Laranja Mecânica – Anthony Burgess

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)
  2. Nome do autor: Anthony Burgess
  3. Tradutor: Fábio Fernandes
  4. Nome da editora: Editora Aleph
  5. Data e local da primeira publicação: Inglaterra, 1962;
  6. Número de páginas: 192 páginas;
  7. Gênero: Romance Distópico;
  8. Sub Gênero: Ficção Científica Social;
  9. Nota: ★★★★★(5)

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) é um romance distópico escrito por Anthony Burgess em 1962, e adaptado por Stanley Kubrick para o cinema em 1971. É considerado um dos melhores romances da língua inglesa já escritos (nº 65 no ranking da Modern Library) tendo influenciado de forma considerável a cultura popular da segunda metade do século. É um livro relativamente difícil de ler, principalmente devido ao uso intensivo de gírias e neologismos que exigem atenção do leitor para entendê-las junto ao contexto, ou então consultas constantes à um glossário presente no final do livro.
O filme de Kubrick é considerado uma obra prima do cinema, e uma excelente adaptação da obra de Burgess, mesmo considerando que o roteiro foi baseado na edição americana, onde o último capítulo foi excluído da adaptação. O próprio Burgess criticou a remoção do último capítulo, mas considero a crítica injusta pois a edição americana foi autorizada por Burgess que cedeu à pressão dos editores americanos que achavam que o personagem principal não deveria passar por nenhum tipo de redenção devido aos crimes cometidos, tendo então concordado com a remoção do capítulo final. Por sua vez, Kubrick disse que só leu a versão original após ter concluído o roteiro do filme, e que considerava o último capítulo como um “capítulo extra” inconveniente e inconsistente com o restante do livro, e não gostava da visão do autor para a conclusão da história. Eu concordo com a opinião de Kubrick, também considero que o capítulo final é um tanto desnecessário, mas, polêmicas à parte, tanto o livro quanto o filme são geniais e merecem nossa atenção.

Uma breve análise do livro

  • Contexto da época
    Burgess escreveu o livro após retornar ao Reino Unido depois de uma longa estada no exterior, quando percebeu que a sociedade britânica passava por várias mudanças. Os jovens estavam desenvolvendo uma cultura permeada por música pop e comportamento radical, muitas vezes reunindo-se em gangues. O temor na Inglaterra era de que a delinquência juvenil começasse a sair de controle. Além desses fatores sociais da época, Burgess também foi influenciado pelo estupro de sua primeira esposa durante a Segunda Guerra Mundial por um grupo de soldados americanos bêbados. Burgess também afirmou que seu livro é uma crítica ao Behaviorismo (ou comportamentalismo), um conjunto de teorias que postula que o comportamento é o objeto de estudo mais adequado na psicologia.
  • Estilo
    Sem dúvida uma das coisas mais interessante e dignas de nota em Laranja Mecânica é o estilo único e inteligente empregado por Burgess. O livro foi escrito numa espécie de dialeto do inglês inventado pelo autor, o nadsat, que é falado pelos delinquentes. O vocabulário utilizado foi baseado na língua russa e no cockney, que é uma palavra utilizada para descrever os habitantes da zona leste de Londres, que possuem um dialeto e sotaques diferentes do restante dos londrinos, além do costume de expressarem-se em calão rimado, que faz um jogo de palavras com um caráter irônico e muitas vezes difícil de compreender até mesmo pelos demais londrinos. Acredita-se que o calão rimado surgiu entre os feirantes e pequenos criminosos nos fins do século XIX para dissimular suas atividades pouco lícitas do público geral e da polícia. Mais informações sobre calão rimado podem ser encontradas aqui. Alguns exemplos de expressões cockney em calão rimado:

    “Can you Adam and Eve it?” (Adam and Eve it = believe it)  → Você acredita nisso?
    “Use your loaf and think next time” (loaf of bread = head) → Use a cabeça e pense da próxima vez.
    “Hello me old china” (china plate = mate)  → Olá amigo.
    “Are you telling porkies?” (porkies = pork pies = lies) → Você está mentindo?
    “That’s an expensive looking whistle” (whistle and flute = suit) → Essa é uma roupa cara.

    O próprio título pode ter sido inspirado em uma expressão expressão cockney, As queer as a clockwork orange, que pode ser traduzido como “Tão estranho quanto uma laranja mecânica”. (No entanto, existem outras teorias para explicar o título, talvez essa não seja a correta, mas não vou me estender nessa polêmica!)
    Alex, o narrador da história, nunca tenta embelezar ou produzir efeitos dramáticos, ele nitidamente não está preocupado em chocar o leitor com seus atos de violência muito menos em tenta justificar suas ações, o que pode inicialmente parecer frieza dele, mas que podemos também encarar como um exemplo de sua honestidade (mesmo que seja para praticar atos violentos e deploráveis). Alex chega ao ponto de narrar os atos de violência com muitos detalhes, explicando quais golpes está desferindo em suas vítimas, ou quanto sangue está conseguindo tirar delas.
    Muito do tom do livro soa irreverente e imaturo, o texto está repleto de gírias e onomatopeias o que é um reflexo imaturidade do personagem. Podemos detectar uma nota extremamente sutil de angústia, como se Alex estivesse preso à um círculo vicioso e já tivesse aceitado sua situação no mundo em que vive sem questionamentos ou remorsos, o que fica acentuado após o tratamento que recebeu na prisão que o “curou” da violência.
    Uma prova do quanto Burgess é inteligente no uso do nadsat pode ser lido na segunda sentença do primeiro capítulo:

    “There was me, that is Alex, and my three droogs, that is Pete, Georgie, and Dim, Dim being really dim, and we sat in the Korova Milkbar making up our rassoodocks what to do with the evening, a flip dark chill winter bastard though dry”

    (Éramos eu, ou seja, Alex, e meus três druguis, ou seja, Pete, Georgie e Tosko, Tosko porque ele era muito tosco, e estávamos no Lactobar Korova botando nossas rassudoks pra funcionar e ver o que fazer naquela noite de inverno sem vergonha, fria, escura e miserável, embora seca.)

    Apenas pelo contexto, podemos inferir que druguis significa amigos e rassudok significa pensar, ou planejar. No entanto na versão original em inglês também podemos ver um experto jogo de palavras, uma associação livre de palavras sobre como eles deveriam estar sentindo-se quanto à noite de inverno, mas que na tradução a associação de palavras foi explicada, numa tentativa de facilitar a leitura ou por simples falha do tradutor. Dim, traduzido como Tosko em português (ou Tapado, como encontrei em outras edições), na verdade seria algo como turvo, ou embaçado, sendo que a associação à condição intelectual do amigo de Alex é um tanto mais sutil em inglês. Portanto, parte da genialidade de Burgess perde-se na tradução, o que é triste mas nada muito grave para os leitores das edições traduzidas.
    Para quem não tem muita paciência para decifrar o contexto, a utilização do glossário no fim do livro pode ajudar bastante, pelo menos inicialmente até que o leitor assimile o novo vocabulário, no entanto esse glossário não fazia parte da obra original de Burgess, tendo sido incluído na edição americana de 1963 devido à pressões editoriais. A intenção do autor era justamente criar uma forte sensação de estranhamento, jogando o leitor de forma súbita em um universo jovem, violento e de difícil compreensão.

  • Simbolismos
    Todo o livro é permeado por simbolismos que giram em torno do tema da liberdade de escolha, do livre arbítrio. A trama, a caracterização dos eventos, o discurso de Alex, tudo que está no livro gira em torno da livre arbítrio. Isso fica mais evidente quando Alex inscreve-se no tratamento Ludovico, e com isso abandona sua liberdade de pensamento em troca da oportunidade de reinserir-se na sociedade, e claro, ele irá se arrepender de abdicar de sua liberdade de pensamento.
    O nadsat também pode ser visto como um simbolismo ligado à liberdade e imaturidade da juventude. No último capítulo, quando Alex reencontra um antigo drugue e companheiro de ultraviolência percebemos que ele abandonou o uso do nadsat, e começou a falar como um adulto, o que é uma amostra do simbolismo entre nadsat e imaturidade.
    O próprio número de capítulos, 21, é um simbolismo para indicar a idade em que alguém tornaria-se um adulto.
    Todo esse simbolismo desempenha um papel essencial no livro, e certamente Anthony Burgess inseriu-o de forma a possibilitar que qualquer leitor identifique a mensagem, não é um simbolismo oculto, a mensagem do autor é clara.

Um clássico da literatura inglesa, que gerou um dos melhores filmes do século passado, Laranja Mecânica é uma excelente obra, uma ficção social cujos temas abordados continuam atuais mesmo no nosso tempo: violência gratuita e deliberada, uma sociedade que prefere afastar os jovens ou lobotomizá-los à tentar reinseri-los no convívio social, a tentativa de buscar de uma cura para a violência através da criação de robôs morais, além da hipocrisia dos pais e educadores ao absterem-se da responsabilidade na criação de seus filhos. Por esses motivos, e também pela forma extremamente inteligente como Burgess escreveu o livro com um estilo único, recomendo sua leitura!

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

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Fahrenheit 451

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Fahrenheit 451
  2. Nome do autor: Ray Bradbury
  3. Tradutor: Knipel, Cid
  4. Nome da editora: Biblioteca Azul
  5. Lugar e data da publicação: Brasil, 2012
  6. Número de páginas: 215
  7. Primeira publicação: 1953
  8. Gênero: Ficção Científica Soft
  9. Nota: ★★

Fahrenheit 451 é um clássico da ficção científica soft, gênero em que a trama e o tema focam mais no desenvolvimento psicológico dos personagens, seus relacionamentos e sentimentos enquanto detalhes tecnológicos ou científicos ficam em segundo plano ou até mesmo são completamente ignorados.
Bradbury escreveu esse livro no início da guerra fria, o que talvez explique seu profundo descontentamento com o caminho que a sociedade americana vinha seguindo e nos apresentando um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas, e o pensamento crítico foi suprimido. O personagem central, Guy Montag, trabalha como “bombeiro” mas ao contrário dos bombeiros que conhecemos, os bombeiros de sua distopia são os responsáveis por queimar livros (e até as pessoas que os possuem).

