Ensaio Sobre a Cegueira – José Saramago

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Ensaio Sobre a Cegueira
  2. Nome do autor: José Saramago
  3. Idioma: Português
  4. Nome da editora: Caminho;
  5. Lugar e data da publicação: Lisboa, 1995;
  6. Número de páginas: 425 páginas;
  7. Gênero: Romance;
  8. Nota: 

Ensaio sobre a Cegueira é um romance de José Saramago, escrito em 1995, logo antes de receber o prêmio Nobel de Literatura em 1998.
Assim o próprio autor definiu o livro:

“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”

E Saramago cumpre o que promete: o leitor sofre bastante lendo esse livro! O pessimismo do autor está em cada página, em cada parágrafo. Mas será que somos tão ruins como Saramago insiste em dizer? Será que o mundo realmente tornou-se um lugar tão horrível?  Eu não concordo com o autor e não gosto do seu estilo. Falar mal de Saramago é uma tarefa ingrata, e sei que muitos vão pensar: “Quem é você para criticar um dos maiores escritores da língua portuguesa?”. Sinto ir contra a esmagadora maioria, mas prefiro ser uma solitária voz dissonante do que fingir que gosto de um autor apenas por que ele é idolatrado pela maioria.
Muitos dirão: “É preciso saber separar a obra do escritor de suas ideologias.” O problema é que Saramago nunca pretendeu fazer essa distinção em sua obra, portanto irei relacionar esse livro com a militância do autor, mesmo que quase todos prefiram acreditar que o livro foi escrito apenas como um romance e não como uma crítica ao capitalismo e elogio ao comunismo. O próprio autor definia-se como um “comunista hormonal”, ou seja, o comunismo está entranhado em Saramago, e consequentemente em seus livros, será justo seus defensores esperarem que eu faça alguma distinção entre sua escrita e sua ideologia quando o próprio autor nunca fez?

Saramago, o escritor das longas frases

Antes de mais nada vamos falar sobre o tipo de escrita de José Saramago. Ele utiliza uma descrição fluida, misturando o discurso direto com o indireto, dispensando recursos como parágrafo, travessão e aspas. O discurso direto fica entre vírgulas e para não confundir muito o leitor ele usa letras maiúsculas para diferenciá-lo do indireto. O resultado são frases longas demais e uma escrita confusa, que inicialmente pode parecer difícil, mas a leitura melhora quando nos acostumamos com ela. Depois que nos acostumamos parece apenas simples deselegância do autor.
Acho essa mistura de discursos e sua sintaxe cansativa e desnecessária. De qualquer forma, essa é a marca registrada do autor, quer se goste ou não. E os admiradores de Saramago acham isso lindo, afinal existe gosto para tudo.
Eu acho que o estilo de Saramago é de um modernismo antiquado, muito forçado e exagerado, e o resultado é desagradável.
Em uma única frase que escolhi ao acaso contei 598 palavras e 3.257 caracteres. Saramago era um sádico mesmo! E não sei dizer se é a maior frase do livro, foi um trecho que escolhi aleatoriamente.
Os personagens são tratados de forma rasteira, eles sequer possuem nomes pois Saramago não pretende construir personagens. Ele apenas atribui características físicas superficiais como: a mulher do médico, o rapazinho estrábico, o ladrão, a rapariga de óculos, o cão das lágrimas, e não se preocupa em construir perfis psicológicos complexos. Com isso o autor pretende que o leitor espelhe-se neles, focando em sua crítica à sociedade capitalista.

