Ensaio Sobre a Cegueira – José Saramago

capa

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Ensaio Sobre a Cegueira
  2. Nome do autor: José Saramago
  3. Idioma: Português
  4. Nome da editora: Caminho;
  5. Lugar e data da publicação: Lisboa, 1995;
  6. Número de páginas: 425 páginas;
  7. Gênero: Romance;
  8. Nota: 

Ensaio sobre a Cegueira é um romance de José Saramago, escrito em 1995, logo antes de receber o prêmio Nobel de Literatura em 1998.
Assim o próprio autor definiu o livro:

“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”

E Saramago cumpre o que promete: o leitor sofre bastante lendo esse livro! O pessimismo do autor está em cada página, em cada parágrafo. Mas será que somos tão ruins como Saramago insiste em dizer? Será que o mundo realmente tornou-se um lugar tão horrível?  Eu não concordo com o autor e não gosto do seu estilo. Falar mal de Saramago é uma tarefa ingrata, e sei que muitos vão pensar: “Quem é você para criticar um dos maiores escritores da língua portuguesa?”. Sinto ir contra a esmagadora maioria, mas prefiro ser uma solitária voz dissonante do que fingir que gosto de um autor apenas por que ele é idolatrado pela maioria.
Muitos dirão: “É preciso saber separar a obra do escritor de suas ideologias.” O problema é que Saramago nunca pretendeu fazer essa distinção em sua obra, portanto irei relacionar esse livro com a militância do autor, mesmo que quase todos prefiram acreditar que o livro foi escrito apenas como um romance e não como uma crítica ao capitalismo e elogio ao comunismo. O próprio autor definia-se como um “comunista hormonal”, ou seja, o comunismo está entranhado em Saramago, e consequentemente em seus livros, será justo seus defensores esperarem que eu faça alguma distinção entre sua escrita e sua ideologia quando o próprio autor nunca fez?

Saramago, o escritor das longas frases

Antes de mais nada vamos falar sobre o tipo de escrita de José Saramago. Ele utiliza uma descrição fluida, misturando o discurso direto com o indireto, dispensando recursos como parágrafo, travessão e aspas. O discurso direto fica entre vírgulas e para não confundir muito o leitor ele usa letras maiúsculas para diferenciá-lo do indireto. O resultado são frases longas demais e uma escrita confusa, que inicialmente pode parecer difícil, mas a leitura melhora quando nos acostumamos com ela. Depois que nos acostumamos parece apenas simples deselegância do autor.
Acho essa mistura de discursos e sua sintaxe cansativa e desnecessária. De qualquer forma, essa é a marca registrada do autor, quer se goste ou não. E os admiradores de Saramago acham isso lindo, afinal existe gosto para tudo.
Eu acho que o estilo de Saramago é de um modernismo antiquado, muito forçado e exagerado, e o resultado é desagradável.
Em uma única frase que escolhi ao acaso contei 598 palavras e 3.257 caracteres. Saramago era um sádico mesmo! E não sei dizer se é a maior frase do livro, foi um trecho que escolhi aleatoriamente.
Os personagens são tratados de forma rasteira, eles sequer possuem nomes pois Saramago não pretende construir personagens. Ele apenas atribui características físicas superficiais como: a mulher do médico, o rapazinho estrábico, o ladrão, a rapariga de óculos, o cão das lágrimas, e não se preocupa em construir perfis psicológicos complexos. Com isso o autor pretende que o leitor espelhe-se neles, focando em sua crítica à sociedade capitalista.

