A Sombra do Torturador – Gene Wolfe

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: A Sombra do Torturador (Tetralogia do Livro do Novo Sol #1)
  2. Nome do autor: Gene Wolfe
  3. Tradutor: Maria de Lourdes Medeiros
  4. Nome da editora: Publicações Europa-América
  5. Data e local de publicação: Portugal, 1981;
  6. Número de páginas: 280 páginas;
  7. Gênero: Fantasia Científica;
  8. Sub-Gênero: Morte da Terra (Dying Earth);
  9. Nota: ★★★★★ (5!)

Estamos convencidos de que inventamos os símbolos. A verdade é que são eles que inventam a nós. Somos criaturas suas, moldados por suas arestas fortes e incisivas.

A Sombra do Torturador (The Shadow of the Torturer) é o primeiro livro da Tetralogia do Livro do Novo Sol, de Gene Wolfe. É considerado por muitos um dos melhores livros de Fantasia Científica já escritos, um gênero que combina elementos da ficção científica com a fantasia. Este primeiro volume relata a história de Severian, um aprendiz na Ordem dos que Procuram a Verdade e a Penitência (a Ordem dos Torturadores) e os eventos que o levaram à sua expulsão da Ordem e sua jornada para fora de sua cidade natal de Nessus. O estilo é o da narrativa em primeira pessoa, onde Severian – que alega possuir uma memória eidética (fotográfica) – conta sua história situada em um futuro muito distante, quando o Sol enfraqueceu transformando a Terra em um mundo frio e moribundo. Os livros dessa série são os seguintes:

  1. A Sombra do Torturador (The Shadow of the Torturer);
  2. A Garra do Conciliador (The Claw of the Conciliator);
  3. A Espada do Lictor (The Sword of the Lictor);
  4. A Cidadela do Autarca (The Citadel of the Autarch);
  5. Urth do Novo Sol (The Urth of the New Sun) – Este último é uma espécie de epílogo para a história de Severian.

Gene Wolfe (83 anos) não é um autor de best-sellers, fato que explica o completo desprezo das editoras brasileiras. Apesar disso ele é muito elogiado pela crítica e é reconhecido no meio literário como um dos maiores escritores vivos da língua inglesa, dono de uma prosa densa, rica em elementos alusivos e sem apego à convenções de gêneros literários. Neil Gaiman o considera possuidor de um “intelecto feroz”, Swanwick disse que Wolfe é “o maior escritor da língua inglesa vivo atualmente” e Disch considerou O Livro do Novo Sol como “uma tetralogia sofisticada, inteligente e suave.”
Os quatro volumes do Livro do Novo Sol são povoados por referências e metáforas cristãs, especialmente católicas – Gene Wolfe é um católico praticante – mas o leitor não precisa conhecer nada de teologia para aproveitar o livro pois essas referências ficam restritas ao background da história.
Um exemplo do uso de símbolos e referências católicas neste livro é o de Santa Catarina de Alexandria que foi presa por censurar a perseguição aos cristãos pelo imperador Maximino Daia. O imperador convocou 50 dos maiores sábios do mundo para convencê-la de que ela estava errada, e que deveria negar o Deus dos cristãos. Mas os argumentos de Catarina era tão eloquentes e convincentes que foi ela quem acabou convertendo os sábios ao cristianismo. Após a tortura Santa Catarina foi decapitada tornando-se uma das maiores mártires do católicos. Ironicamente a santa é apresentada como a padroeira dos Torturadores, e Severian, assim como os sábios da lenda católica, acaba traindo sua Ordem ao mostrar misericórdia à uma exultante da nobreza geneticamente alterada de Urth. Essa “traição”, acaba levando à jornada do exílio de Severian.

Antes de ser expulso para o exílio na longínqua cidade de Thrax, ele recebe de seu mestre a espada Terminus Est, uma impressionante espada, com a ponta quadrada, guarda mão de prata com duas cabeças entalhadas, punho de onyx com fita de prata e uma opala na ponta. As palavras Terminus Est gravadas em sua lâmina significam Esta é a Linha de Divisão. No meio da lâmina existe um canal por onde corre um metal líquido chamado de hidrargiro, mais pesado que o ferro, e que ao erguer a espada acima da cabeça desloca-se para a próximo do punho, e ao descer a espada desloca-se para a ponta, auxiliando o executor a manter o equilíbrio caso seja necessário manter a espada erguida durante muito tempo até o término de uma oração ou a ordem de um inquiridor.

Abro um parênteses para comentar algo sobre o sub-gênero dessa história, o pouco conhecido Morte da Terra (tradução livre de Dying Earth) que difere do popular sub-gênero pós-apocalíptico por não tratar de uma destruição catastrófica, mas sim de uma exaustão entrópica da Terra. O primeiro livro desse gênero foi Le Dernier Homme (1805) que narra a história de Omegarus, o Último Homem na Terra, que mostra uma visão de futuro onde a Terra tornou-se completamente estéril. Outros autores modernos também escreveram excelentes livros nesse sub-gênero, como Arthur C. Clarke em A Cidade e as Estrelas (1956) e George R. R. Martin em Morte da Luz (1977).

