A Morte da Luz – George R. R. Martin

image

A Morte da Luz é o primeiro romance escrito por George R. R. Martin, publicado em 1977 e indicado para os prêmios Hugo, Nebula e British Fantasy. George R. R. Martin ficou conhecido após o blockbuster Game of Thrones, um dos maiores sucessos editoriais dos últimos tempos, mas em seu livro de estreia já podemos ter uma boa ideia de seu talento como romancista.

É um livro interessante, um romance de ficção científica complexo que lembra muito o estilo dos romances de C. J. Cherryh, ou Jack Vance, escritores famosos da velha guarda.

Ele descreve a história de Worlon, um mundo errante (perdido entre estrelas, não orbita uma estrela específica) e sem vida, que por um breve momento passa por um sistema estelar completamente espetacular, com uma gigante vermelha conhecida como Satã Gordo e várias estrelas menores que o orbitam conhecidas como círculo de fogo.

Vários planetas da borda da galáxia participaram de um esforço de terraformação e construção de 14 cidades, uma para cada planeta colonizador, o que ficou conhecido como festival, uma extravagante demonstração de poder e tecnologia desses mundos. A história do livro acontece quando Worlon já está se afastando em sua órbita hiperbólica desse sistema estelar magnífico, restando apenas poucos habitantes nessas cidades, verdadeiros fantasmas que se recusaram a deixar o planeta moribundo.
Dirk t’Larien é um chamado a este mundo por sua antiga amante Gwen, com esperança de reconquistá-la, para só depois de chegar descobrir que muita coisa mudou e ter que lidar com as antigas e violentas tradições de um dos planetas colonizadores, Kavalar.

A força de George Martin como construtor de mundos e contador de estórias está com força total neste livro. O universo que ele criou é gigantesco, rico e muito mais complexo que o planeta Worlon, apesar de toda ação acontecer ali. Ele pensou em toda história que levou à expansão da humanidade pela galáxia, guerras, evolução de culturas isoladas, criando vários mundos que renderiam livros fantásticos… Será que um dia George Martin pensou em retomar essas histórias? Infelizmente acho isso extremamente improvável de acontecer, considerando a dificuldade que ele tem encontrado em concluir a saga Game of Thrones, o que diria então de retomar esse universo abandonado a décadas.

Mas de qualquer forma esse livro é uma excelente demonstração de sua capacidade de criar histórias repletas de romance e mistério que são muito prazerosas ao leitor.

Ele faz uma descrição complexa cultura violenta dos kavalarianos, presa em códigos rigorosos de honra, que nos lembra um pouco da cultura cavaleiresca medieval que veremos mais tarde em Game of Thrones, ao mesmo tempo em que fez um estudo sobre a misoginia e xenofobia dessa cultura.

Infelizmente o livro termina de uma forma um pouco abrupta, com um anti-clímax e sem uma resolução clara, mas apesar de um pouco decepcionante o final mostra que o autor possui muita integridade e visão clara de construção de mundos.

Eu gostei muito do livro, apesar de ficar com aquela impressão de que muito ficou de fora, e gostaria muito que ele reconsiderasse voltar a escrever ficção científica retomando esse universo da história de Worlon, mas considerando a velocidade em que vem escrevendo Game of Thrones não tenho muitas esperanças disso acontecer.

Esse livrou foi uma grata surpresa, pois descobri que para George R. R. Martin a ficção científica claramente foi o primeiro interesse desse grande autor.

Anúncios

Falling Free – Lois McMaster Bujold

51nWMqLhNUL

 

 

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Falling Free
  2. Nome do autor: Lois McMaster Bujold
  3. Nome da editora: Baen Books
  4. Data e local de publicação: EUA, 1988;
  5. Número de páginas: 307 páginas;
  6. Tradução para o português: Não foi traduzido
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Nota: ★★★★ (4)

Falling Free (Queda Livre) é um romance de ficção científica escrito em 1988 pela autora norte americana Lois McMaster Bujold e vencedor do Prêmio Nebula do mesmo ano. É o quarto livro da saga Vorkosigan, mas o primeiro na escala cronológica dos livros de Bujold. O próximo livro na minha lista de leitura seria The Vor Game, o vencedor de 1991, mas como esse livro é o sexto livro da saga Vorkosigan, e como nunca tinha lido nada de Bujold, achei melhor começar lendo o primeiro livro (na escala cronológica interna) para ter uma ideia melhor do material com que iria lidar. Fiz o mesmo com Sundiver antes de ler Maré Alta Estelar, e confesso que estava cético se isso não acabaria se mostrando desnecessário ou até uma perda de tempo. Para minha surpresa Bujold revelou-se uma autora de ficção científica extremamente competente, superando em qualidade estilística e em vários outros aspectos autores como David Brin ou Kim Stanley Robinson. Antes de partir para a análise do livro, faço uma introdução sobre o universo criado por Bujold.

A Saga Vorkosigan 

É uma série de livros de ficção científica e contos situados em um universo ficcional criado pela autora Lois McMaster Bujold. O primeiro livro foi publicado em 1986 e o mais recente em 2012. Os livros da série já receberam vários prêmios e nomeações, incluindo três vencedores do Prêmio Hugo.
O estilo empregado por Bujold varia muito, algumas vezes misturando gêneros como thriller político, romance, aventura militar e mistério.
A autora utiliza personagens masculinos, femininos ou homossexuais com pontos de vistas variados, mas algumas das preocupações constantes na série são: a ética médica, identidade pessoal (particularmente o papel da fisiologia na determinação da personalidade). Dentro do contexto empregado, a autora mostra como a identidade pode ser afetada pela bioengenharia, manipulação genética, clonagem e tecnologia médica na substituição de órgãos e no prolongamento da vida. Algumas histórias exploram temas como criação de crianças, formação de casais e até atividades sexuais.
Várias formas de sociedade e governos apresentados por Bujold refletem a política do século vinte, mas a autora também mostra contrastes entre a sociedade tecnológica e igualitária de Beta Colony e a sociedade heróica, militar e hierárquica dos Barrayar. Miles Vorkosigan, o personagem principal na série é filho de uma mulher de Beta e de um aristocrata Barrayano, personificando o contraste entre essas sociedades.

Assim como na série Fundação, de Isaac Asimov, no universo criado por Bujold a nossa galáxia foi colonizada pelos seres humanos sem terem que competir com outras espécies inteligentes. A primeira colônia bem sucedida é Beta. Desde pelo menos 400 anos antes dos eventos de Falling Free (o primeiro livro na escala cronológica interna) dezenas de planetas abrigam culturas que evoluem de forma divergente.

A viagem entre os sistemas estelares é possível graças aos wormholes (buracos de vermes) que são anomalias espaciais que permitem saltos instantâneos entre distâncias enormes da galáxia, organizados em um sistema conhecido como Nexus. O Nexus contêm várias estações espaciais militares ou comerciais e portos para suporte  às naves espaciais. As estações podem ser de propriedade de governos planetários, de organizações comerciais ou até mesmo independentes como o Sindicato dos Quaddies ou a Estação Kline.

A única forma de atravessar os wormholes é utilizando pilotos com implantes cerebrais que permitem que eles dobrem as três dimensões normais do espaço em cinco, através da matemática pentadimensional (five-space math) e as naves possuem geradores de campo Necklin para isso.

A maioria dos sistemas estelares colonizados possuem pelo menos um planeta habitável, e na maioria das vezes com um único governo. Existem também impérios como os dos Barrayar e Cetaganda, formados pela conquista de outros mundos nas vizinhanças de seu wormhole.

Cordelia Naismith é a capitã de uma nave a serviço do Serviço de Pesquisa Betano cuja tarefa é explorar sistemas desconhecidos em busca de planetas habitáveis (Shards of Honor, o segundo livro na escala cronológica).

