Cyteen – C. J. Cherryh

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Cyteen
  2. Nome do autor: C. J. Cherryh
  3. Nome da editora: Aspect (Reedição 1995)
  4. Data e local de publicação: EUA, 1988;
  5. Número de páginas: 696 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Nota: ★★ (2)

Cyteen é um romance de ficção científica escrito por C. J. Cherryh em 1988 e vencedor dos prêmios Hugo e Locus de 1989. A história situa-se no universo Aliança-União criado por Cherryh que é recorrente em seus livros de ficção científica. Cyteen foi fundado em 2201 por um grupo de cientistas e engenheiros dissidentes, incluindo o planeta Cyteen e as estações espaciais interiores e exteriores ao planeta. A independência de Cyteen veio em 2300, e agora serve como a capital da União.
A atmosfera do planeta é moderadamente tóxica aos seres humanos, que precisam viver em cidades semi-encapsuladas, conhecidas como enclaves ou cidades-estado.
Em face à necessidade de expansão das colônias da União, uma instituição científica conhecida como Reseune centraliza toda pesquisa e desenvolvimento de clonagem humana, recurso que é deplorado pela Terra e a Aliança, principais rivais da União.
Em Reseune são criados os humanos incubados in vitro “azi”, e os “CIT”. A principal diferença entre os azi e os CIT é que os azi são educados desde o nascimento via “fita”, uma combinação controlada por computadores de técnicas de condicionamento e treinamento por biofeedback. A técnica também é utilizada nos CIT, mas em escala muito menor, para educação, mas normalmente apenas depois dos seis anos de idade. O resultado é uma profunda diferença entre esses dois tipos de clones. Enquanto os CIT tem melhores capacidades de lidar com situações inesperadas e incertas, os azi são capazes de melhor concentração em problemas específicos. Como efeito colateral da educação por “fitas” os azi tendem a serem emocionalmente instáveis.

Análise de Cyteen

É perfeitamente aceitável escrever lixo – desde que você edite ele brilhantemente.

C. J. Cherryh

Eu venho lendo os vencedores do Prêmio Hugo em sequência, conforme é possível acompanhar através deste post. A experiência é recompensadora, mas nem sempre é fácil, pois as vezes encontramos livros que não foram traduzidos para o português, que são grandes demais (é o caso de Cyteen, com quase 700 páginas), ou até mesmo possuem uma linguagem e estrutura complicada demais (como Stand in Zanzibar).
Assim como o livro anterior de Cherryh que também recebeu o Hugo, Downbelow Station, também não recomendo a leitura deste livro. Não que o livro seja ruim, apenas considero que possui alguns problemas que desestimulam até os leitores mais fiéis ao gênero:

  1. O livro é longo demais. Isso não seria um problema se estivéssemos diante de um livro com um estilo mais rico e envolvente como os livros de Gene Wolfe, que merecem a leitura no idioma original, e não assustam pelo tamanho. Mas Cyteen realmente não precisava ser tão grande, se ele fosse enxugado pela metade ainda sobraria muito espaço para o desenvolvimento da história.
  2. Existem muitos personagens. Contei mais de vinte personagens, com uma alternância constante entre os protagonistas, o que é cansativo e causa perda de foco na leitura. Quase todos os personagens são tão secundários que é fácil perdê-los no background da história, e acabamos por considerá-los dispensáveis.
  3. Muita política. Não tenho nada contra política, acredito que o tema faz parte das nossas vidas e é muito importante, mas a autora gasta tantas páginas para tratar da aprovação de alguma projeto de lei, e perde-se de tal forma nos meandros políticos entre a União e a Aliança, que as vezes até esquecemos que estamos lendo um livro sobre clonagem. São esquemas e agendas políticas em excesso, e como praticamente todos personagens estão envolvidos até o pescoço na política é fácil perder-se em meio aos esquemas políticos.
  4. Muita falação, pouca ação. Páginas e mais páginas de discussões políticas e quase nenhuma ação.
  5. Um assassinato sem explicação. Apesar do livro ser descrito na contra capa como um “livro de mistério de assassinato”, o mistério sobre o assassinato de Ari é mal explicado, e fica a dúvida se tratou-se de um acidente ou suicídio. Apenas na sequência deste livro, Cyteen Regenesis (2009) Cherryh esclarece o mistério, mas acredito que depois de tanto tempo ninguém mais se importa com isso.

Apesar dos problemas o livro é escrito com competência, e com diálogos interessantes, apesar de cansativos. Ele é muito realista ao explorar problemas atuais na nossa sociedade, como questões éticas envolvendo clonagem e aperfeiçoamentos genéticos artificiais. Mas definitivamente não é uma leitura recomendável, mesmo para quem possui algum conhecimento do idioma inglês.
O livro poderia seguir o caminho distópico de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, mas Cherryh preocupou-se muito mais com diálogos políticos cansativos do que com as questões éticas e morais. É uma pena.

The Uplift War (A Guerra da Elevação) – David Brin

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: The Uplift War (A Guerra da Elevação) – Uplift #3
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Nome da editora: Bantam Spectra
  4. Lugar e data da publicação: Eua, 1987
  5. Número de páginas: 294 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Nota: ★★ (3)

The Uplift War (A Guerra da Elevação) é um romance de ficção científica escrito em 1987 por David Brin, e o terceiro livro do Universo Elevação que é composto por seis livros. O livro foi indicado ao Prêmio Nebula de melhor romance em 1987 e venceu os prêmios Hugo e Locus de melhor romance em 1988.
Os dois livros anteriores, Sundiver e Star Tide Rising, conforme escrevi nas análises anteriores, para mim foram desapontadores, o primeiro por ter sido conduzido de forma ingênua, com personagens fracos e pouco envolventes. O segundo, apesar de ter recebido vários prêmios, também foi desapontador devido ao uso de uma estrutura de narrativa rotativa com capítulos muito curtos com quebra constante de ritmo, uma falha estilística que considerei grave. Infelizmente David Brin manteve o mesmo estilo nesse livro, insistindo na rápida alternância entre os personagens o que liquidou com o ritmo do livro.

Ainda encontramos capítulos muito curtos, com mais de um capítulo por página, alguns capítulos com menos de 3 sentenças, o que produziu absurdos 111 capítulos! Por que dividir o livro em sete partes? E por que a parte sete teria apenas um  capítulo? Por que não chamar o último capítulo de epílogo? Apesar de alguns capítulos serem mais longos, muitas vezes ele perde tempo em trechos desnecessários (como o capítulo 24, que descreve um bar de stripers tão repleto de clichés que parece ter saído de algum filme de faroeste, só que com atores chimpanzés).

Apesar do título mencionar uma guerra, não se trata de uma ficção científica militar. Sim, trata-se de uma guerra, mas o foco da história mais uma vez é a Elevação de espécies à condição de senciência e não a guerra em si. Assim como nos livros anteriores, David Brin fez um bom trabalho na sua construção dos Galáticos. Cada raça alienígena possui uma cultura própria, cheia de peculiaridades, algumas curiosas, outras até mesmo bizarras. Os Gubru, por exemplo, que iniciam o ataque à colônia de terrenos (humanos e chimpanzés) em Garth, são descritos como algo parecido com passarinhos superdesenvolvidos, que possuem uma atitude guerreira que não combina com sua aparência (assim como os Angry Birds). Pode parecer ridículo, mas o resultado é genial, pois ao fugir do estereótipo da ficção científica, que insiste em retratar raças alienígenas agressivas como algo parecido com felinos ou outras raças predadoras, o autor acaba surpreendendo o leitor com sua guerra contra os Angry Birds.

