Falling Free – Lois McMaster Bujold

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Falling Free
  2. Nome do autor: Lois McMaster Bujold
  3. Nome da editora: Baen Books
  4. Data e local de publicação: EUA, 1988;
  5. Número de páginas: 307 páginas;
  6. Tradução para o português: Não foi traduzido
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Nota: ★★★★ (4)

Falling Free (Queda Livre) é um romance de ficção científica escrito em 1988 pela autora norte americana Lois McMaster Bujold e vencedor do Prêmio Nebula do mesmo ano. É o quarto livro da saga Vorkosigan, mas o primeiro na escala cronológica dos livros de Bujold. O próximo livro na minha lista de leitura seria The Vor Game, o vencedor de 1991, mas como esse livro é o sexto livro da saga Vorkosigan, e como nunca tinha lido nada de Bujold, achei melhor começar lendo o primeiro livro (na escala cronológica interna) para ter uma ideia melhor do material com que iria lidar. Fiz o mesmo com Sundiver antes de ler Maré Alta Estelar, e confesso que estava cético se isso não acabaria se mostrando desnecessário ou até uma perda de tempo. Para minha surpresa Bujold revelou-se uma autora de ficção científica extremamente competente, superando em qualidade estilística e em vários outros aspectos autores como David Brin ou Kim Stanley Robinson. Antes de partir para a análise do livro, faço uma introdução sobre o universo criado por Bujold.

A Saga Vorkosigan 

É uma série de livros de ficção científica e contos situados em um universo ficcional criado pela autora Lois McMaster Bujold. O primeiro livro foi publicado em 1986 e o mais recente em 2012. Os livros da série já receberam vários prêmios e nomeações, incluindo três vencedores do Prêmio Hugo.
O estilo empregado por Bujold varia muito, algumas vezes misturando gêneros como thriller político, romance, aventura militar e mistério.
A autora utiliza personagens masculinos, femininos ou homossexuais com pontos de vistas variados, mas algumas das preocupações constantes na série são: a ética médica, identidade pessoal (particularmente o papel da fisiologia na determinação da personalidade). Dentro do contexto empregado, a autora mostra como a identidade pode ser afetada pela bioengenharia, manipulação genética, clonagem e tecnologia médica na substituição de órgãos e no prolongamento da vida. Algumas histórias exploram temas como criação de crianças, formação de casais e até atividades sexuais.
Várias formas de sociedade e governos apresentados por Bujold refletem a política do século vinte, mas a autora também mostra contrastes entre a sociedade tecnológica e igualitária de Beta Colony e a sociedade heróica, militar e hierárquica dos Barrayar. Miles Vorkosigan, o personagem principal na série é filho de uma mulher de Beta e de um aristocrata Barrayano, personificando o contraste entre essas sociedades.

Assim como na série Fundação, de Isaac Asimov, no universo criado por Bujold a nossa galáxia foi colonizada pelos seres humanos sem terem que competir com outras espécies inteligentes. A primeira colônia bem sucedida é Beta. Desde pelo menos 400 anos antes dos eventos de Falling Free (o primeiro livro na escala cronológica interna) dezenas de planetas abrigam culturas que evoluem de forma divergente.

A viagem entre os sistemas estelares é possível graças aos wormholes (buracos de vermes) que são anomalias espaciais que permitem saltos instantâneos entre distâncias enormes da galáxia, organizados em um sistema conhecido como Nexus. O Nexus contêm várias estações espaciais militares ou comerciais e portos para suporte  às naves espaciais. As estações podem ser de propriedade de governos planetários, de organizações comerciais ou até mesmo independentes como o Sindicato dos Quaddies ou a Estação Kline.

A única forma de atravessar os wormholes é utilizando pilotos com implantes cerebrais que permitem que eles dobrem as três dimensões normais do espaço em cinco, através da matemática pentadimensional (five-space math) e as naves possuem geradores de campo Necklin para isso.

A maioria dos sistemas estelares colonizados possuem pelo menos um planeta habitável, e na maioria das vezes com um único governo. Existem também impérios como os dos Barrayar e Cetaganda, formados pela conquista de outros mundos nas vizinhanças de seu wormhole.

Cordelia Naismith é a capitã de uma nave a serviço do Serviço de Pesquisa Betano cuja tarefa é explorar sistemas desconhecidos em busca de planetas habitáveis (Shards of Honor, o segundo livro na escala cronológica).

 As estações espaciais do passado (200 anos antes dos eventos de Shards of Honor) usavam força centrífuga para gerar efeito artificial de gravidade, mas as modernas contam com sistemas de geração artificial de gravidade. A gravidade artificial também é utilizada para proteger passageiros de naves espaciais de grandes acelerações.

 Os ambientes habitados pelos humanos através do Nexus são os mais variados possíveis. Em alguns planetas como Barrayar e Sergyar a gravidade e atmosfera são semelhantes às da Terra, e existem grandes suprimentos de água. Em outros como Beta Colony e Komarr, só é possível viver em cidades protegidas por domos ou em arcologias (cidades autossustentáveis e com controle de atmosfera e clima). Em todas lugares colonizados a forma predominante de vida botânica é a terrena, sendo que nos planetas onde foi necessária a terraformação esta foi conduzida com a destruição da vida nativa e imposição das formas terrenas. O fornecimento de alimentos é feito principalmente através de culturas hidropônicas em larga escala ou piscicultura. Em habitats espaciais, como os dos quaddies de Falling Free, é necessário lidar com a questão do isolamento do ecossistema e o risco de contaminação microbiana.

Um aspecto muito importante na Saga Vorkosigan é a tecnologia médica e genética, capaz de produzir qualquer tipo de clone ou de seres híbridos. A manipulação do genoma humano e o uso dos “replicadores uterinos” permite criação de embriões e fetos e desenvolvimento de novos tipos de seres humanos, o que abre um interessante campo para a discussão ética sobre manipulação genética e reprodução in-vitro, um tema bastante atual nos nossos dias. A manipulação genética produziu entre os Betanos o aumento da expectativa de vida para mais de 120 anos, e nos Cetagandanos além da expectativa de vida foi prolongada também a juventude. É possível também o transplante de cérebros de pessoas idosas em corpos jovens clonados. A criogenia é coisa rotineira e acessível.

A bioengenharia apresentada mostra bactérias e animais produzidos com propósitos específicos (como os butterbugs, insetos que são considerados o alimento perfeito e definitivo para a humanidade), e até mesmo alterações em seres humanos, como os quaddies que foram projetados como trabalhadores perfeitos para ambientes espaciais. A manipulação genética e o medo de mutações é mais forte na sociedade Barrayarana, mas as corporações e empresas não se preocupam muito com essas questões éticas.

Apesar do Nexus permitir uma galáxia interligada por viagens e comércio, paradoxalmente Bujold imaginou que a comunicação seria mais lenta e difícil do que nos nossos dias. Como consequência disso cada planeta colonizado funciona como uma espécie de Placa de Petri em que as culturas humanas  — derivadas das culturas que conhecemos da história da Terra — evoluem de forma drasticamente diferentes. Os mundos de Barrayar e Athos, por exemplo, mostram aspectos da Europa e América da nossa época pré-industrial, o Império Cetagandan são altamente aperfeiçoados geneticamente, e os quaddies praticam uma espécie de comunalismo. Todas essas diferenças são usadas por Bujold para explorar e satirizar aspectos próprios das nossas sociedades.

