas e mau uso do solo causam a perda completa das áreas cultiváveis. Uma família está empenhada em construir um hospital em uma comunidade isolada no interior da América e em seu laboratório de pesquisas de clonagem acabam descobrindo que a poluição e doenças causaram a infertilidade universal da humanidade. Tumultos violentos, saques, fome e doenças causam o declínio quase total da população humana, e a esterilidade universal se encarregará de concluir a extinção em poucos anos.
Mas uma esperança surge quando David, um promissor biólogo da família, descobre que a infertilidade pode ser revertida depois de algumas gerações de clones, então o laboratório inicia a clonagem de membros da comunidade, na esperança de que após algumas gerações de clones a reprodução sexuada possa voltar a normalidade.
No entanto, quando os clones começam a crescer e ganhar poder eles rejeitam a ideia de restabelecer a reprodução sexuada. Os membros originais da comunidade, muito velhos e em menor número não podem resistir e são obrigados a respeitar a nova ordem social, ou são condenados ao exílio.
Com o passar dos anos as novas gerações de clones eliminam completamente a ideia de individualidade da sua estrutura social. Como os clones são produzidos em grupos de quatro a dez indivíduos idênticos, eles crescem dependendo enormemente um dos outros, em uma espécie de personalidade coletiva compartilhada entre grupos de gêmeos idênticos.Ao poucos a capacidade de reprodução começa a retornar, mas a sociedade de clones não aceita abandonar o sistema de clonagem, e utiliza as mulheres férteis como reprodutoras com o objetivo de gerar novas linhagens de clones. Os clones ficam cada vez mais dependentes da personalidade coletiva e tornam-se incapazes de explorar o mundo devido a uma estranha fobia a outros ambientes que não seja o vale onde vivem. O isolamento e ambientes abertos ou afastados causa pânico incontrolável e até mesmo loucura.
Ao iniciarem uma exploração das ruínas de Washington, Molly do grupo de irmãs Miriam acaba separando-se dos outros membros de seu grupo, o que causa o desenvolvimento de uma personalidade individual, o que é considerado uma grave patologia psicológica. Ela torna-se um problema para a comunidade de clones, sendo então afastada do convívio social, mas acaba engravidando de outro clone que também estava na expedição. Os clones descobrem que ela gerou uma criança, Mark, que possui a habilidade única de conseguir se afastar da comunidade sem enlouquecer, e após muita resistência começam a perceber que a falta de individualidade esta causando a extinção da criatividade e da capacidade de resolver problemas.  A falta de reposição de equipamentos de clonagem, aliada a essa crise de criatividade, ameça interromper o processo de clonagem, o que consequentemente causaria o fim do que restou da humanidade.
Mark então tentará convencer os clones a abandonarem esse estilo de vida insustentável, mas será uma tarefa difícil.

Considerações sobre o livro

Esse poderia apenas ser mais um livro pós-apocalíptico, mas Kate Wilhelm conseguiu tratar da questão ética da clonagem e das controvérsias envolvidas de forma muito competente, e talvez por esse motivo tenha ganho o prêmio Hugo.
Se você não imaginava que a clonagem era um problema ético que já era discutido na metade da década de 70, então bem vindo ao clube. Eu acreditava que a questão só tinha se tornado relevante nos anos 90, com a clonagem da ovelha Dolly, mas parece que o assunto já era importante antes disso.
O romance está estruturado em três partes: a primeira mostra de forma um tanto superficial o declínio da humanidade, focando totalmente no início da sociedade de clones, através do gênio de David Sumner como o cientista/salvador/herói; a segunda parte trata da transformação psicológica de Molly em uma sociedade já estabelecida e antes de iniciar o declínio; a terceira parte trata do declínio da sociedade de clones e a tentativa (messiânica?) de Mark em salvar a humanidade.
A sociedade americana cultua as liberdades individuais como nenhuma outra sociedade no mundo. A autora explora esse culto à individualidade e a resistência dos americanos em aceitar a coletividade trabalhando com a seguinte ideia: e se o fim da individualidade acontecesse não pelo uso da força mas como uma consequência biológica? O veredito da autora é claro: o fim da individualidade significa a morte da criatividade e do espírito humano.
A autora também deixa claro que a causa da catástrofe no início do livro aconteceu devido a forma como tratamos a natureza e o meio ambiente, em uma referência à possibilidade do esfriamento global que era previsto nos anos 60 e 70:

Os invernos estão ficando mais frios, começando mais cedo, durando mais com mais neve do que ele podia lembrar-se de sua infância. Assim que o homem parou de adicionar seus megatons de sujeira na atmosfera todos os dias, ele pensou, a atmosfera reverteu-se ao que deve ter sido há muito tempo atrás, com verões e invernos mais úmidos, mais estrelas do que ele jamais tinha visto antes, e mais estrelas a cada noite: o céu estava mais claro, azul sem fim durante o dia, veludo preto em uma noite com estrelas brilhantes que o homem moderno nunca tinha visto.