Os Tymbrini são umas das poucas espécies galáticas aliadas dos terrenos, e foram maravilhosamente construídos pelo autor. A capacidade de adaptação dos Tymbrini permite que eles executem alterações fisiológicas e anatômicas drásticas, e como empatas são capazes de comunicar-se mentalmente percebendo coisas que os terrenos não podem ver. Além disso surge um interessante caso amoroso entre um humano e uma tymbrini, que leva os leitores a considerar o que poderia acontecer com uma integração intensa entre espécies tão diferentes.
A estória acontece em Garth, um planeta arrendado pela Terra para um esforço de recuperação do planeta após o desastre ecológico causado por uma espécie elevada que falhou miseravelmente e quase destruiu completamente a vida do planeta.
Os Gubru estão determinados em descobrir o que aconteceu com a espaçonave Streaker (veja minha análise), então eles iniciam uma guerra dentro das regras galáticas, mas conforme mencionei anteriormente a guerra em si não é o mais interessante, mas sim o que é descrito paralelamente.
No livro anterior o autor ocupou-se em descrever os golfinhos elevados, com o foco principalmente em sua linguagem, pois tratava-se de uma população restrita à tripulação da nave Streaker. Já neste livro ele conseguiu descrever melhor a sociedade dos chimpanzés em Garth, que mostra uma semelhança maior com os seres humanos.
Apesar de começar bem, o autor perdeu a mão mais uma vez em Uplift War, insistindo na alternância constante na narrativa, muitas vezes com capítulos desnecessários e sem importância. Mais uma vez David Brin mostra que não é um bom escritor, apesar de possuir uma imaginação privilegiada.

Startide Rising (Maré Alta Estelar) – David Brin

117 - Maré Alta Estelar - 2

 

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Startide Rising – Uplift #2 – (Maré Alta Estelar)
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Tradutor: Maria Helena Fernandes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 116 e 117;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1986
  6. Número de páginas: 294 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Nota: ★★ (3)

Startide Rising (Maré Alta estelar) é o segundo livro da trilogia Uplift (Elevação), de David Brin. Foi escrito em 1983 e recebeu o prêmio Nebula no mesmo ano, e os prêmios Hugo e Locus de 1984, sendo portanto um dos poucos livros laureados com os três maiores prêmios da ficção científica. Existe uma edição em português, mas infelizmente é muito difícil de encontrá-la em sebos. Se você está procurando este livro recomendo tentar no site Estante Virtual. Para piorar a situação, o livro foi publicado em dois volumes, e só encontrei uma cópia do segundo volume, portanto tive que ler o primeiro em inglês.

Veja minha análise de Sundiver antes de prosseguir (o link abrirá em uma nova janela).

A ordem cronológica da série é a seguinte:

Observação: (A leitura de Sundiver pode ser considerada uma boa introdução ao universo Uplift, mas não é obrigatória. Muitos consideram que a série inicia efetivamente em Startide Rising)

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 O ano é 2489. A história começa cerca de um mês após a espaçonave terrena Streaker (com uma tripulação de 150 golfinhos, sete humanos e um chimpanzé) realizar a descoberta de uma frota abandonada que supostamente teria pertencido aos Progenitores, uma lendária raça que teria iniciado o processo de elevação de outras espécies. A origem, história e destino dos Progenitores é um dos maiores mistérios da galáxia. Um transporte da Streaker foi destruído ao investigar a frota abandonada, matando vários membros da tripulação. Apesar disso eles conseguiram recuperar alguns artefatos e um corpo de uma espécie alienígena desconhecida, mas muito bem preservado. Eles transmitem por psi-cast para a Terra informações sobre a descoberta e um holograma do corpo do alienígena. A resposta, enviada em código, dizia simplesmente “Fujam. Aguardem ordens. Não respondam”. Durante a fuga a Streaker é emboscada em um Ponto de Transferência Morgan, consegue fugir mas sofre várias avarias e acaba sendo obrigada a pousar no planeta aquático Kithrup.
Os alienígenas que estão perseguindo a Streaker são conhecidos como Galáticos — civilizações que conquistaram a inteligência milhares de anos antes dos humanos. A narrativa inicia-se então em meio a uma luta feroz entre os galáticos para decidir quem irá ficar com as informações e artefatos dos Progenitores, enquanto a tripulação da Streaker irá realizar uma tentativa desesperada de reparar a nave em um ambiente alienígena hostil e cheio de mistérios.

A estória é contada pelo ponto de vista dos personagens humanos, golfinhos elevados e até mesmo do ponto de vista de outras espécies dos Galáticos. Para os golfinhos o autor desenvolveu um padrão de linguagem no estilo Haiku, uma forma de poesia japonesa curta caracterizada pela justaposição de duas ideias, com 17 on (também conhecido como mora, ou algo como as nossas sílabas) divididas em três frases com 5, 7 e 5 ons.  O resultado é no mínimo curioso. A Streaker, foi adaptada para comportar uma tripulação em sua maior parte de golfinhos, com ambientes aquáticos, mas os golfinhos também podem circular entre outros compartimentos e comunicar-se com humanos em chimpanzés utilizando exoesqueletos conhecidos como aranhas.

A imaginação de David Brin é realmente impressionante, e seu rigor científico permite algumas postulações aceitáveis do ponto de vista tecnológico. A comunicação entre as espécies humanas, golfinhos e chimpanzés, bem como a interação entre eles é bastante convincente. Por exemplo, a Streaker é a primeira nave terrestre a ser capitaneada por um golfinho, o capitão Creideiki, portanto ele demonstra estar sob pressão devido sua responsabilidade em provar tanto aos humanos quanto aos outros de sua espécie que eles são totalmente capazes de cuidar de si mesmos. Os humanos também lidam com suas próprias preocupações e frustrações, bem como algum romance entre eles. O único chimpanzé à bordo é ranzinza e egoísta. Nos capítulos mostrados do ponto de vista dos Galáticos podemos notar um nítido sentimento de desdem e superioridade em relação aos humanos e as outras duas espécies terrenas patrocinadas por nós.

A estrutura rotativa da narrativa, alternando entre os pontos de vistas conforme muda o narrador,  é um recurso valioso e vários livros que já li fizeram excelente uso dessa técnica, mas David Brin pecou na brevidade desses capítulos. Os capítulos são tão curtos (alguns têm menos de uma página, ou até mesmo apenas poucas sentenças) que dificilmente permitem ao leitor acostumar-se ao novo ponto de vista. A narrativa acabou ficando cheia de saltos, o que prejudica a conservação do momemtum (ritmo) na leitura, deixou a narrativa confusa e à todo momento Brin joga um balde de água fria nos momentos onde a estória começava a ficar interessante.

Apesar de apresentar vários problemas, Maré Alta Estelar ainda pode ser considerado um grande livro, escrito dentro do melhor da tradição do gênero: mostrando o impacto que a ciência e tecnologia produzem sobre a humanidade.