A ideologia de Saramago

Ah…. a ideologia de Saramago…
Não tenho nada contra um comunista escrever livros, e reconheço que vários escritores comunistas escreveram grandes livros, como é o caso de Graciliano Ramos, mas ao contrário deste Saramago consegue ser muito chato. Ele tenta colocar um sentido moral comunista em tudo que escreve, e o problema é a forma como impõe essa sua moral: com falta de apreço pela ficção e desprezo pela sintaxe e pontuação. Ensaio sobre a Cegueira, a começar pelo título, não pretende ser uma obra de ficção, não pretende mostrar a alma humana, como tantos apregoam. Não passa de uma tentativa de mostrar que o mundo é um lugar horrível, que o capitalismo e o neoliberalismo são os responsáveis pelo mal existente no mundo e que a solução para os males que afligem a humanidade é… O COMUNISMO! E usa de um pessimismo exacerbado para deprimir o leitor  e assim tentar convencer que o homem é uma criatura mesquinha e egoísta, que precisa de um estado forte e rédeas curtas para mantê-lo na linha.
Não tenho nada contra o pessimismo, muitos livros que admiro são pessimistas em relação a humanidade. Mas o pessimismo de Saramago serve apenas para preparar o leitor para sua ideologia.
Mesmo que em seu livro o capitalismo, neoliberalismo e comunismos apareçam disfarçados na forma de alegorias, e não seja apresentado explicitamente o comunismo como a solução para todos os males, ele indiretamente tenta induzir o leitor a concluir isso. Como ele era um militante do comunismo, até mesmo considerado por muitos como o último grande intelectual marxista, imediatamente seu livro foi adotado por toda gente socialista e comunista como uma espécie de bíblia cheia de revelações sociológicas.

A epidemia de cegueira como crítica ao capitalismo

Não é um livro sobre uma doença de origem biológica. Não se trata de castigo divino. Não é um livro no estilo Eu Sou a Lenda de Richard Matheson, ou Dança da Morte de Stephen King, onde é preciso lidar com uma doença devastadora e os personagens lutam para manter sua humanidade. Em determinado trecho através da “mulher do médico” Saramago mostra o que pode significar a cegueira:

“…a mulher do médico compreendeu que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isso, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.”

Quem enxerga (no livro isso está representado pela figura da “mulher do médico”), é quem percebe a crueldade do capitalismo e não aceita viver nesse mundo sem esperança.  Já os cegos entregam-se de tal forma à desesperança que abandonam qualquer traço de humanidade.
Logo mais ele mostra que não acredita na capacidade do governo de nos conduzir em direção à uma sociedade justa:

“…Háverá um governo, disse o primeiro cego, Não creio, mas, no caso de o haver, será um governo de cegos a quererem governar cegos, isto é, o nada a pretender organizar o nada, Então não há futuro, disse o velho da venda preta, Não sei se haverá futuro, do que agora se trata é de saber como poderemos viver neste presente, Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade, o resultado está à vista, qual de nós se considerará ainda tão humano como antes cria ser. …”

Ou seja, como a cegueira é uma metáfora para mostrar seres humanos que não pensam de acordo com a moral comunista, ele quer dizer que não acredita em governos cegos (capitalistas) e acha que a humanidade até poderia viver sem olhos (num mundo capitalista), mas então perderia sua humanidade e o resultado seria a barbárie e o sofrimento.
Então, através da figura da “mulher do médico” — a única que ainda enxerga num mundo dominado pela cegueira (capitalismo), ele mostra que gostaria de ver reconstruída a ordem social, através da ótica comunista em um diálogo entre a rapariga dos óculos escuros, a mulher do médico e o velho da venda preta:

“… Tu não estás cega, disse a rapariga dos óculos escuros, por isso tens sido a que manda e organiza, Não mando, organizo o que posso, sou, unicamente, os olhos que vocês deixaram de ter, Uma espécie de chefe natural, um rei com olhos numa terra de cegos, disse o velho da venda preta, Se assim é, então deixem-se guiar pelos meus olhos enquanto eles durarem, por isso o que proponho é que, em lugar de nos dispersarmos, ela nesta casa, vocês na vossa, tu na tua, continuemos a viver juntos…”

A “mulher do médico”, por ser a única que enxerga assume o papel de organizar (mas singelamente diz que não manda!) pois é quem possui os olhos que os outros deixaram de ter. O velho da venda preta (um alter ego de Saramago) logo a identifica como a chefe natural em uma terra de cegos. Então ela assume a liderança e inicia a organizar a nova ordem comunitária, guiando-os com seus olhos no estilo de vida comunista onde não existe o indivíduo apenas a coletividade.
Em um trecho a  “mulher do médico” é a única que enxerga um corpo sendo dilacerado e devorado por uma matilha de cães, enquanto os outros cegos não percebem o que acontece, mais uma metáfora sobre a exploração do homem pelo sistema capitalista.
No trecho que transcrevo abaixo Saramago usa a figura da mulher do médico e do velho ditado “O pior cego é aquele que não quer ver”:

“… Abramos os olhos, Não podemos, estamos cegos, disse o médico, É uma grande verdade a que diz que o pior cego foi aquele que não quis ver, Mas eu quero ver, disse a rapariga dos óculos escuros, Não será por isso que verás, a única diferença era que deixarias de ser a pior cega…”

Acho esse trecho muito significativo, e muitos estudiosos consideram tratar-se de um julgamento e a anunciação da nova ordem social. Pode-se ver que Saramago praticamente transcende (ou esquece) a ficção e entra no campo do proselitismo através da mulher do médico que convoca os cegos a “abrir os olhos” e os acusa de serem responsáveis por sua cegueira.
Próximo do final temos outra amostra nítida de que esse livro é uma crítica ao capitalismo, onde Saramago usa mais uma vez a figura da mulher do médico quando esta retorna ao supermercado em que esteve anteriormente em busca de comida, dessa vez junto com seu marido, e depara-se com um depósito (cave) repleto de cegos mortos e fogos fátuos mostrando-se como uma verdadeira porta para outro mundo:

“… Fecharam-na com certeza os outros cegos, transformaram a cave num enorme sepulcro, e eu sou a culpada do que aconteceu, quando saí daqui a correr com os sacos suspeitaram de que tratasse de comida e foram à procura, De uma certa maneira, tudo quanto comemos é roubado à boca de outros, e se lhe roubamos demais acabamos por causar-lhes a morte, no fundo somos todos mais ou menos assassinos ….”

Quem está familiarizado com a Teoria da Exploração (veja meu post anterior) construída por Rodbertus e popularizada por Karl Marx logo nota que trata-se de uma referência à crença dos socialistas de que toda renda obtida por outra fonte que não seja o trabalho é imerecida, e de que a economia capitalista livre submete os assalariados ao poder e ao arbítrio dos industriais ricos que exploram seu trabalho.
Como todo bom comunista não poderiam faltar críticas à religião.  Logo depois da cena do supermercado a mulher do médico e seu marido entram em uma igreja, e a mulher percebe que todas as esculturas estão com vendas brancas sobre os olhos e os santos nos quadros com faixas brancas pintadas sobre os olhos, o médico inicia o diálogo abaixo ao considerar estranho que as imagens que não possam ver estejam com olhos cobertos, mas a mulher esclarece:

“… As imagens não vêem, Engano teu, as imagens vêem com os olhos que as vêem, só agora a cegueira é para todos… Se foi o padre quem tapou os olhos das imagens… esse padre deve ter sido o maior sacrílego de todos os tempos e de todas as religiões, o mais justo, o mais radicalmente humano, o que veio aqui para declarar finalmente que Deus não merece ver…”

Ou seja, Saramago deixa bem claro que considera a religião (e não Deus, pois não poderia criticar algo em que não acredita existir) tão cega quanto o resto da humanidade, e o padre que tapou os olhos das imagens estava fazendo justiça ao revelar a religião como cúmplice da cegueira coletiva em que vive a humanidade.
Logo à frente Saramago expõe mais uma vez a Teoria da Exploração com sua crítica à propriedade e a renda obtida por outros meios que não advindos diretamente do trabalho:

“… O que também não muda é aproveitarem-se uns do mal dos outros, como bem o sabem, desde o princípio do mundo, os herdeiros e os herdeiros dos herdeiros….”

Saramago em Ensaio sobre a Cegueira está muito distante de um Cormac McCarthy em A Estrada. Apesar de Mccarthy mostrar personagens em situações desesperadoras e desumanas, ele sabe valorizar o heroísmo inerente à alma humana, e mostrar que mesmo onde não existe mais esperança, nunca deveríamos desistir.