A edição portuguesa, possui alguns erros de tradução e vários erros tipográficos, além de não possuir o apêndice que existe na edição em inglês: Social Relationships in Commonwealth. Esse apêndice apresenta, de forma sucinta, a curiosa divisão da sociedade de Urth (uma corruptela para Earth) em sete grupos básicos, entre eles: exultantes, armigers, optimates, religious, pelerines e cacogens. Mais tarde descobrimos que existem mais de 135 classes na complexa sociedade de Urth, algumas com números muito reduzidos como a dos Conservadores, responsáveis pela conservação dos livros da biblioteca de Nessus e manutenção do Jardim Botânico, uma espécie de museu vivo com ecossistemas há muito tempo extintos. Em meio à narrativa podemos entender melhor os papéis desses grupos e é fascinante como o autor consegue apresentar essa estranha sociedade de forma natural e convincente, utilizando-se da visão de Severian, agudamente sensível às impressões do mundo exterior, propiciando uma narrativa extraordinariamente enriquecida pelas reflexões do seu narrador.

É um livro extremamente difícil de encontrar no Brasil e em Portugal, pois existem poucas cópias no mercado de usados. Após buscas exaustivas localizei todos os livros da série: A Sombra do Torturador (Livraria Traça, R$23,27), A Garra do Conciliador (Estante Virtual, R$26,42), A Cidadela do Autarca (Estante Virtual, R$45,16), e o mais difícil de encontrar foi A Espada do Lictor (wook.pt, R$96,86 já incluindo o frete internacional).

Muito mais que uma simples fantasia épica, O Livro do Novo Sol é uma obra como poucas, escrita com qualidades estilísticas inquestionáveis que criaram um mundo cruel mas ao mesmo tempo fascinante e merecedor de nossa atenção. Se você tiver sorte de encontrar esse livro não pense duas vezes, é um livro obrigatório para qualquer estante de ficção!

A História Sem Fim – Michael Ende

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Die Unendlich Geschicte (The NeverEnding Story, nos EUA, ou História Sem Fim no Brasil) é um livro de fantasia do escritor alemão Michael Ende, publicado pela primeira vez em 1979. Neste livro Bastian Balthazar Bux, acaba roubando um livro chamado A História Sem Fim de um pequena livraria. Bastian (cujo nome significa bastião, ou guardião) acaba tornando-se de fato o guardião de um reino em perigo. A princípio Bastian é apenas um leitor do livro, que narra a história da terra de Fantasia, o lugar onde alguns habitantes do lugar sentem a presença de Bastian, pois ele é a chave do sucesso da jornada sobre o que está lendo. Por volta da metade do livro ele acaba por entrar na história tornando um papel mais ativo nela. A primeira metade do livro é rica em detalhes de imagens e personagens, como um conto de fadas tradicional. Na segunda metade, porém, são introduzidos vários temas psicológicos, e Bastian vê-se efrentando a si mesmo, o seu lado negro, enfrentando o surgimento da maturidade e de um mundo formado por seus desejos ao mesmo tempo em que utiliza o poder de cura da sua imaginação para salvar o reino de Fantasia. Em 1984 foi feita uma adaptação para o cinema, sendo que na época foi o filme mais caro produzido fora dos EUA. A produção do filme, de 1984, foi bem conturbada, pois ao saber que os produtores decidiram resumir drasticamente a história até o momento que Bastian entra em Fantasia, Michael Ende sentiu que os produtores estavam se distanciando muito do que ele tinha imaginado e então pediu para que interrompessem a produção. Como nada foi feito ele processou os produtores, mas perdeu o caso, conseguindo apenas remover seu nome dos créditos finais. Depois foi feita uma seguência: A História sem Fim II: O Próximo Capítulo, onde alguns elementos que tinham ficado de fora do primeiro filme foram utilizados, mas a tratava de uma história, em essência, totalmente nova. O próximo filme: A História sem Fim III, com Jack Black, foi lançado em 1994, com os personagens do livro mas mais uma vez com uma história totalmente nova. Considero alguns dos elementos da história especialmente interessantes como o AURYN (no livro ele sempre é escrito em letras maiúsculas!) um amuleto que ajuda a guiar Atreyu em sua quest para curar a imperatriz e derrotar o Nada, a criatura que ameaça destruir Fantasia. No livro o AURYN é representado por duas serpentes mordendo uma o rabo da outra, de forma ovalada, mas sem estarem interlaçadas. Já no filme elas estão entrelaçadas lembrando o simbolo que representa o conceito matemático de infinito, uma bela melhoria em relação ao imaginado por Michael Ende na minha opinião!

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O livro é representado no filme com uma bela capa em couro marrom com filigranas e um AURYN, como vemos na cena abaixo:

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Eu simplesmente não resisti quando vi esta linda capa para Kindle à venda site Etsy:

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Muita coragem, e vários Obama$ depois, agora tenho o Kindle mais Geek do mundo: E antes que você se pergunte, sim eu já coloquei a versão do livro no Kindle, tanto a versão em português como a em inglês!
Em 2009 Leonardo di Caprio estava tratando da produção de uma nova adaptação, desta vez fiel ao trabalho de Michael Ende, mas ainda não tenho notícias da situação da produção. Ainda que muitos considerem A História sem Fim um livro/filme infanto juvenil, os temas abordados estão longe de serem infantis: O tema central é a existência e a morte da imaginação, a história nos lembra que sem nossas fantasias e sonhos a realidade nunca terá o mesmo brilho. Mesmo que muitos tratem esta história como literatura infantil, eu a considero uma das melhores histórias de fantasia de todos os tempos, ao lado de clássicos como O Senhor dos Anéis ou de Nárnia.