 As estações espaciais do passado (200 anos antes dos eventos de Shards of Honor) usavam força centrífuga para gerar efeito artificial de gravidade, mas as modernas contam com sistemas de geração artificial de gravidade. A gravidade artificial também é utilizada para proteger passageiros de naves espaciais de grandes acelerações.

 Os ambientes habitados pelos humanos através do Nexus são os mais variados possíveis. Em alguns planetas como Barrayar e Sergyar a gravidade e atmosfera são semelhantes às da Terra, e existem grandes suprimentos de água. Em outros como Beta Colony e Komarr, só é possível viver em cidades protegidas por domos ou em arcologias (cidades autossustentáveis e com controle de atmosfera e clima). Em todas lugares colonizados a forma predominante de vida botânica é a terrena, sendo que nos planetas onde foi necessária a terraformação esta foi conduzida com a destruição da vida nativa e imposição das formas terrenas. O fornecimento de alimentos é feito principalmente através de culturas hidropônicas em larga escala ou piscicultura. Em habitats espaciais, como os dos quaddies de Falling Free, é necessário lidar com a questão do isolamento do ecossistema e o risco de contaminação microbiana.

Um aspecto muito importante na Saga Vorkosigan é a tecnologia médica e genética, capaz de produzir qualquer tipo de clone ou de seres híbridos. A manipulação do genoma humano e o uso dos “replicadores uterinos” permite criação de embriões e fetos e desenvolvimento de novos tipos de seres humanos, o que abre um interessante campo para a discussão ética sobre manipulação genética e reprodução in-vitro, um tema bastante atual nos nossos dias. A manipulação genética produziu entre os Betanos o aumento da expectativa de vida para mais de 120 anos, e nos Cetagandanos além da expectativa de vida foi prolongada também a juventude. É possível também o transplante de cérebros de pessoas idosas em corpos jovens clonados. A criogenia é coisa rotineira e acessível.

A bioengenharia apresentada mostra bactérias e animais produzidos com propósitos específicos (como os butterbugs, insetos que são considerados o alimento perfeito e definitivo para a humanidade), e até mesmo alterações em seres humanos, como os quaddies que foram projetados como trabalhadores perfeitos para ambientes espaciais. A manipulação genética e o medo de mutações é mais forte na sociedade Barrayarana, mas as corporações e empresas não se preocupam muito com essas questões éticas.

Apesar do Nexus permitir uma galáxia interligada por viagens e comércio, paradoxalmente Bujold imaginou que a comunicação seria mais lenta e difícil do que nos nossos dias. Como consequência disso cada planeta colonizado funciona como uma espécie de Placa de Petri em que as culturas humanas  — derivadas das culturas que conhecemos da história da Terra — evoluem de forma drasticamente diferentes. Os mundos de Barrayar e Athos, por exemplo, mostram aspectos da Europa e América da nossa época pré-industrial, o Império Cetagandan são altamente aperfeiçoados geneticamente, e os quaddies praticam uma espécie de comunalismo. Todas essas diferenças são usadas por Bujold para explorar e satirizar aspectos próprios das nossas sociedades.

 A história de Falling Free

Agora que fizemos uma introdução ao universo da saga Vorkosigan, vamos a uma breve introdução ao roteiro de Falling Free.
A história começa cerca de 200 anos antes do nascimento de Miles Vorkosigan, o protagonista da maior parte dos livros da série, descrevendo a criação dos “Quaddies” (imagino que uma possível tradução para o termo seria “quatrinhos”). Os Quaddies são seres humanos modificados geneticamente para uma melhor adaptação ao ambiente de gravidade zero (ou queda livre, quando em órbita). A principal mudança introduzida foi a transformação das pernas em outro par de braços. Criados com o objetivo de fornecer mão de obra barata e extremamente especializada para o ambiente espacial, eles são praticamente inúteis no mais leve campo gravitacional ou “no lado de baixo”, como é descrita a superfície de planetas. Além dos membros alterados, eles também sofreram grandes alterações metabólicas que praticamente eliminaram os efeitos nocivos da ausência de gravidade no corpo humano, como degeneração óssea e deterioração muscular.

Os Quaddies são propriedade da companhia que os criou, dependendo completamente desta para viver, sequer sendo considerados seres humanos.
Legalmente os Quaddies enquadram-se na categoria de “tecidos pós-fetais cultivados experimentalmente”, então a companhia não tem escrúpulos em tratá-los como escravos. O acesso à informação do mundo externo é fortemente controlado, até mesmo as crianças apenas ouvem histórias que envolvem trabalho no espaço. Eles não tem liberdade para reproduzir-se livremente, sendo submetidos à um programa de procriação controlada.

Leo Graf é um professor de soldagens em ambiente de gravidade zero, que foi designado como instrutor dos Quaddies, e rapidamente solidariza-se com a situação dos escravos.
Quando uma nova tecnologia de geração artificial de gravidade subitamente torna os Quaddies obsoletos, a companhia decide livrar-se do incômodo, então Leo Graf decide ajudá-los a fugir para um sistema estelar distante.

Falling Free é um livro muito divertido e de leitura fácil. Escrito de forma muito competente por Bujold, é o primeiro livro de uma saga que traz um novo frescor ao universo da ficção científica.

Cyteen – C. J. Cherryh

1792913

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Cyteen
  2. Nome do autor: C. J. Cherryh
  3. Nome da editora: Aspect (Reedição 1995)
  4. Data e local de publicação: EUA, 1988;
  5. Número de páginas: 696 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Nota: ★★ (2)

Cyteen é um romance de ficção científica escrito por C. J. Cherryh em 1988 e vencedor dos prêmios Hugo e Locus de 1989. A história situa-se no universo Aliança-União criado por Cherryh que é recorrente em seus livros de ficção científica. Cyteen foi fundado em 2201 por um grupo de cientistas e engenheiros dissidentes, incluindo o planeta Cyteen e as estações espaciais interiores e exteriores ao planeta. A independência de Cyteen veio em 2300, e agora serve como a capital da União.
A atmosfera do planeta é moderadamente tóxica aos seres humanos, que precisam viver em cidades semi-encapsuladas, conhecidas como enclaves ou cidades-estado.
Em face à necessidade de expansão das colônias da União, uma instituição científica conhecida como Reseune centraliza toda pesquisa e desenvolvimento de clonagem humana, recurso que é deplorado pela Terra e a Aliança, principais rivais da União.
Em Reseune são criados os humanos incubados in vitro “azi”, e os “CIT”. A principal diferença entre os azi e os CIT é que os azi são educados desde o nascimento via “fita”, uma combinação controlada por computadores de técnicas de condicionamento e treinamento por biofeedback. A técnica também é utilizada nos CIT, mas em escala muito menor, para educação, mas normalmente apenas depois dos seis anos de idade. O resultado é uma profunda diferença entre esses dois tipos de clones. Enquanto os CIT tem melhores capacidades de lidar com situações inesperadas e incertas, os azi são capazes de melhor concentração em problemas específicos. Como efeito colateral da educação por “fitas” os azi tendem a serem emocionalmente instáveis.

Análise de Cyteen

É perfeitamente aceitável escrever lixo – desde que você edite ele brilhantemente.