 A história de Falling Free

Agora que fizemos uma introdução ao universo da saga Vorkosigan, vamos a uma breve introdução ao roteiro de Falling Free.
A história começa cerca de 200 anos antes do nascimento de Miles Vorkosigan, o protagonista da maior parte dos livros da série, descrevendo a criação dos “Quaddies” (imagino que uma possível tradução para o termo seria “quatrinhos”). Os Quaddies são seres humanos modificados geneticamente para uma melhor adaptação ao ambiente de gravidade zero (ou queda livre, quando em órbita). A principal mudança introduzida foi a transformação das pernas em outro par de braços. Criados com o objetivo de fornecer mão de obra barata e extremamente especializada para o ambiente espacial, eles são praticamente inúteis no mais leve campo gravitacional ou “no lado de baixo”, como é descrita a superfície de planetas. Além dos membros alterados, eles também sofreram grandes alterações metabólicas que praticamente eliminaram os efeitos nocivos da ausência de gravidade no corpo humano, como degeneração óssea e deterioração muscular.

Os Quaddies são propriedade da companhia que os criou, dependendo completamente desta para viver, sequer sendo considerados seres humanos.
Legalmente os Quaddies enquadram-se na categoria de “tecidos pós-fetais cultivados experimentalmente”, então a companhia não tem escrúpulos em tratá-los como escravos. O acesso à informação do mundo externo é fortemente controlado, até mesmo as crianças apenas ouvem histórias que envolvem trabalho no espaço. Eles não tem liberdade para reproduzir-se livremente, sendo submetidos à um programa de procriação controlada.

Leo Graf é um professor de soldagens em ambiente de gravidade zero, que foi designado como instrutor dos Quaddies, e rapidamente solidariza-se com a situação dos escravos.
Quando uma nova tecnologia de geração artificial de gravidade subitamente torna os Quaddies obsoletos, a companhia decide livrar-se do incômodo, então Leo Graf decide ajudá-los a fugir para um sistema estelar distante.

Falling Free é um livro muito divertido e de leitura fácil. Escrito de forma muito competente por Bujold, é o primeiro livro de uma saga que traz um novo frescor ao universo da ficção científica.

Cyteen – C. J. Cherryh

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Cyteen
  2. Nome do autor: C. J. Cherryh
  3. Nome da editora: Aspect (Reedição 1995)
  4. Data e local de publicação: EUA, 1988;
  5. Número de páginas: 696 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Nota: ★★ (2)

Cyteen é um romance de ficção científica escrito por C. J. Cherryh em 1988 e vencedor dos prêmios Hugo e Locus de 1989. A história situa-se no universo Aliança-União criado por Cherryh que é recorrente em seus livros de ficção científica. Cyteen foi fundado em 2201 por um grupo de cientistas e engenheiros dissidentes, incluindo o planeta Cyteen e as estações espaciais interiores e exteriores ao planeta. A independência de Cyteen veio em 2300, e agora serve como a capital da União.
A atmosfera do planeta é moderadamente tóxica aos seres humanos, que precisam viver em cidades semi-encapsuladas, conhecidas como enclaves ou cidades-estado.
Em face à necessidade de expansão das colônias da União, uma instituição científica conhecida como Reseune centraliza toda pesquisa e desenvolvimento de clonagem humana, recurso que é deplorado pela Terra e a Aliança, principais rivais da União.
Em Reseune são criados os humanos incubados in vitro “azi”, e os “CIT”. A principal diferença entre os azi e os CIT é que os azi são educados desde o nascimento via “fita”, uma combinação controlada por computadores de técnicas de condicionamento e treinamento por biofeedback. A técnica também é utilizada nos CIT, mas em escala muito menor, para educação, mas normalmente apenas depois dos seis anos de idade. O resultado é uma profunda diferença entre esses dois tipos de clones. Enquanto os CIT tem melhores capacidades de lidar com situações inesperadas e incertas, os azi são capazes de melhor concentração em problemas específicos. Como efeito colateral da educação por “fitas” os azi tendem a serem emocionalmente instáveis.

Análise de Cyteen

É perfeitamente aceitável escrever lixo – desde que você edite ele brilhantemente.

C. J. Cherryh

Eu venho lendo os vencedores do Prêmio Hugo em sequência, conforme é possível acompanhar através deste post. A experiência é recompensadora, mas nem sempre é fácil, pois as vezes encontramos livros que não foram traduzidos para o português, que são grandes demais (é o caso de Cyteen, com quase 700 páginas), ou até mesmo possuem uma linguagem e estrutura complicada demais (como Stand in Zanzibar).
Assim como o livro anterior de Cherryh que também recebeu o Hugo, Downbelow Station, também não recomendo a leitura deste livro. Não que o livro seja ruim, apenas considero que possui alguns problemas que desestimulam até os leitores mais fiéis ao gênero:

  1. O livro é longo demais. Isso não seria um problema se estivéssemos diante de um livro com um estilo mais rico e envolvente como os livros de Gene Wolfe, que merecem a leitura no idioma original, e não assustam pelo tamanho. Mas Cyteen realmente não precisava ser tão grande, se ele fosse enxugado pela metade ainda sobraria muito espaço para o desenvolvimento da história.
  2. Existem muitos personagens. Contei mais de vinte personagens, com uma alternância constante entre os protagonistas, o que é cansativo e causa perda de foco na leitura. Quase todos os personagens são tão secundários que é fácil perdê-los no background da história, e acabamos por considerá-los dispensáveis.
  3. Muita política. Não tenho nada contra política, acredito que o tema faz parte das nossas vidas e é muito importante, mas a autora gasta tantas páginas para tratar da aprovação de alguma projeto de lei, e perde-se de tal forma nos meandros políticos entre a União e a Aliança, que as vezes até esquecemos que estamos lendo um livro sobre clonagem. São esquemas e agendas políticas em excesso, e como praticamente todos personagens estão envolvidos até o pescoço na política é fácil perder-se em meio aos esquemas políticos.
  4. Muita falação, pouca ação. Páginas e mais páginas de discussões políticas e quase nenhuma ação.
  5. Um assassinato sem explicação. Apesar do livro ser descrito na contra capa como um “livro de mistério de assassinato”, o mistério sobre o assassinato de Ari é mal explicado, e fica a dúvida se tratou-se de um acidente ou suicídio. Apenas na sequência deste livro, Cyteen Regenesis (2009) Cherryh esclarece o mistério, mas acredito que depois de tanto tempo ninguém mais se importa com isso.

Apesar dos problemas o livro é escrito com competência, e com diálogos interessantes, apesar de cansativos. Ele é muito realista ao explorar problemas atuais na nossa sociedade, como questões éticas envolvendo clonagem e aperfeiçoamentos genéticos artificiais. Mas definitivamente não é uma leitura recomendável, mesmo para quem possui algum conhecimento do idioma inglês.
O livro poderia seguir o caminho distópico de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, mas Cherryh preocupou-se muito mais com diálogos políticos cansativos do que com as questões éticas e morais. É uma pena.

Startide Rising (Maré Alta Estelar) – David Brin

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Startide Rising – Uplift #2 – (Maré Alta Estelar)
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Tradutor: Maria Helena Fernandes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 116 e 117;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1986
  6. Número de páginas: 294 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Nota: ★★ (3)

Startide Rising (Maré Alta estelar) é o segundo livro da trilogia Uplift (Elevação), de David Brin. Foi escrito em 1983 e recebeu o prêmio Nebula no mesmo ano, e os prêmios Hugo e Locus de 1984, sendo portanto um dos poucos livros laureados com os três maiores prêmios da ficção científica. Existe uma edição em português, mas infelizmente é muito difícil de encontrá-la em sebos. Se você está procurando este livro recomendo tentar no site Estante Virtual. Para piorar a situação, o livro foi publicado em dois volumes, e só encontrei uma cópia do segundo volume, portanto tive que ler o primeiro em inglês.

Veja minha análise de Sundiver antes de prosseguir (o link abrirá em uma nova janela).