Recomendo a leitura, mas apenas para fãs do gênero.

 

Serpente do Espaço – Vonda N. McIntyre

55 - Serpente do Espaço

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Serpente do Espaço (Dreamsnake)
  2. Nome do autor: Vonda N. McIntyre
  3. Tradutor: Margarida Gomes, Eduardo Gomes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 55;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1983
  6. Número de páginas: 264 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Sub Gênero: Ficção Científica Social
  9. Nota: ★★ (4)

Serpente do Espaço (Dreamsnake) é um romance de ficção científica escrito por Vonda N. McIntyre em 1978 e vencedor dos três prêmios mais importantes da ficção científica (Hugo e Locus de 1979 e Nebula de 1978), feito que foi igualado por apenas 13 livros até hoje, o que a coloca ao lado de autores consagrados como Asimov (Os Próprios Deuses), Clarke (Encontro com Rama), Le Guin (Os Despossuídos), Haldeman (Guerra Sem Fim) e Pohl (Gateway).
Não se deixe enganar pela capa e título — no pior estilo anos 70 — pois certamente esse livro merece um lugar de destaque entre os clássicos do gênero.
O livro conta a história de uma curandeira com o sugestivo nome Serpente (Snake) que vaga entre as tribos e clãs de um mundo devastado em um futuro distante, curando os doentes e trazendo conforto aos moribundos, utilizando-se do veneno de algumas cobras que leva consigo para produzir medicamentos. Logo no início uma de suas cobras, que é capaz de induzir torpor e alucinações em seres humanos, sua “cobra dos sonhos”, é morta. Ela então tentará encontrar uma nova cobra para substituí-la, e ao mesmo tempo irá ajudar muitas pessoas em seu caminho.
A história se passa na Terra, mas em um futuro pós-apocalíptico, muito diferente tanto tecnologicamente quanto socialmente do nosso mundo moderno: Uma guerra nuclear tornou vastas regiões da Terra radioativas demais para suportar a vida humana, mas a biotecnologia avançou bastante e a manipulação genética de plantas e animais é coisa rotineira.
Apesar de ter avançado em algumas áreas da ciência, como a biotecnologia, a humanidade regrediu a um tribalismo primitivo, e as tribos ou clãs encontram muitas dificuldades em meio a uma terra devastada, exceto em uma cidade murada e fechada que ignora completamente os clãs e vive em completo isolamento.
Vonda N. McIntyre construiu uma aventura repleta de idéias, utilizando uma prosa ágil, elegante mas sem excesso de ornamentação, bastante evocativa principalmente com suas descrições breves mas intensas dos cenários que conduzem o leitor diretamente ao estranho mundo desértico e devastado por uma guerra nuclear, mas que apesar disso ainda nos é familiar.
A autora abraça completamente a ideia de que a ficção científica deve ser um espelho da nossa sociedade contemporânea, e apesar de descrever um mundo que em muitos aspectos é mais primitivo que o nosso, ela pretende fazer com que questionemos o mundo em que vivemos. Mas, como esse livro foi escrito nos anos 70 ele é repleto de ideias de poliamorismo, bissexualismo,  amor livre e comunalismo, e isso pode causar certa estranheza ao leitor moderno. Recomendo a você um pouco de paciência e que evite entrar em questionamentos sérios que possam ser causados por sua perspectiva idiossincrática, e que evite tratar esse livro como uma leitura política ou ideológica, pois este livro não foi escrito como um crítica disfarçada à nossa realidade sociopolítica, ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.
De certa forma podemos considerar Serpente do Espaço como um livro que nada mais é que uma construção de mundo, sendo que a história é apenas uma desculpa para autora mostrar sua visão. Enquanto outros livros dedicam a narrativa a realizar a construção de mundos, neste livro a autora faz isso de forma muito delicada, em doses pequenas e diluídas no meio da tensão da narrativa. Muitas vezes podemos fazer falsas suposições, para logo em seguida percebermos que estávamos concluindo tudo de forma errada.
Uma das características que não considero uma falha, mas talvez uma fraqueza nessa obra é que existe uma clara divisão entre bons e maus. Os personagens maus não passam de seres desprezíveis que são obstáculos para os bons. E que maldades eles são capazes! São capazes até mesmo de cometer abuso sexual infantil. As pessoas boas são raras, mas muito prestativas e pouco reais. Uma coisa bem anos 70 nesse livro é a tendência que duas pessoas boas tem de se apaixonar à primeira vista, apenas porque são criaturas boas e raras. A personagem principal é sólida e bem construída, mas os demais personagens são muito superficiais e pouco convincentes. Essa superficialidade é uma fraqueza da autora, mas a história é tão original que facilita muito que a perdoemos por isso.
Serpente do Espaço é um livro muito estranho, diferente de tudo que existe no gênero, o que talvez explique nunca ter sido publicado no Brasil, mas você poderá encontrar com relativa facilidade em sebos online uma cópia da edição portuguesa.

Estranheza e méritos de Serpente do Espaço

  • Cobras:  Sim, o livro é repleto de cobras… cobras, cobras e mais cobras… para quem sofre de ofidiofobia este livro pode ser um pesadelo. A personagem principal, além de chamar-se Serpente possui várias cobras que são mais que instrumentos de trabalho, são verdadeiros bichinhos de estimação, que sobem em seu corpo, enrolam-se em seu pescoço e braços. A intimidade dela com as cobras é no mínimo estranha.
  • Controle de natalidade: Controle de natalidade via bio feedback. Sem dúvida uma ideia bastante imaginativa, e apreciada por muitos leitores de McIntyre que não gostam muito de ficção científica high-tech e da dominância do gênero masculino no gênero.
  • Casamentos entre três pessoas: Peguemos o exemplo de uma personagem, Merideth. Apesar da estranheza do nome (pronúncia equivalente à Merry + death, ou morte alegre), o mais interessante é que ela mostra uma característica curiosa da sociedade, os casamentos entre três pessoas. Merideth é casada com um homem e uma mulher… até aí tudo bem, mas quem são os maridos ou esposas? Ei, afinal Merideth é homem ou mulher? Nunca saberemos. Essa androginia e indefinição de papéis é uma característica interessante no livro, que infelizmente perdeu-se na tradução para o português, pois a tradutora em alguns trechos assumiu tratar-se de um homem, mas no original podemos nitidamente perceber a indefinição. Veja os trechos:

Beneath deep tan, Merideth was pale. “Then do something, help her!”
Em português:
Sob o seu tom escuro, Merideth estava pálido:
— Então faz qualquer coisa! Salva-a! (página 52)

“Dear Merry, Alex knows,” Jesse said. “Please try to understand. It’s time for me to let you go.”
Em português:
— Meu querido Merry, Alex tem razão — disse-lhe Jesse — Por favor, tenta compreender. É tempo de eu vos deixar ir. (página 57)

Eu entendo a dificuldade que seria manter essa indefinição entre masculino ou feminino no português, uma língua mais exigente quanto aos gêneros, mas a tradução acabou eliminando um aspecto muito interessante do livro ao determinar que Merideth é homem, o que a autora nunca fez.