C. J. Cherryh

Eu venho lendo os vencedores do Prêmio Hugo em sequência, conforme é possível acompanhar através deste post. A experiência é recompensadora, mas nem sempre é fácil, pois as vezes encontramos livros que não foram traduzidos para o português, que são grandes demais (é o caso de Cyteen, com quase 700 páginas), ou até mesmo possuem uma linguagem e estrutura complicada demais (como Stand in Zanzibar).
Assim como o livro anterior de Cherryh que também recebeu o Hugo, Downbelow Station, também não recomendo a leitura deste livro. Não que o livro seja ruim, apenas considero que possui alguns problemas que desestimulam até os leitores mais fiéis ao gênero:

  1. O livro é longo demais. Isso não seria um problema se estivéssemos diante de um livro com um estilo mais rico e envolvente como os livros de Gene Wolfe, que merecem a leitura no idioma original, e não assustam pelo tamanho. Mas Cyteen realmente não precisava ser tão grande, se ele fosse enxugado pela metade ainda sobraria muito espaço para o desenvolvimento da história.
  2. Existem muitos personagens. Contei mais de vinte personagens, com uma alternância constante entre os protagonistas, o que é cansativo e causa perda de foco na leitura. Quase todos os personagens são tão secundários que é fácil perdê-los no background da história, e acabamos por considerá-los dispensáveis.
  3. Muita política. Não tenho nada contra política, acredito que o tema faz parte das nossas vidas e é muito importante, mas a autora gasta tantas páginas para tratar da aprovação de alguma projeto de lei, e perde-se de tal forma nos meandros políticos entre a União e a Aliança, que as vezes até esquecemos que estamos lendo um livro sobre clonagem. São esquemas e agendas políticas em excesso, e como praticamente todos personagens estão envolvidos até o pescoço na política é fácil perder-se em meio aos esquemas políticos.
  4. Muita falação, pouca ação. Páginas e mais páginas de discussões políticas e quase nenhuma ação.
  5. Um assassinato sem explicação. Apesar do livro ser descrito na contra capa como um “livro de mistério de assassinato”, o mistério sobre o assassinato de Ari é mal explicado, e fica a dúvida se tratou-se de um acidente ou suicídio. Apenas na sequência deste livro, Cyteen Regenesis (2009) Cherryh esclarece o mistério, mas acredito que depois de tanto tempo ninguém mais se importa com isso.

Apesar dos problemas o livro é escrito com competência, e com diálogos interessantes, apesar de cansativos. Ele é muito realista ao explorar problemas atuais na nossa sociedade, como questões éticas envolvendo clonagem e aperfeiçoamentos genéticos artificiais. Mas definitivamente não é uma leitura recomendável, mesmo para quem possui algum conhecimento do idioma inglês.
O livro poderia seguir o caminho distópico de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, mas Cherryh preocupou-se muito mais com diálogos políticos cansativos do que com as questões éticas e morais. É uma pena.

The Sword Of The Lictor (A Espada do Lictor) – Gene Wolfe

71iVUw+eK6L

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Sword & Citadel: The Second Half of The Book of the New Sun – Tetralogia do Livro do Novo Sol Volume 3
  2. Nome do autor: Gene Wolfe
  3. Nome da editora: Orb Books
  4. Data e local de publicação: EUA, 1994;
  5. Número de páginas: 416 páginas;
  6. Gênero: Fantasia Científica;
  7. Sub-Gênero: Morte da Terra (Dying Earth);
  8. Nota: ★★★★★ (5!)

A Espada do Lictor é o terceiro livro da Tetralogia do Livro do Novo Sol, escrito por Gene Wolfe em 1982. Foi indicado ao Prêmio Nebula, mas não recebeu o prêmio. Existe uma edição em português, da Editora portuguesa Europa-América, de 1985, mas é extremamente difícil encontrar uma cópia em sebos do Brasil. Após muita procura encontrei uma cópia em Portugal, através do site wook.pt, mas o fornecedor não conseguiu entregá-la. Caso você não consiga encontrar uma cópia em português recomendo a leitura desta edição em inglês, para quem tem conhecimento intermediário do idioma, pois Gene Wolfe é um escritor que merece ser lido no idioma original.

O livro continua a contar a estória de Severian, que após ser exilado da cidade de Nessus por ter demonstrado compaixão pela prisioneira Thecla, finalmente conclui sua longa jornada até Thrax, onde agora assume a posição de Lictor (ou Mestre das Correntes).
Por algum tempo Severian continua com seu ofício de torturador, mas novamente ele acaba mostrando misericórdia por outra prisioneira condenada, e com isso acaba por fugir da cidade. Uma estranha criatura conhecida como Salamandra, que é capaz de incinerar suas vítimas, aparentemente veio até Thrax para caça-lo, e após um encontro quase fatal com a criatura ele e Dorcas acabam se separando, pois sua amante que o acompanhou até Thrax acaba entrando em depressão devido ao seu passado misterioso e decide voltar para Nessus para tentar descobrir mais sobre seu passado. O jovem torturador decide seguir para o norte, onde se desenrola uma guerra, pois descobriu que as irmãs Pelerinas estariam nessa região, e por acreditar serem elas as guardiãs por direito da Garra do Conciliador,  e ele deseja retornar a inestimável relíquia com misteriosos poderes de cura para elas. A estória então segue descrevendo sua fuga de Thrax em direção à guerra que se desenrola no norte.

Mais uma vez Gene Wolfe mostra que é um dos melhores escritores vivos da língua inglesa, escrevendo uma história com uma riqueza estilística, vocabulário e dinâmica como poucos foram capazes neste gênero.
Urth (uma corruptela para Earth) é um  mundo moribundo em um futuro quase inimaginavelmente distante, e só temos informações sobre esse mundo através das reflexões de um personagem construído com muita competência ao longo dos quatro livros da série, recompensando a paciência do leitor com revelações repletas de beleza poética e magistralmente escritas. Veja alguns exemplos abaixo:

Após fugir de Thrax, ao contemplar o céu repleto de estrelas nas montanhas ao norte, Severian finalmente confirma que a humanidade realmente colonizou outros planetas, e que no passado a raça dos homens construiu uma grande civilização:

… Depois de cobrir minha cabeça com minha capa, o que fui forçado a fazer para não enlouquecer, acabo pensando nos mundos que circulam esses sóis. Todos sabemos que eles existem, muitos sendo meras planícies sem fim de rochas, outros esferas de gelo ou colinas de cinzas onde fluem rios de lava, como se afligido por Abaddon; mas muitos outros são mundos mais ou menos justos, e habitados por criaturas que ou são descendentes de criações humanas ou pelo menos não muito diferentes de nós mesmos…

Logo em seguida Severian revela que a humanidade também ocupou a Lua, e que algumas pessoas em Urth ainda tem acesso a tecnologias que foram negadas ao resto da humanidade no nosso mundo natal:

… Quando eu descobri, quando garoto, que o círculo verde na Lua na verdade é uma espécie de ilha pendurada no céu, cuja cor é devida às suas florestas, agora imemorialmente antigas, plantadas nos primeiros dias da raça dos Homens, eu tive a intenção de ir até lá, e logo adicionei a isso todos os outros mundos do universo ao descobrir sua existência. Eu abandonei esse desejo como parte (assim pensei) do crescimento, quando aprendi que apenas pessoas cujas posições na sociedade pareciam para mim inalcançavelmente elevadas eram capazes de deixar Urth.
Agora esse antigo anseio reacendeu-se, e apesar de agora parecer ainda mais absurdo com a passagem dos anos (pois certamente o pequeno aprendiz que eu fui teve mais chance de disparar entre as estrelas do que esse exilado perseguido que me tornei) ele se firmou e fortaleceu porque eu aprendi nesse meio tempo a limitar a insensatez do desejo ao possível. Eu partirei, isso está resolvido. Pelo resto da minha vida ficarei incansavelmente alerta por qualquer oportunidade, por menor que seja. Eu já me encontrei uma vez sozinho entre os espelhos do Padre Inire; então Jonas, muito mais sábio que eu, lançou-se sem hesitação na maré de fótons. Quem poderia dizer que não me encontrarei perante esses espelhos novamente? …

No capítulo XVIII Severian esclarece que o Sol de Urth está morrendo, perdendo seu brilho:

Quadros, pintados em tempos antigos, mostram que nosso sol já foi mais brilhante, mostrando que até mesmo as estrelas não podiam ser vistas até o por do sol. As antigas lendas – eu tenho um livro marrom em minha bolsa que conta muitas delas – são cheias de seres mágicos que desaparecem lentamente e reaparecem da mesma forma. Sem dúvida essas estórias são baseadas na forma como as estrelas eram vistas na época.