A ordem cronológica da série é a seguinte:

Observação: (A leitura de Sundiver pode ser considerada uma boa introdução ao universo Uplift, mas não é obrigatória. Muitos consideram que a série inicia efetivamente em Startide Rising)

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 O ano é 2489. A história começa cerca de um mês após a espaçonave terrena Streaker (com uma tripulação de 150 golfinhos, sete humanos e um chimpanzé) realizar a descoberta de uma frota abandonada que supostamente teria pertencido aos Progenitores, uma lendária raça que teria iniciado o processo de elevação de outras espécies. A origem, história e destino dos Progenitores é um dos maiores mistérios da galáxia. Um transporte da Streaker foi destruído ao investigar a frota abandonada, matando vários membros da tripulação. Apesar disso eles conseguiram recuperar alguns artefatos e um corpo de uma espécie alienígena desconhecida, mas muito bem preservado. Eles transmitem por psi-cast para a Terra informações sobre a descoberta e um holograma do corpo do alienígena. A resposta, enviada em código, dizia simplesmente “Fujam. Aguardem ordens. Não respondam”. Durante a fuga a Streaker é emboscada em um Ponto de Transferência Morgan, consegue fugir mas sofre várias avarias e acaba sendo obrigada a pousar no planeta aquático Kithrup.
Os alienígenas que estão perseguindo a Streaker são conhecidos como Galáticos — civilizações que conquistaram a inteligência milhares de anos antes dos humanos. A narrativa inicia-se então em meio a uma luta feroz entre os galáticos para decidir quem irá ficar com as informações e artefatos dos Progenitores, enquanto a tripulação da Streaker irá realizar uma tentativa desesperada de reparar a nave em um ambiente alienígena hostil e cheio de mistérios.

A estória é contada pelo ponto de vista dos personagens humanos, golfinhos elevados e até mesmo do ponto de vista de outras espécies dos Galáticos. Para os golfinhos o autor desenvolveu um padrão de linguagem no estilo Haiku, uma forma de poesia japonesa curta caracterizada pela justaposição de duas ideias, com 17 on (também conhecido como mora, ou algo como as nossas sílabas) divididas em três frases com 5, 7 e 5 ons.  O resultado é no mínimo curioso. A Streaker, foi adaptada para comportar uma tripulação em sua maior parte de golfinhos, com ambientes aquáticos, mas os golfinhos também podem circular entre outros compartimentos e comunicar-se com humanos em chimpanzés utilizando exoesqueletos conhecidos como aranhas.

A imaginação de David Brin é realmente impressionante, e seu rigor científico permite algumas postulações aceitáveis do ponto de vista tecnológico. A comunicação entre as espécies humanas, golfinhos e chimpanzés, bem como a interação entre eles é bastante convincente. Por exemplo, a Streaker é a primeira nave terrestre a ser capitaneada por um golfinho, o capitão Creideiki, portanto ele demonstra estar sob pressão devido sua responsabilidade em provar tanto aos humanos quanto aos outros de sua espécie que eles são totalmente capazes de cuidar de si mesmos. Os humanos também lidam com suas próprias preocupações e frustrações, bem como algum romance entre eles. O único chimpanzé à bordo é ranzinza e egoísta. Nos capítulos mostrados do ponto de vista dos Galáticos podemos notar um nítido sentimento de desdem e superioridade em relação aos humanos e as outras duas espécies terrenas patrocinadas por nós.

A estrutura rotativa da narrativa, alternando entre os pontos de vistas conforme muda o narrador,  é um recurso valioso e vários livros que já li fizeram excelente uso dessa técnica, mas David Brin pecou na brevidade desses capítulos. Os capítulos são tão curtos (alguns têm menos de uma página, ou até mesmo apenas poucas sentenças) que dificilmente permitem ao leitor acostumar-se ao novo ponto de vista. A narrativa acabou ficando cheia de saltos, o que prejudica a conservação do momemtum (ritmo) na leitura, deixou a narrativa confusa e à todo momento Brin joga um balde de água fria nos momentos onde a estória começava a ficar interessante.

Apesar de apresentar vários problemas, Maré Alta Estelar ainda pode ser considerado um grande livro, escrito dentro do melhor da tradição do gênero: mostrando o impacto que a ciência e tecnologia produzem sobre a humanidade.

Recomendo a leitura, mas apenas para fãs do gênero.

 

A Sombra do Torturador – Gene Wolfe

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: A Sombra do Torturador (Tetralogia do Livro do Novo Sol #1)
  2. Nome do autor: Gene Wolfe
  3. Tradutor: Maria de Lourdes Medeiros
  4. Nome da editora: Publicações Europa-América
  5. Data e local de publicação: Portugal, 1981;
  6. Número de páginas: 280 páginas;
  7. Gênero: Fantasia Científica;
  8. Sub-Gênero: Morte da Terra (Dying Earth);
  9. Nota: ★★★★★ (5!)

Estamos convencidos de que inventamos os símbolos. A verdade é que são eles que inventam a nós. Somos criaturas suas, moldados por suas arestas fortes e incisivas.

A Sombra do Torturador (The Shadow of the Torturer) é o primeiro livro da Tetralogia do Livro do Novo Sol, de Gene Wolfe. É considerado por muitos um dos melhores livros de Fantasia Científica já escritos, um gênero que combina elementos da ficção científica com a fantasia. Este primeiro volume relata a história de Severian, um aprendiz na Ordem dos que Procuram a Verdade e a Penitência (a Ordem dos Torturadores) e os eventos que o levaram à sua expulsão da Ordem e sua jornada para fora de sua cidade natal de Nessus. O estilo é o da narrativa em primeira pessoa, onde Severian – que alega possuir uma memória eidética (fotográfica) – conta sua história situada em um futuro muito distante, quando o Sol enfraqueceu transformando a Terra em um mundo frio e moribundo. Os livros dessa série são os seguintes:

  1. A Sombra do Torturador (The Shadow of the Torturer);
  2. A Garra do Conciliador (The Claw of the Conciliator);
  3. A Espada do Lictor (The Sword of the Lictor);
  4. A Cidadela do Autarca (The Citadel of the Autarch);
  5. Urth do Novo Sol (The Urth of the New Sun) – Este último é uma espécie de epílogo para a história de Severian.

Gene Wolfe (83 anos) não é um autor de best-sellers, fato que explica o completo desprezo das editoras brasileiras. Apesar disso ele é muito elogiado pela crítica e é reconhecido no meio literário como um dos maiores escritores vivos da língua inglesa, dono de uma prosa densa, rica em elementos alusivos e sem apego à convenções de gêneros literários. Neil Gaiman o considera possuidor de um “intelecto feroz”, Swanwick disse que Wolfe é “o maior escritor da língua inglesa vivo atualmente” e Disch considerou O Livro do Novo Sol como “uma tetralogia sofisticada, inteligente e suave.”
Os quatro volumes do Livro do Novo Sol são povoados por referências e metáforas cristãs, especialmente católicas – Gene Wolfe é um católico praticante – mas o leitor não precisa conhecer nada de teologia para aproveitar o livro pois essas referências ficam restritas ao background da história.
Um exemplo do uso de símbolos e referências católicas neste livro é o de Santa Catarina de Alexandria que foi presa por censurar a perseguição aos cristãos pelo imperador Maximino Daia. O imperador convocou 50 dos maiores sábios do mundo para convencê-la de que ela estava errada, e que deveria negar o Deus dos cristãos. Mas os argumentos de Catarina era tão eloquentes e convincentes que foi ela quem acabou convertendo os sábios ao cristianismo. Após a tortura Santa Catarina foi decapitada tornando-se uma das maiores mártires do católicos. Ironicamente a santa é apresentada como a padroeira dos Torturadores, e Severian, assim como os sábios da lenda católica, acaba traindo sua Ordem ao mostrar misericórdia à uma exultante da nobreza geneticamente alterada de Urth. Essa “traição”, acaba levando à jornada do exílio de Severian.