O título Fahrenheit 451 sugere que essa é a temperatura em que o papel entraria em combustão. Muitos consideram essa informação incorreta, mas ao verificar as temperaturas de auto ignição podemos notar que o autor utilizou quase exatamente a temperatura média para a auto ignição do papel:

(424–475)/2 °F = 449,50 °F

Alguns interpretam o livro como uma crítica à censura, outros como um retrato de uma sociedade distópica, controlada por um estado totalitário. Eu considero o livro  muito mais uma crítica à sociedade moderna, à TV e a cultura de massa, do que a um estado totalitário, o que foi confirmado pelo próprio autor várias vezes.  Não se trata do estado proibindo os livros e controlando a vida das pessoas, como em 1984 de George Orwell, mas muito mais de uma sociedade onde cada indivíduo desistiu de sua liberdade e exerce o controle sobre si mesmo.
Talvez a crítica de Bradbury à TV e a sua influência estupidificante seja um pouco exagerada, pois todas sociedades sempre buscaram entretenimentos estúpidos. Posso citar rapidamente as arenas de lutas, festas populares onde é imperativo se entorpecer, e as peças de teatro ou até mais recentemente os filmes, novelas e séries de TV que normalmente são obras pouco edificantes.
Bradbury não percebeu que a leitura sempre foi um nicho frequentado  por minorias, não é um fenômeno moderno o fato das pessoas lerem pouco. Na tabela abaixo compilei os dados da pesquisa do NOP World Culture Score:

Horas lidas2

Pela tabela acima podemos perceber, por exemplo, que os brasileiros gastam 5,2 horas semanais com leitura, 18,4 com TV, 10,5 com Internet e 17,2 com rádio. Mas esse problema é global, podemos também perceber que nenhum país no mundo lê mais do que assiste TV.
Mesmo considerando essa baixa média de leitura global, atualmente existem mais livros publicados do que a soma de tudo já foi feito desde que as primeiras civilizações começaram a utilizar a escrita. Hoje considera-se que existam mais de 130 milhões de livros publicados, mesmo considerando a lei de Sturgeon que classifica como lixo 90% de tudo que é publicado, ainda assim teríamos mais de 13 milhões de livros que valeriam a pena ser lidos!
Bradbury sugere que a leitura seria completamente abolida devido à TV, o que não aconteceu. Até mesmo a internet mostrou-se um meio que facilita enormemente o acesso a livros, inclusive possibilitando a leitura e download de clássicos de forma gratuita.
Bradbury considera nesse livro a TV como uma forma de cativar mentes simplórias e destruir interações sociais, o que é uma simplificação grosseira.
Eu considero as várias formas de difusão de cultura (livros, cinema, TV, rádio e agora internet) como meios complementares de distribuição. Uma pessoa que lê mais não é necessariamente mais desenvolvida ou inteligente que uma assiste mais TV. A comparação Coréia x Brasil é um excelente exemplo disso: mesmo considerando que os brasileiros leem mais que os coreanos, somos enormemente mais atrasados e nossa educação é muito inferior em relação a deles. Ou seja, leitura não é garantia de desenvolvimento cultural e educacional. Uma pessoa pode passar a vida lendo livros como os da Suzane Collins ou da série Sabrina que seria tão culta quanto outra que passou a vida assistindo novelas na TV, é um erro culparmos a mídia pelo valor de uma mensagem. O que nos torna mais informados ou mais educados não é o ato de ler em si, mas sim o quê estamos lendo e como interpretamos isso.
De qualquer forma Fahrenheit 451 é um excelente livro, que nos faz questionar a cultura de massa e o consumismo, recomendo a leitura!

Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial – Philip K. Dick

fluam minhas lágrimas disse o policial

Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial (Título original: Flow My Tears, The Policeman Said em Portugal: Vazio Infinito e Identidade Perdida, No Brasil também publicado como: Identidade Perdida – O Homem que Virou Ninguém) é um romance de ficção científica escrito por Philip K. Dick e publicado em 1974,  tendo recebido o primeiro prêmio do John W. Campbell Memorial Award de melhor romance de FC em 1975. Foi também indicado para o Prêmio Nebula em 1974 e para o Prêmio Hugo em 1975.
É uma estória sobre um cantor de música pop e astro de um show de televisão geneticamente modificado (Jason Taverner) que, após o ataque de uma antiga namorada, acorda em um hotel barato de um bairro pobre e descobre que perdeu sua identidade –  literalmente, pois não apenas está sem documentos, como ninguém mais o conhece, sua existência foi completamente apagada. A estória transcorre numa distopia futura, onde os EUA tornaram-se um estado policial opressor depois de uma Segunda Guerra Civil, e mostra a tentativa de Jason em recuperar sua identidade e tentar entender o que aconteceu com sua vida.
Assim como em outros livros de Philip K. Dick, ele mostra que não dá a mínima para questões tecnológicas em suas visões do futuro, ao contrário de outros autores de sua época, como Arthur C. Clarke, que seguiram pelo ramo da ficção científica hard. Por exemplo, ele retrata carros voadores como coisas populares nos anos 80, no estilo do desenho animado Jetsons e LPs  de vinil são mostrados como a forma definitiva de gravação e reprodução musical.  Mas o valor de Philip K. Dick não são suas previsões tecnológicas, mas sim suas ideias e Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial é um livro cheio de ideias.
O mundo distópico imaginado por Philip K. Dick é uma sociedade policial opressora onde os estudantes universitários vivem escondidos nos subterrâneos das universidades, que estão sitiadas, onde pessoas são enviadas para campos de trabalho forçado ou executadas. Os negros tiveram seus direitos cassados, e os poucos que restaram foram esterilizados.
A prosa de Dick segue seu estilo utilitário que é comum em outros de seus livros, e todos os personagens parecem estar sob influência de drogas em algum nível. Isso não é uma crítica ao estilo do autor, apenas considero isso como parte de seu estilo, ajuda a compor a estranheza inerente a seus livros. Em determinado momento, por exemplo, Jason Taverner subitamente e sem nenhuma razão aparente diz que uma mulher com que acabou de passar a noite parece muito velha para sua idade e recebe uma pancada na cabeça como prêmio. Em outro momento, o chefe da polícia que está caçando Jason Taverner desce em um posto de gasolina no meio do nada e ao ver um dos poucos negros sobreviventes desenha um coração com uma flecha no meio para entregar ao homem, e depois debulha-se em lágrimas e o abraça.
Espero que as predições de futuro totalmente furadas de Philip K. Dick não dissuadam ninguém de ler esse e outros livros do autor, pois considero que o trabalho de um bom autor de FC não é predizer o futuro mas sim prover material para refletirmos sobre a vida.
Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial é um excelente livro que cumpre bem esse papel, fazendo com que questionemos a nossa realidade e a forma como percebemos nós mesmos e os outros e como nossa percepção afeta nossas relações sociais e relacionamentos pessoais

Os Despossuídos – Ursula K. Le Guin

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Mais uma capa horrível típica dos anos 70… Não se deixem enganar por ela!

Os Despossuídos (The Dispossessed: An Ambiguous Utopia) é um romance de ficção científica utópica/distópica escrito em 1974 por Ursula K. Le Guin, e sua estória situa-se no mesmo universo ficcional de A Mão Esquerda da Escuridão (veja o review aqui). O livro recebeu o prêmio Nebula em 1974 e os prêmios Hugo e Locus em 1975. É considerado um trabalho de ficção científica pouco usual, por explorar várias ideias e temas, incluindo anarquismo, sociedades revolucionárias, capitalismo, individualismo e coletivismo além da Hipótese Sapir-Whorf. Essa hipótese foi criada nos anos 30 pelos linguistas Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, que chegaram a uma tese que é a base do relativismo linguístico, que pode ser a grosso modo resumida da forma: as pessoas vivem de acordo com suas culturas em universos mentais muito diferentes entre si, sendo que esses universos mentais são exprimidos (e até determinados) pelas línguas que as pessoas falam. Desse modo, o estudo das línguas que as pessoas falam pode levar à elucidação da concepção do universo mental dessas culturas. Essa tese foi muito influente entre antropólogos, psicólogos e linguistas nos anos 40 e 50, e apesar de enfraquecida pela corrente cognitiva e de ser refutada por diversos estudiosos, até hoje a teoria ainda é importante.

Contexto do Livro e do Ciclo Hainish

O livro Os Despossuídos apresenta a teoria fictícia envolvendo o ansible, um dispositivo de comunicação instantânea que tem um papel crítico no Ciclo Hainish de Le Guin. A invenção do ansible coloca esse livro no início da cronologia interna do ciclo, apesar de ter sido o quinto livro a ser publicado, portanto a ordem dos livros é a seguinte:

  1. Os Despossuídos (The Dispossessed) – 1974;
  2. Floresta é o Nome do Mundo (The Word for World Is Forest) – 1976;
  3. Rocannon’s World – 1966;
  4. Planet of Exile -1966;
  5. City of Illusions – 1967;
  6. A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) – 1969;
  7. The Telling – 2000;
    (Veja mais detalhes sobre o Ciclo Hainish e A Mão Esquerda da Escuridão neste outro review).

A estória de Os Despossuídos é ambientada nos mundos de Anarres e Urras os planetas gêmeos habitados por seres humanos em Tau Ceti.

