The Sword Of The Lictor (A Espada do Lictor) – Gene Wolfe

71iVUw+eK6L

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Sword & Citadel: The Second Half of The Book of the New Sun – Tetralogia do Livro do Novo Sol Volume 3
  2. Nome do autor: Gene Wolfe
  3. Nome da editora: Orb Books
  4. Data e local de publicação: EUA, 1994;
  5. Número de páginas: 416 páginas;
  6. Gênero: Fantasia Científica;
  7. Sub-Gênero: Morte da Terra (Dying Earth);
  8. Nota: ★★★★★ (5!)

A Espada do Lictor é o terceiro livro da Tetralogia do Livro do Novo Sol, escrito por Gene Wolfe em 1982. Foi indicado ao Prêmio Nebula, mas não recebeu o prêmio. Existe uma edição em português, da Editora portuguesa Europa-América, de 1985, mas é extremamente difícil encontrar uma cópia em sebos do Brasil. Após muita procura encontrei uma cópia em Portugal, através do site wook.pt, mas o fornecedor não conseguiu entregá-la. Caso você não consiga encontrar uma cópia em português recomendo a leitura desta edição em inglês, para quem tem conhecimento intermediário do idioma, pois Gene Wolfe é um escritor que merece ser lido no idioma original.

O livro continua a contar a estória de Severian, que após ser exilado da cidade de Nessus por ter demonstrado compaixão pela prisioneira Thecla, finalmente conclui sua longa jornada até Thrax, onde agora assume a posição de Lictor (ou Mestre das Correntes).
Por algum tempo Severian continua com seu ofício de torturador, mas novamente ele acaba mostrando misericórdia por outra prisioneira condenada, e com isso acaba por fugir da cidade. Uma estranha criatura conhecida como Salamandra, que é capaz de incinerar suas vítimas, aparentemente veio até Thrax para caça-lo, e após um encontro quase fatal com a criatura ele e Dorcas acabam se separando, pois sua amante que o acompanhou até Thrax acaba entrando em depressão devido ao seu passado misterioso e decide voltar para Nessus para tentar descobrir mais sobre seu passado. O jovem torturador decide seguir para o norte, onde se desenrola uma guerra, pois descobriu que as irmãs Pelerinas estariam nessa região, e por acreditar serem elas as guardiãs por direito da Garra do Conciliador,  e ele deseja retornar a inestimável relíquia com misteriosos poderes de cura para elas. A estória então segue descrevendo sua fuga de Thrax em direção à guerra que se desenrola no norte.

Mais uma vez Gene Wolfe mostra que é um dos melhores escritores vivos da língua inglesa, escrevendo uma história com uma riqueza estilística, vocabulário e dinâmica como poucos foram capazes neste gênero.
Urth (uma corruptela para Earth) é um  mundo moribundo em um futuro quase inimaginavelmente distante, e só temos informações sobre esse mundo através das reflexões de um personagem construído com muita competência ao longo dos quatro livros da série, recompensando a paciência do leitor com revelações repletas de beleza poética e magistralmente escritas. Veja alguns exemplos abaixo:

Após fugir de Thrax, ao contemplar o céu repleto de estrelas nas montanhas ao norte, Severian finalmente confirma que a humanidade realmente colonizou outros planetas, e que no passado a raça dos homens construiu uma grande civilização:

… Depois de cobrir minha cabeça com minha capa, o que fui forçado a fazer para não enlouquecer, acabo pensando nos mundos que circulam esses sóis. Todos sabemos que eles existem, muitos sendo meras planícies sem fim de rochas, outros esferas de gelo ou colinas de cinzas onde fluem rios de lava, como se afligido por Abaddon; mas muitos outros são mundos mais ou menos justos, e habitados por criaturas que ou são descendentes de criações humanas ou pelo menos não muito diferentes de nós mesmos…

Logo em seguida Severian revela que a humanidade também ocupou a Lua, e que algumas pessoas em Urth ainda tem acesso a tecnologias que foram negadas ao resto da humanidade no nosso mundo natal:

… Quando eu descobri, quando garoto, que o círculo verde na Lua na verdade é uma espécie de ilha pendurada no céu, cuja cor é devida às suas florestas, agora imemorialmente antigas, plantadas nos primeiros dias da raça dos Homens, eu tive a intenção de ir até lá, e logo adicionei a isso todos os outros mundos do universo ao descobrir sua existência. Eu abandonei esse desejo como parte (assim pensei) do crescimento, quando aprendi que apenas pessoas cujas posições na sociedade pareciam para mim inalcançavelmente elevadas eram capazes de deixar Urth.
Agora esse antigo anseio reacendeu-se, e apesar de agora parecer ainda mais absurdo com a passagem dos anos (pois certamente o pequeno aprendiz que eu fui teve mais chance de disparar entre as estrelas do que esse exilado perseguido que me tornei) ele se firmou e fortaleceu porque eu aprendi nesse meio tempo a limitar a insensatez do desejo ao possível. Eu partirei, isso está resolvido. Pelo resto da minha vida ficarei incansavelmente alerta por qualquer oportunidade, por menor que seja. Eu já me encontrei uma vez sozinho entre os espelhos do Padre Inire; então Jonas, muito mais sábio que eu, lançou-se sem hesitação na maré de fótons. Quem poderia dizer que não me encontrarei perante esses espelhos novamente? …

No capítulo XVIII Severian esclarece que o Sol de Urth está morrendo, perdendo seu brilho:

Quadros, pintados em tempos antigos, mostram que nosso sol já foi mais brilhante, mostrando que até mesmo as estrelas não podiam ser vistas até o por do sol. As antigas lendas – eu tenho um livro marrom em minha bolsa que conta muitas delas – são cheias de seres mágicos que desaparecem lentamente e reaparecem da mesma forma. Sem dúvida essas estórias são baseadas na forma como as estrelas eram vistas na época.

Mas não é apenas o Sol de Urth que está morrendo, o próprio planeta é tão velho que até seu núcleo resfriou, conforme Severian descreve no Capítulo XIII ao ver uma montanha partida:

… Em tempos antigos ‒ assim eu li em um dos textos que Mestre Palaemon enviou para mim ‒ o próprio coração de Urth já esteve vivo, e os movimentos desse núcleo vivo faziam planícies irromperem como fontes, e algumas vezes abria-se mares em uma noite entre ilhas que haviam sido um continente quando vistas pelo sol da última vez. Agora é dito que ele está morto, esfriando e enrugando seu manto rochoso como o corpo de uma mulher velha em uma dessas casas abandonadas que Dorcas descreveu, mumificando-se no ar seco até que suas roupas caiam do corpo por si mesmas. Assim é, ou é dito de Urth; e aqui meia montanha separou-se de sua outra metade, caindo pelo menos uma légua…

Gene Wolfe não explica por que Urth não congelou com a diminuição gradual do brilho do sol, o leitor pode especular à vontade. Eu acredito que a humanidade poderia ter sido capaz de aumentar a absorção de energia pela atmosfera e superfície, para compensar a redução da força do sol, antes de seu declínio tecnológico no planeta.

Uma crítica comum que tenho observado entre os leitores da obra de Gene Wolfe é a moral duvidosa que ele usa para descrever algumas ações de Severian. Por exemplo, como ele pode abandonar sua amante Dorcas em uma estalagem qualquer após ela ter um colapso nervoso e sair para uma festa onde acabou mantendo relações sexuais com uma mulher que nunca viu? Em outras oportunidades, como em A Garra do Conciliador ele também manteve relações efêmeras com outras mulheres, como Jolenta, sem se preocupar com a condição fragilizada desta ou com sua relação com Dorcas. É comum os leitores sentirem-se tentados a considerá-lo promiscuo ou pouco respeitador com as mulheres, mas acredito que o autor buscou descrever um mundo muito diferente do nosso, e aos poucos vamos percebendo que essas diferenças também deveriam estender-se às relações humanas, afinal estamos muitos milhões de anos no futuro, seria ingenuidade pensar que os nossos valores permaneceriam imutáveis. Como poderíamos julgar a moral de um personagem em um mundo tão estranho e distante no tempo se até mesmo para nós, em questão de poucas décadas, valores sociais e questões de gênero e raça podem sofrer mudanças tão drásticas?

A Espada Terminus Est

Já que o título do livro trata da espada de Severian, considero oportuno escrever algo sobre ela.

Antes de Severian partir para o exílio, Mestre Palaemon confia a ele a Terminus Est. É uma espada afiada e intimidante, que serve como símbolo de seu ofício além de ser uma arma mortal. Apesar da sua utilidade, a espada é extremamente ostentosa, pois de acordo com o narrador “muita arte foi esbanjada nela”.