Antes de ser expulso para o exílio na longínqua cidade de Thrax, ele recebe de seu mestre a espada Terminus Est, uma impressionante espada, com a ponta quadrada, guarda mão de prata com duas cabeças entalhadas, punho de onyx com fita de prata e uma opala na ponta. As palavras Terminus Est gravadas em sua lâmina significam Esta é a Linha de Divisão. No meio da lâmina existe um canal por onde corre um metal líquido chamado de hidrargiro, mais pesado que o ferro, e que ao erguer a espada acima da cabeça desloca-se para a próximo do punho, e ao descer a espada desloca-se para a ponta, auxiliando o executor a manter o equilíbrio caso seja necessário manter a espada erguida durante muito tempo até o término de uma oração ou a ordem de um inquiridor.

Abro um parênteses para comentar algo sobre o sub-gênero dessa história, o pouco conhecido Morte da Terra (tradução livre de Dying Earth) que difere do popular sub-gênero pós-apocalíptico por não tratar de uma destruição catastrófica, mas sim de uma exaustão entrópica da Terra. O primeiro livro desse gênero foi Le Dernier Homme (1805) que narra a história de Omegarus, o Último Homem na Terra, que mostra uma visão de futuro onde a Terra tornou-se completamente estéril. Outros autores modernos também escreveram excelentes livros nesse sub-gênero, como Arthur C. Clarke em A Cidade e as Estrelas (1956) e George R. R. Martin em Morte da Luz (1977).

A edição portuguesa, possui alguns erros de tradução e vários erros tipográficos, além de não possuir o apêndice que existe na edição em inglês: Social Relationships in Commonwealth. Esse apêndice apresenta, de forma sucinta, a curiosa divisão da sociedade de Urth (uma corruptela para Earth) em sete grupos básicos, entre eles: exultantes, armigers, optimates, religious, pelerines e cacogens. Mais tarde descobrimos que existem mais de 135 classes na complexa sociedade de Urth, algumas com números muito reduzidos como a dos Conservadores, responsáveis pela conservação dos livros da biblioteca de Nessus e manutenção do Jardim Botânico, uma espécie de museu vivo com ecossistemas há muito tempo extintos. Em meio à narrativa podemos entender melhor os papéis desses grupos e é fascinante como o autor consegue apresentar essa estranha sociedade de forma natural e convincente, utilizando-se da visão de Severian, agudamente sensível às impressões do mundo exterior, propiciando uma narrativa extraordinariamente enriquecida pelas reflexões do seu narrador.

É um livro extremamente difícil de encontrar no Brasil e em Portugal, pois existem poucas cópias no mercado de usados. Após buscas exaustivas localizei todos os livros da série: A Sombra do Torturador (Livraria Traça, R$23,27), A Garra do Conciliador (Estante Virtual, R$26,42), A Cidadela do Autarca (Estante Virtual, R$45,16), e o mais difícil de encontrar foi A Espada do Lictor (wook.pt, R$96,86 já incluindo o frete internacional).

Muito mais que uma simples fantasia épica, O Livro do Novo Sol é uma obra como poucas, escrita com qualidades estilísticas inquestionáveis que criaram um mundo cruel mas ao mesmo tempo fascinante e merecedor de nossa atenção. Se você tiver sorte de encontrar esse livro não pense duas vezes, é um livro obrigatório para qualquer estante de ficção!

The Old Equations – Jake Kerr

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: The Old Equations
  2. Nome do autor: Jake Kerr
  3. Tradutor: Rodrigo Fernandes (tradução ainda em andamento)
  4. Data e local de publicação: 16/08/2014, EUA;
  5. Número de páginas: 45 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Sub-Gênero: Realidade Alternativa;
  8. Nota: ★★★★★ (5)

The Old Equations é uma estória escrita por Jake Kerr, e publicada pela primeira vez na revista Lightspeed Magazine em 2011. Foi uma das finalistas do Prêmio Nebula de 2011 e imediatamente reconhecida pelos fãs e pela crítica especializada como uma das melhores novidades no gênero ficção científica dos últimos anos.

É uma estória curta (apenas 45 páginas) que está disponível no Kindle Unlimited da Amazon ou por R$2,53 para quem não é assinante desse serviço, em inglês, mas o meu amigo Rodrigo Fernandes já conseguiu autorização expressa do autor para traduzir e divulgar a sua tradução para o português! Assim que estiver pronto irei disponibilizar o arquivo.
Jake Kerr parte de uma premissa interessante para compor uma realidade alternativa: E se Albert Einstein tivesse morrido antes de divulgar sua genial teoria da relatividade geral, e suas equações tivessem ficado esquecidas até sermos capazes de lançarmos missões interestelares tripuladas?
Ignorando a existência das equações de Einstein, uma nave é então enviada à Gliese 581d, e apesar de possuir avançadas tecnologias quânticas, como sistemas de comunicação instantâneos através de emaranhamento de partículas subatômicas, efeitos relativísticos de dilatação temporal começam a aparecer, confundindo tanto o astronauta como a equipe responsável pela comunicação na Terra. Eles acabarão por descobrir que as velhas equações do obscuro e excêntrico físico Einstein, que tinham sido ignoradas até então, fazem parte da dura realidade com que eles terão que lidar.

Ficção científica não é um gênero fácil para se aventurar. Não se trata apenas de escrever sobre tecnologia e ciência, mas principalmente de escrever sobre a forma como o homem lida com elas, o que foi feito de forma muito competente pelo autor. Na estória um casal enfrenta a difícil separação (e riscos) de uma viagem interplanetária de oito anos. Eles sabem que a separação será difícil, mas estão preparados para lidar com esse problema. A partir do momento que as velhas equações de Einstein mostram-se verdadeiras, o casal descobre que a separação será muito maior do que poderiam imaginar.
Na minha opinião considero que seria difícil a ciência continuar avançando durante dois séculos e meio sem que ninguém percebesse  os efeitos da dilatação temporal. Os efeitos teriam sido notados em relógios síncronos como o que utilizamos hoje em satélites de GPS que mostram leituras divergentes devido à grande velocidade dos satélites em relação ao solo. Apesar disso, essa premissa é muito interessante e estimula muito a imaginação do leitor.
Outro aspecto digno de nota sobre essa estória foi a excelente escolha de Gliese 581d como destino da missão. Esse é um planeta extrassolar muito promissor para encontrarmos vida, pois reúne várias qualidades: está próximo (apenas 20 anos luz, na constelação de Libra), tem apenas 6,98 vezes a massa terrestre e está no limite da zona habitável em torno de sua estrela.
Jake Kerr realizou um trabalho muito competente nessa obra de ficção, o que explica porquê ele é considerado uma das melhores novidades no mundo da ficção científica contemporânea. Acompanharei ansioso o trabalho desse autor!

O Carteiro – David Brin

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: O Carteiro (The Postman)
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Tradutor: Fábio Fernandes
  4. Data e local de publicação: Internet, 2014;
  5. Número de páginas: 253 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Sub-Gênero: Ficção Pós-apocalíptica;
  8. Nota: ★★★ (3)

    O Carteiro (The Postman) é um romance de ficção científica pós-apocalíptica escrito por David Brin em duas partes: “O Carteiro” em 1982 e ¨Cyclops” em 1984. Posteriormente o livro foi publicado na sua forma completa, tendo sido indicado aos prêmios Hugo e Nebula, e recebeu os prêmios John W. Campbell e o Locus, em 1986. No Brasil o livro foi publicado apenas em duas partes, pela saudosa Isaac Asimov Magazine, a primeira no nº21 e a segunda no nº 23.
No link abaixo você encontrará a edição brasileira na íntegra, apenas foi feita a correção para a nova ortografia e a edição para epub, mobi e PDF.
A tradução não é minha, mas coloquei na categoria Minhas Traduções apenas facilitar a localização.

