Laranja Mecânica – Anthony Burgess

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)
  2. Nome do autor: Anthony Burgess
  3. Tradutor: Fábio Fernandes
  4. Nome da editora: Editora Aleph
  5. Data e local da primeira publicação: Inglaterra, 1962;
  6. Número de páginas: 192 páginas;
  7. Gênero: Romance Distópico;
  8. Sub Gênero: Ficção Científica Social;
  9. Nota: ★★★★★(5)

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) é um romance distópico escrito por Anthony Burgess em 1962, e adaptado por Stanley Kubrick para o cinema em 1971. É considerado um dos melhores romances da língua inglesa já escritos (nº 65 no ranking da Modern Library) tendo influenciado de forma considerável a cultura popular da segunda metade do século. É um livro relativamente difícil de ler, principalmente devido ao uso intensivo de gírias e neologismos que exigem atenção do leitor para entendê-las junto ao contexto, ou então consultas constantes à um glossário presente no final do livro.
O filme de Kubrick é considerado uma obra prima do cinema, e uma excelente adaptação da obra de Burgess, mesmo considerando que o roteiro foi baseado na edição americana, onde o último capítulo foi excluído da adaptação. O próprio Burgess criticou a remoção do último capítulo, mas considero a crítica injusta pois a edição americana foi autorizada por Burgess que cedeu à pressão dos editores americanos que achavam que o personagem principal não deveria passar por nenhum tipo de redenção devido aos crimes cometidos, tendo então concordado com a remoção do capítulo final. Por sua vez, Kubrick disse que só leu a versão original após ter concluído o roteiro do filme, e que considerava o último capítulo como um “capítulo extra” inconveniente e inconsistente com o restante do livro, e não gostava da visão do autor para a conclusão da história. Eu concordo com a opinião de Kubrick, também considero que o capítulo final é um tanto desnecessário, mas, polêmicas à parte, tanto o livro quanto o filme são geniais e merecem nossa atenção.

Uma breve análise do livro

  • Contexto da época
    Burgess escreveu o livro após retornar ao Reino Unido depois de uma longa estada no exterior, quando percebeu que a sociedade britânica passava por várias mudanças. Os jovens estavam desenvolvendo uma cultura permeada por música pop e comportamento radical, muitas vezes reunindo-se em gangues. O temor na Inglaterra era de que a delinquência juvenil começasse a sair de controle. Além desses fatores sociais da época, Burgess também foi influenciado pelo estupro de sua primeira esposa durante a Segunda Guerra Mundial por um grupo de soldados americanos bêbados. Burgess também afirmou que seu livro é uma crítica ao Behaviorismo (ou comportamentalismo), um conjunto de teorias que postula que o comportamento é o objeto de estudo mais adequado na psicologia.
  • Estilo
    Sem dúvida uma das coisas mais interessante e dignas de nota em Laranja Mecânica é o estilo único e inteligente empregado por Burgess. O livro foi escrito numa espécie de dialeto do inglês inventado pelo autor, o nadsat, que é falado pelos delinquentes. O vocabulário utilizado foi baseado na língua russa e no cockney, que é uma palavra utilizada para descrever os habitantes da zona leste de Londres, que possuem um dialeto e sotaques diferentes do restante dos londrinos, além do costume de expressarem-se em calão rimado, que faz um jogo de palavras com um caráter irônico e muitas vezes difícil de compreender até mesmo pelos demais londrinos. Acredita-se que o calão rimado surgiu entre os feirantes e pequenos criminosos nos fins do século XIX para dissimular suas atividades pouco lícitas do público geral e da polícia. Mais informações sobre calão rimado podem ser encontradas aqui. Alguns exemplos de expressões cockney em calão rimado:

    “Can you Adam and Eve it?” (Adam and Eve it = believe it)  → Você acredita nisso?
    “Use your loaf and think next time” (loaf of bread = head) → Use a cabeça e pense da próxima vez.
    “Hello me old china” (china plate = mate)  → Olá amigo.
    “Are you telling porkies?” (porkies = pork pies = lies) → Você está mentindo?
    “That’s an expensive looking whistle” (whistle and flute = suit) → Essa é uma roupa cara.