Mas não é apenas o Sol de Urth que está morrendo, o próprio planeta é tão velho que até seu núcleo resfriou, conforme Severian descreve no Capítulo XIII ao ver uma montanha partida:

… Em tempos antigos ‒ assim eu li em um dos textos que Mestre Palaemon enviou para mim ‒ o próprio coração de Urth já esteve vivo, e os movimentos desse núcleo vivo faziam planícies irromperem como fontes, e algumas vezes abria-se mares em uma noite entre ilhas que haviam sido um continente quando vistas pelo sol da última vez. Agora é dito que ele está morto, esfriando e enrugando seu manto rochoso como o corpo de uma mulher velha em uma dessas casas abandonadas que Dorcas descreveu, mumificando-se no ar seco até que suas roupas caiam do corpo por si mesmas. Assim é, ou é dito de Urth; e aqui meia montanha separou-se de sua outra metade, caindo pelo menos uma légua…

Gene Wolfe não explica por que Urth não congelou com a diminuição gradual do brilho do sol, o leitor pode especular à vontade. Eu acredito que a humanidade poderia ter sido capaz de aumentar a absorção de energia pela atmosfera e superfície, para compensar a redução da força do sol, antes de seu declínio tecnológico no planeta.

Uma crítica comum que tenho observado entre os leitores da obra de Gene Wolfe é a moral duvidosa que ele usa para descrever algumas ações de Severian. Por exemplo, como ele pode abandonar sua amante Dorcas em uma estalagem qualquer após ela ter um colapso nervoso e sair para uma festa onde acabou mantendo relações sexuais com uma mulher que nunca viu? Em outras oportunidades, como em A Garra do Conciliador ele também manteve relações efêmeras com outras mulheres, como Jolenta, sem se preocupar com a condição fragilizada desta ou com sua relação com Dorcas. É comum os leitores sentirem-se tentados a considerá-lo promiscuo ou pouco respeitador com as mulheres, mas acredito que o autor buscou descrever um mundo muito diferente do nosso, e aos poucos vamos percebendo que essas diferenças também deveriam estender-se às relações humanas, afinal estamos muitos milhões de anos no futuro, seria ingenuidade pensar que os nossos valores permaneceriam imutáveis. Como poderíamos julgar a moral de um personagem em um mundo tão estranho e distante no tempo se até mesmo para nós, em questão de poucas décadas, valores sociais e questões de gênero e raça podem sofrer mudanças tão drásticas?

A Espada Terminus Est

Já que o título do livro trata da espada de Severian, considero oportuno escrever algo sobre ela.

Antes de Severian partir para o exílio, Mestre Palaemon confia a ele a Terminus Est. É uma espada afiada e intimidante, que serve como símbolo de seu ofício além de ser uma arma mortal. Apesar da sua utilidade, a espada é extremamente ostentosa, pois de acordo com o narrador “muita arte foi esbanjada nela”.

Ela é descrita pelo Mestre Palaemon como sendo “Leve de se erguer, pesada para descer”, devido sua óbvia utilização para decapitações. Um canal na espinha da lâmina contém hydrargyrium líquido. Aparentemente esse líquido é mercúrio, devido suas propriedades, mas não podemos ter certeza disso. A função do hydrargyrium é deslocar o peso para a guarda da arma, quando mantida erguida acima da cabeça, para facilitar ao torturador aguardar até a ordem do magistrado de baixá-la e cortar a cabeça de um condenado, o que pode levar um tempo considerável em uma cerimônia de execução. A guarda da espada é removível, uma característica comum em espadas japonesas, e Severian por vezes remove a guarda para disfarçar a espada como um bastão de caminhada.
A Terminus Est é descrita como sendo um dos últimos trabalhos de um famoso construtor de espadas, então adicionalmente à sua utilidade ela também é uma antiguidade. Em A Sombra do Torturador, Agia diz que o valor dela é dez vezes superior a todo o estoque de sua loja.
Ela não tem uma ponta, pois não foi construída com o propósito de luta, não servindo para perfurar. Além disso o hydragyrium líquido pode causar grande desequilíbrio em movimentos laterais, por isso ela não é adequada para lutas, apenas para execuções.
A espada tem lâmina dupla, tendo um lado “macho” e outro “fêmea”, o que foi feito com o único propósito de cortar cabeças de homens e mulheres com seu respectivo lado.

Mas vamos ler como a espada é descrita no capítulo XIV de A Sombra do Torturador:

Não quero aborrecê-los com um catálogo de suas virtudes e belezas; seria necessário vê-la e empunhá-la para a julgar com justiça. A lâmina penetrante tinha uma vara de comprimento, com a ponta quadrada como compete a uma espada daquelas. Qualquer dos gumes conseguia seccionar um cabelo até um palmo do guarda-mão, que era de prata maciça, com uma cabeça esculpida em cada uma das extremidades. O punho era de ônix envolto em tiras de prata, tinha dois palmos de comprimento e terminava em uma opala. Tinha sido tratada com desvelo artístico; mas a função da arte é tornar atraentes e significativas as coisas que de outra forma não os seriam e por isso a arte nada tinha a dar-lhe. As palavras Terminus Est tinham sido gravadas sobre a lâmina em belas e curiosas letras e eu já tinha aprendido o suficiente sobre línguas antigas desde que saíra do Átrio do Tempo para saber que significavam Esta é a Linha de Divisão.
‒ Está bem afiada, garanto-te ‒ disse Mestre Palaemon, ao ver-me experimentar um dos gumes com o polegar. ‒ Em nome daqueles que possam vir a ser-te entregues, conserva-a assim. A minha única dúvida é se ela não será uma companheira demasiada pesada para ti. Ergue-a e vê.
Segurei em Terminus Est tal como fizera com a espada falsa no dia da minha ascensão e levantei-a acima da cabeça, tendo o cuidado de não bater no teto. Ela deslocou-se como se eu estivesse a lutar com uma serpente.
‒ Não tens dificuldade?
‒ Não, Mestre. Mas ela contorceu-se quando eu a equilibrei.
‒ Há um canal na espinha da lâmina no qual corre um fluxo de hydrargyrium ‒ metal mais pesado que o ferro, embora escorra como água. Assim o equilíbrio passa para junto das mãos quando a lâmina está erguida e para a ponta quando ela desce. Muitas vezes terá que aguardar que termine uma oração final ou que o inquiridor te faça um sinal com a mão. A tua espada não pode vacilar nem tremer. ‒ Mas isso tu já sabes. Não necessito recomendar-te que respeites tal instrumento. Que a Moira te seja favorável, Severian.

Severian segue fielmente o conselho de seu mestre, sendo muito meticuloso no cuidado e guarda da espada, sempre limpando, lubrificando e a afiando antes e depois de uma execução, mantendo-a tão afiada que pode utilizá-la para fazer a barba, como vemos no capítulo XIV de A Espada do Lictor, quando Severian pede abrigo em uma casa na floresta após fugir de Thrax:

… ‒ Você sempre se barbeia com sua espada? A mulher perguntou. Foi a primeira vez que ela falou comigo sem reservas.
‒ É um costume, uma tradição. Se a espada não estiver afiada o suficiente para eu me barbear com ela, eu deveria ter vergonha de portá-la. E se estiver afiada o suficiente que necessidade eu teria de uma navalha?
‒ Ainda assim deve ser estranho, segurar uma lâmina tão pesada como essa, e você deve tomar muito cuidado para não se cortar.
‒ O exercício fortalece meus braços. Além disso é bom que eu maneje minha espada a cada chance que possuo, para que ela me seja tão familiar quanto meus membros.
‒ Você é um soldado, então. Eu achava que era.
‒ Eu sou um carrasco.

Em A Espada do Lictor Terminus Est será utilizada várias vezes, e terá um destino dramático no final do livro.

Não perca minha próxima análise, A Cidadela do Autarca e a análise final de O Livro do Novo Sol!