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Urras é dividido em vários estados que são dominados por dois dos maiores, que são rivais, numa clara referência aos EUA e URSS, pois um é capitalista  e patriarcal e o outro é um sistema autoritário que governa em nome do proletariado. As relações dos dois blocos é conturbada, da mesma forma como o nosso cenário político mundial na época da guerra fria. As diferenças sociais em Urras são gritantes: o governo representa os ricos e governa para os ricos, que garantem que os pobres recebam apenas um mínimo suporte e educação do estado. As tensões sociais levaram a uma revolução 150 anos atrás — mas no lugar do resultado tradicional que seria a deposição dos opressores, os revolucionários decidiram fundar sua própria sociedade ideal em um planeta próximo a Urras, chamado de Annares, onde então fundou-se uma sociedade anarquista baseada nos princípios do bem comum, responsabilidade e bens compartilhados. Superficialmente essa sociedade funciona. Mas no início do livro logo percebemos que as coisas não estão indo tão bem assim. Os ideais da revolução estão estagnados. Novas ideias surgem e são temidas, enquanto pessoas gananciosas e egoístas (conhecidas como ‘proprietarianos’, na linguagem que eles criaram) começam a ganhar poder. O descontentamento está crescendo.
Um jovem e brilhante físico chamado Shevek está empreendendo uma viagem de Annares para Urras, sendo que no livro isso é mostrado alternando-se capítulos pares e ímpares entre os dois mundos, onde podemos acompanhar sua crescente desilusão com as duas sociedades. Essa estrutura de alternância entre os mundos, assim como tudo mais nesse livro, serve à um propósito: Shevek está criando a ‘teoria da simultaneidade’ que meche com as ideias de tempo, começo e fim, com o passado acontecendo ao mesmo tempo que o presente. Portanto não estranhe essa estrutura dos capítulos, tudo faz parte do plano de Le Guin.
Em Annares descobrimos que os poderosos não gostam da teoria da simultaneidade porque ela promete fornecer um método de comunicação instantânea que acabaria acabando com sua providencial isolação. Já em Urras descobrimos que o interesse dos poderosos é em conseguir utilizar a tecnologia para esmagar as outras sociedades existentes nos demais planetas humanos. Shevek acaba sendo confrontado com uma série de dilemas morais que Le Guin explora com muita competência.
Um dos maiores méritos de Ursula K. Le Guin é conseguir criar uma espécie de laboratório fictício para estudar como uma sociedade anarquista, que lembra uma comunidade hippie dos anos 70, poderia funcionar (ou não funcionar). O livro é cheio de insights sobre a natureza da liberdade, do livre arbítrio, vida em comunidade, poder e igualdade.
A linguagem falada em Annares, o pravic, foi construída para refletir os aspectos e fundamentos do anarquismo utópico. Por exemplo, não existem palavras para descrever conceitos simples do capitalismo como a propriedade privada, o uso de pronomes possessivos é extremamente desencorajado (vem daí o título do livro!), crianças são treinadas para falar apenas sobre assuntos que possam interessar à coletividade. Uma personagem diz em determinado momento “você pode compartilhar o lenço que eu uso,” no lugar de “Você pode usar o meu lenço” como diríamos normalmente. Tudo isso é uma excelente representação da Hipótese Sapir-Whorf, ou seja, da ideia de que a linguagem pode definir o universo mental e a cultura de uma sociedade. Uma prova do talento da autora é justamente o fato dela ter conseguido fazer essa hipótese funcionar no livro.
Qualquer um que leia um livro de Le Guin percebe rapidamente que a autora escreve bem. Sim, é verdade que muitas vezes a prosa é densa demais, obscura em alguns pontos e até mesmo ocasionalmente absurda; ela simplesmente não se preocupa em facilitar a vida do leitor. Mas encontrei no livro algumas belas descrições da vida em Annares, dos horrores e alegrias em Urras. Temos também uma belo gancho romântico envolvendo Shevek, que evolui delicadamente. Mas Shevek também pode ser considerado o ponto fraco do livro, pois Le Guin não consegue convencer muito que tal personagem possa ser real: A incapacidade dele perceber as falhas do modelo odonista e em reconhecer que o ideal seria um meio termo entre os sistemas existentes em Urrás e Anarres persiste até os momentos finais do livro, o que parece muito estranho ao leitor.
Encontrei também alguns elementos do feminismo que permeia toda a obra da autora, assim como expliquei melhor na análise de A Mão Esquerda da Escuridão.
Uma das melhores características de um bom trabalho de ficção científica é a criação de sistemas sociais para ver como eles poderiam se comportar, e isso foi feito de forma extremamente competente nesse livro.

Um Caso de Consciência – James Blish

imageFoto da capa da  primeira edição em português de 1962, que encontrei no Livreiro dos Araças: um verdadeiro achado! 