    O próprio título pode ter sido inspirado em uma expressão expressão cockney, As queer as a clockwork orange, que pode ser traduzido como “Tão estranho quanto uma laranja mecânica”. (No entanto, existem outras teorias para explicar o título, talvez essa não seja a correta, mas não vou me estender nessa polêmica!)
    Alex, o narrador da história, nunca tenta embelezar ou produzir efeitos dramáticos, ele nitidamente não está preocupado em chocar o leitor com seus atos de violência muito menos em tenta justificar suas ações, o que pode inicialmente parecer frieza dele, mas que podemos também encarar como um exemplo de sua honestidade (mesmo que seja para praticar atos violentos e deploráveis). Alex chega ao ponto de narrar os atos de violência com muitos detalhes, explicando quais golpes está desferindo em suas vítimas, ou quanto sangue está conseguindo tirar delas.
    Muito do tom do livro soa irreverente e imaturo, o texto está repleto de gírias e onomatopeias o que é um reflexo imaturidade do personagem. Podemos detectar uma nota extremamente sutil de angústia, como se Alex estivesse preso à um círculo vicioso e já tivesse aceitado sua situação no mundo em que vive sem questionamentos ou remorsos, o que fica acentuado após o tratamento que recebeu na prisão que o “curou” da violência.
    Uma prova do quanto Burgess é inteligente no uso do nadsat pode ser lido na segunda sentença do primeiro capítulo:

    “There was me, that is Alex, and my three droogs, that is Pete, Georgie, and Dim, Dim being really dim, and we sat in the Korova Milkbar making up our rassoodocks what to do with the evening, a flip dark chill winter bastard though dry”

    (Éramos eu, ou seja, Alex, e meus três druguis, ou seja, Pete, Georgie e Tosko, Tosko porque ele era muito tosco, e estávamos no Lactobar Korova botando nossas rassudoks pra funcionar e ver o que fazer naquela noite de inverno sem vergonha, fria, escura e miserável, embora seca.)

    Apenas pelo contexto, podemos inferir que druguis significa amigos e rassudok significa pensar, ou planejar. No entanto na versão original em inglês também podemos ver um experto jogo de palavras, uma associação livre de palavras sobre como eles deveriam estar sentindo-se quanto à noite de inverno, mas que na tradução a associação de palavras foi explicada, numa tentativa de facilitar a leitura ou por simples falha do tradutor. Dim, traduzido como Tosko em português (ou Tapado, como encontrei em outras edições), na verdade seria algo como turvo, ou embaçado, sendo que a associação à condição intelectual do amigo de Alex é um tanto mais sutil em inglês. Portanto, parte da genialidade de Burgess perde-se na tradução, o que é triste mas nada muito grave para os leitores das edições traduzidas.
    Para quem não tem muita paciência para decifrar o contexto, a utilização do glossário no fim do livro pode ajudar bastante, pelo menos inicialmente até que o leitor assimile o novo vocabulário, no entanto esse glossário não fazia parte da obra original de Burgess, tendo sido incluído na edição americana de 1963 devido à pressões editoriais. A intenção do autor era justamente criar uma forte sensação de estranhamento, jogando o leitor de forma súbita em um universo jovem, violento e de difícil compreensão.

  • Simbolismos
    Todo o livro é permeado por simbolismos que giram em torno do tema da liberdade de escolha, do livre arbítrio. A trama, a caracterização dos eventos, o discurso de Alex, tudo que está no livro gira em torno da livre arbítrio. Isso fica mais evidente quando Alex inscreve-se no tratamento Ludovico, e com isso abandona sua liberdade de pensamento em troca da oportunidade de reinserir-se na sociedade, e claro, ele irá se arrepender de abdicar de sua liberdade de pensamento.
    O nadsat também pode ser visto como um simbolismo ligado à liberdade e imaturidade da juventude. No último capítulo, quando Alex reencontra um antigo drugue e companheiro de ultraviolência percebemos que ele abandonou o uso do nadsat, e começou a falar como um adulto, o que é uma amostra do simbolismo entre nadsat e imaturidade.
    O próprio número de capítulos, 21, é um simbolismo para indicar a idade em que alguém tornaria-se um adulto.
    Todo esse simbolismo desempenha um papel essencial no livro, e certamente Anthony Burgess inseriu-o de forma a possibilitar que qualquer leitor identifique a mensagem, não é um simbolismo oculto, a mensagem do autor é clara.