Perdido em Marte (The Martian) – Andy Weir

120789907_1GG

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Perdido em Marte (The Martian)
  2. Nome do autor: Andy Weir
  3. Nome da editora: Arqueiro
  4. Tradutor: Marcello Lino
  5. Lugar e data da publicação: Brasil, 10/07/2014
  6. Número de páginas: 336 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica Hard;
  8. Nota: ★★★★ (4)

Perdido em Marte (The Martian) é um romance de ficção científica do subgênero Hard, que é um estilo de ficção focada na precisão científica. Foi originalmente publicado pelo próprio autor em 2011, sendo que em 2014 os direitos foram adquiridos por uma grande editora (Crown Publishing) que republicou o livro com grande sucesso. O livro ganhou projeção após ser divulgado que Ridley Scott irá filmar a estória, com Matt Damon no papel principal, e o lançamento será ainda neste ano! Para mais informações confira este link para o IMDB.

Post atualizado, agora já temos o trailer! (19/08/2015)

O livro conta a estória do astronauta Mark Watney, um botanista e engenheiro mecânico que é deixado para trás logo no início da terceira missão tripulada à Marte, a Ares 3, que foi forçada a evacuar devido a uma forte tempestade. Seus companheiros o julgaram morto devido a uma antena ter perfurado seu traje EVA, o que foi confirmado pelos monitores de dados vitais de seu traje. Na verdade seu ferimento não foi muito grave, e o traje foi capaz de vedar o vazamento antes de perder muita pressão. Watney acaba ficando para trás, sem comunicação com o resto da equipe ou com a NASA, precisando contar apenas com suas habilidades técnicas e científicas para sobreviver com os recursos limitados que dispõe até a próxima missão Ares, e assim ter alguma chance de resgate.

Mark Watney revela-se uma pessoa cheia de recursos, com uma criatividade e capacidade de lidar com adversidades totalmente fora dos padrões. Ele é uma espécie de MacGyver que é capaz de consertar qualquer coisa com um pouco de fita adesiva, pedaços de lixo e o que mais conseguir obter.

O autor pretendeu mostrar um personagem que nunca se deixa abater, com um bom humor tão fora do padrão quanto suas habilidades para sobreviver. Mas, na minha opinião, aqui o autor exagera um pouco, e mostra o diário de Watney mais como um blog nerd do que um drama de sobrevivência. Praticamente não existe nenhum momento traumático, e o tempo todo o astronauta faz trocadilhos e piadinhas infantis, como substituir uma unidade de medida de energia que considera sem graça por “pirata-ninja”, faz piadinhas com emoticons ao fazer contato com a NASA (veja só, um par de peitos! (.Y.)). Sinceramente, as piadas são mais embaraçosas do que engraçadas. Não importa o tamanho da desgraça, ou quanto a situação seja desesperadora, Watney insiste em fazer piadas e comentários ridículos, minimizando o tempo todo a tensão que seria característica em um livro de sobrevivência. Watney é um personagem unidimensional, sem nenhuma profundidade psicológica, mesmo passando por situações traumáticas como quase morrer várias vezes e ter sido abandonado em outro planeta.

 Apesar disso, Andy Weir é um excelente escritor técnico, bastante detalhista ao descrever as ações de Watney para criar e reciclar água e ar, para criar solo para cultivar batatas, e adaptar o veículo espacial e o habitat para os mais diversos fins. No subgênero Ficção Científica Hard essa familiaridade com a ciência é muito importante, e sem dúvida é o ponto forte do livro.

Talvez o autor tenha tentado aproximar o livro da linguagem dos jovens, ou facilitar a leitura, mas considero muito desagradável um personagem fazer algum comentário sarcástico e logo depois explicar: sim, isso é sarcasmo. Uma piada que precisa de legenda ou trata-se uma piada ruim ou o autor considera que o leitor não possui inteligência suficiente para entende-la. É lamentável.

Mesmo assim ainda assim considero esse livro uma gratificante novidade na ficção científica, e recomendo sua leitura. Apenas considero que teria sido um livro bem melhor se fosse um pouco menos nerd e um pouquinho mais dramático.

The Uplift War (A Guerra da Elevação) – David Brin

IMG_0063

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: The Uplift War (A Guerra da Elevação) – Uplift #3
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Nome da editora: Bantam Spectra
  4. Lugar e data da publicação: Eua, 1987
  5. Número de páginas: 294 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Nota: ★★ (3)

The Uplift War (A Guerra da Elevação) é um romance de ficção científica escrito em 1987 por David Brin, e o terceiro livro do Universo Elevação que é composto por seis livros. O livro foi indicado ao Prêmio Nebula de melhor romance em 1987 e venceu os prêmios Hugo e Locus de melhor romance em 1988.
Os dois livros anteriores, Sundiver e Star Tide Rising, conforme escrevi nas análises anteriores, para mim foram desapontadores, o primeiro por ter sido conduzido de forma ingênua, com personagens fracos e pouco envolventes. O segundo, apesar de ter recebido vários prêmios, também foi desapontador devido ao uso de uma estrutura de narrativa rotativa com capítulos muito curtos com quebra constante de ritmo, uma falha estilística que considerei grave. Infelizmente David Brin manteve o mesmo estilo nesse livro, insistindo na rápida alternância entre os personagens o que liquidou com o ritmo do livro.

Ainda encontramos capítulos muito curtos, com mais de um capítulo por página, alguns capítulos com menos de 3 sentenças, o que produziu absurdos 111 capítulos! Por que dividir o livro em sete partes? E por que a parte sete teria apenas um  capítulo? Por que não chamar o último capítulo de epílogo? Apesar de alguns capítulos serem mais longos, muitas vezes ele perde tempo em trechos desnecessários (como o capítulo 24, que descreve um bar de stripers tão repleto de clichés que parece ter saído de algum filme de faroeste, só que com atores chimpanzés).

Apesar do título mencionar uma guerra, não se trata de uma ficção científica militar. Sim, trata-se de uma guerra, mas o foco da história mais uma vez é a Elevação de espécies à condição de senciência e não a guerra em si. Assim como nos livros anteriores, David Brin fez um bom trabalho na sua construção dos Galáticos. Cada raça alienígena possui uma cultura própria, cheia de peculiaridades, algumas curiosas, outras até mesmo bizarras. Os Gubru, por exemplo, que iniciam o ataque à colônia de terrenos (humanos e chimpanzés) em Garth, são descritos como algo parecido com passarinhos superdesenvolvidos, que possuem uma atitude guerreira que não combina com sua aparência (assim como os Angry Birds). Pode parecer ridículo, mas o resultado é genial, pois ao fugir do estereótipo da ficção científica, que insiste em retratar raças alienígenas agressivas como algo parecido com felinos ou outras raças predadoras, o autor acaba surpreendendo o leitor com sua guerra contra os Angry Birds.

Os Tymbrini são umas das poucas espécies galáticas aliadas dos terrenos, e foram maravilhosamente construídos pelo autor. A capacidade de adaptação dos Tymbrini permite que eles executem alterações fisiológicas e anatômicas drásticas, e como empatas são capazes de comunicar-se mentalmente percebendo coisas que os terrenos não podem ver. Além disso surge um interessante caso amoroso entre um humano e uma tymbrini, que leva os leitores a considerar o que poderia acontecer com uma integração intensa entre espécies tão diferentes.
A estória acontece em Garth, um planeta arrendado pela Terra para um esforço de recuperação do planeta após o desastre ecológico causado por uma espécie elevada que falhou miseravelmente e quase destruiu completamente a vida do planeta.
Os Gubru estão determinados em descobrir o que aconteceu com a espaçonave Streaker (veja minha análise), então eles iniciam uma guerra dentro das regras galáticas, mas conforme mencionei anteriormente a guerra em si não é o mais interessante, mas sim o que é descrito paralelamente.
No livro anterior o autor ocupou-se em descrever os golfinhos elevados, com o foco principalmente em sua linguagem, pois tratava-se de uma população restrita à tripulação da nave Streaker. Já neste livro ele conseguiu descrever melhor a sociedade dos chimpanzés em Garth, que mostra uma semelhança maior com os seres humanos.
Apesar de começar bem, o autor perdeu a mão mais uma vez em Uplift War, insistindo na alternância constante na narrativa, muitas vezes com capítulos desnecessários e sem importância. Mais uma vez David Brin mostra que não é um bom escritor, apesar de possuir uma imaginação privilegiada.

