O Feitiço de Áquila (Ladyhawk) – Joan D. Vinge

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O Feitiço de Áquila é uma novelização do clássico do cinema de 1985, escrito por Joan D. Vinge dois anos mais tarde.
Decidi ler esse livro antes de Snow Queen, o livro que garantiu um Prêmio Hugo à autora.
Normalmente filmes são adaptados a partir de livros, mas quando ocorre o contrário chamamos o livro de uma novelização do filme.
Eu nunca li uma novelização que fosse melhor que o filme que a originou, e para não fugir a regra O Feitiço de Áquila apresenta o mesmo problema.
Joan D. Vinge é uma excelente escritora, e suas novelizações estão entre as melhores adaptações já feitas a partir de filmes, mas vejo poucas vantagens nesse formato. Ela já adaptou Ladyhawk, alguns livros Star Trek e Cawboys & Aliens, sua última novelização em 2011, pouco antes de morrer.

Não vou escrever nada sobre o roteiro  pois a estória é bem conhecida por todos.
Apesar do livro ser bem escrito trata-se apenas de uma novelização fiel ao roteiro do filme, ou seja não acrescenta absolutamente nada à estória. Não recomendo a leitura, é muito mais interessante assistir o filme.

Os Despossuídos – Ursula K. Le Guin

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Mais uma capa horrível típica dos anos 70… Não se deixem enganar por ela!

Os Despossuídos (The Dispossessed: An Ambiguous Utopia) é um romance de ficção científica utópica/distópica escrito em 1974 por Ursula K. Le Guin, e sua estória situa-se no mesmo universo ficcional de A Mão Esquerda da Escuridão (veja o review aqui). O livro recebeu o prêmio Nebula em 1974 e os prêmios Hugo e Locus em 1975. É considerado um trabalho de ficção científica pouco usual, por explorar várias ideias e temas, incluindo anarquismo, sociedades revolucionárias, capitalismo, individualismo e coletivismo além da Hipótese Sapir-Whorf. Essa hipótese foi criada nos anos 30 pelos linguistas Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, que chegaram a uma tese que é a base do relativismo linguístico, que pode ser a grosso modo resumida da forma: as pessoas vivem de acordo com suas culturas em universos mentais muito diferentes entre si, sendo que esses universos mentais são exprimidos (e até determinados) pelas línguas que as pessoas falam. Desse modo, o estudo das línguas que as pessoas falam pode levar à elucidação da concepção do universo mental dessas culturas. Essa tese foi muito influente entre antropólogos, psicólogos e linguistas nos anos 40 e 50, e apesar de enfraquecida pela corrente cognitiva e de ser refutada por diversos estudiosos, até hoje a teoria ainda é importante.

Contexto do Livro e do Ciclo Hainish

O livro Os Despossuídos apresenta a teoria fictícia envolvendo o ansible, um dispositivo de comunicação instantânea que tem um papel crítico no Ciclo Hainish de Le Guin. A invenção do ansible coloca esse livro no início da cronologia interna do ciclo, apesar de ter sido o quinto livro a ser publicado, portanto a ordem dos livros é a seguinte:

  1. Os Despossuídos (The Dispossessed) – 1974;
  2. Floresta é o Nome do Mundo (The Word for World Is Forest) – 1976;
  3. Rocannon’s World – 1966;
  4. Planet of Exile -1966;
  5. City of Illusions – 1967;
  6. A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) – 1969;
  7. The Telling – 2000;
    (Veja mais detalhes sobre o Ciclo Hainish e A Mão Esquerda da Escuridão neste outro review).

A estória de Os Despossuídos é ambientada nos mundos de Anarres e Urras os planetas gêmeos habitados por seres humanos em Tau Ceti.