Um clássico da literatura inglesa, que gerou um dos melhores filmes do século passado, Laranja Mecânica é uma excelente obra, uma ficção social cujos temas abordados continuam atuais mesmo no nosso tempo: violência gratuita e deliberada, uma sociedade que prefere afastar os jovens ou lobotomizá-los à tentar reinseri-los no convívio social, a tentativa de buscar de uma cura para a violência através da criação de robôs morais, além da hipocrisia dos pais e educadores ao absterem-se da responsabilidade na criação de seus filhos. Por esses motivos, e também pela forma extremamente inteligente como Burgess escreveu o livro com um estilo único, recomendo sua leitura!

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Serpente do Espaço – Vonda N. McIntyre

55 - Serpente do Espaço

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Serpente do Espaço (Dreamsnake)
  2. Nome do autor: Vonda N. McIntyre
  3. Tradutor: Margarida Gomes, Eduardo Gomes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 55;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1983
  6. Número de páginas: 264 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Sub Gênero: Ficção Científica Social
  9. Nota: ★★ (4)

Serpente do Espaço (Dreamsnake) é um romance de ficção científica escrito por Vonda N. McIntyre em 1978 e vencedor dos três prêmios mais importantes da ficção científica (Hugo e Locus de 1979 e Nebula de 1978), feito que foi igualado por apenas 13 livros até hoje, o que a coloca ao lado de autores consagrados como Asimov (Os Próprios Deuses), Clarke (Encontro com Rama), Le Guin (Os Despossuídos), Haldeman (Guerra Sem Fim) e Pohl (Gateway).
Não se deixe enganar pela capa e título — no pior estilo anos 70 — pois certamente esse livro merece um lugar de destaque entre os clássicos do gênero.
O livro conta a história de uma curandeira com o sugestivo nome Serpente (Snake) que vaga entre as tribos e clãs de um mundo devastado em um futuro distante, curando os doentes e trazendo conforto aos moribundos, utilizando-se do veneno de algumas cobras que leva consigo para produzir medicamentos. Logo no início uma de suas cobras, que é capaz de induzir torpor e alucinações em seres humanos, sua “cobra dos sonhos”, é morta. Ela então tentará encontrar uma nova cobra para substituí-la, e ao mesmo tempo irá ajudar muitas pessoas em seu caminho.
A história se passa na Terra, mas em um futuro pós-apocalíptico, muito diferente tanto tecnologicamente quanto socialmente do nosso mundo moderno: Uma guerra nuclear tornou vastas regiões da Terra radioativas demais para suportar a vida humana, mas a biotecnologia avançou bastante e a manipulação genética de plantas e animais é coisa rotineira.
Apesar de ter avançado em algumas áreas da ciência, como a biotecnologia, a humanidade regrediu a um tribalismo primitivo, e as tribos ou clãs encontram muitas dificuldades em meio a uma terra devastada, exceto em uma cidade murada e fechada que ignora completamente os clãs e vive em completo isolamento.
Vonda N. McIntyre construiu uma aventura repleta de idéias, utilizando uma prosa ágil, elegante mas sem excesso de ornamentação, bastante evocativa principalmente com suas descrições breves mas intensas dos cenários que conduzem o leitor diretamente ao estranho mundo desértico e devastado por uma guerra nuclear, mas que apesar disso ainda nos é familiar.
A autora abraça completamente a ideia de que a ficção científica deve ser um espelho da nossa sociedade contemporânea, e apesar de descrever um mundo que em muitos aspectos é mais primitivo que o nosso, ela pretende fazer com que questionemos o mundo em que vivemos. Mas, como esse livro foi escrito nos anos 70 ele é repleto de ideias de poliamorismo, bissexualismo,  amor livre e comunalismo, e isso pode causar certa estranheza ao leitor moderno. Recomendo a você um pouco de paciência e que evite entrar em questionamentos sérios que possam ser causados por sua perspectiva idiossincrática, e que evite tratar esse livro como uma leitura política ou ideológica, pois este livro não foi escrito como um crítica disfarçada à nossa realidade sociopolítica, ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.
De certa forma podemos considerar Serpente do Espaço como um livro que nada mais é que uma construção de mundo, sendo que a história é apenas uma desculpa para autora mostrar sua visão. Enquanto outros livros dedicam a narrativa a realizar a construção de mundos, neste livro a autora faz isso de forma muito delicada, em doses pequenas e diluídas no meio da tensão da narrativa. Muitas vezes podemos fazer falsas suposições, para logo em seguida percebermos que estávamos concluindo tudo de forma errada.
Uma das características que não considero uma falha, mas talvez uma fraqueza nessa obra é que existe uma clara divisão entre bons e maus. Os personagens maus não passam de seres desprezíveis que são obstáculos para os bons. E que maldades eles são capazes! São capazes até mesmo de cometer abuso sexual infantil. As pessoas boas são raras, mas muito prestativas e pouco reais. Uma coisa bem anos 70 nesse livro é a tendência que duas pessoas boas tem de se apaixonar à primeira vista, apenas porque são criaturas boas e raras. A personagem principal é sólida e bem construída, mas os demais personagens são muito superficiais e pouco convincentes. Essa superficialidade é uma fraqueza da autora, mas a história é tão original que facilita muito que a perdoemos por isso.
Serpente do Espaço é um livro muito estranho, diferente de tudo que existe no gênero, o que talvez explique nunca ter sido publicado no Brasil, mas você poderá encontrar com relativa facilidade em sebos online uma cópia da edição portuguesa.