  • Subversão através da simpatia: Fugindo dos meios tradicionais de subversão (força, ameça, terror, choque e dor) a autora apresenta uma nova forma de subversão através da bondade da protagonista, que está longe de ser sentimentalista ou cínica. O efeito dessa subversão é paradoxal, age de forma lenta e acaba sendo mais durável, e o leitor é a principal vítima da subversão de McIntyre!
  • Feminismo: De certa forma, o feminismo da autora é mais eficiente até que  o de Ursula K. Le Guin (veja minha análise de A Mão Esquerda da Escuridão), ao mostrar personagens femininos fortes, indefinição de papéis e gêneros, além dos casamentos livres de papéis pré-definidos pela sociedade. Apesar disso o trabalho de Le Guin é muito melhor conceituado que o de McIntyre.
  • Desconstrução de gêneros: Todas as nossas expectativas relacionadas à gêneros e seus papéis na sociedade, que estão solidificados em nossas mentes, são questionados de forma muito competente pela autora, expondo nossos preconceitos e abrindo nossas mentes. Essa desconstrução é típica da contracultura dos anos 70, mas mesmo assim ainda é interessante para o leitor moderno.

Avaliação do livro

  • Enredo: Possui alguns momentos emocionantes, mas em outros é a narrativa é um pouco lenta. História muito original e intrigante, focada mais no aspecto social que no tecnológico. Nota 4 (★★★★ ).
  • Personagens:  Os personagens ou são completamente bons, ou completamente maus, o que demonstra um pouco de superficialidade. Apesar disso a autora foi muito competente na caracterização deles. Nota 4 (★★★ ).
  • Narrativa: A prosa é elegante, mas sem exageros. Excelente ambientação e criação de mundo. Nota 5 (★★★).
  • Tradução: Existem erros de tradução na edição portuguesa, o mais grosseiro foi a remoção da indefinição do gênero do personagem Merideth. Nota 3 (★★★).
  • Geral: Certamente é um livro que merece ser lido, principalmente por sua originalidade, mas também por sua estranheza. Um verdadeiro clássico que vem sendo esquecido e ignorado há décadas por leitores brasileiros. Nota 4 (★).

Downbelow Station – C. J. Cherryh

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Downbelow Station (Company Wars #1)
  2. Nome do autor: C. J. Cherryh
  3. Tradutor: Não foi traduzido para o português
  4. Nome da editora: DAW Books;
  5. Lugar e data da publicação: EUA, 1982;
  6. Número de páginas: 526 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica Militar;
  8. Nota: ★★

Downbelow Station é um livro sobre guerra. O fato da guerra utilizar espaçonaves e raios lasers não tem qualquer importância. É um livro sobre nacionalismo, ambições pessoais e controle social. De certa forma é uma metáfora sobre a guerra fria, mas não é uma metáfora muito bem feita. Os personagens são soldados entediados, burocratas ambiciosos, aristocratas mimados, mercenários e fugitivos.
O livro envereda-se no território da Space Opera: uma guerra galática entre uma frota esfarrapada de obstinados contra as forças leais à Terra. Apesar de Cherryh partir de uma proposta interessante — mostrar como a humanidade se comporta em uma guerra— ela pede que o leitor tire suas próprias conclusões partindo de um universo estranho em que não vivemos, num futuro distante e sem dar nenhuma dica de como uma espécie alienígena se comportaria e tudo isso  é no mínimo frustante e deixa o leitor perdido.
O estilo de Cherryh é frustrante: muito sério e árido. Ela não facilitará em nada para você: não espere explicações, concessões para suavizar a leitura, nenhum truque ou piada para descontrair. Ela simplesmente coloca seus personagens em situações difíceis e deixa você assistindo enquanto tentam lidar com isso. E fim de conversa.
Apesar dela mostrar a política das facções e suas táticas de forma muito bem elaborada e competente, ela o faz de forma fria e sem graça.
Cada personagem de Downbelow Station é apresentado com um perfil psicológico muito estreito. Em nenhum momento eles irão mostrar ironia, humor ou conflitos morais, e isso para mim é imperdoável! Humor é o mecanismo clássico para se lidar com o stress, e acho difícil aceitar que essa qualidade do ser humano viria a se perder no futuro.
Como explicar que as tripulações das espaçonaves sejam compostas de autômatos leais incapazes de fazer uma simples brincadeira ou piada?
Quando você pretende contar uma história parte do sucesso dela reside na tensão dramática, em descrever como as coisas irão se resolver  e quais princípios irão prevalecer. A vida na estação de Pell é monótona, sem graça. Durante a guerra a vida fica apenas fica tensa. Não existe cores ou sabores que nos façam aceitar que a vale a pena salvar o estilo de vida dos rebeldes. Por quê o estilo de vida dos rebeldes está certo e a o da União errado? Por quê não o contrário? Tudo está em tons de cinza no livro de Cherryh,  mas infelizmente não são os tons de cinza daquele livrinho porno soft de E. L. James!

É correto classificar Downbelow Station como uma Space Opera? Não, pois falta romance, ação, um universo com vida e principalmente emoção! Muitos consideram esse livro genial, e dizem que as críticas à sua aridez são feitas por pessoas que não conseguiram entender a profundidade da história ou não foram inteligentes o suficiente para apreciar o livro. Eu digo que isso é uma grande bobagem, o livro é sem graça, monótono, frio e superficial.

Se você já leu todos os outros clássicos da ficção científica militar de Robert A. Heinlein ou Joe Haldeman então talvez possa tirar algum proveito desse livro, se ainda não leu não perca seu tempo, existe muita coisa melhor.

A Rainha de Gelo – Joan D. Vinge

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: The Snow Queen (A Rainha de Gelo)
  2. Nome do autor: Joan D. Vinge
  3. Tradutor: Maria Luísa Ferreira da Costa
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC ns° 51 e 52;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1983
  6. Número de páginas: 448 páginas;
  7. ISBN: 978-972-1-01875-4
  8. Gênero: Ficção Fantástica / Fantasia Científica
  9. Nota: ★★