Startide Rising (Maré Alta Estelar) – David Brin

117 - Maré Alta Estelar - 2

 

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Startide Rising – Uplift #2 – (Maré Alta Estelar)
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Tradutor: Maria Helena Fernandes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 116 e 117;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1986
  6. Número de páginas: 294 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Nota: ★★ (3)

Startide Rising (Maré Alta estelar) é o segundo livro da trilogia Uplift (Elevação), de David Brin. Foi escrito em 1983 e recebeu o prêmio Nebula no mesmo ano, e os prêmios Hugo e Locus de 1984, sendo portanto um dos poucos livros laureados com os três maiores prêmios da ficção científica. Existe uma edição em português, mas infelizmente é muito difícil de encontrá-la em sebos. Se você está procurando este livro recomendo tentar no site Estante Virtual. Para piorar a situação, o livro foi publicado em dois volumes, e só encontrei uma cópia do segundo volume, portanto tive que ler o primeiro em inglês.

Veja minha análise de Sundiver antes de prosseguir (o link abrirá em uma nova janela).

A ordem cronológica da série é a seguinte:

Observação: (A leitura de Sundiver pode ser considerada uma boa introdução ao universo Uplift, mas não é obrigatória. Muitos consideram que a série inicia efetivamente em Startide Rising)

jim_burns_startide_rising

 O ano é 2489. A história começa cerca de um mês após a espaçonave terrena Streaker (com uma tripulação de 150 golfinhos, sete humanos e um chimpanzé) realizar a descoberta de uma frota abandonada que supostamente teria pertencido aos Progenitores, uma lendária raça que teria iniciado o processo de elevação de outras espécies. A origem, história e destino dos Progenitores é um dos maiores mistérios da galáxia. Um transporte da Streaker foi destruído ao investigar a frota abandonada, matando vários membros da tripulação. Apesar disso eles conseguiram recuperar alguns artefatos e um corpo de uma espécie alienígena desconhecida, mas muito bem preservado. Eles transmitem por psi-cast para a Terra informações sobre a descoberta e um holograma do corpo do alienígena. A resposta, enviada em código, dizia simplesmente “Fujam. Aguardem ordens. Não respondam”. Durante a fuga a Streaker é emboscada em um Ponto de Transferência Morgan, consegue fugir mas sofre várias avarias e acaba sendo obrigada a pousar no planeta aquático Kithrup.
Os alienígenas que estão perseguindo a Streaker são conhecidos como Galáticos — civilizações que conquistaram a inteligência milhares de anos antes dos humanos. A narrativa inicia-se então em meio a uma luta feroz entre os galáticos para decidir quem irá ficar com as informações e artefatos dos Progenitores, enquanto a tripulação da Streaker irá realizar uma tentativa desesperada de reparar a nave em um ambiente alienígena hostil e cheio de mistérios.

A estória é contada pelo ponto de vista dos personagens humanos, golfinhos elevados e até mesmo do ponto de vista de outras espécies dos Galáticos. Para os golfinhos o autor desenvolveu um padrão de linguagem no estilo Haiku, uma forma de poesia japonesa curta caracterizada pela justaposição de duas ideias, com 17 on (também conhecido como mora, ou algo como as nossas sílabas) divididas em três frases com 5, 7 e 5 ons.  O resultado é no mínimo curioso. A Streaker, foi adaptada para comportar uma tripulação em sua maior parte de golfinhos, com ambientes aquáticos, mas os golfinhos também podem circular entre outros compartimentos e comunicar-se com humanos em chimpanzés utilizando exoesqueletos conhecidos como aranhas.

A imaginação de David Brin é realmente impressionante, e seu rigor científico permite algumas postulações aceitáveis do ponto de vista tecnológico. A comunicação entre as espécies humanas, golfinhos e chimpanzés, bem como a interação entre eles é bastante convincente. Por exemplo, a Streaker é a primeira nave terrestre a ser capitaneada por um golfinho, o capitão Creideiki, portanto ele demonstra estar sob pressão devido sua responsabilidade em provar tanto aos humanos quanto aos outros de sua espécie que eles são totalmente capazes de cuidar de si mesmos. Os humanos também lidam com suas próprias preocupações e frustrações, bem como algum romance entre eles. O único chimpanzé à bordo é ranzinza e egoísta. Nos capítulos mostrados do ponto de vista dos Galáticos podemos notar um nítido sentimento de desdem e superioridade em relação aos humanos e as outras duas espécies terrenas patrocinadas por nós.

A estrutura rotativa da narrativa, alternando entre os pontos de vistas conforme muda o narrador,  é um recurso valioso e vários livros que já li fizeram excelente uso dessa técnica, mas David Brin pecou na brevidade desses capítulos. Os capítulos são tão curtos (alguns têm menos de uma página, ou até mesmo apenas poucas sentenças) que dificilmente permitem ao leitor acostumar-se ao novo ponto de vista. A narrativa acabou ficando cheia de saltos, o que prejudica a conservação do momemtum (ritmo) na leitura, deixou a narrativa confusa e à todo momento Brin joga um balde de água fria nos momentos onde a estória começava a ficar interessante.

Apesar de apresentar vários problemas, Maré Alta Estelar ainda pode ser considerado um grande livro, escrito dentro do melhor da tradição do gênero: mostrando o impacto que a ciência e tecnologia produzem sobre a humanidade.

Recomendo a leitura, mas apenas para fãs do gênero.

 

The Old Equations – Jake Kerr

The-Old-Equations-internal

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: The Old Equations
  2. Nome do autor: Jake Kerr
  3. Tradutor: Rodrigo Fernandes (tradução ainda em andamento)
  4. Data e local de publicação: 16/08/2014, EUA;
  5. Número de páginas: 45 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Sub-Gênero: Realidade Alternativa;
  8. Nota: ★★★★★ (5)

The Old Equations é uma estória escrita por Jake Kerr, e publicada pela primeira vez na revista Lightspeed Magazine em 2011. Foi uma das finalistas do Prêmio Nebula de 2011 e imediatamente reconhecida pelos fãs e pela crítica especializada como uma das melhores novidades no gênero ficção científica dos últimos anos.

É uma estória curta (apenas 45 páginas) que está disponível no Kindle Unlimited da Amazon ou por R$2,53 para quem não é assinante desse serviço, em inglês, mas o meu amigo Rodrigo Fernandes já conseguiu autorização expressa do autor para traduzir e divulgar a sua tradução para o português! Assim que estiver pronto irei disponibilizar o arquivo.
Jake Kerr parte de uma premissa interessante para compor uma realidade alternativa: E se Albert Einstein tivesse morrido antes de divulgar sua genial teoria da relatividade geral, e suas equações tivessem ficado esquecidas até sermos capazes de lançarmos missões interestelares tripuladas?
Ignorando a existência das equações de Einstein, uma nave é então enviada à Gliese 581d, e apesar de possuir avançadas tecnologias quânticas, como sistemas de comunicação instantâneos através de emaranhamento de partículas subatômicas, efeitos relativísticos de dilatação temporal começam a aparecer, confundindo tanto o astronauta como a equipe responsável pela comunicação na Terra. Eles acabarão por descobrir que as velhas equações do obscuro e excêntrico físico Einstein, que tinham sido ignoradas até então, fazem parte da dura realidade com que eles terão que lidar.