Estranheza e méritos de Serpente do Espaço

  • Cobras:  Sim, o livro é repleto de cobras… cobras, cobras e mais cobras… para quem sofre de ofidiofobia este livro pode ser um pesadelo. A personagem principal, além de chamar-se Serpente possui várias cobras que são mais que instrumentos de trabalho, são verdadeiros bichinhos de estimação, que sobem em seu corpo, enrolam-se em seu pescoço e braços. A intimidade dela com as cobras é no mínimo estranha.
  • Controle de natalidade: Controle de natalidade via bio feedback. Sem dúvida uma ideia bastante imaginativa, e apreciada por muitos leitores de McIntyre que não gostam muito de ficção científica high-tech e da dominância do gênero masculino no gênero.
  • Casamentos entre três pessoas: Peguemos o exemplo de uma personagem, Merideth. Apesar da estranheza do nome (pronúncia equivalente à Merry + death, ou morte alegre), o mais interessante é que ela mostra uma característica curiosa da sociedade, os casamentos entre três pessoas. Merideth é casada com um homem e uma mulher… até aí tudo bem, mas quem são os maridos ou esposas? Ei, afinal Merideth é homem ou mulher? Nunca saberemos. Essa androginia e indefinição de papéis é uma característica interessante no livro, que infelizmente perdeu-se na tradução para o português, pois a tradutora em alguns trechos assumiu tratar-se de um homem, mas no original podemos nitidamente perceber a indefinição. Veja os trechos:

Beneath deep tan, Merideth was pale. “Then do something, help her!”
Em português:
Sob o seu tom escuro, Merideth estava pálido:
— Então faz qualquer coisa! Salva-a! (página 52)

“Dear Merry, Alex knows,” Jesse said. “Please try to understand. It’s time for me to let you go.”
Em português:
— Meu querido Merry, Alex tem razão — disse-lhe Jesse — Por favor, tenta compreender. É tempo de eu vos deixar ir. (página 57)

Eu entendo a dificuldade que seria manter essa indefinição entre masculino ou feminino no português, uma língua mais exigente quanto aos gêneros, mas a tradução acabou eliminando um aspecto muito interessante do livro ao determinar que Merideth é homem, o que a autora nunca fez.

  • Subversão através da simpatia: Fugindo dos meios tradicionais de subversão (força, ameça, terror, choque e dor) a autora apresenta uma nova forma de subversão através da bondade da protagonista, que está longe de ser sentimentalista ou cínica. O efeito dessa subversão é paradoxal, age de forma lenta e acaba sendo mais durável, e o leitor é a principal vítima da subversão de McIntyre!
  • Feminismo: De certa forma, o feminismo da autora é mais eficiente até que  o de Ursula K. Le Guin (veja minha análise de A Mão Esquerda da Escuridão), ao mostrar personagens femininos fortes, indefinição de papéis e gêneros, além dos casamentos livres de papéis pré-definidos pela sociedade. Apesar disso o trabalho de Le Guin é muito melhor conceituado que o de McIntyre.
  • Desconstrução de gêneros: Todas as nossas expectativas relacionadas à gêneros e seus papéis na sociedade, que estão solidificados em nossas mentes, são questionados de forma muito competente pela autora, expondo nossos preconceitos e abrindo nossas mentes. Essa desconstrução é típica da contracultura dos anos 70, mas mesmo assim ainda é interessante para o leitor moderno.