A ideologia de Saramago

Ah…. a ideologia de Saramago…
Não tenho nada contra um comunista escrever livros, e reconheço que vários escritores comunistas escreveram grandes livros, como é o caso de Graciliano Ramos, mas ao contrário deste Saramago consegue ser muito chato. Ele tenta colocar um sentido moral comunista em tudo que escreve, e o problema é a forma como impõe essa sua moral: com falta de apreço pela ficção e desprezo pela sintaxe e pontuação. Ensaio sobre a Cegueira, a começar pelo título, não pretende ser uma obra de ficção, não pretende mostrar a alma humana, como tantos apregoam. Não passa de uma tentativa de mostrar que o mundo é um lugar horrível, que o capitalismo e o neoliberalismo são os responsáveis pelo mal existente no mundo e que a solução para os males que afligem a humanidade é… O COMUNISMO! E usa de um pessimismo exacerbado para deprimir o leitor  e assim tentar convencer que o homem é uma criatura mesquinha e egoísta, que precisa de um estado forte e rédeas curtas para mantê-lo na linha.
Não tenho nada contra o pessimismo, muitos livros que admiro são pessimistas em relação a humanidade. Mas o pessimismo de Saramago serve apenas para preparar o leitor para sua ideologia.
Mesmo que em seu livro o capitalismo, neoliberalismo e comunismos apareçam disfarçados na forma de alegorias, e não seja apresentado explicitamente o comunismo como a solução para todos os males, ele indiretamente tenta induzir o leitor a concluir isso. Como ele era um militante do comunismo, até mesmo considerado por muitos como o último grande intelectual marxista, imediatamente seu livro foi adotado por toda gente socialista e comunista como uma espécie de bíblia cheia de revelações sociológicas.

A epidemia de cegueira como crítica ao capitalismo

Não é um livro sobre uma doença de origem biológica. Não se trata de castigo divino. Não é um livro no estilo Eu Sou a Lenda de Richard Matheson, ou Dança da Morte de Stephen King, onde é preciso lidar com uma doença devastadora e os personagens lutam para manter sua humanidade. Em determinado trecho através da “mulher do médico” Saramago mostra o que pode significar a cegueira:

“…a mulher do médico compreendeu que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isso, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.”

Quem enxerga (no livro isso está representado pela figura da “mulher do médico”), é quem percebe a crueldade do capitalismo e não aceita viver nesse mundo sem esperança.  Já os cegos entregam-se de tal forma à desesperança que abandonam qualquer traço de humanidade.
Logo mais ele mostra que não acredita na capacidade do governo de nos conduzir em direção à uma sociedade justa:

“…Háverá um governo, disse o primeiro cego, Não creio, mas, no caso de o haver, será um governo de cegos a quererem governar cegos, isto é, o nada a pretender organizar o nada, Então não há futuro, disse o velho da venda preta, Não sei se haverá futuro, do que agora se trata é de saber como poderemos viver neste presente, Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade, o resultado está à vista, qual de nós se considerará ainda tão humano como antes cria ser. …”

Ou seja, como a cegueira é uma metáfora para mostrar seres humanos que não pensam de acordo com a moral comunista, ele quer dizer que não acredita em governos cegos (capitalistas) e acha que a humanidade até poderia viver sem olhos (num mundo capitalista), mas então perderia sua humanidade e o resultado seria a barbárie e o sofrimento.
Então, através da figura da “mulher do médico” — a única que ainda enxerga num mundo dominado pela cegueira (capitalismo), ele mostra que gostaria de ver reconstruída a ordem social, através da ótica comunista em um diálogo entre a rapariga dos óculos escuros, a mulher do médico e o velho da venda preta:

“… Tu não estás cega, disse a rapariga dos óculos escuros, por isso tens sido a que manda e organiza, Não mando, organizo o que posso, sou, unicamente, os olhos que vocês deixaram de ter, Uma espécie de chefe natural, um rei com olhos numa terra de cegos, disse o velho da venda preta, Se assim é, então deixem-se guiar pelos meus olhos enquanto eles durarem, por isso o que proponho é que, em lugar de nos dispersarmos, ela nesta casa, vocês na vossa, tu na tua, continuemos a viver juntos…”

A “mulher do médico”, por ser a única que enxerga assume o papel de organizar (mas singelamente diz que não manda!) pois é quem possui os olhos que os outros deixaram de ter. O velho da venda preta (um alter ego de Saramago) logo a identifica como a chefe natural em uma terra de cegos. Então ela assume a liderança e inicia a organizar a nova ordem comunitária, guiando-os com seus olhos no estilo de vida comunista onde não existe o indivíduo apenas a coletividade.
Em um trecho a  “mulher do médico” é a única que enxerga um corpo sendo dilacerado e devorado por uma matilha de cães, enquanto os outros cegos não percebem o que acontece, mais uma metáfora sobre a exploração do homem pelo sistema capitalista.
No trecho que transcrevo abaixo Saramago usa a figura da mulher do médico e do velho ditado “O pior cego é aquele que não quer ver”:

“… Abramos os olhos, Não podemos, estamos cegos, disse o médico, É uma grande verdade a que diz que o pior cego foi aquele que não quis ver, Mas eu quero ver, disse a rapariga dos óculos escuros, Não será por isso que verás, a única diferença era que deixarias de ser a pior cega…”

Acho esse trecho muito significativo, e muitos estudiosos consideram tratar-se de um julgamento e a anunciação da nova ordem social. Pode-se ver que Saramago praticamente transcende (ou esquece) a ficção e entra no campo do proselitismo através da mulher do médico que convoca os cegos a “abrir os olhos” e os acusa de serem responsáveis por sua cegueira.
Próximo do final temos outra amostra nítida de que esse livro é uma crítica ao capitalismo, onde Saramago usa mais uma vez a figura da mulher do médico quando esta retorna ao supermercado em que esteve anteriormente em busca de comida, dessa vez junto com seu marido, e depara-se com um depósito (cave) repleto de cegos mortos e fogos fátuos mostrando-se como uma verdadeira porta para outro mundo:

“… Fecharam-na com certeza os outros cegos, transformaram a cave num enorme sepulcro, e eu sou a culpada do que aconteceu, quando saí daqui a correr com os sacos suspeitaram de que tratasse de comida e foram à procura, De uma certa maneira, tudo quanto comemos é roubado à boca de outros, e se lhe roubamos demais acabamos por causar-lhes a morte, no fundo somos todos mais ou menos assassinos ….”

Quem está familiarizado com a Teoria da Exploração (veja meu post anterior) construída por Rodbertus e popularizada por Karl Marx logo nota que trata-se de uma referência à crença dos socialistas de que toda renda obtida por outra fonte que não seja o trabalho é imerecida, e de que a economia capitalista livre submete os assalariados ao poder e ao arbítrio dos industriais ricos que exploram seu trabalho.
Como todo bom comunista não poderiam faltar críticas à religião.  Logo depois da cena do supermercado a mulher do médico e seu marido entram em uma igreja, e a mulher percebe que todas as esculturas estão com vendas brancas sobre os olhos e os santos nos quadros com faixas brancas pintadas sobre os olhos, o médico inicia o diálogo abaixo ao considerar estranho que as imagens que não possam ver estejam com olhos cobertos, mas a mulher esclarece:

“… As imagens não vêem, Engano teu, as imagens vêem com os olhos que as vêem, só agora a cegueira é para todos… Se foi o padre quem tapou os olhos das imagens… esse padre deve ter sido o maior sacrílego de todos os tempos e de todas as religiões, o mais justo, o mais radicalmente humano, o que veio aqui para declarar finalmente que Deus não merece ver…”

Ou seja, Saramago deixa bem claro que considera a religião (e não Deus, pois não poderia criticar algo em que não acredita existir) tão cega quanto o resto da humanidade, e o padre que tapou os olhos das imagens estava fazendo justiça ao revelar a religião como cúmplice da cegueira coletiva em que vive a humanidade.
Logo à frente Saramago expõe mais uma vez a Teoria da Exploração com sua crítica à propriedade e a renda obtida por outros meios que não advindos diretamente do trabalho:

“… O que também não muda é aproveitarem-se uns do mal dos outros, como bem o sabem, desde o princípio do mundo, os herdeiros e os herdeiros dos herdeiros….”

Saramago em Ensaio sobre a Cegueira está muito distante de um Cormac McCarthy em A Estrada. Apesar de Mccarthy mostrar personagens em situações desesperadoras e desumanas, ele sabe valorizar o heroísmo inerente à alma humana, e mostrar que mesmo onde não existe mais esperança, nunca deveríamos desistir.