O Carteiro – David Brin (PDF)
  O Carteiro – David Brin (MOBI)
 O Carteiro – David Brin (EPUB)

   A maioria das pessoas deve conhecer essa história apenas através do péssimo filme com o Kevin Costner. No Brasil o título foi traduzido erroneamente como O Mensageiro. O filme é uma bomba, como quase tudo que Kevin Costner já fez na vida, mas felizmente eu tinha lido o livro na revista Isaac Asimov Magazine antes de assistir ao filme, e sabia que a história era muito mais do que aquilo que foi mostrado. O filme é sem sentido e simplesmente estúpido, Costner apenas tenta imitar Mad Max. Ele é baseado apenas nas primeiras 40 ou 50 páginas do livro. Caso você já tenha perdido tempo assistindo o filme espero que tenha sido há bastante tempo e espero que já tenha esquecido de boa parte dele, para ter um começo limpo nessa história.
O Carteiro é um livro no clássico sub-gênero pós apocalíptico. O mundo enfrentou uma guerra mundial, cujos detalhes (e até mesmo os oponentes dos EUA) são deixados de lado pelo autor. O uso maciço de armas nucleares, armas biológicas e o inverno nuclear destruiu completamente a civilização. O protagonista do livro, Gordon, era um miliciano em Minnesota, que tentava proteger alguns sobreviventes locais até que todos seus companheiros morreram e ele fugiu para o oeste. O livro começa quando Gordon está sendo roubado por uma gangue e sobrevive ao descobrir um carro postal abandonado e o corpo de um carteiro que morreu há muito tempo. Isso acaba salvando sua vida, pois ele tinha sido roubado e morreria de frio se não vestisse o casaco do carteiro. Ele acaba pegando a sacola de cartas do carteiro, sem pensar muito sobre isso. Quando ele chega à Pine View os habitantes locais reagem de forma inesperada e emocionada com a visão do uniforme, e ele acaba vendo-se tentado a encarnar o papel de carteiro.
Gordon acaba fazendo uso dessa mentira para conseguir respeito, atenção, abrigo e alimento. Ele mente dizendo que representa o governo dos Estados Unidos Restaurados, e as pessoas estão tão desesperadas para acreditar em algo que aceitam facilmente suas mentiras. Gordon se reconhece como uma fraude, e fica tentado a desistir da farsa, mas acaba rapidamente preso no papel. O autor mostra Gordon como um personagem amargurado e oportunista, no entanto ele possui uma moralidade inata esperando para mostrar-se.
O livro questiona o significado de heroísmo e liderança, e como alguém nessa situação pode acabar sendo dominado por um papel se desempenhá-lo muito bem ou por muito tempo.
Mas esse livro tem alguns problemas muito sérios. Na primeira metade, que é basicamente um livro de aventura e exploração de um ambiente pós-apocalíptico, existe uma certa estranheza na dinâmica da narrativa, uma impressão de que o autor está enfiando a narrativa goela abaixo do leitor ao invés de conduzi-la suavemente. Mas o pior acontece na segunda parte, quando Gordon irá enfrentar os sobrivencialistas: o livro sai completamente dos trilhos!
David Brin mostra uma reversão do status das mulheres à um padrão quase feudal, como se os direitos femininos fossem uma espécie de produto da civilização moderna. Quando Gordon chega à uma cidade onde existe uma espécie de nova onda de feminismo surgindo, Brin introduz algumas ideias bizarras sobre a necessidade das mulheres em controlar a violência dos homens, e sobre uma espécie de dicotomia no comportamento masculino entre o heroico e o vil, e faz um claro paralelo com a comédia antiguerra Lisístrata escrita por Aristófanes em 411 A.C.. Nessa comédia as mulheres de Atenas fazem uma greve de sexo e conseguem assim fazer com que seus maridos desistam da luta e busquem a paz. Esse paralelo com Lisístrata está até na dedicatória do livro. Próximo do fim do livro tudo se resume à uma briga cheia de testosterona no estilo saloon de filmes de faroeste. David Brin fica preso à esse modelo binário de gêneros, indo da condescendência sincera em tentar reconhecer a força das mulheres à simplificação na descrição do comportamento masculino, agressivo e superficial.
Para piorar tudo, David Brin simplesmente puxa o tapete debaixo dos pés do mundo que ele criou. O tema principal de O Carteiro até próximo do fim é a substituição da ênfase na tecnologia pelo aumento da importância das pessoas, e a necessidade de cooperação entre elas. Em um trecho bem conduzido Brin consegue mostrar as possibilidades de se utilizar a tecnologia como ferramenta para a salvação, e esse tema encaixa perfeitamente com a natureza heróica de Gordon. Mas logo depois o autor introduz vilões caricatos, típicos de revistas em quadrinhos, tudo descamba para a simples violência e acaba desviando o foco para as partes ruins do livro.
Sem dúvida alguma o livro é melhor que o filme, mas isso não quer dizer muita coisa. O livro começa devagar, mas o meio dele é até melhor do que poderíamos esperar. Mas o embaraçoso sub-enredo envolvendo o feminismo e o colapso do mundo que ele criou deixou um gosto amargo na boca do leitor.
Apesar de tudo é um livro que recomendo a leitura, e apesar dos problemas que possui é um livro pós-apocalíptico regular. Se você está procurando um livro pós-apocalíptico melhor experimente ler Um Cântico para Leibowitz (veja minha análise).

Red Mars – Kim Stanley Robinson

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 Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Red Mars (Trilogia de Marte #1)
  2. Nome do autor: Kim Stanley Robinson
  3. Tradutor: Não foi traduzido para o português
  4. Nome da editora: Spectra;
  5. Data e local de publicação: EUA, 1993;
  6. Número de páginas: 592 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Sub-Gênero: Ficção Científica Hard;
  9. Nota: ★★★★

Red Mars é o primeiro livro da Trilogia de Marte, tendo recebido o Prêmio Nebula de 1993. Lembro de ter lido ele pela primeira vez em 1994 ou 1995, época em quem eu estudava astronomia na UFRJ e este foi o primeiro livro de ficção científica que li em inglês. Desde então venho esperando por uma tradução, mas infelizmente ela nunca foi feita, e como estou lendo os vencedores do Prêmio Hugo (Green Mars e Blue Mars receberam o prêmio) decidi começar relendo o primeiro livro da trilogia que considero a melhor ficção épica sobre a colonização de Marte.
Hoje temos acesso a muitas imagens de Marte, inclusive através do Google Maps Mars, recomendo a consulta dos mapas e regiões para uma melhor ambientação! Veja algumas das regiões descritas por Robinson em seu livro:

Chryse Planitiae

Chryse Planitiae

Juventae Chasm

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Para uma perspectiva ainda melhor do planeta vermelho recomendo o site da NASA, que tem uma enorme quantidade de material das últimas missões, principalmente da Opportunity:

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A história de Red Mars inicia em 2026 com a primeira viagem colonizadora para Marte feita pelo Ares, a maior espaçonave construída para levar os primeiros colonizadores do planeta vermelho. A nave foi construída através da união de tanques externos dos ônibus espaciais, que após a utilização foram impulsionados até uma órbita para serem utilizados como módulos construtivos. A missão é um joint venture entre os Russos e Americanos, sendo que setenta dos Primeiros Cem são desses países. O livro detalha a viagem, a construção da primeira base (chamada de Underhill) por Nadia Chernyshevski, os relacionamentos complexos entre os colonizadores, os debates sobre terraformação do planeta e o relacionamento da colônia com a Terra.