Avaliação do livro

  • Enredo: Possui alguns momentos emocionantes, mas em outros é a narrativa é um pouco lenta. História muito original e intrigante, focada mais no aspecto social que no tecnológico. Nota 4 (★★★★ ).
  • Personagens:  Os personagens ou são completamente bons, ou completamente maus, o que demonstra um pouco de superficialidade. Apesar disso a autora foi muito competente na caracterização deles. Nota 4 (★★★ ).
  • Narrativa: A prosa é elegante, mas sem exageros. Excelente ambientação e criação de mundo. Nota 5 (★★★).
  • Tradução: Existem erros de tradução na edição portuguesa, o mais grosseiro foi a remoção da indefinição do gênero do personagem Merideth. Nota 3 (★★★).
  • Geral: Certamente é um livro que merece ser lido, principalmente por sua originalidade, mas também por sua estranheza. Um verdadeiro clássico que vem sendo esquecido e ignorado há décadas por leitores brasileiros. Nota 4 (★).

Os Despossuídos – Ursula K. Le Guin

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Mais uma capa horrível típica dos anos 70… Não se deixem enganar por ela!

Os Despossuídos (The Dispossessed: An Ambiguous Utopia) é um romance de ficção científica utópica/distópica escrito em 1974 por Ursula K. Le Guin, e sua estória situa-se no mesmo universo ficcional de A Mão Esquerda da Escuridão (veja o review aqui). O livro recebeu o prêmio Nebula em 1974 e os prêmios Hugo e Locus em 1975. É considerado um trabalho de ficção científica pouco usual, por explorar várias ideias e temas, incluindo anarquismo, sociedades revolucionárias, capitalismo, individualismo e coletivismo além da Hipótese Sapir-Whorf. Essa hipótese foi criada nos anos 30 pelos linguistas Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, que chegaram a uma tese que é a base do relativismo linguístico, que pode ser a grosso modo resumida da forma: as pessoas vivem de acordo com suas culturas em universos mentais muito diferentes entre si, sendo que esses universos mentais são exprimidos (e até determinados) pelas línguas que as pessoas falam. Desse modo, o estudo das línguas que as pessoas falam pode levar à elucidação da concepção do universo mental dessas culturas. Essa tese foi muito influente entre antropólogos, psicólogos e linguistas nos anos 40 e 50, e apesar de enfraquecida pela corrente cognitiva e de ser refutada por diversos estudiosos, até hoje a teoria ainda é importante.

Contexto do Livro e do Ciclo Hainish

O livro Os Despossuídos apresenta a teoria fictícia envolvendo o ansible, um dispositivo de comunicação instantânea que tem um papel crítico no Ciclo Hainish de Le Guin. A invenção do ansible coloca esse livro no início da cronologia interna do ciclo, apesar de ter sido o quinto livro a ser publicado, portanto a ordem dos livros é a seguinte:

  1. Os Despossuídos (The Dispossessed) – 1974;
  2. Floresta é o Nome do Mundo (The Word for World Is Forest) – 1976;
  3. Rocannon’s World – 1966;
  4. Planet of Exile -1966;
  5. City of Illusions – 1967;
  6. A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) – 1969;
  7. The Telling – 2000;
    (Veja mais detalhes sobre o Ciclo Hainish e A Mão Esquerda da Escuridão neste outro review).

A estória de Os Despossuídos é ambientada nos mundos de Anarres e Urras os planetas gêmeos habitados por seres humanos em Tau Ceti.

