Serpente do Espaço – Vonda N. McIntyre

55 - Serpente do Espaço

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Serpente do Espaço (Dreamsnake)
  2. Nome do autor: Vonda N. McIntyre
  3. Tradutor: Margarida Gomes, Eduardo Gomes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 55;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1983
  6. Número de páginas: 264 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Sub Gênero: Ficção Científica Social
  9. Nota: ★★ (4)

Serpente do Espaço (Dreamsnake) é um romance de ficção científica escrito por Vonda N. McIntyre em 1978 e vencedor dos três prêmios mais importantes da ficção científica (Hugo e Locus de 1979 e Nebula de 1978), feito que foi igualado por apenas 13 livros até hoje, o que a coloca ao lado de autores consagrados como Asimov (Os Próprios Deuses), Clarke (Encontro com Rama), Le Guin (Os Despossuídos), Haldeman (Guerra Sem Fim) e Pohl (Gateway).
Não se deixe enganar pela capa e título — no pior estilo anos 70 — pois certamente esse livro merece um lugar de destaque entre os clássicos do gênero.
O livro conta a história de uma curandeira com o sugestivo nome Serpente (Snake) que vaga entre as tribos e clãs de um mundo devastado em um futuro distante, curando os doentes e trazendo conforto aos moribundos, utilizando-se do veneno de algumas cobras que leva consigo para produzir medicamentos. Logo no início uma de suas cobras, que é capaz de induzir torpor e alucinações em seres humanos, sua “cobra dos sonhos”, é morta. Ela então tentará encontrar uma nova cobra para substituí-la, e ao mesmo tempo irá ajudar muitas pessoas em seu caminho.
A história se passa na Terra, mas em um futuro pós-apocalíptico, muito diferente tanto tecnologicamente quanto socialmente do nosso mundo moderno: Uma guerra nuclear tornou vastas regiões da Terra radioativas demais para suportar a vida humana, mas a biotecnologia avançou bastante e a manipulação genética de plantas e animais é coisa rotineira.
Apesar de ter avançado em algumas áreas da ciência, como a biotecnologia, a humanidade regrediu a um tribalismo primitivo, e as tribos ou clãs encontram muitas dificuldades em meio a uma terra devastada, exceto em uma cidade murada e fechada que ignora completamente os clãs e vive em completo isolamento.
Vonda N. McIntyre construiu uma aventura repleta de idéias, utilizando uma prosa ágil, elegante mas sem excesso de ornamentação, bastante evocativa principalmente com suas descrições breves mas intensas dos cenários que conduzem o leitor diretamente ao estranho mundo desértico e devastado por uma guerra nuclear, mas que apesar disso ainda nos é familiar.
A autora abraça completamente a ideia de que a ficção científica deve ser um espelho da nossa sociedade contemporânea, e apesar de descrever um mundo que em muitos aspectos é mais primitivo que o nosso, ela pretende fazer com que questionemos o mundo em que vivemos. Mas, como esse livro foi escrito nos anos 70 ele é repleto de ideias de poliamorismo, bissexualismo,  amor livre e comunalismo, e isso pode causar certa estranheza ao leitor moderno. Recomendo a você um pouco de paciência e que evite entrar em questionamentos sérios que possam ser causados por sua perspectiva idiossincrática, e que evite tratar esse livro como uma leitura política ou ideológica, pois este livro não foi escrito como um crítica disfarçada à nossa realidade sociopolítica, ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.
De certa forma podemos considerar Serpente do Espaço como um livro que nada mais é que uma construção de mundo, sendo que a história é apenas uma desculpa para autora mostrar sua visão. Enquanto outros livros dedicam a narrativa a realizar a construção de mundos, neste livro a autora faz isso de forma muito delicada, em doses pequenas e diluídas no meio da tensão da narrativa. Muitas vezes podemos fazer falsas suposições, para logo em seguida percebermos que estávamos concluindo tudo de forma errada.
Uma das características que não considero uma falha, mas talvez uma fraqueza nessa obra é que existe uma clara divisão entre bons e maus. Os personagens maus não passam de seres desprezíveis que são obstáculos para os bons. E que maldades eles são capazes! São capazes até mesmo de cometer abuso sexual infantil. As pessoas boas são raras, mas muito prestativas e pouco reais. Uma coisa bem anos 70 nesse livro é a tendência que duas pessoas boas tem de se apaixonar à primeira vista, apenas porque são criaturas boas e raras. A personagem principal é sólida e bem construída, mas os demais personagens são muito superficiais e pouco convincentes. Essa superficialidade é uma fraqueza da autora, mas a história é tão original que facilita muito que a perdoemos por isso.
Serpente do Espaço é um livro muito estranho, diferente de tudo que existe no gênero, o que talvez explique nunca ter sido publicado no Brasil, mas você poderá encontrar com relativa facilidade em sebos online uma cópia da edição portuguesa.