Mostrei na minha crítica que a cegueira é uma alegoria que Saramago utiliza para mostrar a matéria de que nossa sociedade é formada, nada mais que um pretexto utilizado pelo autor para mostrar os horrores em que nossa civilização está assentada. Em sua visão o ser humano, moralmente e culturalmente é selvagem, egoísta e dominado por apetites bárbaros. Para Saramago não existe heroísmo. O autor de Ensaio sobre a Cegueira não apresenta uma resposta no fim do livro, o seu pessimismo quase patológico o impediu de anunciar o comunismo como a redenção para a humanidade, mas quem conhece seu trabalho como militante comunista entende a mensagem que ele quer passar:  que o único sistema social justo é o comunismo. Saramago pretende mostrar com esse livro que o ser humano, bárbaro e animalesco, precisa ser controlado, seus apetites precisam ser domados, ele precisa da ordem e da justiça social que apenas o comunismo pode garantir. A cegueira de Saramago mostra que individualmente somos menos que animais irracionais, esses pelo menos são capazes de controlar o esfíncter! Saramago tem uma estranha fixação com as fezes. Os cegos de Saramago sequer são capazes de arriar as calças e sujam suas roupas, camas e onde vivem. A todo momento ele insiste em descrever que existem fezes em toda parte. O único momento em que se limpam é quando a mulher do médico assume a responsabilidade sobre o seu grupo de cegos. Precisava ser tão grotesco?
Acho esse pessimismo e sua visão em relação ao ser humano muito exagerada. Nunca o ser humano viveu tão bem, nunca tantas pessoas foram livres e viveram em prosperidade, com índices de mortalidade infantil baixos, expectativa de vida crescendo em todo o mundo, acesso à tecnologia universalizado entre outras coisas que eu poderia citar aqui. É claro que existem muitos problemas, muitas pessoas principalmente na África enfrentam guerras, genocídios, epidemias e fome, mas a tendência é que isso diminua. Reconheço que os países ricos não fazem muito, que eles deveriam investir mais nos países pobres e assim possibilitar que eles participassem mais na economia global para serem capazes de gerar sua própria riqueza. A corrupção deveria ser melhor combatida, e o estado deveria estimular mais o empreendedorismo e reduzir os impostos ao mesmo tempo que melhorasse os investimentos. Isso é possível de se atingir em um regime democrático e capitalista, garantindo as liberdades individuais, coisa que o comunismo é incapaz de fazer.

Será que estou exagerando ao mostrar viés político de Ensaio sobre a Cegueira? Apesar de Saramago não admitir isso, os socialistas e comunistas foram os primeiros a apontarem que sua obra na verdade é uma crítica ao capitalismo e ao neoliberalismo, não sou eu que estou tentando desqualificar um romance, só mostro outro ponto de vista  contrário ao da maioria.

Mas afinal, vale a pena ler Saramago?

Não gosto de Saramago como escritor. A sua prosa é cansativa e desagradável, suas frases são longas demais, sua sintaxe é feia.
Não é como Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido) que nos encanta a cada parágrafo com sua sensibilidade e energia rejuvenescedora, e mesmo sendo uma leitura muito mais difícil que a de Saramago ainda assim mostra-se uma experiência muito mais recompensadora.
Não gosto de Saramago como pensador. Como todo comunista ele vê o mundo através de um espelho que distorce a realidade, e flerta com o totalitarismo e o fim das liberdades individuais.
Não conseguiria indicar a leitura de Ensaio sobre a Cegueira para qualquer um, mesmo considerando que talvez seja seu livro mais importante. Acredito tratar-se de um livro que exige uma postura crítica que a maioria das pessoas não é capaz de assumir. Como ficção não é um bom livro, mas pode ser estudado como peça de propaganda comunista (sei que parece um anacronismo, mas ainda existe quem faça propaganda disso). Mas não se preocupem, ele ainda foi capaz de escrever algo ainda pior: O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

A Nova Utopia – Jerome K. Jerome

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Jerome Klapka Jerome (1859 – 1927) foi um escritor e humorista inglês, mais conhecido por seu livro Three Men in a Boat (1889).

A estória curta The New Utopia (1891) pode ser considerada o berço do gênero da literatura que utiliza as distopias como cenário, onde as obras mais conhecidas são 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.
Como não encontrei tradução para o português, traduzi o original encontrado aqui, e montei o arquivo em epub e mobi.  Como trata-se de material de domínio público, sinta-se a vontade para copiar meu trabalho de tradução abaixo, apenas peço que não o utilize para fins comerciais! Peço também que me desculpem por algum erro de tradução, e considerem que não sou profissional, fiz o trabalho apenas por amor à literatura. Críticas e sugestões de correções serão muito bem vindas!

A Nova Utopia – epub

A Nova Utopia – mobi

Também publiquei o livro na Amazon, se você gostou do texto ou se preferir receber diretamente no seu Kindle, compre através do link abaixo. Eu coloquei o menor preço possível (R$2,61), apenas para disponibilizar outra forma de distribuição pela internet. Eu não estou buscando ganhar dinheiro com isso, juro que tentei colocar ele gratuitamente, a Amazon que não permitiu!