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Urras é dividido em vários estados que são dominados por dois dos maiores, que são rivais, numa clara referência aos EUA e URSS, pois um é capitalista  e patriarcal e o outro é um sistema autoritário que governa em nome do proletariado. As relações dos dois blocos é conturbada, da mesma forma como o nosso cenário político mundial na época da guerra fria. As diferenças sociais em Urras são gritantes: o governo representa os ricos e governa para os ricos, que garantem que os pobres recebam apenas um mínimo suporte e educação do estado. As tensões sociais levaram a uma revolução 150 anos atrás — mas no lugar do resultado tradicional que seria a deposição dos opressores, os revolucionários decidiram fundar sua própria sociedade ideal em um planeta próximo a Urras, chamado de Annares, onde então fundou-se uma sociedade anarquista baseada nos princípios do bem comum, responsabilidade e bens compartilhados. Superficialmente essa sociedade funciona. Mas no início do livro logo percebemos que as coisas não estão indo tão bem assim. Os ideais da revolução estão estagnados. Novas ideias surgem e são temidas, enquanto pessoas gananciosas e egoístas (conhecidas como ‘proprietarianos’, na linguagem que eles criaram) começam a ganhar poder. O descontentamento está crescendo.
Um jovem e brilhante físico chamado Shevek está empreendendo uma viagem de Annares para Urras, sendo que no livro isso é mostrado alternando-se capítulos pares e ímpares entre os dois mundos, onde podemos acompanhar sua crescente desilusão com as duas sociedades. Essa estrutura de alternância entre os mundos, assim como tudo mais nesse livro, serve à um propósito: Shevek está criando a ‘teoria da simultaneidade’ que meche com as ideias de tempo, começo e fim, com o passado acontecendo ao mesmo tempo que o presente. Portanto não estranhe essa estrutura dos capítulos, tudo faz parte do plano de Le Guin.
Em Annares descobrimos que os poderosos não gostam da teoria da simultaneidade porque ela promete fornecer um método de comunicação instantânea que acabaria acabando com sua providencial isolação. Já em Urras descobrimos que o interesse dos poderosos é em conseguir utilizar a tecnologia para esmagar as outras sociedades existentes nos demais planetas humanos. Shevek acaba sendo confrontado com uma série de dilemas morais que Le Guin explora com muita competência.
Um dos maiores méritos de Ursula K. Le Guin é conseguir criar uma espécie de laboratório fictício para estudar como uma sociedade anarquista, que lembra uma comunidade hippie dos anos 70, poderia funcionar (ou não funcionar). O livro é cheio de insights sobre a natureza da liberdade, do livre arbítrio, vida em comunidade, poder e igualdade.
A linguagem falada em Annares, o pravic, foi construída para refletir os aspectos e fundamentos do anarquismo utópico. Por exemplo, não existem palavras para descrever conceitos simples do capitalismo como a propriedade privada, o uso de pronomes possessivos é extremamente desencorajado (vem daí o título do livro!), crianças são treinadas para falar apenas sobre assuntos que possam interessar à coletividade. Uma personagem diz em determinado momento “você pode compartilhar o lenço que eu uso,” no lugar de “Você pode usar o meu lenço” como diríamos normalmente. Tudo isso é uma excelente representação da Hipótese Sapir-Whorf, ou seja, da ideia de que a linguagem pode definir o universo mental e a cultura de uma sociedade. Uma prova do talento da autora é justamente o fato dela ter conseguido fazer essa hipótese funcionar no livro.
Qualquer um que leia um livro de Le Guin percebe rapidamente que a autora escreve bem. Sim, é verdade que muitas vezes a prosa é densa demais, obscura em alguns pontos e até mesmo ocasionalmente absurda; ela simplesmente não se preocupa em facilitar a vida do leitor. Mas encontrei no livro algumas belas descrições da vida em Annares, dos horrores e alegrias em Urras. Temos também uma belo gancho romântico envolvendo Shevek, que evolui delicadamente. Mas Shevek também pode ser considerado o ponto fraco do livro, pois Le Guin não consegue convencer muito que tal personagem possa ser real: A incapacidade dele perceber as falhas do modelo odonista e em reconhecer que o ideal seria um meio termo entre os sistemas existentes em Urrás e Anarres persiste até os momentos finais do livro, o que parece muito estranho ao leitor.
Encontrei também alguns elementos do feminismo que permeia toda a obra da autora, assim como expliquei melhor na análise de A Mão Esquerda da Escuridão.
Uma das melhores características de um bom trabalho de ficção científica é a criação de sistemas sociais para ver como eles poderiam se comportar, e isso foi feito de forma extremamente competente nesse livro.