Estranheza e méritos de Serpente do Espaço

  • Cobras:  Sim, o livro é repleto de cobras… cobras, cobras e mais cobras… para quem sofre de ofidiofobia este livro pode ser um pesadelo. A personagem principal, além de chamar-se Serpente possui várias cobras que são mais que instrumentos de trabalho, são verdadeiros bichinhos de estimação, que sobem em seu corpo, enrolam-se em seu pescoço e braços. A intimidade dela com as cobras é no mínimo estranha.
  • Controle de natalidade: Controle de natalidade via bio feedback. Sem dúvida uma ideia bastante imaginativa, e apreciada por muitos leitores de McIntyre que não gostam muito de ficção científica high-tech e da dominância do gênero masculino no gênero.
  • Casamentos entre três pessoas: Peguemos o exemplo de uma personagem, Merideth. Apesar da estranheza do nome (pronúncia equivalente à Merry + death, ou morte alegre), o mais interessante é que ela mostra uma característica curiosa da sociedade, os casamentos entre três pessoas. Merideth é casada com um homem e uma mulher… até aí tudo bem, mas quem são os maridos ou esposas? Ei, afinal Merideth é homem ou mulher? Nunca saberemos. Essa androginia e indefinição de papéis é uma característica interessante no livro, que infelizmente perdeu-se na tradução para o português, pois a tradutora em alguns trechos assumiu tratar-se de um homem, mas no original podemos nitidamente perceber a indefinição. Veja os trechos:

Beneath deep tan, Merideth was pale. “Then do something, help her!”
Em português:
Sob o seu tom escuro, Merideth estava pálido:
— Então faz qualquer coisa! Salva-a! (página 52)

“Dear Merry, Alex knows,” Jesse said. “Please try to understand. It’s time for me to let you go.”
Em português:
— Meu querido Merry, Alex tem razão — disse-lhe Jesse — Por favor, tenta compreender. É tempo de eu vos deixar ir. (página 57)

Eu entendo a dificuldade que seria manter essa indefinição entre masculino ou feminino no português, uma língua mais exigente quanto aos gêneros, mas a tradução acabou eliminando um aspecto muito interessante do livro ao determinar que Merideth é homem, o que a autora nunca fez.

  • Subversão através da simpatia: Fugindo dos meios tradicionais de subversão (força, ameça, terror, choque e dor) a autora apresenta uma nova forma de subversão através da bondade da protagonista, que está longe de ser sentimentalista ou cínica. O efeito dessa subversão é paradoxal, age de forma lenta e acaba sendo mais durável, e o leitor é a principal vítima da subversão de McIntyre!
  • Feminismo: De certa forma, o feminismo da autora é mais eficiente até que  o de Ursula K. Le Guin (veja minha análise de A Mão Esquerda da Escuridão), ao mostrar personagens femininos fortes, indefinição de papéis e gêneros, além dos casamentos livres de papéis pré-definidos pela sociedade. Apesar disso o trabalho de Le Guin é muito melhor conceituado que o de McIntyre.
  • Desconstrução de gêneros: Todas as nossas expectativas relacionadas à gêneros e seus papéis na sociedade, que estão solidificados em nossas mentes, são questionados de forma muito competente pela autora, expondo nossos preconceitos e abrindo nossas mentes. Essa desconstrução é típica da contracultura dos anos 70, mas mesmo assim ainda é interessante para o leitor moderno.

Avaliação do livro

  • Enredo: Possui alguns momentos emocionantes, mas em outros é a narrativa é um pouco lenta. História muito original e intrigante, focada mais no aspecto social que no tecnológico. Nota 4 (★★★★ ).
  • Personagens:  Os personagens ou são completamente bons, ou completamente maus, o que demonstra um pouco de superficialidade. Apesar disso a autora foi muito competente na caracterização deles. Nota 4 (★★★ ).
  • Narrativa: A prosa é elegante, mas sem exageros. Excelente ambientação e criação de mundo. Nota 5 (★★★).
  • Tradução: Existem erros de tradução na edição portuguesa, o mais grosseiro foi a remoção da indefinição do gênero do personagem Merideth. Nota 3 (★★★).
  • Geral: Certamente é um livro que merece ser lido, principalmente por sua originalidade, mas também por sua estranheza. Um verdadeiro clássico que vem sendo esquecido e ignorado há décadas por leitores brasileiros. Nota 4 (★).