A Rainha de Gelo é um livro que foi publicado em português apenas em Portugal, talvez por isso seja um livro pouco conhecido do público brasileiro. Apesar de ser classificada como ficção científica ela está tão fortemente imersa no universo da fantasia que prefiro classificá-la como fantasia científica, uma categoria que fica meio abandonada entre a ficção científica e a fantasia.
O livro é inspirado no conto homônimo de Hans Christian Andersen,  de 1844, e assim como ele lida com polaridades e dualidades: claro e escuro, verão e inverno, avanço e atraso tecnológico.
A história acontece em Tiamat, um planeta com uma longa órbita em torno de um buraco negro que conecta Tiamat com o resto da galáxia civilizada, a Hegemonia.
A população de Tiamat divide-se em dois clãs regidos por uma monarquia matriarcal: Summers (Estivais) e Winters (Invernosos). Os Winters relacionam-se com os estrangeiros, e fazem uso da tecnologia deles. Os Summers no entanto desprezam toda tecnologia e vivem como os seres humanos viviam milhares de anos atrás, com tecnologias rudimentares de agricultura e pesca.
A cada 150 anos, a órbita do planeta em torno de um buraco negro produz uma drástica alteração climática, causando o início de uma mini era glacial, e Tiamat durante esse período é governado por uma Rainha de Gelo, escolhida dentre o clã dos Invernosos. Ao encerrar-se o ciclo de 150 anos o clima esquenta novamente, e a Rainha de Gelo é executada em uma cerimônia que coroa a nova Rainha, escolhida entre o clã Estivais, que será conhecida como Rainha do Verão.
Durante o reinado da Rainha do Gelo, viagens estelares são possíveis devido à uma antiga técnica que a Hegemonia herdou do Antigo Império, utilizando o próprio buraco negro como Porta para as viagens para lugares longínquos do universo. Durante esses 150 anos Tiamat é capaz de comunicar-se e negociar com os mundos da Hegemonia mas na fase de governo da Rainha do Verão, essa Porta não é mais acessível, e todo contato fica interrompido.
A história conta como a Rainha do Gelo atual, Arienrhod, pretende prolongar seu reinado para além dos 150 anos através de clones implantados secretamente nos corpos de mulheres do clã Summer.
As pessoas mais ricas do clã Winters conseguem prolongar artificialmente suas vidas através de uma substância extraída do sangue de uma espécie de animal marinho conhecido como mer, a “água da vida”. Essa substância anti-envelhecimento é vendida para os outros mundos da Hegemonia, e a caça ao mer é intensa durante o governo dos Winters, quando os outros mundos tem acesso à Tiamat.
Um desses clones de Arienrhod, uma garota chamada Moon e seu primo Sparks, que estão apaixonados, enveredam-se em uma trama que acaba por afastá-los. Moon tornar-se-á uma profetisa, enquanto Sparks irá assumir a posição de Starbuck, o amante da rainha.
Moon acaba saindo de Tiamat em uma viagem para um mundo da Hegemonia, e retornará para confrontar a Rainha de Gelo e salvar seu primo.

Existem referências mitológicas e folclóricas muito curiosas em A Rainha de Gelo que são dignas de menção:

  1. Tiamat: O nome do planeta representa o espírito primordial do oceano na mitologia mesopotâmica.
  2. Arienrhod (ou Arianrhod): É uma figura da mitologia celta que aparece no Quarto Ramo do Mabinogion, uma coletânea de textos galeses. É descrita como “A Senhora da Roda de Prata”, que vivia na longínqua terra encantada de Caer Sidi, e personificava uma antiga deusa celta, representada pela constelação Corona Borealis, cujo nome em galês era “Caer Arianrhod” , ou seja, “O castelo girante de Arianrhod”. A lenda de Arianrhod é muito complexa, cheia de elementos contraditórios e de difícil compreensão,  e de contradições decorrentes da interpretação de antigas lendas que foram registradas apenas na tradição oral através dos bardos, monges e historiadores cristãos. Essa história, através de metáforas e intrincados simbolismos celtas, expõe a relação dos celtas com as divindades e cultos lunares.
  3. Moon (Lua): No tarô, a carta da Lua (Moon), é uma carta que indica inteligência instintiva, além do retorno às origens.
  4. Paralelo entre viagens espaciais e místicas: Nos contos de fadas as viagens à outros mundos (ou submundos) normalmente é associada com dissociação da passagem do tempo, e com perdas, o que é representado nesse livro através das viagens através da Porta no buraco negro, que causam dilatação temporal com a perda de vários anos em relação à Tiamat.
  5. Bruxa Má: A Rainha de Gelo encontra referência com a tradicional bruxa má, figura comum em vários trabalhos como nos livros de Andersen, dos Irmãos Grimm, Shakespeare e no folclore celta.

Apesar de possuir algumas semelhanças com o Universo Duna os personagens e a narrativa de Joan D. Vinge não possuem a profundidade e qualidade de um Frank Herbert. Assim como nos contos de fadas clássicos os personagens apresentam-se mais como exigências de roteiro para provar uma moral da história, carecendo de exibir quaisquer nuances psicológicos.
Mas será que essa superficialidade dos personagens é uma falha no trabalho da autora? A resposta é: não! É importante levarmos em conta que o livro A Rainha de Gelo foi escrito como um conto de fadas futurista, como uma tentativa de introduzir uma estrutura folclórica nesse universo da ficção científica, o que foi feito de forma muito competente pela autora, transformando o livro num clássico merecedor não apenas do Prêmio Hugo de 1981 como também a atenção de qualquer um que se interesse por ficção fantástica ou científica.

 

As Fontes do Paraíso – Arthur C. Clarke

As Fontes do Paraíso

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: As Fontes do Paraíso (The Fountains of Paradise)
  2. Nome do autor: Arthur C. Clarke
  3. Tradutor: Donaldson M. Garschagem
  4. Nome da editora: Círculo do Livro;
  5. Lugar e data da primeira publicação: EUA, 1979;
  6. Número de páginas: 280 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica Hard;
  8. Nota: ★★★★

As Fontes do Paraíso (The Fountais of Paradise) é um livro vencedor dos prêmios Hugo, Nebula e Locus escrito em 1979 por Arthur C. Clarke.  O livro trata da construção de um elevador espacial na Terra. A teoria do elevador espacial realmente existe, tendo sido publicada pela primeira vez em 1895 por Konstantin Tsiolkovsky, um cientista de foguetes russo. Ele propôs um sistema onde um cabo seria ancorado na superfície da Terra e a outra ponta em um contra-peso em órbita geostacionária, que permitiria elevar cargas ou espaçonaves até uma órbita em torno da Terra sem a necessidade de utilização de foguetes, o que seria incomparavelmente mais econômico.
O livro situa-se no século 22, onde o Dr. Vannevar Morgan é um famoso engenheiro estrutural que planeja construir um elevador espacial, mas como se não bastasse os problemas de tecnologias de materiais e recursos necessários, ele tem que lidar com o fato de que o único local viável para a construção da torre de ancoragem ficar no topo de uma montanha em Taprobane (Sri Lanka) onde encontra-se um monastério de monges budistas, que opõe-se implacavelmente ao plano pois consideram a montanha sagrada. O Dr. Morgan não é o primeiro homem com planos ambiciosos para essa montanha. Centenas de anos atrás, o Rei Kalidasa enfrentou a mesma resistência dos monges quando planejou construir um palácio na montanha. A joia de seu projeto era a construção das “Fontes do Paraíso” que mostraria jatos de água espetaculares. Existe portanto um paralelo entre os dois homens e seus projetos ambiciosos e a forma como ambos desafiam tradições.
O Dr. Morgan acaba conseguindo vencer a resistência dos monges, e realiza o sonho da construção do elevador espacial, mas um acidente com uma capsula de transporte acaba deixando um grupo de estudantes, um astrofísico e membros da equipe da torre presos a seiscentos quilômetros de altura. Como o suprimento de ar e alimentos está prestes a se esgotar, o Dr. Morgan parte em uma desesperada tentativa de salvamento, o que garante momentos emocionantes na narrativa.
A montanha é um local fictício, mas situado em Sri Lanka onde Arthur C. Clarke viveu a segunda metade de sua vida. O Rei Kalidasa é inspirado em um rei que também existiu na ilha.
As Fontes do Paraíso é um livro excitante que ainda parece atual depois de mais de 30 anos. A inteligente justaposição dos sonhos de Morgan com os do Rei Kalidasa adiciona muita beleza e riqueza na estória, e junto com o Dr. Morgan, ao descobrirmos mais sobre o Rei Kalidasa nos encantamos com a beleza dessa antiga civilização. Em contraste com esse pedaço de história antiga, somos apresentados à estonteante visão da Terra do futuro onde viagens espaciais são comuns e elevadores espaciais apresentam-se como uma forma barata de transporte espacial.
As contribuições de Arthur C. Clarke ao desenvolvimento dos satélites geostacionários garante ainda mais credibilidade a essa ideia do elevador espacial e apesar da sua construção ainda ser considerada impossível com os materiais e tecnologias existentes hoje, no futuro um elevador espacial poderá realmente ser construído.