A Nova Utopia – Link para compra na Amazon

Introdução ao roteiro

O primeiro romance distópico – Nós – foi escrito entre 1920 e 1921 pelo escritor russo Yevgeny Zamyatin, como já escrevi anteriormente aqui, e pode-se ver claramente que a inspiração para Nós veio do trabalho de Jerome K. Jerome, assim como 1984 de George Orwell foi fortemente inspirado no trabalho de Zamyatin.

A estória começa com um grupo aristocrata “progressista” reunido no Clube Nacional Socialista, onde após um jantar  requintado com faisão recheado com trufas, regado com um vinho caríssimo, e excelentes charutos, o grupo de amigos “progressistas” faz uma instrutiva discussão sobre igualdade do homem e a nacionalização do capital.
O autor faz uma bem humorada crítica aos “avançados” socialistas, que enquanto pregam a igualdade e divisão da riqueza se refastelam com as melhores comidas e bebidas.
O narrador, apesar de não estar muito familiarizado com a retórica socialista, abraça integralmente o que é discutido e também considera que o mundo deveria ser reconstruído segundo essa ótica da igualdade e estatização dos meios de produção.
Depois da noitada ele cai esgotado na cama, e leva um susto ao acordar mil anos no futuro, dentro de uma redoma de vidro em um museu.
Ele descobre que o deixaram exposto todo esse tempo, apenas para verem até quando ele ficaria dormindo.
Um velho cavalheiro gentilmente o acompanha pela cidade, mostrando como o mundo tornou-se uma maravilhosa utopia socialista.

Considerações sobre o livro

O autor usa bastante humor e ironia para retratar essa Nova Utopia, mostrando que na verdade os ideais socialistas podem levar não só ao fim da liberdade, como a eliminação de tudo que existe de bom no ser humano, como a ambição, a criatividade e a alegria de viver. O personagem no fim de sua viagem ao futuro compara os homens desse futuro socialista à cavalos ou gado, mostrando que o principal objetivo dessa Nova Utopia é eliminar a alma humana.
Uma excelente estória curta, recomendo muito a leitura! Se você não quiser gastar na Amazon, baixe através dos outros links que disponibilizei!

A Primeira Regra do Mago – Terry Goodkind

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A Espada da Verdade é uma série de onze livros de fantasia épica escrita por Terry Goodkind, iniciada em 1994 com A Primeira Regra do Mago (Wizard’s First Rule) sendo o único que foi traduzido para o português.
A série acontece em um mundo dividido em duas regiões: o Novo Mundo e o Velho Mundo. O Novo Mundo consiste de três terras com Westland ao oeste, D’Hara no leste e Midlands no centro dos dois. D’Hara é governada por um poderoso membro da família Rahl, enquanto Midlands é governada por um conselho liderado pela Madre Confessora, que também é a líder das Confessoras, um grupo de mulheres nascidas com o poder de magicamente forçar as pessoas a se tornarem inteiramente devotadas a elas, permitindo obterem seu propósito: encontrar a verdade. Westland, uma terra sem mágica também é governada por um conselho. O Velho Mundo só é apresentado no segundo livro.
O principal personagem é Richard Cypher, um guia florestal que vê sua vida mudar drasticamente ao se tornar o Seeker – uma posição semelhante a de uma Confessora, obrigando-o levar justiça ao mundo. Richard recusa-se a sacrificar seus valores e sua vida como um homem livre, e os outros começam a compreender sua nobreza e o significado da liberdade.
Cada livro é centrado em uma Regra do Mago, que todos Magos seguem.
O primeiro livro, A Primeira Regra do Mago, acontece no Novo Mundo, vinte anos após duas fronteiras mágicas terem sido erguidas separando Westland, D’Hara e Midlands. O império D’Hara cresceu sob a liderança de Darken Rahl, com a invasão de Midlands, tomando seus territórios enquanto ganha controle sobre um antigo poder conhecido como Magia de Ordem.
O livro tem início algumas semanas após o assassinato do pai de Richard, quando ele encontra a Confessora Kahlan Amnell que veio de Midlands para encontrar o Primeiro Mago.
O livro ganhou uma ótima adaptação para a TV, com a série The Legend of The Seeker, que foi uma das melhores séries de ficção fantástica que já assisti!
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Considerações pessoais