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Urras é dividido em vários estados que são dominados por dois dos maiores, que são rivais, numa clara referência aos EUA e URSS, pois um é capitalista  e patriarcal e o outro é um sistema autoritário que governa em nome do proletariado. As relações dos dois blocos é conturbada, da mesma forma como o nosso cenário político mundial na época da guerra fria. As diferenças sociais em Urras são gritantes: o governo representa os ricos e governa para os ricos, que garantem que os pobres recebam apenas um mínimo suporte e educação do estado. As tensões sociais levaram a uma revolução 150 anos atrás — mas no lugar do resultado tradicional que seria a deposição dos opressores, os revolucionários decidiram fundar sua própria sociedade ideal em um planeta próximo a Urras, chamado de Annares, onde então fundou-se uma sociedade anarquista baseada nos princípios do bem comum, responsabilidade e bens compartilhados. Superficialmente essa sociedade funciona. Mas no início do livro logo percebemos que as coisas não estão indo tão bem assim. Os ideais da revolução estão estagnados. Novas ideias surgem e são temidas, enquanto pessoas gananciosas e egoístas (conhecidas como ‘proprietarianos’, na linguagem que eles criaram) começam a ganhar poder. O descontentamento está crescendo.
Um jovem e brilhante físico chamado Shevek está empreendendo uma viagem de Annares para Urras, sendo que no livro isso é mostrado alternando-se capítulos pares e ímpares entre os dois mundos, onde podemos acompanhar sua crescente desilusão com as duas sociedades. Essa estrutura de alternância entre os mundos, assim como tudo mais nesse livro, serve à um propósito: Shevek está criando a ‘teoria da simultaneidade’ que meche com as ideias de tempo, começo e fim, com o passado acontecendo ao mesmo tempo que o presente. Portanto não estranhe essa estrutura dos capítulos, tudo faz parte do plano de Le Guin.
Em Annares descobrimos que os poderosos não gostam da teoria da simultaneidade porque ela promete fornecer um método de comunicação instantânea que acabaria acabando com sua providencial isolação. Já em Urras descobrimos que o interesse dos poderosos é em conseguir utilizar a tecnologia para esmagar as outras sociedades existentes nos demais planetas humanos. Shevek acaba sendo confrontado com uma série de dilemas morais que Le Guin explora com muita competência.
Um dos maiores méritos de Ursula K. Le Guin é conseguir criar uma espécie de laboratório fictício para estudar como uma sociedade anarquista, que lembra uma comunidade hippie dos anos 70, poderia funcionar (ou não funcionar). O livro é cheio de insights sobre a natureza da liberdade, do livre arbítrio, vida em comunidade, poder e igualdade.
A linguagem falada em Annares, o pravic, foi construída para refletir os aspectos e fundamentos do anarquismo utópico. Por exemplo, não existem palavras para descrever conceitos simples do capitalismo como a propriedade privada, o uso de pronomes possessivos é extremamente desencorajado (vem daí o título do livro!), crianças são treinadas para falar apenas sobre assuntos que possam interessar à coletividade. Uma personagem diz em determinado momento “você pode compartilhar o lenço que eu uso,” no lugar de “Você pode usar o meu lenço” como diríamos normalmente. Tudo isso é uma excelente representação da Hipótese Sapir-Whorf, ou seja, da ideia de que a linguagem pode definir o universo mental e a cultura de uma sociedade. Uma prova do talento da autora é justamente o fato dela ter conseguido fazer essa hipótese funcionar no livro.
Qualquer um que leia um livro de Le Guin percebe rapidamente que a autora escreve bem. Sim, é verdade que muitas vezes a prosa é densa demais, obscura em alguns pontos e até mesmo ocasionalmente absurda; ela simplesmente não se preocupa em facilitar a vida do leitor. Mas encontrei no livro algumas belas descrições da vida em Annares, dos horrores e alegrias em Urras. Temos também uma belo gancho romântico envolvendo Shevek, que evolui delicadamente. Mas Shevek também pode ser considerado o ponto fraco do livro, pois Le Guin não consegue convencer muito que tal personagem possa ser real: A incapacidade dele perceber as falhas do modelo odonista e em reconhecer que o ideal seria um meio termo entre os sistemas existentes em Urrás e Anarres persiste até os momentos finais do livro, o que parece muito estranho ao leitor.
Encontrei também alguns elementos do feminismo que permeia toda a obra da autora, assim como expliquei melhor na análise de A Mão Esquerda da Escuridão.
Uma das melhores características de um bom trabalho de ficção científica é a criação de sistemas sociais para ver como eles poderiam se comportar, e isso foi feito de forma extremamente competente nesse livro.