Gateway – Frederik Pohl

GatewayNovel
Ficha Técnica do Livro

  1. Título: A Porta das Estrelas (Gateway)
  2. Nome do autor: Frederick Pohl
  3. Tradutor: Eurico da Fonseca
  4. Nome da editora: Livros do Brasil – Lisboa, Coleção Argonauta N°355 e n°356
  5. Lugar e data da publicação: Lisboa, 1987;
  6. Número de páginas: Volume 1: 180, Volume 2: 171
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Nota: ★★★★

Gateway (A Porta das Estrelas) foi escrito por Frederik Pohl em 1977 e recebeu os Prêmio Hugo e Locus de 1978, o prêmio Nebula de 1977 e o Prêmio Memorial de John W. Campbell de melhor romance de ficção científica. É o primeiro livro da saga Heechee, que teve várias sequências tendo até mesmo sido adaptado para um jogo de computador em 1992. Existe apenas uma edição em português, na famosa coleção argonauta, em dois volumes (355 e 356), recomendo a compra através do site Estante Virtual, existem alguns poucos (e raros) exemplares à venda.

Introdução ao Roteiro

No ano de 2077 o planeta Vênus tornou-se a mais nova fronteira para uma Terra super populosa (mais de 25 bilhões de habitantes), faminta e desesperada. Apesar de Vênus ser considerado um planeta gêmeo da Terra, tendo quase o mesmo tamanho e massa, sua atmosfera difere radicalmente da nossa devido à sua densa atmosfera de dióxido de carbono (96,5%), o que produz o mais forte efeito estufa do sistema solar, fazendo com que a temperatura ultrapasse facilmente os 420°C. Os colonizadores tem que lidar com as elevadas temperaturas e pressões dessa atmosfera.
Mas o verdadeiro interesse da humanidade em Vênus está abaixo dessa superfície infernal, em uma grande rede de túneis escavados ha mais de 500 mil anos atrás por uma raça alienígena tecnologicamente muito mais avançada que a nossa e que desapareceu misteriosamente, os Heechee. (Será que veio daí a ideia dos mundos labirínticos em Hyperion, de Dan Simmons? )
A esperança em encontrar tecnologias que ajudem a resolver o problema da super população da Terra levou centenas de exploradores a se aventurar nesses túneis. A maioria das descobertas eram de apenas artefatos sem utilidade aparente, sendo considerados apenas como curiosidades, pois os Heechee tinham limpado muito eficientemente os túneis antes de partirem ou desaparecerem, ou pelo menos assim parecia até que um explorador chamado Sylvester Macklin encontrou uma nave espacial funcional. Sylvester não anunciou sua descoberta, e tentando descobrir sozinho alguma forma de fazer funcionar a nave acabou acionando algum controle que fez com que a nave disparasse para fora da atmosfera de Vênus. Assim que a nave saiu do planeta ela acionou algum propulsor desconhecido que causou o desaparecimento da nave do espaço conhecido, entrando no que o autor chamou de espaço Tau, e ao retornar Sylvester descobriu aliviado que tinha voltado ao nosso sistema solar, e estava se dirigindo para uma imensa estação espacial em um asteroide ou núcleo de cometa oco que orbitava o Sol entre a órbita de Vênus e Mercúrio, mas estranhamente em outro plano que não o da eclíptica. A nave estacionou automaticamente em um hangar cheio de outras naves similares. Sylvester deixou a nave e começou a explorar a estação cheio de admiração e expectativa com a descoberta. Infelizmente ele não tinha alimentos ou água, e não conseguia partir com a nave novamente. Vendo-se preso e incomunicável, ele decidiu que sua morte não seria em vão: ele começou a mexer com as células de combustível até que causou uma enorme explosão. A explosão foi detectada pela NASA que enviou uma missão para o asteroide, e então revelou para a humanidade que a estação espacial Heechee tinha milhares de naves capazes de viajar para longínquos lugares no universo, transformando a estação na porta de entrada para as exploração de outros sistemas estelares.
Depois de muitos conflitos e discussões, decidiu-se que a estação era muito importante para ser entregue a apenas uma nação, e então foi criada a Companhia Gateway Enterprises, encarregada da exploração da tecnologia Heechee em nome dos Estados Unidos, da União Soviética, do Novo Povo da Ásia, da Confederação Venusiana e dos Estados Unidos do Brazil (sim, Frederick Pohl imaginou o Brasil como uma potência mundial no futuro).
Surge então uma nova forma de exploração espacial: a prospecção através das naves Heeches, e a estação em que estão essas naves passa a ser chamada de Gateway. Os prospectores são voluntários que partem nas naves rumo ao desconhecido na tentativa de descobrir novos artefatos, ferramentas ou tecnologias que possam ser úteis à humanidade, numa espécie de corrida do ouro galáctica.
Apesar de muito esforço, os cientistas humanos não são capazes de realizar engenharia reversa com as naves, e todas tentativas de abrir os motores causa uma grande explosão. O sistema de controle também é uma incógnita, e os destinos das viagens são desconhecidos. Muitas vezes as naves levam suas tripulações de uma pessoa, três ou no máximo cinco (dependendo do tipo de nave), até um destino catastrófico como um pulsar, uma nova ou muito próximo de uma estrela, causando a morte da tripulação. Todas as naves dispõe de um módulo que possibilita o pouso na superfície de planetas habitáveis.
A taxa de sucesso nas missões de prospecção no início da estória é de cerca 2357 lançamentos para 841 retornos das naves (ou seja, menos de 36%), muitas vezes sem que a tripulação volte viva ou bem.
Como forma de recompensar e estimular os voluntários, a corporação oferece prêmios como esses:

  • Bônus caso encontre uma civilização alienígena: 100 milhões de dólares;
  • Bônus se encontrar uma nave Heechee para mais de cinco pessoas: 50 milhões de dólares;
  • Bônus se encontrar um planeta habitável: 1 milhão de dólares;
  • Bônus de perigo: 0,5 milhões de dólares; O bônus nesse caso é para repetir destinos em que a tripulação de outra missão não retornou, para tentar descobrir o que aconteceu;

Os prospectores vivem o sonho de ficarem milionários da noite para o dia, e apostam suas vidas nisso.
Apesar dos riscos, muitos sonham abandonar a empobrecida, super populosa e faminta Terra com a esperança de enriquecer em Gateway. Robinette Stetley Broadhead — conhecido como Robin, Rob, Robbie ou Bob, dependendo das circunstâncias e de seu humor — é um jovem mineiro de comida na Terra que vence um prêmio de loteria que lhe garante dinheiro suficiente para comprar um bilhete só de ida para o Gateway, na esperança de enriquecer como prospector.
Inicialmente ele fica assustado com o perigo envolvido e atrasa o máximo possível sua primeira missão, mas como começa a ficar sem dinheiro ele acaba partindo em três viagens. Não escrevo mais sobre o roteiro para não estragar a surpresa, apenas adianto que a sorte de Robinette acabará trazendo além de dinheiro muitos problemas para sua já atormentada psique.