Uma história repleta de magia, heroismo, luta pela justiça e liberdade.
Eu esperava uma história mais infanto juvenil, mas encontrei um livro bem adulto, parecido com As Crônicas de Gelo e Fogo de George Martin, com bastante violência, sexo e até mesmo terror.
Achei a cena em que Darken Rahl sacrifica uma criança para ir ao mundo subterrâneo particularmente cruel.
A tortura de Richard pela Mord-Sith Denna, leva páginas e mais páginas, com detalhes que não deixam dúvidas que o autor não pretendia escrever um livro para crianças.
O trecho em que Kahlan entra em Con Dar (a Raiva do Sangue) também tem trechos bem cruéis, como a castração de Nass.
Achei o livro uma leitura muito cativante, e como assisti a série televisiva posso agora dizer que a adaptação foi muito bem feita, sendo muito fiel ao livro.
Recomendo que se assista o primeiro episódio da primeira temporada (de duas), duvido que vocês não queiram saber mais da história após isso!
Agora pretendo ler os próximo livros, mas é uma pena que não foram traduzidos para o português.
Atualização: Atendendo à pedidos, coloquei um link na minha página no Facebook com os livros que tenho no formato digital: https://www.facebook.com/leiturasparalelas

A Metamorfose – Franz Kafka

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Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.

Assim começa A Metamorfose, de Franz Kafka, umas das histórias mais perturbadoras e interessantes já escritas!
O livro já foi alvo de centenas de estudos acadêmicos, e dificilmente pode ser resumido e explicado em poucas palavras…
O que achei mais interessante não é a Metamorfose em si, que nada mais é que uma alegoria para mostrar a crise familiar de Gregor Samsa.

Devido a falência do pai, alguns anos atrás, Gregor assumiu a posição de arrimo de família, com uma profissão degradante de caixeiro viajante. Com sua metamorfose, sua família se vê obrigada a encarar uma nova realidade.
Perturbador, com uma narrativa genial, esse livro sem dúvida é uma leitura obrigatória!

O Cemitério de Praga – Umberto Eco

O Cemitério de Praga é o mais recente livro do mais importante intelectual italiano da atualidade, mestre nos estudos de semiótica.

Conta a história do Captão Simone Simonini, um aventureiro imoral, falsificador e assassino eventual. De acordo com Eco: “Os personagens dessa novela não são imaginários. Excetuando o personagem principal, todos eles existiram na realidade, incluindo o seu avô, autor da misteriosa mensagem ao abade Barruelo que deu origem a todo moderno anti-Semitismo.”

Eco escreve com maestria este romance, que usa fatos históricos que deram origem aos Protocolos dos Sábios do Sion, que inspiraram a “Solução Final” de Hitler, o extermínio dos judeus. Trata também do Caso Dreyfus, das intrigas das polícias secretas de países diferentes e dos Maçons. Alguns dos personagens não-ficcionais que aparecem na novela sâo: Sigmund Freud, Léo Taxil, Diana Vaughan, Eugène Sue e Maurice Joly.

• O Cemitério Judeu de Praga (Fonte: Wikipédia)

  Não se sabe exatamente quando o cemitério teria sido fundado, tendo   havido muitas discussões entre especialistas. Alguns levantam a hipótese do cemitério ser mais de 1000 anos mais antigo do que as datas comumente aceitas (1ª metade do século XV). Teria sido fundado pelo rei Otokar II da Boêmia.

Conforme a Halachá, os judeus não devem destruir os túmulos de seu povo e também as tumbas não devem ser removidas. Isso se deveu ao fato particular de que, quando os cemitérios precisavam se expandir e era impossível aos judeus comprar mais terras, mais camadas de terra eram postas sobre as sepulturas existentes. As antigas lápides eram retiradas e recolocadas sobre a nova camada de solo. Isso explica a razão das lápides estarem tão próximas umas das outras. São 12 as camadas de sepulturas no cemitério judeu de Praga.