O Senhor da Luz – Roger Zelazny

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O Senhor da Luz (Lord of Light) é um romance de ficção científica/fantasia escrito por Roger Zelazny que recebeu Prêmio Hugo de Melhor Romance de 1968, e foi indicado ao Prêmio Nebula no mesmo ano.
Em This Immortal (veja minha resenha), o autor usa o panteão de divindades gregas como cenário e escreve uma grande estória. Dessa vez o foco é o hinduísmo, ou pelo menos uma versão do hinduísmo que agora opera em um planeta similar à Terra (ou à própria Terra, isso não vem ao caso), com o objetivo de manter a humanidade escravizada e na obscuridade.
Deuses como Yama, Khali, Brahma, Ganesha, Vishnu e outros chegaram ao planeta em uma espaçonave, vindos de uma origem desconhecida à milhares de anos atrás. Eles usaram sua tecnologia avançada para desenvolver armas que lhes conferem poderes de deuses, inspirados em Aspectos que identificam-se com esses deuses hindus.
A imortalidade é alcançada com um sistema de transferência da mente para novos corpos, assim que os corpos que ocupam começam a falhar. Eles mantém a humanidade (que é composta pelos descendentes de seus antigos corpos) em um estado de constante ignorância e na obscuridade, e utilizam a religião como controle, onde todos são julgados pelos seus atos em templos e ao fim da vida podem reencarnar em castas superiores ou até mesmo em animais caso tenham desagradado os deuses.
Mas não pense que conhecerá esses detalhes antes da metade do livro. No início os deuses parecem realmente com deuses – apesar de utilizarem algumas gírias e fumarem cigarros como se fossem pessoas comuns, em contraste com a prosa épica que Zelazny utiliza na maioria do livro. O autor revela a verdadeira natureza dos deuses lentamente, e de forma ainda mais lenta a natureza da luta contra eles.
O personagem principal é um grande mistério – um enigma que pode ser resumido, mesmo que não seja explicado completamente pelo primeiro escorregadio primeiro parágrafo do livro:

Os seus seguidores chamavam-lhe Mahasamatman e diziam que era um deus, ele, porém, preferia deixar de lado o Maha- e o atman e intitulava-se Sam. Nunca pretendeu ser um deus. Mas também nunca o negou. Sob as circunstâncias, nem a confirmação nem a negação poderiam trazer benefícios, mas o silêncio, sim.

As complicações não acabam por aí. Os vários personagens dessa estória tem o costume de mudar de nome e até de sexo entre as sucessivas trocas de corpos.
Muitos capítulos não seguem uma ordem cronológica normal, e só fazem sentido à luz dos acontecimentos de outros capítulos. Por exemplo, Tak, o arquivista, começa o livro encarnado como um macaco, mas em um capítulo futuro ele está em sua encarnação humana e só então entendemos o que aconteceu para que encarnasse como macaco. Mas isso não é um problema para o leitor, pois Zelazny escreve com maestria e os leitores dificilmente consideram isso um problema.
É praticamente impossível descobrir se Sam é um personagem sério ou se é uma brincadeira de Zelazny. O autor dedica um capítulo dramático inteiro a um desafortunado personagem chamado Shan, que recebeu o corpo de um epilético, aparentemente apenas para soltar o trocadilho (no original em inglês): “then the fit hit the Shan” (troque o f de fit pelo sh de shan, e você terá “then the shit hit the fan”, literalmente a merda bateu no ventilador!).
E o que Zelazny quis dizer com essa coisa estranha dos Zumbis Cristãos? Seria alguma crítica ao cristianismo, aos ritos cristãos que envolvem a morte e crucificação de seu Deus?
A obscuridade e ambiguidade do livro pode parecer estranha, mas na verdade é a grande sacada do autor. A leitura desse livro é uma experiência estranha e ao mesmo tempo emocionante. Mesmo que o leitor fique perdido na primeira metade do livro isso não importa realmente, pois os diálogos são inteligentes, as cenas de batalha são épicas e muito bem construídas (não deixam nada a desejar para os filmes modernos da Marvel), e daria um belo filme, pois o apelo visual é enorme.
George R. R. Martin, o autor de As Crônicas de Gelo e Fogo, é um grande admirador de Zelazny e especialmente desse livro, e muito do seu trabalho foi inspirado na obra de Zelazny. Veja um trecho de sua homenagem ao autor, que traduzi do que encontrei no seu site oficial:

O Senhor da luz

Ele era um poeta, primeiro, por último, sempre. Suas palavras cantavam.
Ele era um contador de estórias sem igual. Ele criou mundos coloridos, exóticos e memoráveis como nunca antes vistos no gênero.
Mas acima de tudo, eu lembrarei seus personagens. Corwin de Amber e seus irmãos problemáticos. Charles Render, o mestre dos sonhos. O dorminhoco Croyd Crenson, que nunca aprendeu matemática. Fred Cassidy escalando telhados. Conrad. Sagrado e Condenado. Francis Sandow. Billy Blackhorse Singer. Jarry Dark. O Coringa das Sombras. Hell Tanner. Snuff.
E Sam. Ele especialmente. “Os seus seguidores chamavam lhe Mahasamatman e diziam que era um deus, ele, porém, preferia deixar de lado o Maha- e o atman e intitulava-se Sam. Nunca pretendeu ser um deus. Mas também nunca o negou. Sob as circunstâncias, nem a confirmação nem a negação poderiam trazer benefícios, mas o silêncio, sim.”
O Senhor da Luz foi o primeiro livro de Zelazny que eu li. Eu estava no colégio na época, um leitor de longa data que sonhava escrever um dia. Eu tinha acabado de ser desmamado de Andre Norton, perdido meus dentes de leite nos juvenis de Heinlein, sobrevivido ao ginásio com a ajuda de H.P. Lovecraft, Isaac Asimov, “Doc” Smith, Theodore Sturgeon, e J.R.R. Tolkien. Eu lia Ace doubles e pertencia Clube do Livro de Ficção Científica, mas eu não tinha ainda descoberto as revistas. Eu nunca tinha ouvido falar desse cara, Zelazny. Mas quando eu li aquelas palavras pela primeira vez, senti um arrepio, e senti que a Ficção Científica nunca mais seria a mesma. E não foi. Como poucos antes dele, Roger deixou sua marca no gênero.
Ele deixou sua marca na minha vida também. Depois de Senhor da Luz, eu li tudo dele em que pude colocar as mãos. “He Who Shapes”, “And Call me Conrad…”, “A Rose for Ecclesiastes”, “Isle of the Dead”, “The Doors of His Face, the Lamps of His Mouth”, “Creatures of Ligh and Darkness”, e todo o resto. Eu sabia que tinha encontrado um escritor e tanto nesse sujeito com um nome estranho e inesquecível. Eu nunca tinha imaginado que, anos depois, eu também encontraria em Roger um amigo e tanto.
Eu encontrei Roger várias vezes nos anos 70; em um workshop de escritores em Bloomington, Indiana, em Wichita e El Paso, em jantares do Nebula. Na ocasião, eu fiz alguma propaganda minha. Eu fiquei surpreso e assustado quando Roger conheceu meu trabalho. …….
“Mas olhe em torno de você…” ele escreveu em Senhor da Luz. “A Morte e a Luz estão sempre presentes e começam, terminam, participam e observam o Sonho do Indizível, que é o Mundo, queimando as palavras dentro de Samsara, talvez para criar uma coisa bela.”

Assim como This Immortal, O Senhor da Luz é um grande livro, que deixou sua marca no gênero da ficção científica e fantasia, influenciando de forma significativa a próxima geração de autores, como nos contou George R. R. Martin.
Definitivamente é um livro que recomendo a qualquer um, não apenas a fãs do gênero.

A História é Outra – Fritz Leiber

A História é OutraFoto da capa da edição de 1973, da Editora Expressão e Cultura, tirada com o celular 😉