Ficção científica não é um gênero fácil para se aventurar. Não se trata apenas de escrever sobre tecnologia e ciência, mas principalmente de escrever sobre a forma como o homem lida com elas, o que foi feito de forma muito competente pelo autor. Na estória um casal enfrenta a difícil separação (e riscos) de uma viagem interplanetária de oito anos. Eles sabem que a separação será difícil, mas estão preparados para lidar com esse problema. A partir do momento que as velhas equações de Einstein mostram-se verdadeiras, o casal descobre que a separação será muito maior do que poderiam imaginar.
Na minha opinião considero que seria difícil a ciência continuar avançando durante dois séculos e meio sem que ninguém percebesse  os efeitos da dilatação temporal. Os efeitos teriam sido notados em relógios síncronos como o que utilizamos hoje em satélites de GPS que mostram leituras divergentes devido à grande velocidade dos satélites em relação ao solo. Apesar disso, essa premissa é muito interessante e estimula muito a imaginação do leitor.
Outro aspecto digno de nota sobre essa estória foi a excelente escolha de Gliese 581d como destino da missão. Esse é um planeta extrassolar muito promissor para encontrarmos vida, pois reúne várias qualidades: está próximo (apenas 20 anos luz, na constelação de Libra), tem apenas 6,98 vezes a massa terrestre e está no limite da zona habitável em torno de sua estrela.
Jake Kerr realizou um trabalho muito competente nessa obra de ficção, o que explica porquê ele é considerado uma das melhores novidades no mundo da ficção científica contemporânea. Acompanharei ansioso o trabalho desse autor!

O Carteiro – David Brin

ThePostman_B.indd

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: O Carteiro (The Postman)
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Tradutor: Fábio Fernandes
  4. Data e local de publicação: Internet, 2014;
  5. Número de páginas: 253 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Sub-Gênero: Ficção Pós-apocalíptica;
  8. Nota: ★★★ (3)

    O Carteiro (The Postman) é um romance de ficção científica pós-apocalíptica escrito por David Brin em duas partes: “O Carteiro” em 1982 e ¨Cyclops” em 1984. Posteriormente o livro foi publicado na sua forma completa, tendo sido indicado aos prêmios Hugo e Nebula, e recebeu os prêmios John W. Campbell e o Locus, em 1986. No Brasil o livro foi publicado apenas em duas partes, pela saudosa Isaac Asimov Magazine, a primeira no nº21 e a segunda no nº 23.
No link abaixo você encontrará a edição brasileira na íntegra, apenas foi feita a correção para a nova ortografia e a edição para epub, mobi e PDF.
A tradução não é minha, mas coloquei na categoria Minhas Traduções apenas facilitar a localização.

O Carteiro – David Brin (PDF)
  O Carteiro – David Brin (MOBI)
 O Carteiro – David Brin (EPUB)

   A maioria das pessoas deve conhecer essa história apenas através do péssimo filme com o Kevin Costner. No Brasil o título foi traduzido erroneamente como O Mensageiro. O filme é uma bomba, como quase tudo que Kevin Costner já fez na vida, mas felizmente eu tinha lido o livro na revista Isaac Asimov Magazine antes de assistir ao filme, e sabia que a história era muito mais do que aquilo que foi mostrado. O filme é sem sentido e simplesmente estúpido, Costner apenas tenta imitar Mad Max. Ele é baseado apenas nas primeiras 40 ou 50 páginas do livro. Caso você já tenha perdido tempo assistindo o filme espero que tenha sido há bastante tempo e espero que já tenha esquecido de boa parte dele, para ter um começo limpo nessa história.
O Carteiro é um livro no clássico sub-gênero pós apocalíptico. O mundo enfrentou uma guerra mundial, cujos detalhes (e até mesmo os oponentes dos EUA) são deixados de lado pelo autor. O uso maciço de armas nucleares, armas biológicas e o inverno nuclear destruiu completamente a civilização. O protagonista do livro, Gordon, era um miliciano em Minnesota, que tentava proteger alguns sobreviventes locais até que todos seus companheiros morreram e ele fugiu para o oeste. O livro começa quando Gordon está sendo roubado por uma gangue e sobrevive ao descobrir um carro postal abandonado e o corpo de um carteiro que morreu há muito tempo. Isso acaba salvando sua vida, pois ele tinha sido roubado e morreria de frio se não vestisse o casaco do carteiro. Ele acaba pegando a sacola de cartas do carteiro, sem pensar muito sobre isso. Quando ele chega à Pine View os habitantes locais reagem de forma inesperada e emocionada com a visão do uniforme, e ele acaba vendo-se tentado a encarnar o papel de carteiro.
Gordon acaba fazendo uso dessa mentira para conseguir respeito, atenção, abrigo e alimento. Ele mente dizendo que representa o governo dos Estados Unidos Restaurados, e as pessoas estão tão desesperadas para acreditar em algo que aceitam facilmente suas mentiras. Gordon se reconhece como uma fraude, e fica tentado a desistir da farsa, mas acaba rapidamente preso no papel. O autor mostra Gordon como um personagem amargurado e oportunista, no entanto ele possui uma moralidade inata esperando para mostrar-se.
O livro questiona o significado de heroísmo e liderança, e como alguém nessa situação pode acabar sendo dominado por um papel se desempenhá-lo muito bem ou por muito tempo.
Mas esse livro tem alguns problemas muito sérios. Na primeira metade, que é basicamente um livro de aventura e exploração de um ambiente pós-apocalíptico, existe uma certa estranheza na dinâmica da narrativa, uma impressão de que o autor está enfiando a narrativa goela abaixo do leitor ao invés de conduzi-la suavemente. Mas o pior acontece na segunda parte, quando Gordon irá enfrentar os sobrivencialistas: o livro sai completamente dos trilhos!
David Brin mostra uma reversão do status das mulheres à um padrão quase feudal, como se os direitos femininos fossem uma espécie de produto da civilização moderna. Quando Gordon chega à uma cidade onde existe uma espécie de nova onda de feminismo surgindo, Brin introduz algumas ideias bizarras sobre a necessidade das mulheres em controlar a violência dos homens, e sobre uma espécie de dicotomia no comportamento masculino entre o heroico e o vil, e faz um claro paralelo com a comédia antiguerra Lisístrata escrita por Aristófanes em 411 A.C.. Nessa comédia as mulheres de Atenas fazem uma greve de sexo e conseguem assim fazer com que seus maridos desistam da luta e busquem a paz. Esse paralelo com Lisístrata está até na dedicatória do livro. Próximo do fim do livro tudo se resume à uma briga cheia de testosterona no estilo saloon de filmes de faroeste. David Brin fica preso à esse modelo binário de gêneros, indo da condescendência sincera em tentar reconhecer a força das mulheres à simplificação na descrição do comportamento masculino, agressivo e superficial.
Para piorar tudo, David Brin simplesmente puxa o tapete debaixo dos pés do mundo que ele criou. O tema principal de O Carteiro até próximo do fim é a substituição da ênfase na tecnologia pelo aumento da importância das pessoas, e a necessidade de cooperação entre elas. Em um trecho bem conduzido Brin consegue mostrar as possibilidades de se utilizar a tecnologia como ferramenta para a salvação, e esse tema encaixa perfeitamente com a natureza heróica de Gordon. Mas logo depois o autor introduz vilões caricatos, típicos de revistas em quadrinhos, tudo descamba para a simples violência e acaba desviando o foco para as partes ruins do livro.
Sem dúvida alguma o livro é melhor que o filme, mas isso não quer dizer muita coisa. O livro começa devagar, mas o meio dele é até melhor do que poderíamos esperar. Mas o embaraçoso sub-enredo envolvendo o feminismo e o colapso do mundo que ele criou deixou um gosto amargo na boca do leitor.
Apesar de tudo é um livro que recomendo a leitura, e apesar dos problemas que possui é um livro pós-apocalíptico regular. Se você está procurando um livro pós-apocalíptico melhor experimente ler Um Cântico para Leibowitz (veja minha análise).