A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. Le Guin

a mão esquerda

A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) é um romance de ficção científica de 1969 escrito pela escritora americana Ursula K. Le Guin, que recebeu pelo seu trabalho os Prêmios Hugo de 1970 e Nebula de 1969. Ele é parte do Ciclo Hainish, que ela começou a escrever em 1966, mas a autora nunca pretendeu escrever uma saga espacial nos moldes de Duna, pois nas sua próprias palavras:

“A coisa é que eles [os livros] não formam um ciclo ou uma saga. Eles não formam uma história coerente. Existem algumas conexões evidentes entre eles, sim, mas também algumas extremamente obscuras.”

De qualquer forma, quer ela pretendesse ou não escrever uma saga, os livros possuem uma ordem cronológica interna (diferente da ordem de publicação):

Nome do Livro Data de Publicação Local da estória Observações
Os Despossuídos
(The Dispossessed)
1974 (341 pág) Urras-Anarres (Tau Ceti); c.2300 AD

Prêmio Nebula (1974);
Prêmio Locus (1975);
Prêmio Hugo de Melhor Romance (1975);
Indicado ao Prêmio John W. Campbell (1975).

Floresta é o Nome do Mundo
(The Word for World Is Forest)
1976 (189 pág) Athshe/New Tahiti; c.2368 AD Prêmio Hugo de Melhor Novela (1973);
Indicado ao Nebula (1973);
Indicado ao Prêmio Locus (1973).
Rocannon’s World 1966 (117 pág) Rokanan (Fomalhaut II); c.2684 AD
Planet of Exile 1966 (113 pág) Werel (Gamma Draconis III); c.3755 AD
City of Illusions 1967 (160 pág) Terra; c.4370 AD
A Mão Esquerda da Escuridão
(The Left Hand of Darkness
1969 (286 pág) Gethen; c.4670 AD Prêmio Nebula (1969);
Prêmio Hugo de Melhor Romance (1970).
The Telling 2000 (264 pág) Aka Prêmio Locus, 2001;

A Mão Esquerda da Escuridão é o mais famoso livro a tratar de androginia na ficção científica, além de estar entre os primeiros livros do sub-gênero ficção científica feminista. Mas o trabalho de Ursula não é apenas uma curiosidade do gênero, ele pode ser considerado uma das maiores contribuições já feitas à literatura fantástica, tendo sido eleito pela revista Locus como o número dois no ranking dos melhores romances de ficção científica de todos os tempos, sendo o trabalho dela comparável ao de Tolkien, como definiu Harold Bloom em 1987:

“Le Guin, mais que Tolkien, elevou a fantasia ao nível da alta literatura no nosso tempo.”

Mas afinal o que é ficção científica feminista?
Abro aqui um parenteses para explicar melhor o papel do feminismo na ficção científica e fantasia. Trata-se de um sub-gênero da ficção científica que foca no papel das mulheres nas sociedades. A ficção científica feminista lida com questões sobre problemas sociais como: a forma como a sociedade constrói os gêneros, o papel da reprodução na definição dos gêneros e diferenças políticas e na relação com o poder entre homens e mulheres. Alguns dos trabalhos mais notáveis nesse gênero da ficção científica usam o recurso de utopias para mostrar uma sociedade onde não existe desequilíbrio entre gêneros na balança de poder ou relações sociais, ou então de distopias para mostrar uma sociedade onde as diferenças de gênero são intensificadas, reforçando a necessidade de um esforço feminista para acabar com as desigualdades.
Um dos primeiros trabalhos nesse gênero de ficção foi o de Mary Shelley com seu notável trabalho em Frankenstein (1818), que lida com a criação assexuada de uma nova vida, revendo de certa forma a estória de Adão e Eva.
Nos início dos anos 60 a ficção científica combinava sensacionalismo com críticas políticas e tecnológicas da sociedade. Nessa época surgiu a segunda do movimento feminista, primeiro nos EUA e depois no resto do mundo ocidental. Nos EUA o movimento prolongou-se até o início dos anos 80, ganhando força depois na Europa e parte da Ásia, como na Turquia e em Israel, onde o movimento começou apenas quando acabou nos EUA. Enquanto a primeira onda do feminismo focava em temas com sufrágio universal e remoção de obstáculos legais à igualdade de gêneros (voto para as mulheres e direitos à propriedade), a segunda onda do feminismo aumentou o debate para temas como: sexualidade, família, local de trabalho, direitos reprodutivos e igualdade de direitos civis. Na época as mulheres começaram a conquistar mais direitos no trabalho, no militarismo, na imprensa e esportes, em grande parte devido à ação desse movimento feminista de segunda onda. A ficção científica feminista da época começou a refletir essa segunda onda do feminismo, onde autoras como Ursula K. Le Guin (A Mão Esquerda da Escuridão, 1969), Marge Piercy (Woman on the Edge of Time, 1976) e Joanna Russ (The Female Man, 1970), encontraram um meio fértil para explorar, devido a vocação “subversiva e expansora de horizontes” que é característica da ficção científica.
Assim como essas outras autoras, Ursula K. Le Guin criou um mundo com uma sociedade sem gênero, como forma de destacar os papéis dos gêneros em nosso mundo. Ursula foi uma feminista crítica da ficção científica dos anos 60 e 70, como podemos ver em seus ensaios que estão reunidos em The Language of the Night (1979).