 Considerações sobre o livro

Robbie pode ser descrito como um perdedor: nasceu pobre, com sérios traumas de infância que causaram problemas psicológicos que o persiguiram por toda sua vida. Apesar de tudo isso ele acaba tendo sorte (ou não?) com suas viagens espaciais.
O livro foi escrito de forma muito competente, com uma narrativa que alterna entre a experiência de Robinette em Gateway e suas sessões de terapia com Sigfrid, um avançado computador psiquiatra, culminando no momento traumático de sua terceira e última viagem em uma nave Heechee. Além disso, no meio da história existem trechos de notícias, anúncios ou entrevistas onde o autor esclarece alguma coisa sobre os Heechees e o cotidiano em Gateway.
As sessões de terapia com Sigfrid são verdadeiras pérolas cheias de bom humor e tiradas inteligentes, e só por isso já valeriam a pena a leitura desse livro.
Pohl é um expert em expor ideias esotéricas de uma forma compreensível e fundamentadas fisicamente,  e até mesmo teorias complexas a dos buracos negros e pulsares são mostradas de forma a não assustar o leitor comum.
As descrições que o autor faz de detalhes tangíveis como os cheiros desagradáveis do ar reciclado e os inconvenientes do espaço confinado em Gateway e das naves Heechee são muito competentes e convincentes.
Em uma primeira análise parece incompreensível que os prospectores atirem-se de forma tão louca em direção ao desconhecido, utilizando a Heechee da mesma forma que um chipanzé usaria uma nave espacial humana! Mas na verdade isso pode ser considerado um paralelo com a obssessão com jogos de azar tão comum em tantas pessoas.

 Um livro cheio de bom humor e ironia, recomendo a leitura!

Limites da Fundação – Isaac Asimov

imagemLimites da Fundação (Fundation’s Edge), foi escrito por Isaac Asimov em 1982 tendo recebido o Prêmio Hugo de melhor romance em 1983. Apesar de ser o quarto livro escrito por Asimov da série Fundação, na ordem estabelecida pela cronologia do universo Fundação este é o sexto livro da série:

Para mais informações sobre a cronologia dos universos Robôs, Mundos Espaciais, Império Galático e Fundação, desenvolvi esta planilha: Cronologia da Fundação. Acredito que é uma boa referência para auxiliar na leitura e compreensão da interligação existente entre os livros de Asimov.
O próprio autor reconhece que decidiu dar sequência à trilogia Fundação devido a pressão dos fãs, mas que o principal motivo foi o valor oferecido pela editora. Esse foi o primeiro livro de Asimov a entrar na lista dos Best Sellers do New York Times, após ter escrito cerca de 262 livros em 44 anos de carreira.
Mas não pense que Asimov decidiu com isso transformar sua série em um caça-níquéis, como tantos autores costumam fazer. Na verdade ele conseguiu com esse livro elevar ainda mais a profundidade e importância do universo Fundação na ficção científica, e conseguiu popularizar ainda mais sua obra.

Introdução ao Universo Fundação

Fundação é uma série de ficção científica que conta com detalhes a estória de um futuro distante onde uma instituição chamada Fundação Enciclopédica teria influenciado o destino de toda humanidade na nossa galáxia.
Asimov decidiu escrever o primeiro livro da série para descrever o que seria o fim do Império Galático, inspirado na queda do Império Romano. Da mesma forma a ascensão da Fundação Enciclopédica representaria o início de uma era orientada pelo conhecimento científico, mais justa e que possibilitasse a evolução do espírito humano, assim como a Renascença.
O personagem principal da série é Hari Seldon, que desenvolveu a Psico-história (uma nova ciência que reúne a sociologia e matemática). Através de complexas fórmulas matemáticas Seldon conseguia prever acontecimentos futuros e assim tentar evitar que alguns eventos acontecessem.
Apesar do ser humano ser considerado imprevisível individualmente, a teoria de Seldon ao trabalhar com populações da ordem de milhões ou bilhões mostrou-se válida, e mostrou então previsões sombrias para o futuro da humanidade. Ele decidiu utilizar sua teoria para orientar a humanidade em direção a um futuro melhor, e a Fundação foi o meio que ele imaginou para conduzir o processo.

Introdução ao Roteiro 

O livro Limites da Fundação está situado 500 anos depois do estabelecimento da Fundação. O Plano de Seldon está indo muito bem e a Primeira Fundação está no auge de sua força já tendo dominado todos os planetas vizinhos através de sua tecnologia superior e força militar. Acredita-se que a ameaça do controle da mente da Segunda Fundação foi eliminado e que existe agora apenas uma Fundação prosperando. Mas Golan Trevise, um membro do Conselho, começa a suspeitar do Plano de Seldon, pois considera que as coisas estão indo bem demais para ser verdade. Ele considera impossível que as coisas sempre aconteçam de acordo com um plano, que o normal é a existência de desvios.
Golan acredita que a Fundação está sendo sub-repticiamente  controlada pela temível Segunda Fundação, e que esta vem trabalhando no verdadeiro Plano de Seldon e que pretendem em breve assumir o comando do futuro da humanidade.
A ideia não é bem recebida pelos seus iguais, e ele é sumariamente expulso do planeta Terminus com a missão secreta de tentar localizar a Segunda Fundação e acabar com ela de uma vez por todas.

Considerações sobre o livro

A maior força de Asimov são suas ideias épicas, sua capacidade de construir mundos e enredos; talvez como nenhum outro autor na ficção científica.
É maravilhoso entrar nesse mundo imaginado por Asimov: A sociedade telepática da Segunda Fundação, o estranho povo de Gaia, a forma sutil como ele introduziu os robôs e suas famosas “Três Leis da Robótica” no universo fundação, além de uma esperta explicação para ausência de alienígenas nesse universo.
Apesar de muitos criticarem a prosa de Asimov (assim como de outros autores da Golden Age da FC), acho uma injustiça tentar comparará-lo com grandes nomes da literatura como Dickens ou Dostoyevsky. Sua prosa pode não ser genial ou erudita, mas é muito competente e respeita muito a inteligência dos leitores. Seus diálogos são inteligentes, espirituosos e cheios de observações sarcásticas. Asimov criou alguns personagens memoráveis em outros livros, como Hari Seldon, O Mule, Susan Calvin, Elijah Baley e R. Daneel Olivaw. Em Limites da Fundação conseguimos facilmente adicionar Golan Trevize como mais um grande personagem nesse rol de personagens que sempre lembraremos com carinho.
O clímax de Limites da Fundação é genial, e o epílogo deixa o leitor na expectativa de prosseguir a leitura de Fundação e a Terra. Asimov mostra grande entusiasmo em suas histórias, e é impossível não sentir-se infectado pela sua imaginação.