A História é Outra (The Big Time) é um romance de ficção científica escrito por Fritz Leiber em 1958. Apesar de ser um vencedor do Prêmio Hugo, considerei um livro muito complexo, com uma narrativa confusa e quase impossível de seguir, portanto não é um livro para o leitor comum.
Foi difícil encontrar uma versão em português, encontrei apenas em um sebo pela internet uma edição razoável de 1973, da Editora Expressão e Cultura, com a tradução competente de José Sanz.
Trata-se da história de alguns guerreiros de diferentes épocas e lugares que são enviados para o passado ou para o futuro para lutar em batalhas que mudariam o curso da história.
Os guerreiros lutam por duas frentes: As Aranhas e as Serpentes. Eles são arrancados de sua linha de tempo pouco antes de serem mortos e, em seguida, recrutados por um desses exércitos.
A narradora é Greta Forzane, que descreve-se como uma “garota festeira de vinte e nove anos, nascida em Chicago de pais escandinavos. Agora exercendo suas atividades principalmente fora do espaço e do tempo.”
Apesar desse tema cheio possibilidades, toda narrativa acontece dentro de um claustrofóbico ambiente chamado de Lugar, fora do tempo e do universo conhecido.
A narrativa segue o estilo pré-moderno (pre-hipster), confuso e com fluxo descontínuo.
É muito difícil seguir a narrativa, e infelizmente depois de muito esforço é natural que o leitor sinta-se forçado a parar de tentar fazê-lo.
Acredito que este livro ganhou o Prêmio Hugo de Melhor Romance de 1958 pela sua complexidade, pelas ótimas referências à Shakespeare, citações inteligentes em alemão e latim, e diálogos inteligentes com sugestões masoquismo e alcoolismo.
Esse livro não foi incluído no Compêndio de Ficção Científica Americana da Biblioteca dos Estados Unidos, o que mostra que hoje não é reconhecido como um bom exemplo de ficção científica.
Mas essa é a opinião de um leitor comum, caso você queira uma crítica mais favorável ao livro, veja esta excelente crítica do aclamado escritor Neil Gaiman que escreveu The Sandman e Stardust, sem dúvida mais gabaritado para criticar uma obra tão imaginativa e complexa como essa!

Krull – Alan Dean Foster

Krull (1983) Original

Krull é um filme britânico-americano de 1983 cultuado por alguns, e criticado por muitos.
Uma das características mais notáveis do filme é a incomum união dos gêneros ficção científica, fantástica e ação, que produziram um resultado no mínimo digno de consideração.
Uma trilha sonora poderosa, escrita por James Horner combinado com o design surrealista também faz desse filme uma experiência única!
Na época da sua produção ele foi um dos mais caros já feitos. Foram construídos vinte e três sets de filmagem, com locações externas nas Ilhas Canárias, e em Cortina d’Ampezzo e Campo Imperatore, na Itália. Ele conseguiu faturar apenas US$ 16.5 milhões nos EUA, o que é pouco considerando o orçamento de US$ 45-50 milhões, portanto podemos classifica-lo com um fracasso de bilheteria.
Krull recebeu tanto críticas negativas como positivas, e atualmente mantém um ranking de apenas 33% no Rotten Tomatoes (site que une críticas e reviews) e nota 6.0 no IMDB (nota dos expectadores).
O filme está cheio de falhas de roteiro, por exemplo: A fortaleza da Besta aparece pousando como uma espaçonave, logo depois no filme é revelado que ela pode se desmaterializar e aparecer instantaneamente em outro lugar! Hein? Pra quê os motores? Ou então, se tudo está previsto nas profecias, e todos sabem delas, então por que todos estão tão cheios de dúvidas?
O filme é o cruzamento de O Senhor dos Anéis de Tolkien, com Star Wars de George Lucas, é possível imaginar um filho bonitinho saindo dessa união? Não… a criança é estranha mesmo.
Mesmo assim é um filme interessante, e pode ser uma boa diversão para quem não se incomodar com falhas de roteiro e os penteados odiosos dos anos 80.

E quanto ao livro?

Bem, o livro é uma adaptação do filme e não o contrário.
Normalmente filmes adaptados a partir de livros costumam ser piores, devido às limitações de orçamento e tempo, mas nesse caso o livro é apenas uma adaptação do filme, e uma adaptação fraca que deixa muito a desejar, por desperdiçar a chance de se aprofundar mais na história dos personagens.
Nada comparado com Metropolis, de Thea Von Harbou, que foi escrito pela roteirista do filme, em conjunto com a produção, criando uma obra verdadeiramente complementar.
Portanto, o livro Krull acrescenta pouco, ou quase nada ao filme, e considero uma leitura dispensável, nesse caso é melhor assistir ao filme novamente do que perder tempo lendo o livro!