Mark assume o papel de tentar reunir o que restou da humanidade em direção ao retorno à uma vida mais simples em contato com a natureza.
A narrativa pode ser meio confusa, mas é fácil nos envolvermos com os personagens pois temos essa tendência a nos identificar com os heróis das estórias pós-apocalípticas. Em tempos de Walking Dead ou Eu Sou a Lenda é fácil fantasiarmos que também poderíamos ser sobreviventes, e que provavelmente agiríamos da mesma forma.
Parece que a autora é um tanto obcecada pela ideia do incesto, que é mostrado várias vezes durante a narrativa.
Where Late the Sweet Birds Sang é o melhor livro sobre clonagem já escrito. Um pouco confuso em alguns momentos, mas com personagens bem desenvolvidos, excelentes descrições das ruínas das cidades e da paisagem, que nos levam a relevar sobre qualquer falha que a ideia central da clonagem possa apresentar e nos fazem querer continuar lendo até o fim.

This Immortal – Roger Zelazny

This-Immortal-by-Roger-Zela This Immortal, publicado pela primeira vez como …And Call me Conrad, é um livro de ficção científica do autor americano Roger Zelazny. Foi o vencedor do Prêmio Hugo de Melhor Romance de 1966, empatando com Dune de Frank Herbert. Dune, sem sombra de dúvidas, é um dos melhores livros de ficção científica do século 20, sendo o responsável por finalmente levar as Space Operas à maturidade. Apenas o fato de ter empatado com Dune é uma excelente indicação de que deve tratar-se de um bom livro.
Mas o que será que Zelazny escreveu nesse seu primeiro romance para  conseguir empatar com a obra prima de Frank Herbert? Será que os jurados do Hugo estavam usando algum poder de presciência estimulado pela melange de Dune?
É difícil escrever sobre este livro sem estragar a surpresa, mas vou tentar:

A estória é narrada em primeira pessoa por Conrad Nomikos, um representante do Escritório de Artes, Monumentos e Arquivos, que recebe a ordem de conduzir um alienígena do Império Vegano em um tour pelas ruínas da Terra, após nosso planeta ter sido devastado por uma guerra nuclear conhecida como Os Três Dias. Agora a população terrestre é de apenas 4 milhões, e enfrenta sérios problemas com uma grande variedade de espécies mutadas.
Os alienígenas humanóides do sistema planetário de Vega, de pele azul, veem o planeta Terra como um interessante ponto turístico e divertem-se com a cultura e história da humanidade, sendo que a propriedade de quase todo o planeta agora é deles. O que restou da humanidade foi abrigada em seus mundos, exercendo trabalhos braçais ou prostituição, restando apenas uma pequena colônia em Marte e outra em Titã, sendo que os humanos que vivem na Terra vivem em condições ainda mais precárias.
Conrad Nomikos é um homem com um passado do qual não gosta muito de falar, e recebe a tarefa de mostrar a um influente vegano as ruínas da Terra. Conrad torna-se um relutante protetor da vida desse vegano, ao descobrir que um grupo de retornistas membros do grupo subversivo conhecido como Radpol pretende assassiná-lo. Conrad sabe que a vida do vegano é importante, mas agora precisa descobrir o por quê.
Ao visitarem o sítio arqueológico de Gizé, o vegano fica horrorizado ao descobrir que a grandes pirâmides estão sendo desmontadas, para utilização das pedras como material de construção, e o mais curioso é que o processo está sendo filmado e então será rodado de trás para frente para simular como deve ter sido o processo de construção das pirâmides. Sem dúvida é um dos pontos altos do livro, cheio de humor e ironia.
Conrad é um personagem muito interessante: identificado por sua amante Cassandra como um possível Kallikantzaros, uma figura mitológica da Grécia, uma espécie de goblin que vive no subsolo mas que vem para a superfície durante os doze dias do natal, de 25 de dezembro à 6 de janeiro, sendo o nome uma composição de kalos-kentauros, lindo centauro. Cassandra, assim como a figura mitológica, mostra a habilidade de prever o futuro, mas nunca é acreditada. Conrad também pode ser um antigo herói da Radpol, o Karaghiosis.
O motivo de Conrad ter uma vida extraordinariamente longa não é muito bem explicado no livro, mas é dada a dica de que talvez se trate de uma mutação devido à radiação, ou então uma explicação mais fantástica: trataria-se do Deus Pan. Assim Zelazny desejava manter o motivo da longevidade de Conrad em aberto para combinar de certa forma ficção científica com a fantástica.
Algumas das dicas de que Conrad possa ser o Deus Pan são o sobrenome de Conrad, Nomikos (parecido com Nomios que é um dos nomes de Pan), o fato de tocar uma syrinx (uma flauta de Pan), de provavelmente ser imortal, e possuir uma aparência desfigurada.
De certa forma, Conrad Nomikos é um protótipo para outros personagens futuros de Zelazny, como Corwin, o deus com amnésia de As Crônicas de Amber, e Sam em Lorde da Luz – ambos humanos com falhas que também são super humanos com falhas.
Zelazny brinca nesse livro com a mitologia grega, conseguindo criar uma ambientação muito interessante, assim como o fez em Senhor da Luz com o panteão hindu.
Essa ambiguidade e indefinição em relação à Conrad serve como um lembrete para os leitores de que para ser um herói o importante não é o que você é, mas o que você faz, e o que o define são as suas ações e código de ética. Hoje em dia, num mundo cheio de corrupção, ganância e egoísmo, precisamos cada vez mais de lembretes como esse para nos lembrarmos do que realmente é importante na vida.