Um Caso de Consciência (A Case of Conscience) é um romance de ficção científica escrito por James Blish e publicado pela primeira vez em 1958, tendo recebido o Prêmio Hugo de melhor romance em 1959.
Trata-se de um livro muito peculiar, que classifico como uma aventura filosófica em um cenário de ficção científica. É um livro admirável e inesquecível, um dos melhores que li nos últimos tempos!
James Blish criou uma história muito interessante, com uma narrativa agradável e inteligente, personagens muito interessantes e discute temas ainda melhores como os conflitos entre ciência e religião além de questões filosóficas e teológicas pouco comuns neste tipo de literatura.
O livro está dividido em duas partes, na primeira uma expedição de quatro pesquisadores (o físico Cleaver, o Padre Jesuíta e biólogo peruano Ramon Ruiz-Sanchez, o geólogo Agronski e o químico Michaelis) está no paradisíaco planeta Lithia, que possui um clima ameno e imutável, uma fauna e flora exuberante e estranhamente pacífica, onde até mesmos bactérias e vírus não apresentam comportamento agressivo, e uma espécie inteligente muito evoluída, bípede, com cerca de três metros de altura e aparência que lembra as nossas cobras.
Esses alienígenas vivem em paz, não enfrentam conflitos ou dúvidas existenciais, desconhecem o significado da maldade e do crime, estão em perfeito equilíbrio social e com a natureza. A tecnologia deles é diferente da nossa: devido o elemento ferro ser muito raro em Lithia, eles desenvolveram motores e tecnologia baseada em eletricidade estática, além de possuírem uma tecnologica de cerâmicas, genética e farmacologia superioras à terrestre.
Os cientistas estão prestes a terminar a expedição, e reúnem-se para fazer suas considerações para seus superiores quanto a possibilidade de abrir o planeta para a exploração, colonização ou até a proibição devido a algum perigo.
A segunda parte do livro acontece em um planeta Terra decadente e distópico, onde o pavor de uma guerra nuclear levou a humanidade a criar cidades subterrâneas (abrigos) e que agora é incapaz de sair do subterrâneo para levar uma vida normal mesmo após o risco de uma guerra nuclear estar completamente eliminado.
Um ovo de um alienígena é levado para a Terra (um presente dos aliens) e ao crescer cria uma comoção social que pode levar a sociedade humana à rever seus conceitos e estilo de vida.
Alguns consideram que o livro está cheio de erros teológicos e científicos (por exemplo, em determinado momento quando o físico Cleaver está doente o Padre Ramon o alimenta aplicando um soro intravenoso de suco de frutas), mas mesmo assim é um livro muito bom.
O estilo de escrita é envolvente, é fácil esquecer os absurdos e prosseguir a leitura considerando as imprecisões ou erros como deslizes leves e perdoáveis até pelo leitor mais exigente.
A estória tem aliens que são alienígenas genuínos, com uma biologia estranha à nossa, um ciclo de vida sem paralelo com qualquer ser vivo da Terra.
O padre jesuíta Ramon, ao estudar a biologia, o ciclo de vida e a ética e moral da inteligente espécie alienígena chega a vários dilemas teológicos que chocam-se com sua visão maniqueísta:

  1. Como é possível que uma espécie tão evoluída tenha chegado a uma moral equivalente à cristã mesmo sendo totalmente racional e livre da fé?
  2. A razão bastaria como guia?
  3. A fé e a caridade é desnecessária às boas obras?
  4. A ética pode existir sem a alternativa da existência do mal?
  5. A bondade pode existir sem Deus?
  6. Isso tudo não seria o que o Diabo propôs?

Assim ele conclui que na verdade o planeta inteiro é uma tentação criada pelo Diabo,  e que o paraíso de Lithia na verdade seria o Inferno, portanto seria melhor que o planeta fosse declarado território proibido para a humanidade.
O que mais choca o Padre Ramón é que mesmo guiando-se pelos preceitos cristãos, os alienígenas desconhecem o conceito de Deus ou alma, portanto ele os vê como uma ameaça para os seres humanos.
Uma leitura agradável, estimulante, que trata de temas muito interessantes com competência. Recomendo a leitura!

A Nova Utopia – Jerome K. Jerome

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Jerome Klapka Jerome (1859 – 1927) foi um escritor e humorista inglês, mais conhecido por seu livro Three Men in a Boat (1889).

A estória curta The New Utopia (1891) pode ser considerada o berço do gênero da literatura que utiliza as distopias como cenário, onde as obras mais conhecidas são 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.
Como não encontrei tradução para o português, traduzi o original encontrado aqui, e montei o arquivo em epub e mobi.  Como trata-se de material de domínio público, sinta-se a vontade para copiar meu trabalho de tradução abaixo, apenas peço que não o utilize para fins comerciais! Peço também que me desculpem por algum erro de tradução, e considerem que não sou profissional, fiz o trabalho apenas por amor à literatura. Críticas e sugestões de correções serão muito bem vindas!

A Nova Utopia – epub

A Nova Utopia – mobi

Também publiquei o livro na Amazon, se você gostou do texto ou se preferir receber diretamente no seu Kindle, compre através do link abaixo. Eu coloquei o menor preço possível (R$2,61), apenas para disponibilizar outra forma de distribuição pela internet. Eu não estou buscando ganhar dinheiro com isso, juro que tentei colocar ele gratuitamente, a Amazon que não permitiu!