O Cavaleiro dos Sete Reinos – George R.R. Martin

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O Cavaleiro dos Sete Reinos (Tales of Dunk and Egg) é uma série de estórias curtas, escritas por George R. R. Martin, ambientadas no mundo do seu ciclo de histórias das Crônicas de Gelo e Fogo. Três estórias foram publicadas até agora, O Cavaleiro Andante (The Hedge Knight), A Espada Juramentada (The Sworn Sword) e O Cavaleiro Misterioso (The Mystery Knight). As estórias relatam as aventuras de Dunk, também conhecido como Sor Duncan o Alto, um lendário membro da guarda real anterior aos eventos da Guerra dos Tronos, e de Egg seu escudeiro que esconde um segredo sobre sua origem. Ambos serão personagens com importante participação na história que precedeu os eventos  que iniciam-se na Guerra dos Tronos.
Dunk é um menino pobre da Baixada das Pulgas, em Porto Real, que é retirado da mendicância por um velho cavaleiro andante, Sor Arlan de Centarbor. Após acompanhar Sor Arlan em várias aventuras, com o falecimento do cavaleiro o jovem escudeiro toma sua espada e assim nasce o novo cavaleiro andante, Sor Duncan o Alto, logo no início da primeira estória.
George R.R. Martin nos entrega um livro excepcional, com estórias envolventes, emocionantes e cheias de personagens bem elaborados. Ele já demonstrou interesse em continuar contando a estória do Sor Duncan o Alto e de Egg, e o final de O Cavaleiro Misterioso deixa aberta a possibilidade uma nova estória muito interessante, envolvendo o destino do ovo de dragão que desaparece em uma grande confusão.

Cabe aqui uma crítica à sinopse da editora Leya: A dinastia Targaryen não vive mais o seu auge. Agora todos os dragões já morreram, os membros da dinastia enfrentam grandes problemas como guerra civil causada pelos membros dissidentes (Rebelião Blackfyre), que culminou na batalha do Capim-Vermelho, e agora ameaça retornar com um novo pretendente Blackfyre. Encontrei poucos erros de digitação na versão para Kindle, apenas dois ou três, mas no geral a edição é de excelente qualidade.

Para quem vem acompanhando a Guerra dos Tronos, a leitura desse livro é muito gratificante e prazerosa, recomendo!

A Dança dos Dragões – George R. R. Martin

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A Dança dos Dragões, de George R. R. Martin, é o quinto livro da série As Crônicas de Gelo e Fogo, e na minha opinião é tão bom quanto o primeiro. A narrativa é menos confusa que a dos livros anteriores, como Festim dos Corvos.
Você vai encontrar gelo… muito gelo. E fogo… muito fogo! Muito do que tinha ficado de fora no último livro foi mostrado em detalhes nesse livro. A trama desse livro acontece cronologicamente paralela ao último livro, e apenas nos capítulos mais avançados ela retoma onde tinha parado, mais especificamente quando começa a mostrar os acontecimentos envolvendo a Rainha Cersei.
Se você ficou com saudades do anão Tyrion Lannister não se preocupe, ele aparece muito nesse livro!
E se ficou morrendo de vontade de saber o que aconteceu com Daenerys Targaryen e seus dragões, anime-se, pois agora eles estão bem grandinhos, e causam uma bela comoção do outro lado do mar estreito!
A grande surpresa é a importância que Sor Baristan Selmy ganha nesse livro, participando ativamente dos capítulos finais e contando detalhes até agora desconhecidos da guerra que acabou com o domínio dos Targaryen em Westeros, sendo o personagem responsável pelas revelações mais importantes do passado.
Arya Stark também está de volta, mas ainda longe de conseguir sua vingança, e a situação começa a complicar-se na Muralha, quando  Jon Snow tem lidar ao mesmo tempo com os selvagens (agora aliados) e o Rei Stannis Baratheon.
Uma das grandes surpresas é o desenvolvimento do personagem Theon Greyjoy, que passa por momentos comoventes.
Não falo mais nada para não estragar a surpresa, a é leitura obrigatória!