Existem dois pontos de vistas diametralmente opostos quanto a terraformação de Marte: O personagem Saxifrage “Sax” Russell acredita que própria presença do ser humano no planeta significa que a terraformação de Marte já teve início, e que seria essa a nossa obrigação, pois a vida é a coisa mais rara e preciosa do universo e Marte precisa receber a vida. Já Ann Clayborne assume a posição de que a humanidade não tem o direito de alterar planetas para satisfazer suas necessidades.
O ponto de vista de Russel inicialmente é puramente científico mas acaba misturando-se com as ideias de Hiroko Ai, a chefe da equipe de agricultura que acaba criando um novo sistema de crença (a “Areophania”) que devota-se à admiração e promoção da vida (“viriditas”); os seguidores desses pontos de vistas são chamados de “Verdes”, enquanto os seguidores de Clayborne ficam conhecidos como “Vermelhos”.
O órgão que irá decidir para qual lado a colonização irá seguir será a Autoridade das Nações Unidas para Organização de Marte (UNOMA), e obviamente (contar o óbvio não é spoiler, certo?) os Verdes irão prevalecer.
Entre as técnicas utilizadas para transformar Marte são utilizadas as seguintes:

  1. Instalação de um grande número de cataventos para transformar a energia eólica em térmica para aquecer a atmosfera;
  2. Escavação de túneis profundos na crosta (moholes) para liberar calor retido abaixo da superfície. O nome Mohole é uma homenagem ao Projeto Mohole, que foi conduzido entre 1958 e 1966 e realizou uma tentativa de recuperar uma amostra de material do manto terrestre ao cavar um buraco através da crosta na Descontinuidade de Mohorovicic, ou Moho.
  3. Aumento da concentração de gases na atmosfera através de uma complexa fórmula bio-química que fica conhecida como “coquetel de Russell”;
  4. Detonações nucleares profundas para derretimento do permafrost e liberação de água;
  5. Arremesso de cometas para colisão na atmosfera de Marte, em trajetória rasante, causando sua desintegração e agregação de oxigênio, hidrogênio e água na atmosfera;
  6. Inserção de um asteroide em órbita geossíncrona com Marte, que é batizado de “Clarke” no qual será construído um  elevador espacial;

Além disso Robinson introduz muitas tecnologias que hoje seriam consideradas como o Santo Graal da ciência, tanto na ciência de materiais (com super materiais extremamente resistentes que possibilitariam a construção do elevador espacial e redomas flexíveis capazes de envolver cidades inteiras) como na ciência biológica (tratamentos genéticos e geriátricos que prolongariam a vida e a qualidade de vida em várias décadas).
Considero Red Mars um dos melhores livros de ficção científica hard já escritos, e sem dúvida o melhor livro sobre uma possível colonização de Marte, muito coerente nos princípios científicos apresentados, cheio de aventura, romance e humor. Mas então por quê não dei cinco estrelas para ele? Acredito que a única falha do autor foi dar pouco destaque ao enorme desafio que os colonizadores deveriam enfrentar ao lutar contra um ambiente extremamente hostil: atmosfera rarefeita e tóxica, frio extremo, recursos limitados e ambientes confinados em um sistema ecológico frágil e complexo. Para se ter uma ideia, após mais de um ano da chegada da equipe de cem colonizadores nenhum deles morre ou sofre ferimentos graves. O pior ferimento foi o de Nadia, uma especialista em construções em ambientes hostis, que perdeu apenas um dedo e um acidente. Comparando com as dificuldades enfrentadas pelos colonizadores do Novo Mundo ou com as dificuldades que os exploradores da Antártica enfrentaram, é praticamente um acampamento de verão! A viagem da equipe de geólogos e Nadia ao pólo norte marciano foi descrita rapidamente e transcorre sem nenhuma dificuldade, sendo apresentada mais como uma excursão de férias para Nadia do que como uma missão arriscada com algum propósito científico ou prático. Enquanto isso a maior preocupação de Maya (a líder do grupo russo) é como ela vai lidar com seu triângulo amoroso que mantém com os dois líderes americanos, Frank e John.
Muito pouco do livro é dedicado à questão homem versus ambiente, e muito dele é dedicado aos conflitos entre os próprios seres humanos, questões políticas e econômicas, como se a maior dificuldade de viver em Marte não fosse o ambiente inóspito, mas sim a própria natureza destrutiva do ser humano e as dificuldades de relacionamentos dos colonizadores.
Mas essa é uma pequena falha de Kim Stanley Robinson, e de forma alguma desmerece esse grande livro. Na minha opinião, Red Mars seria ainda melhor se tivesse um pouco mais do estilo que Arthur C. Clarke empregou em Encontro com Rama (veja minha análise), que é muito mais realista e focado na exploração e não nos relacionamentos humanos.

Robinson utiliza o eficiente recurso de alternância da narrativa em terceira pessoa entre os personagens principais, o que permite ao leitor ver Marte e os relacionamentos dos colonizadores sob perspectivas muito diferentes: Nadia com seu pragmatismo cabeça-dura, Ann com sua tristeza quase patológica, John com seu entusiasmo e estilo celebridade de primeiro homem em Marte, Arkady com seu libertarismo revolucionário, o psiquiatra francês Michel Duval sofrendo de saudade crônica da Terra; essa alternância amplia muito a abrangência do trabalho do autor, possibilitando ao leitor identificar-se com um ou outro personagem e suas atitudes em determinados momentos.

Não deixe de ler também Green Mars e Blue Mars, em breve publicarei minha análise dos outros livros da trilogia!

Serpente do Espaço – Vonda N. McIntyre

55 - Serpente do Espaço

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Serpente do Espaço (Dreamsnake)
  2. Nome do autor: Vonda N. McIntyre
  3. Tradutor: Margarida Gomes, Eduardo Gomes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 55;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1983
  6. Número de páginas: 264 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Sub Gênero: Ficção Científica Social
  9. Nota: ★★ (4)

Serpente do Espaço (Dreamsnake) é um romance de ficção científica escrito por Vonda N. McIntyre em 1978 e vencedor dos três prêmios mais importantes da ficção científica (Hugo e Locus de 1979 e Nebula de 1978), feito que foi igualado por apenas 13 livros até hoje, o que a coloca ao lado de autores consagrados como Asimov (Os Próprios Deuses), Clarke (Encontro com Rama), Le Guin (Os Despossuídos), Haldeman (Guerra Sem Fim) e Pohl (Gateway).
Não se deixe enganar pela capa e título — no pior estilo anos 70 — pois certamente esse livro merece um lugar de destaque entre os clássicos do gênero.
O livro conta a história de uma curandeira com o sugestivo nome Serpente (Snake) que vaga entre as tribos e clãs de um mundo devastado em um futuro distante, curando os doentes e trazendo conforto aos moribundos, utilizando-se do veneno de algumas cobras que leva consigo para produzir medicamentos. Logo no início uma de suas cobras, que é capaz de induzir torpor e alucinações em seres humanos, sua “cobra dos sonhos”, é morta. Ela então tentará encontrar uma nova cobra para substituí-la, e ao mesmo tempo irá ajudar muitas pessoas em seu caminho.
A história se passa na Terra, mas em um futuro pós-apocalíptico, muito diferente tanto tecnologicamente quanto socialmente do nosso mundo moderno: Uma guerra nuclear tornou vastas regiões da Terra radioativas demais para suportar a vida humana, mas a biotecnologia avançou bastante e a manipulação genética de plantas e animais é coisa rotineira.
Apesar de ter avançado em algumas áreas da ciência, como a biotecnologia, a humanidade regrediu a um tribalismo primitivo, e as tribos ou clãs encontram muitas dificuldades em meio a uma terra devastada, exceto em uma cidade murada e fechada que ignora completamente os clãs e vive em completo isolamento.
Vonda N. McIntyre construiu uma aventura repleta de idéias, utilizando uma prosa ágil, elegante mas sem excesso de ornamentação, bastante evocativa principalmente com suas descrições breves mas intensas dos cenários que conduzem o leitor diretamente ao estranho mundo desértico e devastado por uma guerra nuclear, mas que apesar disso ainda nos é familiar.
A autora abraça completamente a ideia de que a ficção científica deve ser um espelho da nossa sociedade contemporânea, e apesar de descrever um mundo que em muitos aspectos é mais primitivo que o nosso, ela pretende fazer com que questionemos o mundo em que vivemos. Mas, como esse livro foi escrito nos anos 70 ele é repleto de ideias de poliamorismo, bissexualismo,  amor livre e comunalismo, e isso pode causar certa estranheza ao leitor moderno. Recomendo a você um pouco de paciência e que evite entrar em questionamentos sérios que possam ser causados por sua perspectiva idiossincrática, e que evite tratar esse livro como uma leitura política ou ideológica, pois este livro não foi escrito como um crítica disfarçada à nossa realidade sociopolítica, ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.
De certa forma podemos considerar Serpente do Espaço como um livro que nada mais é que uma construção de mundo, sendo que a história é apenas uma desculpa para autora mostrar sua visão. Enquanto outros livros dedicam a narrativa a realizar a construção de mundos, neste livro a autora faz isso de forma muito delicada, em doses pequenas e diluídas no meio da tensão da narrativa. Muitas vezes podemos fazer falsas suposições, para logo em seguida percebermos que estávamos concluindo tudo de forma errada.
Uma das características que não considero uma falha, mas talvez uma fraqueza nessa obra é que existe uma clara divisão entre bons e maus. Os personagens maus não passam de seres desprezíveis que são obstáculos para os bons. E que maldades eles são capazes! São capazes até mesmo de cometer abuso sexual infantil. As pessoas boas são raras, mas muito prestativas e pouco reais. Uma coisa bem anos 70 nesse livro é a tendência que duas pessoas boas tem de se apaixonar à primeira vista, apenas porque são criaturas boas e raras. A personagem principal é sólida e bem construída, mas os demais personagens são muito superficiais e pouco convincentes. Essa superficialidade é uma fraqueza da autora, mas a história é tão original que facilita muito que a perdoemos por isso.
Serpente do Espaço é um livro muito estranho, diferente de tudo que existe no gênero, o que talvez explique nunca ter sido publicado no Brasil, mas você poderá encontrar com relativa facilidade em sebos online uma cópia da edição portuguesa.