A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. Le Guin

a mão esquerda

A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) é um romance de ficção científica de 1969 escrito pela escritora americana Ursula K. Le Guin, que recebeu pelo seu trabalho os Prêmios Hugo de 1970 e Nebula de 1969. Ele é parte do Ciclo Hainish, que ela começou a escrever em 1966, mas a autora nunca pretendeu escrever uma saga espacial nos moldes de Duna, pois nas sua próprias palavras:

“A coisa é que eles [os livros] não formam um ciclo ou uma saga. Eles não formam uma história coerente. Existem algumas conexões evidentes entre eles, sim, mas também algumas extremamente obscuras.”

De qualquer forma, quer ela pretendesse ou não escrever uma saga, os livros possuem uma ordem cronológica interna (diferente da ordem de publicação):

Nome do Livro Data de Publicação Local da estória Observações
Os Despossuídos
(The Dispossessed)
1974 (341 pág) Urras-Anarres (Tau Ceti); c.2300 AD

Prêmio Nebula (1974);
Prêmio Locus (1975);
Prêmio Hugo de Melhor Romance (1975);
Indicado ao Prêmio John W. Campbell (1975).

Floresta é o Nome do Mundo
(The Word for World Is Forest)
1976 (189 pág) Athshe/New Tahiti; c.2368 AD Prêmio Hugo de Melhor Novela (1973);
Indicado ao Nebula (1973);
Indicado ao Prêmio Locus (1973).
Rocannon’s World 1966 (117 pág) Rokanan (Fomalhaut II); c.2684 AD
Planet of Exile 1966 (113 pág) Werel (Gamma Draconis III); c.3755 AD
City of Illusions 1967 (160 pág) Terra; c.4370 AD
A Mão Esquerda da Escuridão
(The Left Hand of Darkness
1969 (286 pág) Gethen; c.4670 AD Prêmio Nebula (1969);
Prêmio Hugo de Melhor Romance (1970).
The Telling 2000 (264 pág) Aka Prêmio Locus, 2001;

A Mão Esquerda da Escuridão é o mais famoso livro a tratar de androginia na ficção científica, além de estar entre os primeiros livros do sub-gênero ficção científica feminista. Mas o trabalho de Ursula não é apenas uma curiosidade do gênero, ele pode ser considerado uma das maiores contribuições já feitas à literatura fantástica, tendo sido eleito pela revista Locus como o número dois no ranking dos melhores romances de ficção científica de todos os tempos, sendo o trabalho dela comparável ao de Tolkien, como definiu Harold Bloom em 1987:

“Le Guin, mais que Tolkien, elevou a fantasia ao nível da alta literatura no nosso tempo.”

Mas afinal o que é ficção científica feminista?
Abro aqui um parenteses para explicar melhor o papel do feminismo na ficção científica e fantasia. Trata-se de um sub-gênero da ficção científica que foca no papel das mulheres nas sociedades. A ficção científica feminista lida com questões sobre problemas sociais como: a forma como a sociedade constrói os gêneros, o papel da reprodução na definição dos gêneros e diferenças políticas e na relação com o poder entre homens e mulheres. Alguns dos trabalhos mais notáveis nesse gênero da ficção científica usam o recurso de utopias para mostrar uma sociedade onde não existe desequilíbrio entre gêneros na balança de poder ou relações sociais, ou então de distopias para mostrar uma sociedade onde as diferenças de gênero são intensificadas, reforçando a necessidade de um esforço feminista para acabar com as desigualdades.
Um dos primeiros trabalhos nesse gênero de ficção foi o de Mary Shelley com seu notável trabalho em Frankenstein (1818), que lida com a criação assexuada de uma nova vida, revendo de certa forma a estória de Adão e Eva.
Nos início dos anos 60 a ficção científica combinava sensacionalismo com críticas políticas e tecnológicas da sociedade. Nessa época surgiu a segunda do movimento feminista, primeiro nos EUA e depois no resto do mundo ocidental. Nos EUA o movimento prolongou-se até o início dos anos 80, ganhando força depois na Europa e parte da Ásia, como na Turquia e em Israel, onde o movimento começou apenas quando acabou nos EUA. Enquanto a primeira onda do feminismo focava em temas com sufrágio universal e remoção de obstáculos legais à igualdade de gêneros (voto para as mulheres e direitos à propriedade), a segunda onda do feminismo aumentou o debate para temas como: sexualidade, família, local de trabalho, direitos reprodutivos e igualdade de direitos civis. Na época as mulheres começaram a conquistar mais direitos no trabalho, no militarismo, na imprensa e esportes, em grande parte devido à ação desse movimento feminista de segunda onda. A ficção científica feminista da época começou a refletir essa segunda onda do feminismo, onde autoras como Ursula K. Le Guin (A Mão Esquerda da Escuridão, 1969), Marge Piercy (Woman on the Edge of Time, 1976) e Joanna Russ (The Female Man, 1970), encontraram um meio fértil para explorar, devido a vocação “subversiva e expansora de horizontes” que é característica da ficção científica.
Assim como essas outras autoras, Ursula K. Le Guin criou um mundo com uma sociedade sem gênero, como forma de destacar os papéis dos gêneros em nosso mundo. Ursula foi uma feminista crítica da ficção científica dos anos 60 e 70, como podemos ver em seus ensaios que estão reunidos em The Language of the Night (1979).