Introdução ao roteiro (sem spoilers)
Genly Ai, um nativo da Terra, é enviado como representante do Conselho Ecumênico ao planeta Gethen para tentar convencê-los a unirem-se à coalizão de mundos humanos.
Gethen é um planeta frio. Algumas vezes o planeta é chamado simplesmente de Inverno. A temperatura chega facilmente aos 50°C negativos em algumas regiões, na maior parte do ano, e facilmente abaixo disso no inverno. Em regiões de clima mais ameno a temperatura pode chegar aos 30°C em alguns dias no verão. Aparentemente a gravidade e a atmosfera são parecidas com a da Terra, pois o enviado Genly Ai não mostra sinais de desconforto em relação à isso. O eixo do planeta não é inclinado como o da Terra, mas a excentricidade da órbita produz fortes estações globais. Gethen está enfrentando uma Era do Gelo, mas alguns cientistas acreditam que ela está próxima do fim.
Os gethenianos são fisicamente e culturalmente adaptados ao frio; eles são de natureza mais robusta e de baixa estatura, conhecendo profundamente formas de se alimentar aproveitando ao máximo alimentos mais energéticos. A característica mais impressionante dos gethenianos é o aspecto sexual: eles são hermafroditas, possuindo um ciclo sexual entre 26 e 28 dias; por aproximadamente três semanas em cada mês eles são biologicamente neutros, e na última semana eles assumem a condição de machos ou então de fêmeas, sendo que a escolha do sexo é determinada por feromônios trocados com o parceiro sexual. Todos indivíduos são capazes de gerar filhos, e gestacionar crianças quando assumem a função feminina. A origem dos gethenianos é um mistério, mas alguns acreditam que foram produto de uma manipulação genética pelos Hain, a espécie que semeou muitos mundos que acabaram formando o Conselho Ecumênico, uma reunião de mundos que utiliza um dispositivo de comunicação do tipo ansible que permite comunicação instantânea através do espaço.
Inicialmente Genly faz pouco progresso, sendo auxiliado por Estraven, o primeiro ministro de Karhide, apesar de Genly não confiar nele. Após a tentativa frustrada em Karhide, Genly parte para o país vizinho, Orgoreyn.
Enquanto os karhideanos possuem um intricado conjunto de regras sociais não escritas e cortesias formais, e evitam tratar do motivo da visita diretamente com Ai, os orgorenianos são mais lógicos e tecnologicamente organizados. Eles provêm Ai com acomodações luxuosas e vão direto ao assunto. Mas apesar de Estraven o advertir para não acreditar nos orgorenianos, ele acaba ignorando o aviso pois não confia em Estraven,  e acaba sendo enviado para um campo de trabalhos forçados onde é submetido à várias sessões de interrogatórios sob indução de drogas.
Estraven acaba revelando-se o único amigo de Ai, e após realizar seu resgate ambos partem em uma viagem difícil de retorno até Karhide, através da geleira de Gobrin, em um dos trechos mais emocionantes do livro, em uma tentativa de cumprir a missão de Ai, reunindo Gethen ao Conselho Ecumênico.