Mostrei na minha crítica que a cegueira é uma alegoria que Saramago utiliza para mostrar a matéria de que nossa sociedade é formada, nada mais que um pretexto utilizado pelo autor para mostrar os horrores em que nossa civilização está assentada. Em sua visão o ser humano, moralmente e culturalmente é selvagem, egoísta e dominado por apetites bárbaros. Para Saramago não existe heroísmo. O autor de Ensaio sobre a Cegueira não apresenta uma resposta no fim do livro, o seu pessimismo quase patológico o impediu de anunciar o comunismo como a redenção para a humanidade, mas quem conhece seu trabalho como militante comunista entende a mensagem que ele quer passar:  que o único sistema social justo é o comunismo. Saramago pretende mostrar com esse livro que o ser humano, bárbaro e animalesco, precisa ser controlado, seus apetites precisam ser domados, ele precisa da ordem e da justiça social que apenas o comunismo pode garantir. A cegueira de Saramago mostra que individualmente somos menos que animais irracionais, esses pelo menos são capazes de controlar o esfíncter! Saramago tem uma estranha fixação com as fezes. Os cegos de Saramago sequer são capazes de arriar as calças e sujam suas roupas, camas e onde vivem. A todo momento ele insiste em descrever que existem fezes em toda parte. O único momento em que se limpam é quando a mulher do médico assume a responsabilidade sobre o seu grupo de cegos. Precisava ser tão grotesco?
Acho esse pessimismo e sua visão em relação ao ser humano muito exagerada. Nunca o ser humano viveu tão bem, nunca tantas pessoas foram livres e viveram em prosperidade, com índices de mortalidade infantil baixos, expectativa de vida crescendo em todo o mundo, acesso à tecnologia universalizado entre outras coisas que eu poderia citar aqui. É claro que existem muitos problemas, muitas pessoas principalmente na África enfrentam guerras, genocídios, epidemias e fome, mas a tendência é que isso diminua. Reconheço que os países ricos não fazem muito, que eles deveriam investir mais nos países pobres e assim possibilitar que eles participassem mais na economia global para serem capazes de gerar sua própria riqueza. A corrupção deveria ser melhor combatida, e o estado deveria estimular mais o empreendedorismo e reduzir os impostos ao mesmo tempo que melhorasse os investimentos. Isso é possível de se atingir em um regime democrático e capitalista, garantindo as liberdades individuais, coisa que o comunismo é incapaz de fazer.

Será que estou exagerando ao mostrar viés político de Ensaio sobre a Cegueira? Apesar de Saramago não admitir isso, os socialistas e comunistas foram os primeiros a apontarem que sua obra na verdade é uma crítica ao capitalismo e ao neoliberalismo, não sou eu que estou tentando desqualificar um romance, só mostro outro ponto de vista  contrário ao da maioria.

Mas afinal, vale a pena ler Saramago?

Não gosto de Saramago como escritor. A sua prosa é cansativa e desagradável, suas frases são longas demais, sua sintaxe é feia.
Não é como Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido) que nos encanta a cada parágrafo com sua sensibilidade e energia rejuvenescedora, e mesmo sendo uma leitura muito mais difícil que a de Saramago ainda assim mostra-se uma experiência muito mais recompensadora.
Não gosto de Saramago como pensador. Como todo comunista ele vê o mundo através de um espelho que distorce a realidade, e flerta com o totalitarismo e o fim das liberdades individuais.
Não conseguiria indicar a leitura de Ensaio sobre a Cegueira para qualquer um, mesmo considerando que talvez seja seu livro mais importante. Acredito tratar-se de um livro que exige uma postura crítica que a maioria das pessoas não é capaz de assumir. Como ficção não é um bom livro, mas pode ser estudado como peça de propaganda comunista (sei que parece um anacronismo, mas ainda existe quem faça propaganda disso). Mas não se preocupem, ele ainda foi capaz de escrever algo ainda pior: O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo – Eugen von Böhm-Bawerk

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo
  2. Nome do autor: Eugen Von Böhm-Bawerk
  3. Tradução para o Português: Lya Luft
  4. Nome da editora: Vide Editorial;
  5. Lugar e data da publicação: Brasil, 2013;
  6. Número de páginas: 240 páginas;
  7. Gênero: Política;
  8. Nota: ★★★★★

A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo: A Ideia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômica. 