A Nova Utopia – Link para compra na Amazon

Introdução ao roteiro

O primeiro romance distópico – Nós – foi escrito entre 1920 e 1921 pelo escritor russo Yevgeny Zamyatin, como já escrevi anteriormente aqui, e pode-se ver claramente que a inspiração para Nós veio do trabalho de Jerome K. Jerome, assim como 1984 de George Orwell foi fortemente inspirado no trabalho de Zamyatin.

A estória começa com um grupo aristocrata “progressista” reunido no Clube Nacional Socialista, onde após um jantar  requintado com faisão recheado com trufas, regado com um vinho caríssimo, e excelentes charutos, o grupo de amigos “progressistas” faz uma instrutiva discussão sobre igualdade do homem e a nacionalização do capital.
O autor faz uma bem humorada crítica aos “avançados” socialistas, que enquanto pregam a igualdade e divisão da riqueza se refastelam com as melhores comidas e bebidas.
O narrador, apesar de não estar muito familiarizado com a retórica socialista, abraça integralmente o que é discutido e também considera que o mundo deveria ser reconstruído segundo essa ótica da igualdade e estatização dos meios de produção.
Depois da noitada ele cai esgotado na cama, e leva um susto ao acordar mil anos no futuro, dentro de uma redoma de vidro em um museu.
Ele descobre que o deixaram exposto todo esse tempo, apenas para verem até quando ele ficaria dormindo.
Um velho cavalheiro gentilmente o acompanha pela cidade, mostrando como o mundo tornou-se uma maravilhosa utopia socialista.

Considerações sobre o livro

O autor usa bastante humor e ironia para retratar essa Nova Utopia, mostrando que na verdade os ideais socialistas podem levar não só ao fim da liberdade, como a eliminação de tudo que existe de bom no ser humano, como a ambição, a criatividade e a alegria de viver. O personagem no fim de sua viagem ao futuro compara os homens desse futuro socialista à cavalos ou gado, mostrando que o principal objetivo dessa Nova Utopia é eliminar a alma humana.
Uma excelente estória curta, recomendo muito a leitura! Se você não quiser gastar na Amazon, baixe através dos outros links que disponibilizei!

Nós – Yevgeny Zamyatin

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Nós é um romance distópico escrito entre 1920 e 1921 pelo escritor russo Yevgeny Zamyatin. A estória é narrada por um matemático que conta para um interlocutor no passado como é a sua sociedade perfeita, porém profundamente opressora,  em que vive no século XXX.
Ao tomar contato com um grupo opositor que luta contra o ¨Benfeitor¨, o regente supremo do Estado Único, o narrador passa por conflitos ao perceber as imperfeições desse sistema que julgava até então perfeito.
O autor inspirou-se na revolução russa de 1905 e 1917 e no período em que trabalhou supervisionando a construção de navios na Inglaterra.
O livro foi publicado pela primeira vez em 1924, em inglês, nos EUA,  mas ficou censurado na URSS até a abertura do regime soviético em 1988.

Introdução ao Roteiro

Mil anos depois do Estado Único conquistar o mundo inteiro, uma espaçonave chamada Integral está sendo construída para invadir e conquistar planetas extraterrestres.
O engenheiro chefe do projeto, chamado D-503, começa a escrever um relato que pretende que seja levado junto com a espaçonave Integral.
Como todos os outros cidadãos do Estado Único, D-503 vive em um apartamento de vidro que é cuidadosamente observado pela polícia secreta, ou Bureau dos Guardiães. A amante de D-503, que foi designada pelo Estado Único a ter encontros íntimos regulares com ele, é O-90, que é considerada inadequada para ter filhos, e é afligida pelo sua condição na vida.
O-90 é amante também de R-13, o melhor amigo de D-503. Os encontros íntimos são prerrogativa do Estado Único, e cabe a este a escolha dos parceiros.
Enquanto realizava uma caminhada programada com O-90, D-503 encontra uma mulher chamada I-330. É uma mulher estranha para os seus padrões, pois fuma, bebe álcool e flerta desenvergonhadamente com D-503 no lugar de fazer uma requisição formal para um encontro sexual, o que é considerado altamente ilegal pelas leis do Estado Único.
Ao mesmo tempo sentindo repulsa e atração, D-503 luta para resistir a essa atração por I-330.
I-330 o convida para visitar a Casa da Antiguidade, famosa por ser o único prédio opaco do Estado Único, exceto por suas pequenas janelas. Nesse prédio encontram-se objetos de importância histórica, recolhidos e armazenados lá ao longo do tempo. Lá I-330 oferece a ele o serviço de um médico corrupto para fornecer um atestado médico falso que justifique sua ausência no trabalho. Deixando o local horrorizado, D-503 pretende denunciá-la ao Bureau dos Guardiães, mas acaba não conseguindo realizar seu intento.
D-503 começa a ter sonhos noturnos, o que também é considerado um sinal de doença mental, e a passar por conflitos em relação ao que acredita quando começa a ter contato com um grupo que pretende destruir o Muro Verde e reunir os cidadãos do Estado Único com o mundo exterior.