Introdução ao roteiro (sem spoilers)
Genly Ai, um nativo da Terra, é enviado como representante do Conselho Ecumênico ao planeta Gethen para tentar convencê-los a unirem-se à coalizão de mundos humanos.
Gethen é um planeta frio. Algumas vezes o planeta é chamado simplesmente de Inverno. A temperatura chega facilmente aos 50°C negativos em algumas regiões, na maior parte do ano, e facilmente abaixo disso no inverno. Em regiões de clima mais ameno a temperatura pode chegar aos 30°C em alguns dias no verão. Aparentemente a gravidade e a atmosfera são parecidas com a da Terra, pois o enviado Genly Ai não mostra sinais de desconforto em relação à isso. O eixo do planeta não é inclinado como o da Terra, mas a excentricidade da órbita produz fortes estações globais. Gethen está enfrentando uma Era do Gelo, mas alguns cientistas acreditam que ela está próxima do fim.
Os gethenianos são fisicamente e culturalmente adaptados ao frio; eles são de natureza mais robusta e de baixa estatura, conhecendo profundamente formas de se alimentar aproveitando ao máximo alimentos mais energéticos. A característica mais impressionante dos gethenianos é o aspecto sexual: eles são hermafroditas, possuindo um ciclo sexual entre 26 e 28 dias; por aproximadamente três semanas em cada mês eles são biologicamente neutros, e na última semana eles assumem a condição de machos ou então de fêmeas, sendo que a escolha do sexo é determinada por feromônios trocados com o parceiro sexual. Todos indivíduos são capazes de gerar filhos, e gestacionar crianças quando assumem a função feminina. A origem dos gethenianos é um mistério, mas alguns acreditam que foram produto de uma manipulação genética pelos Hain, a espécie que semeou muitos mundos que acabaram formando o Conselho Ecumênico, uma reunião de mundos que utiliza um dispositivo de comunicação do tipo ansible que permite comunicação instantânea através do espaço.
Inicialmente Genly faz pouco progresso, sendo auxiliado por Estraven, o primeiro ministro de Karhide, apesar de Genly não confiar nele. Após a tentativa frustrada em Karhide, Genly parte para o país vizinho, Orgoreyn.
Enquanto os karhideanos possuem um intricado conjunto de regras sociais não escritas e cortesias formais, e evitam tratar do motivo da visita diretamente com Ai, os orgorenianos são mais lógicos e tecnologicamente organizados. Eles provêm Ai com acomodações luxuosas e vão direto ao assunto. Mas apesar de Estraven o advertir para não acreditar nos orgorenianos, ele acaba ignorando o aviso pois não confia em Estraven,  e acaba sendo enviado para um campo de trabalhos forçados onde é submetido à várias sessões de interrogatórios sob indução de drogas.
Estraven acaba revelando-se o único amigo de Ai, e após realizar seu resgate ambos partem em uma viagem difícil de retorno até Karhide, através da geleira de Gobrin, em um dos trechos mais emocionantes do livro, em uma tentativa de cumprir a missão de Ai, reunindo Gethen ao Conselho Ecumênico.