 

 

Um Cântico para Leibowitz – Walter M. Miller Jr

Miller 1959 - A Canticle for Leibowitz

Um Cântico para Leibowitz (A Canticle for Leibowitz) é um romance do escritor americano Walter M. Miller Jr, publicado pela primeira vez em 1960 e vencedor do Prêmio Hugo de Melhor Romance de 1961. O gênero do livro é ficção científica pós-apocalíptica.
Este livro é considerado um marco da literatura do século XX, foi reimpresso e republicado ininterruptamente mais de 40 vezes, e já foram vendidas mais de 2 milhões de cópias. Ele aparece regularmente na lista de melhores da ficção científica e foi reconhecido por três vezes com o prêmio Locus de melhor romance de ficção científica.
Para quem estiver interessado em uma cópia impressa, recomendo a compra neste site: Estante Virtual.

Introdução ao roteiro (com leves spoilers)

A estória começa 600 anos depois da civilização ter sido completamente destruída por uma guerra nuclear de escala mundial, que ficou conhecida como Dilúvio de Fogo. Como resultado dessa guerra ocorreu um retrocesso radical da cultura e do conhecimento, dando início à uma Idade das Trevas ainda pior do que a que tivemos antes da renascença. A explicação para tal regressão foi um processo chamado “simplificação” onde toda pessoa com qualquer conhecimento, e até mesmo todos que eram capazes até mesmo de ler eram mortos pelos sobreviventes, que orgulhosamente chamavam-se de “simplórios”.
A ignorância e analfabetismo tornaram-se universais, e livros foram destruídos em massa.
O engenheiro elétrico judeu Isaac Edward Leibowitz, que trabalhava para o exército americano, sobreviveu à guerra, e convertido para o Catolicismo Romano fundou uma ordem monástica, a “Ordem Albertiniana de Leibowitz”, dedicada à preservação do conhecimento e a esconder, contrabandear, memorizar e copiar os livros.
A abadia da ordem é localizada no deserto sudoeste americano, próxima a uma base militar onde Leibowitz tinha trabalhado antes da guerra.
Séculos após sua morte a abadia ainda preserva a “Memorábilia”, uma coleção de escritos que sobreviveram ao Dilúvio de Fogo e à Simplificação, na esperança de ajudar as futuras gerações a recuperar o conhecimento perdido.
O livro divide-se em três partes: “Fiat Homo”, “Fiat Lux” e “Fiat Voluntas Tua”, sendo que cada uma possui personagens distintos e estão separadas por períodos de seis séculos cada.

Considerações sobre o livro

Um Cântico para Leibowitz é realmente um marco da literatura do século XX, de fundamental importância para o gênero da ficção científica.
O livro é muito mais importante e completo do que os livros e filmes atuais que apenas mostram um cenário pós-apocalíptico onde os personagens lutam para sobreviver em um ambiente hostil.
O autor usa uma temática de história cíclica, onde ao passar dos séculos ocorre progresso e regresso tecnológico. Essa estrutura cíclica fornece suporte e unifica as três partes do livro.
Apesar do romance acontecer no futuro, as três partes são alegorias representando fases cruciais da nossa história. A primeira parte, “Fiat Homo”, retrata a igreja como força preservadora da civilização, uma contrapartida para a “Era da Fé” que ocorreu depois da Queda de Roma. A segunda parte, “Fiat Lux”, foca na renascença do conhecimento, mostrando as divergências entre a Igreja e o Estado, entre a fé e a ciência.
Já a terceira parte, “Fiat Voluntas Tua”, é o análogo da nossa civilização contemporânea, cheia de tecnologias tecnológicas, obcecada com a matéria, gananciosa por poder e negligenciando a fé o espírito. O destaque nesta última parte é o excelente debate sobre a eutanásia das vítimas da radiação devido ao último ataque nuclear entre um médico ateu e o abade.
Miller na verdade quer nos dizer que todas as sociedades passam por essas três fases: Primeiro existe a luta para se integrar em ambiente hostil, então depois dessa integração, vem uma expansão explosiva cheia de conquistas culturais e tecnológicas. Ocorre então um retrocesso cultural, surgem rebeliões e novas culturas.
Apesar do livro não ter sido bem recebido inicialmente, com o passar dos anos o trabalho foi cada vez mais admirado, e hoje é considerado uma obra prima da ficção científica, explorando como poucos assuntos como religião, recorrência dos males que afligem a humanidade e embates entre igreja e ciência.
Sem dúvida o melhor livro de ficção científica pós-apocalíptica que existe, recomendo a leitura.