Considerações sobre o livro

Nós é uma sátira futurista distópica, sendo considerada uma das três obras que criaram o gênero, junto com A Nova Utopia, de Jerome K. Jerome, de 1891, e O Tacão de Ferro, de Jack London de 1900.
O livro leva aos extremos os aspectos totalitários e o conformismo da sociedade industrial moderna, descrevendo um Estado que considera que o livre arbítrio é causa da infelicidade e que a vida dos cidadãos deve ser controlada com precisão matemática, inspirada nos sistemas de precisão industrial criados por Frederick Winslow Taylor no século XX.
Zamyatin produziu várias inovações literárias, como os paralelos traçados com a matemática, e é muito curioso a forma como o personagem principal foge de imprecisões e tem pavor de números irracionais. O autor foi muito criativo descrevendo um ambiente de casas, e quase todo tipo de construção, de vidro e materiais transparentes, onde todos estão sempre visíveis e são vigiados por todos os demais.
Em alguns momentos permite-se o fechamento de persianas para algum momento de privacidade, mas são momentos raros e controlados.

Influência nas obras 1984 e Admirável Mundo Novo

George Orwell começou a escrever 1984 alguns meses após ler a tradução francesa de Nós e escrever uma resenha sobre a obra. Existem registros de Orwell dizendo que ” iria tomá-la como modelo para seu próximo romance”.
O crítico Robert Russell, no livro Zamiatin’s We, conclui que ¨1984 partilha tantas características com Nós que não pode haver dúvidas quanto à sua divida geral com esta¨, embora alguns outros críticos considerem as semelhanças superficiais, e que o livro de Orwell é mais sombrio, esquemático e temático que o de Zamyatin, faltando o humor irônico que permeia a obra russa.
Orwell disse que considerava Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, de 1932, como parcialmente derivado de Nós. Contudo, Huxley afirmava ter escrito sua obra muito antes de ter ouvido falar em Nós.
De qualquer forma, todos inspiraram-se na obra de Jerome K. Jerome, A Nova Utopia de 1891, que descreve um mundo abarcado pelo pesadelo do igualitarismo, onde os habitantes são quase indistintos em seus uniformes cinza e todos têm cabelos pretos e curtos, naturais ou tingidos. Ninguém recebe nomes, apenas números costurados em suas túnicas: pares para mulheres e ímpares para os homens, assim como na obra Nós. A igualdade de A Nova Utopia é levada a extremos como cirurgia para redução de membros, coisa que Zamyatin sugere como a cirurgia de nivelamento de nariz, e indivíduos com imaginação superativa são submetidos a cirurgia para sua redução, o que também tem paralelo em Nós.

A Revolta de Atlas – Ayn Rand

A Revolta de Atlas

A Revolta de Atlas foi publicado pela primeira vez em 1957, e no Brasil apenas em 1987 como Quem é John Galt? sendo considerada a obra prima de Ayn Rand na ficção. A estória usa elementos de mistério, romance e ficção científica mostrando muito da teoria do Objetivismo que Ayn Rand criou. A Revolta de Atlas é considerado o livro mais influente nos EUA, depois da Bíblia, pela Biblioteca do Congresso dos EUA.

Introdução ao Roteiro

O livro mostra um mundo distópico onde as pessoas mais capazes de produzir comercialmente, industrialmente e intelectualmente são cada vez são mais exploradas com impostos e regulamentações governamentais. A pressão sobre essas pessoas mais capazes chega ao ponto em que elas decidem se revoltar contra o controle e começam a desaparecer, causando o colapso de toda produção industrial e intelectual.
Os desaparecimentos evocam a imagem do Titã Atlas, recusando-se a continuar segurando o mundo sobre os ombros. Eles são liderados por John Galt, que foi o primeiro a se revoltar, decidindo ¨parar o motor do mundo¨, e inicia a convencer outras pessoas na mesma situação à interromper a produção.
John Galt mostra que a nova política social vigente no mundo, de destruição da iniciativa pessoal, contra o Motivo do Lucro, causará o colapso da sociedade.
O livro é usado por Ayn Rand para desenvolver o Objetivismo, teoria onde defende o Capitalismo, o Individualismo e o Racionalismo, e mostra os erros da regulação excessiva do governo e de políticas socialistas e assistencialistas.

Impressões pessoais

Tenho muita afinidade com a teoria do Objetivismo, de Ayn Rand, e conceitos como liberdades individuais, livre iniciativa e livre mercado. O livro é um excelente laboratório para pensarmos sobre as falácias do socialismo, sobre os perigos de um governo muito regulador  que se deixa levar por políticas assistencialistas.
O lucro é mostrado como uma força que impulsiona o ser humano e a sociedade à prosperidade e felicidade.
Quanto a qualidade literária Ayn Rand deixa um pouco a desejar, em alguns pontos a narrativa chega a ser enfadonha. Levei 4 dias para ler o discurso de 3 horas de John Galt, e foi um suplício apesar de alguns trechos interessantes. Não é uma leitura fácil!