O cemitério teria sido o local secreto das reuniões conspiratórias dos “Anciãos do Sião”, local onde os Os Protocolos dos Sábios de Sião, um plano sionista para dominar o mundo (Nova Ordem Mundial (teoria conspiratória)), foram criados. Essa informação foi mencionada pela primeira vez em 1868, no romance “Biarritz” de Hermann Goedsche, o qual possivelmente inspirou a polícia secreta da Rússia Czarista a criar o “protocolo dos Sábios do Sião]] para incentivar o antissemitismo na Rússia. Assim, os “Protocolos” passaram a ter vida própria e foram considerados como autênticos e verdadeiros por pessoas como Adolf Hitler e muitos outros inimigos dos judeus. A obra de Umberto Eco, “O Cemitério de Praga” se refere a esse especto.

  • Impressões Pessoais sobre o livro

Sou admirador do trabalho de Umberto Eco, e, como era de se esperar, o livro segue nos seu melhor estilo: envolvente, personagens de moral duvidosa e cínicos, utilizando fatos históricos para criar um romance intrigante.

Gostei da forma como ele mostrou as origens do anti-semitismo moderno, da forma como os agentes envolvidos trabalharam para propagar seu ódio e ideias doentias.

O Capitão Simonini é apenas a amálgama que une de forma insidiosa personagens e fatos reais que culminaram em eventos que mancharam a história da humanidade, como o Holocausto.

• Notas de Leitura

Cabe aqui um elogio ao aplicativo iBooks da apple: Ele dá outra dimensão à leitura, permitindo fazer anotações, pesquisar termos na web, e exportar os resultados. Segue abaixo algumas de minhas notas durante a leitura.

1. O passante que naquela manhã cinzenta – 25 de julho de 2012

(teratos=monstro + logos=estudo) Termo médico que descreve anomalias e deformidades congênitas. Gárgulas, por exemplo, são exemplos de antiguidades teratológicas.

4. Os tempos do meu avô- 25 de julho de 2012

Hassan-i-Sabbah (1034-1124), ou o velho da montanha, dominou a fortaleza de Alamut,
no coração das montanhas Elbourz, a 1800m de altitude no Irã. Criou o culto islâmico dos
hashashin, ou assassinos, viciados em haxixe e em sexo desde muito jovens, e apenas se
seguissem cegamente as ordens do líder retornariam ao vício. De 1090 a 1256 os Assassinos cometeram grande número de assassinatos políticos, sempre com adagas ou venenos. Aliaram-se aos templários para se oporem aos sunitas.

22. O diabo no século XIX – 30 de julho de 2012

Caso Dreyfus é uma história real: ele foi perdoado em 1899, e libertado, após constatarem que o real traidor era o Major Ferdinand Walsin Esterhazy

21. Taxil – 31 de julho de 2012

Personagem real: foi um grande difamador da maçonaria…

23. Doze anos bem vividos – 31 de julho de 2012

Niilismo (do latim nihil, nada) é um termo e um conceito filosófico que afeta as mais
diferentes esferas do mundo contemporâneo (literatura, arte, ciências humanas, teorias
sociais, ética e moral). É a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade e
de resposta ao “porquê”. Os valores tradicionais depreciam-se e os “princípios e critérios
absolutos dissolvem-se”. “Tudo é sacudido, posto radicalmente em discussão. A superfície, antes congelada, das verdades e dos valores tradicionais está despedaçada e torna-se difícil prosseguir no caminho, avistar um ancoradouro”.

23. Doze anos bem vividos – 31 de julho de 2012

Alusão à impotência de Simonini

Armance é, cronologicamente, o primeiro dos grandes romances de Stendhal. Quando
comparado a obras-primas como O vermelho e o negro e A cartuxa de Parma, porém, este romance de 1827 é considerado ambíguo — e isso por uma razão muito simples: toda a trama é articulada ao redor de um segredo sobre a vida do protagonista que nunca é revelado, o que tornaria obscuras as motivações deste livro sobre o amor idealizado e a renúncia ao casamento. A chave para se entender a trama estaria numa carta de Stendhal a Mérimée (publicada na presente edição), na qual ele explicita o motivo que impede a consumação do amor entre o visconde Octave de Malivert e sua prima, Armance de Zohiloff: seu herói sofre de babilanismo, ou seja, impotência sexual.

23. Doze anos bem vividos – 31 de julho de 2012

Qualquer semelhança com os “estudantes profissionais” da USP não é mera coincidência!
Certas coisas nunca mudam…