Red Mars – Kim Stanley Robinson

M1_Red_Mars           

 Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Red Mars (Trilogia de Marte #1)
  2. Nome do autor: Kim Stanley Robinson
  3. Tradutor: Não foi traduzido para o português
  4. Nome da editora: Spectra;
  5. Data e local de publicação: EUA, 1993;
  6. Número de páginas: 592 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Sub-Gênero: Ficção Científica Hard;
  9. Nota: ★★★★

Red Mars é o primeiro livro da Trilogia de Marte, tendo recebido o Prêmio Nebula de 1993. Lembro de ter lido ele pela primeira vez em 1994 ou 1995, época em quem eu estudava astronomia na UFRJ e este foi o primeiro livro de ficção científica que li em inglês. Desde então venho esperando por uma tradução, mas infelizmente ela nunca foi feita, e como estou lendo os vencedores do Prêmio Hugo (Green Mars e Blue Mars receberam o prêmio) decidi começar relendo o primeiro livro da trilogia que considero a melhor ficção épica sobre a colonização de Marte.
Hoje temos acesso a muitas imagens de Marte, inclusive através do Google Maps Mars, recomendo a consulta dos mapas e regiões para uma melhor ambientação! Veja algumas das regiões descritas por Robinson em seu livro:

Chryse Planitiae

Chryse Planitiae

Juventae Chasm

Juventae Chasm

Para uma perspectiva ainda melhor do planeta vermelho recomendo o site da NASA, que tem uma enorme quantidade de material das últimas missões, principalmente da Opportunity:

PIA16703_Sol3137B_Matijevic_Pan_L257atc_br2

A história de Red Mars inicia em 2026 com a primeira viagem colonizadora para Marte feita pelo Ares, a maior espaçonave construída para levar os primeiros colonizadores do planeta vermelho. A nave foi construída através da união de tanques externos dos ônibus espaciais, que após a utilização foram impulsionados até uma órbita para serem utilizados como módulos construtivos. A missão é um joint venture entre os Russos e Americanos, sendo que setenta dos Primeiros Cem são desses países. O livro detalha a viagem, a construção da primeira base (chamada de Underhill) por Nadia Chernyshevski, os relacionamentos complexos entre os colonizadores, os debates sobre terraformação do planeta e o relacionamento da colônia com a Terra.

Existem dois pontos de vistas diametralmente opostos quanto a terraformação de Marte: O personagem Saxifrage “Sax” Russell acredita que própria presença do ser humano no planeta significa que a terraformação de Marte já teve início, e que seria essa a nossa obrigação, pois a vida é a coisa mais rara e preciosa do universo e Marte precisa receber a vida. Já Ann Clayborne assume a posição de que a humanidade não tem o direito de alterar planetas para satisfazer suas necessidades.
O ponto de vista de Russel inicialmente é puramente científico mas acaba misturando-se com as ideias de Hiroko Ai, a chefe da equipe de agricultura que acaba criando um novo sistema de crença (a “Areophania”) que devota-se à admiração e promoção da vida (“viriditas”); os seguidores desses pontos de vistas são chamados de “Verdes”, enquanto os seguidores de Clayborne ficam conhecidos como “Vermelhos”.
O órgão que irá decidir para qual lado a colonização irá seguir será a Autoridade das Nações Unidas para Organização de Marte (UNOMA), e obviamente (contar o óbvio não é spoiler, certo?) os Verdes irão prevalecer.
Entre as técnicas utilizadas para transformar Marte são utilizadas as seguintes:

  1. Instalação de um grande número de cataventos para transformar a energia eólica em térmica para aquecer a atmosfera;
  2. Escavação de túneis profundos na crosta (moholes) para liberar calor retido abaixo da superfície. O nome Mohole é uma homenagem ao Projeto Mohole, que foi conduzido entre 1958 e 1966 e realizou uma tentativa de recuperar uma amostra de material do manto terrestre ao cavar um buraco através da crosta na Descontinuidade de Mohorovicic, ou Moho.
  3. Aumento da concentração de gases na atmosfera através de uma complexa fórmula bio-química que fica conhecida como “coquetel de Russell”;
  4. Detonações nucleares profundas para derretimento do permafrost e liberação de água;
  5. Arremesso de cometas para colisão na atmosfera de Marte, em trajetória rasante, causando sua desintegração e agregação de oxigênio, hidrogênio e água na atmosfera;
  6. Inserção de um asteroide em órbita geossíncrona com Marte, que é batizado de “Clarke” no qual será construído um  elevador espacial;

Além disso Robinson introduz muitas tecnologias que hoje seriam consideradas como o Santo Graal da ciência, tanto na ciência de materiais (com super materiais extremamente resistentes que possibilitariam a construção do elevador espacial e redomas flexíveis capazes de envolver cidades inteiras) como na ciência biológica (tratamentos genéticos e geriátricos que prolongariam a vida e a qualidade de vida em várias décadas).
Considero Red Mars um dos melhores livros de ficção científica hard já escritos, e sem dúvida o melhor livro sobre uma possível colonização de Marte, muito coerente nos princípios científicos apresentados, cheio de aventura, romance e humor. Mas então por quê não dei cinco estrelas para ele? Acredito que a única falha do autor foi dar pouco destaque ao enorme desafio que os colonizadores deveriam enfrentar ao lutar contra um ambiente extremamente hostil: atmosfera rarefeita e tóxica, frio extremo, recursos limitados e ambientes confinados em um sistema ecológico frágil e complexo. Para se ter uma ideia, após mais de um ano da chegada da equipe de cem colonizadores nenhum deles morre ou sofre ferimentos graves. O pior ferimento foi o de Nadia, uma especialista em construções em ambientes hostis, que perdeu apenas um dedo e um acidente. Comparando com as dificuldades enfrentadas pelos colonizadores do Novo Mundo ou com as dificuldades que os exploradores da Antártica enfrentaram, é praticamente um acampamento de verão! A viagem da equipe de geólogos e Nadia ao pólo norte marciano foi descrita rapidamente e transcorre sem nenhuma dificuldade, sendo apresentada mais como uma excursão de férias para Nadia do que como uma missão arriscada com algum propósito científico ou prático. Enquanto isso a maior preocupação de Maya (a líder do grupo russo) é como ela vai lidar com seu triângulo amoroso que mantém com os dois líderes americanos, Frank e John.
Muito pouco do livro é dedicado à questão homem versus ambiente, e muito dele é dedicado aos conflitos entre os próprios seres humanos, questões políticas e econômicas, como se a maior dificuldade de viver em Marte não fosse o ambiente inóspito, mas sim a própria natureza destrutiva do ser humano e as dificuldades de relacionamentos dos colonizadores.
Mas essa é uma pequena falha de Kim Stanley Robinson, e de forma alguma desmerece esse grande livro. Na minha opinião, Red Mars seria ainda melhor se tivesse um pouco mais do estilo que Arthur C. Clarke empregou em Encontro com Rama (veja minha análise), que é muito mais realista e focado na exploração e não nos relacionamentos humanos.

Robinson utiliza o eficiente recurso de alternância da narrativa em terceira pessoa entre os personagens principais, o que permite ao leitor ver Marte e os relacionamentos dos colonizadores sob perspectivas muito diferentes: Nadia com seu pragmatismo cabeça-dura, Ann com sua tristeza quase patológica, John com seu entusiasmo e estilo celebridade de primeiro homem em Marte, Arkady com seu libertarismo revolucionário, o psiquiatra francês Michel Duval sofrendo de saudade crônica da Terra; essa alternância amplia muito a abrangência do trabalho do autor, possibilitando ao leitor identificar-se com um ou outro personagem e suas atitudes em determinados momentos.

Não deixe de ler também Green Mars e Blue Mars, em breve publicarei minha análise dos outros livros da trilogia!