Estranheza e méritos de Serpente do Espaço

  • Cobras:  Sim, o livro é repleto de cobras… cobras, cobras e mais cobras… para quem sofre de ofidiofobia este livro pode ser um pesadelo. A personagem principal, além de chamar-se Serpente possui várias cobras que são mais que instrumentos de trabalho, são verdadeiros bichinhos de estimação, que sobem em seu corpo, enrolam-se em seu pescoço e braços. A intimidade dela com as cobras é no mínimo estranha.
  • Controle de natalidade: Controle de natalidade via bio feedback. Sem dúvida uma ideia bastante imaginativa, e apreciada por muitos leitores de McIntyre que não gostam muito de ficção científica high-tech e da dominância do gênero masculino no gênero.
  • Casamentos entre três pessoas: Peguemos o exemplo de uma personagem, Merideth. Apesar da estranheza do nome (pronúncia equivalente à Merry + death, ou morte alegre), o mais interessante é que ela mostra uma característica curiosa da sociedade, os casamentos entre três pessoas. Merideth é casada com um homem e uma mulher… até aí tudo bem, mas quem são os maridos ou esposas? Ei, afinal Merideth é homem ou mulher? Nunca saberemos. Essa androginia e indefinição de papéis é uma característica interessante no livro, que infelizmente perdeu-se na tradução para o português, pois a tradutora em alguns trechos assumiu tratar-se de um homem, mas no original podemos nitidamente perceber a indefinição. Veja os trechos:

Beneath deep tan, Merideth was pale. “Then do something, help her!”
Em português:
Sob o seu tom escuro, Merideth estava pálido:
— Então faz qualquer coisa! Salva-a! (página 52)

“Dear Merry, Alex knows,” Jesse said. “Please try to understand. It’s time for me to let you go.”
Em português:
— Meu querido Merry, Alex tem razão — disse-lhe Jesse — Por favor, tenta compreender. É tempo de eu vos deixar ir. (página 57)

Eu entendo a dificuldade que seria manter essa indefinição entre masculino ou feminino no português, uma língua mais exigente quanto aos gêneros, mas a tradução acabou eliminando um aspecto muito interessante do livro ao determinar que Merideth é homem, o que a autora nunca fez.

  • Subversão através da simpatia: Fugindo dos meios tradicionais de subversão (força, ameça, terror, choque e dor) a autora apresenta uma nova forma de subversão através da bondade da protagonista, que está longe de ser sentimentalista ou cínica. O efeito dessa subversão é paradoxal, age de forma lenta e acaba sendo mais durável, e o leitor é a principal vítima da subversão de McIntyre!
  • Feminismo: De certa forma, o feminismo da autora é mais eficiente até que  o de Ursula K. Le Guin (veja minha análise de A Mão Esquerda da Escuridão), ao mostrar personagens femininos fortes, indefinição de papéis e gêneros, além dos casamentos livres de papéis pré-definidos pela sociedade. Apesar disso o trabalho de Le Guin é muito melhor conceituado que o de McIntyre.
  • Desconstrução de gêneros: Todas as nossas expectativas relacionadas à gêneros e seus papéis na sociedade, que estão solidificados em nossas mentes, são questionados de forma muito competente pela autora, expondo nossos preconceitos e abrindo nossas mentes. Essa desconstrução é típica da contracultura dos anos 70, mas mesmo assim ainda é interessante para o leitor moderno.

Avaliação do livro

  • Enredo: Possui alguns momentos emocionantes, mas em outros é a narrativa é um pouco lenta. História muito original e intrigante, focada mais no aspecto social que no tecnológico. Nota 4 (★★★★ ).
  • Personagens:  Os personagens ou são completamente bons, ou completamente maus, o que demonstra um pouco de superficialidade. Apesar disso a autora foi muito competente na caracterização deles. Nota 4 (★★★ ).
  • Narrativa: A prosa é elegante, mas sem exageros. Excelente ambientação e criação de mundo. Nota 5 (★★★).
  • Tradução: Existem erros de tradução na edição portuguesa, o mais grosseiro foi a remoção da indefinição do gênero do personagem Merideth. Nota 3 (★★★).
  • Geral: Certamente é um livro que merece ser lido, principalmente por sua originalidade, mas também por sua estranheza. Um verdadeiro clássico que vem sendo esquecido e ignorado há décadas por leitores brasileiros. Nota 4 (★).

Downbelow Station – C. J. Cherryh

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Downbelow Station (Company Wars #1)
  2. Nome do autor: C. J. Cherryh
  3. Tradutor: Não foi traduzido para o português
  4. Nome da editora: DAW Books;
  5. Lugar e data da publicação: EUA, 1982;
  6. Número de páginas: 526 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica Militar;
  8. Nota: ★★

Downbelow Station é um livro sobre guerra. O fato da guerra utilizar espaçonaves e raios lasers não tem qualquer importância. É um livro sobre nacionalismo, ambições pessoais e controle social. De certa forma é uma metáfora sobre a guerra fria, mas não é uma metáfora muito bem feita. Os personagens são soldados entediados, burocratas ambiciosos, aristocratas mimados, mercenários e fugitivos.
O livro envereda-se no território da Space Opera: uma guerra galática entre uma frota esfarrapada de obstinados contra as forças leais à Terra. Apesar de Cherryh partir de uma proposta interessante — mostrar como a humanidade se comporta em uma guerra— ela pede que o leitor tire suas próprias conclusões partindo de um universo estranho em que não vivemos, num futuro distante e sem dar nenhuma dica de como uma espécie alienígena se comportaria e tudo isso  é no mínimo frustante e deixa o leitor perdido.
O estilo de Cherryh é frustrante: muito sério e árido. Ela não facilitará em nada para você: não espere explicações, concessões para suavizar a leitura, nenhum truque ou piada para descontrair. Ela simplesmente coloca seus personagens em situações difíceis e deixa você assistindo enquanto tentam lidar com isso. E fim de conversa.
Apesar dela mostrar a política das facções e suas táticas de forma muito bem elaborada e competente, ela o faz de forma fria e sem graça.
Cada personagem de Downbelow Station é apresentado com um perfil psicológico muito estreito. Em nenhum momento eles irão mostrar ironia, humor ou conflitos morais, e isso para mim é imperdoável! Humor é o mecanismo clássico para se lidar com o stress, e acho difícil aceitar que essa qualidade do ser humano viria a se perder no futuro.
Como explicar que as tripulações das espaçonaves sejam compostas de autômatos leais incapazes de fazer uma simples brincadeira ou piada?
Quando você pretende contar uma história parte do sucesso dela reside na tensão dramática, em descrever como as coisas irão se resolver  e quais princípios irão prevalecer. A vida na estação de Pell é monótona, sem graça. Durante a guerra a vida fica apenas fica tensa. Não existe cores ou sabores que nos façam aceitar que a vale a pena salvar o estilo de vida dos rebeldes. Por quê o estilo de vida dos rebeldes está certo e a o da União errado? Por quê não o contrário? Tudo está em tons de cinza no livro de Cherryh,  mas infelizmente não são os tons de cinza daquele livrinho porno soft de E. L. James!