Nas Montanhas da Loucura – H. P. Lovecraft

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Nas Montanhas da Loucura (At The Mountains of Madness) é uma das obras primas de Lovecraft, publicada pela primeira vez na revista Astounding Stories em 1936. A história é narrada em primeira pessoa, sendo a obra de Lovecraft que melhor explica a origem dos seres que habitam a fascinante mitologia criada por ele.
Mostrando um forte aspecto narrativo em primeira pessoa, como geralmente acontece nas obras deste escritor, com fartas descrições, o autor consegue criar uma atmosfera envolvente e aflitiva.
A história é ambientada na Antártida, que na época era motivo de fascínio científico, devido as explorações de Scott, Amundsen e Shackleton, o que se reflete na ficção do começo do século XX.
Lovecraft fornece uma explicação natural (científica) para as criaturas que mostra em sua mitologia, situando-as milhões de anos no passado. Apesar de tratar-se de ficção, Lovecraft é tão convincente e usa tantas referências geológicas e biológicas que consegue criar uma atmosfera envolvente e cativante.
O autor é tão convincente que as vezes temos dificuldade em discernir fatos reais da sua mitologia.
Ele usa conceitos avançados para a época, como engenharia genética (na criação dos shoggots pelos antigos para utilização como escravos-ferramentas),  ao mesmo tempo que se atém a conceitos ultrapassados, como o do éter espacial.
Nas Montanhas da Loucura é uma obra prima da ficção científica, tendo influenciado gerações de escritores.
O próprio John W. Campbell, que escreveu Who Goes There? (ver post anterior), sofreu forte influência deste trabalho.
Leitura obrigatória!

Naked Empire – Terry Goodkind

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Naked Empire é o oitavo livro da série A Espada da Verdade de Terry Goodkind.
Depois dos eventos de Os Pilares da Criação, Richard Rahl e sua trupe continuam perambulando pelo Mundo Antigo e o Imperador Jagang continua em sua campanha para conquistar o Mundo Novo. Assim como todos os outros livros – exceto o primeiro – também não foram publicados na nossa língua inculta e bela, e como não encontrei nada de tradutores amadores,eu mesmo comecei a escrever a tradução.
Eu cheguei a escrever uns 25% do livro mas desisti quando percebi que tinha coisas melhores para fazer com meu tempo.
Não vou perder tempo escrevendo sobre o roteiro, vou direto às críticas.

Considerações sobre o livro

Se existe algo que podemos dizer sobre Terry Goodkind é que ele teve algumas idéias interessantes sobre um universo de fantasia – idéias muito boas – mas que para escrever livros e mais livros e fazer da série um caça níquéis, ele consegue irritar até leitores cheios de boa vontade e curiosidade para ver o que acontecerá com os personagens.
Principais problemas:
1 – Repetições: o autor é repetitivo. Muito repetitivo! Ele escreve várias vezes em vários dos livros o que qualquer um que leu os outros livros já esta careca de saber, obrigando o uso de técnicas de leitura dinâmica ou simplesmente pular a parte maçante.
2 – “Eu não sei”: talvez a frase mais repetida de todos os livros. Richard Rahl nunca sabe de nada, não sabe o que acontece com ele ou com o seu dom de magia. A ignorância dele chega a irritar, mas tudo bem para ele, pois ele sempre acha uma resposta mágica no último segundo e salva a todos e a si mesmo, pois sempre os maiores ameaçados são ele e Kahlan.
3 – Bichos de Estimações Estranhos: Ele sempre tem um bichinho de estimação estranho. Dragões, Gar ( um morcegão gigante), mas agora foi demais: uma cabra que age como um cachorrinho, os seguindo por desertos, montanhas, cavernas e batalhas sangrentas através de meio mundo!
4 – Sadismo: Terry Goodkind aparentemente tem uma fixação por sadomasoquismo. Estupros, torturas, rituais diabólicos tudo com bastante detalhes sádicos. Nesse livro em um capítulo ele chega a escrever não sobre apenas um empalamento, mas quatro seguidos… OK, já dava para entender da primeira vez, não precisava de tantos detalhes!
Rituais diabólicos são descritos com detalhes desde o primeiro livro.
5 – Furos no Roteiro: Coisas que não podem ser explicadas, nem fazendo mágica. Exemplo: como Natan e Ann atravessam o Mundo Novo e o Antigo inteiros e chegam até Richard tão rapidamente? E ele deixou claro que estavam sem cavalos! Atravessaram o gigantesco exército de Jagang e aquele deserto como? Voando em um dragão? Só para usar um pouco de mágica em uma batalha rápida? O autor poderia ter pensado em algo diferente e ter deixado Natan e Ann defendendo D’Hara.
Terry Goodkind escreve mal, e conseguiu estragar o que teria sido uma boa história nas mãos de um escritor talentoso.
Não sei se terei coragem de ler os três últimos livros, depende da curiosidade de ver como isso acaba, mas com tanta coisa mais importante na fila vai ser difícil concluir a série.