Primeiramente peço desculpas aos leitores do meu blog por fugir do tema ficção fantástica e científica, mas como estamos em época de eleições achei interessante aproveitar o momento para ler e estudar esse excelente trabalho de Eugen von Böhm-Bawerk escrito em 1921. Após esse parênteses retornarei a ficção, eu prometo! Na verdade esse livro trata-se de um trecho de um trabalho maior, Kapital und Kaptatizins (Capital e Juro), que ainda hoje é considerada uma das maiores e melhores críticas ao socialismo-comunismo já feitas.
Fico profundamente entristecido quando percebo que as teorias da exploração ainda prevalecem em todo mundo hoje, depois de passados mais de 150 anos desde seu surgimento, mesmo após tanto sangue e lágrimas terem sido derramados em nome do socialismo e comunismo. Na época em que Böhm-Bawerk fez sua crítica o socialismo já dominava o mundo:

Hoje, mais de um terço da humanidade vive sob o comunismo, cujos os líderes emitem seus pronunciamentos arrogantes e militantes a partir da plataforma do dogma socialista. Outro terço da humanidade, naquilo que por vezes se chama de “mundo livre”, vive sob sistemas econômicos claramente socialistas. Praticamente todo resto tem organizações sociais e econômicas em que a teoria da exploração é indicador de intervenção governamental.

Alguma coisa mudou desde então? Na minha opinião considero que muito pouco tenha mudado. Apesar do fim da União Soviética e de praticamente apenas três países continuarem comunistas (China, Coréia do Norte e Cuba), o socialismo ainda é uma força dominante na política mundial. No Brasil, por exemplo, temos empresas estatais ineficientes e corruptas (como ignorar a corrupção na Petrobrás?), e os nossos governantes fazem discursos contra o capitalismo e taxam os banqueiros de “exploradores” da “classe operária”. O ex-presidente Lula, ainda ativo e influente no cenário político, faz a todo momento discursos repletos de dogmas socialistas. Até mesmo nos EUA, baluarte do mundo livre, a teoria da exploração influencia fortemente a opinião pública. Essa influência se mostra na crença popular de que uma economia capitalista livre submete os assalariados ao poder e ao arbítrio dos industriais ricos que exploram seu trabalho. Essas ideias, as versões populares da teoria da exploração, invadiram as escolas e universidades de todo o mundo, penetraram em todos os canais, mudaram radicalmente todos os partidos políticos e até mesmo as religiões. Hoje existe um gigantesco movimento de sindicatos submetendo nossa política à uma “nova ordem” em assuntos sociais e políticos. A teoria da exploração continua determinando nossa economia básica e está presente em todos níveis do governo. A legislação trabalhista, a taxação, os programas sociais, tudo reflete a teoria da exploração.
Böhm-Bawerk não limita-se a analisar o trabalho de Karl Marx, por considerar o trabalho O Capital inferior em profundidade e coerência ao trabalho de Johann Karl Rodbertus. Mesmo assim ele prova que a teoria de Rodbertus é mal fundamentada e produz conclusões falsas e contraditórias.
O livro analisa o trabalho iniciado com Johann Karl Rodbertus e depois popularizado por Karl Marx, vamos ver alguns dos pontos analisados pelo autor em um dos melhores momentos do livro onde ele expõe alguns dos erros dos socialistas:

O Problema do Valor de Troca

No cerne da teoria da exploração apregoada pelos socialistas está o dogma de que o valor de troca é composto apenas pela quantidade de trabalho envolvido em sua produção, portanto todo lucro do empresário vem da exploração do trabalhador, mas essa ideia esta completamente errada. Os predecessores de Karl Marx e seus seguidores ignoram completamente os seguintes fatores, por considerá-los apenas pequenas exceções à sua regra:

  1. Bens raros: A teoria socialista lida apenas com bens produzidos em massa, e ignora bens que possuem um valor diferenciado devido sua raridade ou impossibilidade de serem reproduzidos em massa. Como exemplo podemos citar a diferença entre o vinho produzido em massa e os vinhos de safras especiais ou antigos, que possuem evidentemente valores diferenciados. Mesmo que o mesmo vinho tenha recebido a mesma quantidade de trabalho, seu valor pode variar drasticamente devido sua raridade.
  2. Bens produzidos pelo trabalho qualificado: Os socialistas consideram que todos bens que não são produzidos pelo trabalho comum, mas pelo qualificado, são uma exceção. Embora o produto de um artesão que produz um violino não  corporifique mais trabalho que o de um marceneiro comum, os produtos do primeiro normalmente tem um valor de troca mais elevado, que não pode ser medido pela quantidade de trabalho desprendida para a elaboração do bem. Marx, de forma ingênua, considera que o trabalho qualificado corresponde apenas a um múltiplo do trabalho comum, em suas palavras:

    “O trabalho complexo”, diz ele, “vale só como trabalho comum potenciado, ou multiplicado. Assim, uma pequena quantidade de trabalho complexo equivale a uma quantidade maior de trabalho comum. A experiência nos mostra que essa redução acontece constantemente. Uma mercadoria pode ser o produto de um trabalho complexo mas, se seu valor a iguala ao produto de trabalho comum, ela passa a representar apenas determinada quantidade de trabalho comum.”

    Podemos perceber aqui a ingenuidade de Marx. Pois é evidente que por mais que multipliquemos o trabalho comum de marceneiros que trabalham sem qualquer qualificação nunca atingiremos o resultado equivalente ao que apenas um artesão talentoso (como um Stradivarius) poderia atingir sozinho ao fazer um violino.

  3. Bens produzidos por trabalho extraordinariamente mal pago: É sabido que em determinados ramos da produção os salários são extremamente baixos, e produzem bens de valor extraordinariamente baixos, portanto o produto de vários dias de um operário que produz tais bens normalmente vale muito menos que o produto de outro operário. Mais uma vez a quantidade de trabalho desprendida não é suficiente para determinar o valor de troca.
  4. Oscilações no valor de troca devido a oferta e procura: Frequentemente o valor dos bens sofre oscilações devido à oferta e procura, muitas vezes subindo ou descendo além do nível que corresponderia ao trabalho exigido para sua produção. Os socialistas consideram essas variações apenas como irregularidades passageiras que não interferem na determinação do valor de troca, sendo que nunca um teórico defensor do socialismo tentou verificar se não existiria um princípio mais amplo que explicasse essas oscilações.
  5. Incorporação de valor de troca: Pode parecer evidente que de dois bens que precisam de determinada quantidade de trabalho para serem elaborados, aquele que teve uma maior quantidade de trabalho prévio vale mais. Mas os socialistas ignoram isso sistematicamente.

Böhm-Bawerk conclui a análise do problema do valor de troca da seguinte forma:

…pode-se concluir que o dispêndio de trabalho exerce ampla influência sobre o valor de troca de muitos bens. Mas não como causa definitiva, comum a todos os fenômenos de valor, e sim como causa eventual, particular…

Ou seja,  os socialistas consideram o trabalho como o único fator que determina o valor de troca de um bem, e atacam todos os outros fatores que não se coadunam com essa “lei do valor” classificando-os como ilegais, antinaturais e injustos, e esse é um dos maiores erros do socialismo.

Como vimos acima, Böhm-Bawerk fez uma crítica devastadora das ideias defendidas pelos socialistas de que toda renda obtida por outra fonte que não seja o trabalho é imerecida. Infelizmente, apesar de fazer uma crítica devastadora e bem fundamentada ele não conseguiu impedir o crescimento e ascensão do socialismo o que acabou produzindo consequências nefastas até os dias de hoje.
Böhm-Bawerk é impiedoso com a teoria dos socialistas, a atacando de vários ângulos com uma dialética impecável até ter certeza de ter deixado para trás apenas a carcaça sem vida de uma teoria falaciosa. O seu ataque prende a atenção do leitor nessa tarefa de destruir a teoria socialista e seu tom quase informal de escrita é bastante didático e acessível.