É correto classificar Downbelow Station como uma Space Opera? Não, pois falta romance, ação, um universo com vida e principalmente emoção! Muitos consideram esse livro genial, e dizem que as críticas à sua aridez são feitas por pessoas que não conseguiram entender a profundidade da história ou não foram inteligentes o suficiente para apreciar o livro. Eu digo que isso é uma grande bobagem, o livro é sem graça, monótono, frio e superficial.

Se você já leu todos os outros clássicos da ficção científica militar de Robert A. Heinlein ou Joe Haldeman então talvez possa tirar algum proveito desse livro, se ainda não leu não perca seu tempo, existe muita coisa melhor.

A Rainha de Gelo – Joan D. Vinge

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: The Snow Queen (A Rainha de Gelo)
  2. Nome do autor: Joan D. Vinge
  3. Tradutor: Maria Luísa Ferreira da Costa
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC ns° 51 e 52;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1983
  6. Número de páginas: 448 páginas;
  7. ISBN: 978-972-1-01875-4
  8. Gênero: Ficção Fantástica / Fantasia Científica
  9. Nota: ★★

A Rainha de Gelo é um livro que foi publicado em português apenas em Portugal, talvez por isso seja um livro pouco conhecido do público brasileiro. Apesar de ser classificada como ficção científica ela está tão fortemente imersa no universo da fantasia que prefiro classificá-la como fantasia científica, uma categoria que fica meio abandonada entre a ficção científica e a fantasia.
O livro é inspirado no conto homônimo de Hans Christian Andersen,  de 1844, e assim como ele lida com polaridades e dualidades: claro e escuro, verão e inverno, avanço e atraso tecnológico.
A história acontece em Tiamat, um planeta com uma longa órbita em torno de um buraco negro que conecta Tiamat com o resto da galáxia civilizada, a Hegemonia.
A população de Tiamat divide-se em dois clãs regidos por uma monarquia matriarcal: Summers (Estivais) e Winters (Invernosos). Os Winters relacionam-se com os estrangeiros, e fazem uso da tecnologia deles. Os Summers no entanto desprezam toda tecnologia e vivem como os seres humanos viviam milhares de anos atrás, com tecnologias rudimentares de agricultura e pesca.
A cada 150 anos, a órbita do planeta em torno de um buraco negro produz uma drástica alteração climática, causando o início de uma mini era glacial, e Tiamat durante esse período é governado por uma Rainha de Gelo, escolhida dentre o clã dos Invernosos. Ao encerrar-se o ciclo de 150 anos o clima esquenta novamente, e a Rainha de Gelo é executada em uma cerimônia que coroa a nova Rainha, escolhida entre o clã Estivais, que será conhecida como Rainha do Verão.
Durante o reinado da Rainha do Gelo, viagens estelares são possíveis devido à uma antiga técnica que a Hegemonia herdou do Antigo Império, utilizando o próprio buraco negro como Porta para as viagens para lugares longínquos do universo. Durante esses 150 anos Tiamat é capaz de comunicar-se e negociar com os mundos da Hegemonia mas na fase de governo da Rainha do Verão, essa Porta não é mais acessível, e todo contato fica interrompido.
A história conta como a Rainha do Gelo atual, Arienrhod, pretende prolongar seu reinado para além dos 150 anos através de clones implantados secretamente nos corpos de mulheres do clã Summer.
As pessoas mais ricas do clã Winters conseguem prolongar artificialmente suas vidas através de uma substância extraída do sangue de uma espécie de animal marinho conhecido como mer, a “água da vida”. Essa substância anti-envelhecimento é vendida para os outros mundos da Hegemonia, e a caça ao mer é intensa durante o governo dos Winters, quando os outros mundos tem acesso à Tiamat.
Um desses clones de Arienrhod, uma garota chamada Moon e seu primo Sparks, que estão apaixonados, enveredam-se em uma trama que acaba por afastá-los. Moon tornar-se-á uma profetisa, enquanto Sparks irá assumir a posição de Starbuck, o amante da rainha.
Moon acaba saindo de Tiamat em uma viagem para um mundo da Hegemonia, e retornará para confrontar a Rainha de Gelo e salvar seu primo.

Existem referências mitológicas e folclóricas muito curiosas em A Rainha de Gelo que são dignas de menção:

  1. Tiamat: O nome do planeta representa o espírito primordial do oceano na mitologia mesopotâmica.
  2. Arienrhod (ou Arianrhod): É uma figura da mitologia celta que aparece no Quarto Ramo do Mabinogion, uma coletânea de textos galeses. É descrita como “A Senhora da Roda de Prata”, que vivia na longínqua terra encantada de Caer Sidi, e personificava uma antiga deusa celta, representada pela constelação Corona Borealis, cujo nome em galês era “Caer Arianrhod” , ou seja, “O castelo girante de Arianrhod”. A lenda de Arianrhod é muito complexa, cheia de elementos contraditórios e de difícil compreensão,  e de contradições decorrentes da interpretação de antigas lendas que foram registradas apenas na tradição oral através dos bardos, monges e historiadores cristãos. Essa história, através de metáforas e intrincados simbolismos celtas, expõe a relação dos celtas com as divindades e cultos lunares.
  3. Moon (Lua): No tarô, a carta da Lua (Moon), é uma carta que indica inteligência instintiva, além do retorno às origens.
  4. Paralelo entre viagens espaciais e místicas: Nos contos de fadas as viagens à outros mundos (ou submundos) normalmente é associada com dissociação da passagem do tempo, e com perdas, o que é representado nesse livro através das viagens através da Porta no buraco negro, que causam dilatação temporal com a perda de vários anos em relação à Tiamat.
  5. Bruxa Má: A Rainha de Gelo encontra referência com a tradicional bruxa má, figura comum em vários trabalhos como nos livros de Andersen, dos Irmãos Grimm, Shakespeare e no folclore celta.

Apesar de possuir algumas semelhanças com o Universo Duna os personagens e a narrativa de Joan D. Vinge não possuem a profundidade e qualidade de um Frank Herbert. Assim como nos contos de fadas clássicos os personagens apresentam-se mais como exigências de roteiro para provar uma moral da história, carecendo de exibir quaisquer nuances psicológicos.
Mas será que essa superficialidade dos personagens é uma falha no trabalho da autora? A resposta é: não! É importante levarmos em conta que o livro A Rainha de Gelo foi escrito como um conto de fadas futurista, como uma tentativa de introduzir uma estrutura folclórica nesse universo da ficção científica, o que foi feito de forma muito competente pela autora, transformando o livro num clássico merecedor não apenas do Prêmio Hugo de 1981 como também a atenção de qualquer um que se interesse por ficção fantástica ou científica.