Where Late the Sweet Birds Sang (Onde os Últimos Pássaros Cantaram) – Kate Wilhelm

Wherelate

Where Late the Sweet Birds Sang, é um romance de ficção científica escrito por Kate Wilhelm. Publicado em 1976, recebeu o prêmio Hugo de melhor romance em 1977, e foi indicado para o prêmio Nebula em 1976. O título é um trecho do Soneto 73 de William Shakespeare:

Em mim tu vês a época do estio
Na qual as folhas pendem, amarelas,
De ramos que se agitam contra o frio,
Coros onde cantaram aves belas.

Tu me vês no ocaso de um tal dia
Depois que o Sol no poente se enterra,
Quando depois que a noite o esvazia,
O outro eu da morte sela a terra.

Em mim tu vês só o brilho da pira
Que nas cinzas de sua juventude
Como em leito de morte agora expira

Comido pelo que lhe deu saúde.
Visto isso, tens mais força para amar
E amar muito o que em breve vais deixar.

O livro foi publicado recentemente em Portugal, sob o título Onde os Últimos Pássaros Cantaram, que está sendo vendido através do site da Fnac.pt, por apenas €3,50 mas como o frete sai por absurdos €24,39 recomendo a leitura da versão em inglês pois infelizmente não encontrei nenhuma versão epub ou mobi da edição em português.

Introdução ao roteiro

Em um futuro próximo mudanças climáticas e poluição em larga escala causam o colapso da civilização em todo o mundo. Em países como o Brasil (que é um dos destinos de um dos personagens principais do livro) técnicas agrícolas ultrapassadas e ineficientes, desmatamento, queimadas e mau uso do solo causam a perda completa das áreas cultiváveis. Uma família está empenhada em construir um hospital em uma comunidade isolada no interior da América e em seu laboratório de pesquisas de clonagem acabam descobrindo que a poluição e doenças causaram a infertilidade universal da humanidade. Tumultos violentos, saques, fome e doenças causam o declínio quase total da população humana, e a esterilidade universal se encarregará de concluir a extinção em poucos anos.
Mas uma esperança surge quando David, um promissor biólogo da família, descobre que a infertilidade pode ser revertida depois de algumas gerações de clones, então o laboratório inicia a clonagem de membros da comunidade, na esperança de que após algumas gerações de clones a reprodução sexuada possa voltar a normalidade.
No entanto, quando os clones começam a crescer e ganhar poder eles rejeitam a ideia de restabelecer a reprodução sexuada. Os membros originais da comunidade, muito velhos e em menor número não podem resistir e são obrigados a respeitar a nova ordem social, ou são condenados ao exílio.
Com o passar dos anos as novas gerações de clones eliminam completamente a ideia de individualidade da sua estrutura social. Como os clones são produzidos em grupos de quatro a dez indivíduos idênticos, eles crescem dependendo enormemente um dos outros, em uma espécie de personalidade coletiva compartilhada entre grupos de gêmeos idênticos.Ao poucos a capacidade de reprodução começa a retornar, mas a sociedade de clones não aceita abandonar o sistema de clonagem, e utiliza as mulheres férteis como reprodutoras com o objetivo de gerar novas linhagens de clones. Os clones ficam cada vez mais dependentes da personalidade coletiva e tornam-se incapazes de explorar o mundo devido a uma estranha fobia a outros ambientes que não seja o vale onde vivem. O isolamento e ambientes abertos ou afastados causa pânico incontrolável e até mesmo loucura.
Ao iniciarem uma exploração das ruínas de Washington, Molly do grupo de irmãs Miriam acaba separando-se dos outros membros de seu grupo, o que causa o desenvolvimento de uma personalidade individual, o que é considerado uma grave patologia psicológica. Ela torna-se um problema para a comunidade de clones, sendo então afastada do convívio social, mas acaba engravidando de outro clone que também estava na expedição. Os clones descobrem que ela gerou uma criança, Mark, que possui a habilidade única de conseguir se afastar da comunidade sem enlouquecer, e após muita resistência começam a perceber que a falta de individualidade esta causando a extinção da criatividade e da capacidade de resolver problemas.  A falta de reposição de equipamentos de clonagem, aliada a essa crise de criatividade, ameça interromper o processo de clonagem, o que consequentemente causaria o fim do que restou da humanidade.
Mark então tentará convencer os clones a abandonarem esse estilo de vida insustentável, mas será uma tarefa difícil.

Considerações sobre o livro

Esse poderia apenas ser mais um livro pós-apocalíptico, mas Kate Wilhelm conseguiu tratar da questão ética da clonagem e das controvérsias envolvidas de forma muito competente, e talvez por esse motivo tenha ganho o prêmio Hugo.
Se você não imaginava que a clonagem era um problema ético que já era discutido na metade da década de 70, então bem vindo ao clube. Eu acreditava que a questão só tinha se tornado relevante nos anos 90, com a clonagem da ovelha Dolly, mas parece que o assunto já era importante antes disso.
O romance está estruturado em três partes: a primeira mostra de forma um tanto superficial o declínio da humanidade, focando totalmente no início da sociedade de clones, através do gênio de David Sumner como o cientista/salvador/herói; a segunda parte trata da transformação psicológica de Molly em uma sociedade já estabelecida e antes de iniciar o declínio; a terceira parte trata do declínio da sociedade de clones e a tentativa (messiânica?) de Mark em salvar a humanidade.
A sociedade americana cultua as liberdades individuais como nenhuma outra sociedade no mundo. A autora explora esse culto à individualidade e a resistência dos americanos em aceitar a coletividade trabalhando com a seguinte ideia: e se o fim da individualidade acontecesse não pelo uso da força mas como uma consequência biológica? O veredito da autora é claro: o fim da individualidade significa a morte da criatividade e do espírito humano.
A autora também deixa claro que a causa da catástrofe no início do livro aconteceu devido a forma como tratamos a natureza e o meio ambiente, em uma referência à possibilidade do esfriamento global que era previsto nos anos 60 e 70:

Os invernos estão ficando mais frios, começando mais cedo, durando mais com mais neve do que ele podia lembrar-se de sua infância. Assim que o homem parou de adicionar seus megatons de sujeira na atmosfera todos os dias, ele pensou, a atmosfera reverteu-se ao que deve ter sido há muito tempo atrás, com verões e invernos mais úmidos, mais estrelas do que ele jamais tinha visto antes, e mais estrelas a cada noite: o céu estava mais claro, azul sem fim durante o dia, veludo preto em uma noite com estrelas brilhantes que o homem moderno nunca tinha visto.

Mark assume o papel de tentar reunir o que restou da humanidade em direção ao retorno à uma vida mais simples em contato com a natureza.
A narrativa pode ser meio confusa, mas é fácil nos envolvermos com os personagens pois temos essa tendência a nos identificar com os heróis das estórias pós-apocalípticas. Em tempos de Walking Dead ou Eu Sou a Lenda é fácil fantasiarmos que também poderíamos ser sobreviventes, e que provavelmente agiríamos da mesma forma.
Parece que a autora é um tanto obcecada pela ideia do incesto, que é mostrado várias vezes durante a narrativa.
Where Late the Sweet Birds Sang é o melhor livro sobre clonagem já escrito. Um pouco confuso em alguns momentos, mas com personagens bem desenvolvidos, excelentes descrições das ruínas das cidades e da paisagem, que nos levam a relevar sobre qualquer falha que a ideia central da clonagem possa apresentar e nos fazem querer continuar lendo até o fim.