Atualização: Atendendo à pedidos, coloquei um link na minha página no Facebook com os livros que tenho no formato digital: https://www.facebook.com/leiturasparalelas

A Guerra dos Mundos – H. G. Wells

Correa-Martians_vs._Thunder_ChildA Guerra dos Mundos é um romance de ficção científica publicado pela primeira vez em 1898. É uma aventura narrada por um protagonista anônimo que testemunha a invasão da terra por marcianos. Talvez seja a primeira história descrevendo um conflito entre uma espécie alienígena e a humanidade, sendo considerada um ícone do gênero.
O estilo apresentado é o de relato fatual de uma invasão, no ponto de vista de um escritor de artigos filosóficos, com características semelhantes ao Dr Kemp de O Homem Invisível, escrito antes por H. G. Wells em 1897.
O leitor descobre muito pouco sobre a vida do narrador, ou de qualquer outro personagem, e até mesmo nenhum dos nomes dos personagens principais é mencionado.
Wells era um professor de ciências durante a última metade dos anos 1880, e um dos seus professores foi T. H. Huxley, um famoso defensor do Darwinismo. O fascínio de Wells por ciência é bem demonstrado logo no primeiro capítulo, quando o narrador observa Marte pelo telescópio, e quando Wells sugere a imagem dos superiores marcianos observando as atividades humanas, como nós observaríamos pequenos micróbios através do microscópio.
Ironicamente, a vida microscópica terrena que é a responsável pela morte dos marcianos
O livro segue uma tendência da época – a literatura de invasão –  refletindo o sentimento de ansiedade da época relacionado à insegurança nas relações internacionais entre potências europeias que acabaram culminando na Primeira Grande Guerra. No entanto A Guerra dos Mundos transcende o fascínio típico da Literatura de Invasão, que lida com politica europeia, tecnologia militar e disputas internacionais, e inova ao introduzir um adversário alienígena.
Os marcianos viajam para Terra em cilindros, através de uma espécie de gigantesco canhão espacial na superfície de Marte. Essa era uma representação comum no final do século XIX, como usado anteriormente por Jules Verne em Da Terra à Lua, mas o entendimento científico um pouco mais moderno mostrou que esse método é totalmente inviável, devido à força de explosão necessária que mataria qualquer tripulante instantaneamente. Mesmo assim, livros como esses inspiraram gerações de cientistas, e o mais importante foi Robert H. Goddard, que leu aos 16 anos A Guerra dos Mundos e ficou tão fascinado que dedicou sua vida à invenção dos foguetes, o que culminou com o programa Apollo que levou o homem à Lua.
Wells utiliza o conceito de guerra sem limites, com o uso de raios da morte (uma espécie de canhão de calor), Fumo Negro (uma arma química gasosa, dispersa por foguetes) e Trepadeira Vermelha (outra arma biológica, que cresce exponencialmente subjugando a flora nativa). Os marcianos mostram empenho em eliminar o maior número de humanos, utilizando táticas de terror para acabar com a capacidade de resistência.
O livro também é visionário ao mostrar as táticas utilizadas pelos marcianos, como máquinas voadoras, trípodes, e armas de destruição em massa, e fuga em massa de refugiados, o que foi precisamente reproduzido na Segunda Guerra Mundial, com bombardeios, tanques e extermínio de populações.
Considero um dos livros mais importantes do século XIX,  percursor de um gênero que até hoje faz sucesso, ainda influenciando tanto a literatura como o cinema.
Recentemente a história foi adaptada para o cinema de forma muito competente no filme Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg, com Tom Cruise no papel principal. Spielberg foi muito fiel ao original, mesmo adaptando ao gosto moderno da audiência, e várias cenas e descrições dos alienígenas foram fielmente mostradas.