Ela é descrita pelo Mestre Palaemon como sendo “Leve de se erguer, pesada para descer”, devido sua óbvia utilização para decapitações. Um canal na espinha da lâmina contém hydrargyrium líquido. Aparentemente esse líquido é mercúrio, devido suas propriedades, mas não podemos ter certeza disso. A função do hydrargyrium é deslocar o peso para a guarda da arma, quando mantida erguida acima da cabeça, para facilitar ao torturador aguardar até a ordem do magistrado de baixá-la e cortar a cabeça de um condenado, o que pode levar um tempo considerável em uma cerimônia de execução. A guarda da espada é removível, uma característica comum em espadas japonesas, e Severian por vezes remove a guarda para disfarçar a espada como um bastão de caminhada.
A Terminus Est é descrita como sendo um dos últimos trabalhos de um famoso construtor de espadas, então adicionalmente à sua utilidade ela também é uma antiguidade. Em A Sombra do Torturador, Agia diz que o valor dela é dez vezes superior a todo o estoque de sua loja.
Ela não tem uma ponta, pois não foi construída com o propósito de luta, não servindo para perfurar. Além disso o hydragyrium líquido pode causar grande desequilíbrio em movimentos laterais, por isso ela não é adequada para lutas, apenas para execuções.
A espada tem lâmina dupla, tendo um lado “macho” e outro “fêmea”, o que foi feito com o único propósito de cortar cabeças de homens e mulheres com seu respectivo lado.

Mas vamos ler como a espada é descrita no capítulo XIV de A Sombra do Torturador:

Não quero aborrecê-los com um catálogo de suas virtudes e belezas; seria necessário vê-la e empunhá-la para a julgar com justiça. A lâmina penetrante tinha uma vara de comprimento, com a ponta quadrada como compete a uma espada daquelas. Qualquer dos gumes conseguia seccionar um cabelo até um palmo do guarda-mão, que era de prata maciça, com uma cabeça esculpida em cada uma das extremidades. O punho era de ônix envolto em tiras de prata, tinha dois palmos de comprimento e terminava em uma opala. Tinha sido tratada com desvelo artístico; mas a função da arte é tornar atraentes e significativas as coisas que de outra forma não os seriam e por isso a arte nada tinha a dar-lhe. As palavras Terminus Est tinham sido gravadas sobre a lâmina em belas e curiosas letras e eu já tinha aprendido o suficiente sobre línguas antigas desde que saíra do Átrio do Tempo para saber que significavam Esta é a Linha de Divisão.
‒ Está bem afiada, garanto-te ‒ disse Mestre Palaemon, ao ver-me experimentar um dos gumes com o polegar. ‒ Em nome daqueles que possam vir a ser-te entregues, conserva-a assim. A minha única dúvida é se ela não será uma companheira demasiada pesada para ti. Ergue-a e vê.
Segurei em Terminus Est tal como fizera com a espada falsa no dia da minha ascensão e levantei-a acima da cabeça, tendo o cuidado de não bater no teto. Ela deslocou-se como se eu estivesse a lutar com uma serpente.
‒ Não tens dificuldade?
‒ Não, Mestre. Mas ela contorceu-se quando eu a equilibrei.
‒ Há um canal na espinha da lâmina no qual corre um fluxo de hydrargyrium ‒ metal mais pesado que o ferro, embora escorra como água. Assim o equilíbrio passa para junto das mãos quando a lâmina está erguida e para a ponta quando ela desce. Muitas vezes terá que aguardar que termine uma oração final ou que o inquiridor te faça um sinal com a mão. A tua espada não pode vacilar nem tremer. ‒ Mas isso tu já sabes. Não necessito recomendar-te que respeites tal instrumento. Que a Moira te seja favorável, Severian.

Severian segue fielmente o conselho de seu mestre, sendo muito meticuloso no cuidado e guarda da espada, sempre limpando, lubrificando e a afiando antes e depois de uma execução, mantendo-a tão afiada que pode utilizá-la para fazer a barba, como vemos no capítulo XIV de A Espada do Lictor, quando Severian pede abrigo em uma casa na floresta após fugir de Thrax:

… ‒ Você sempre se barbeia com sua espada? A mulher perguntou. Foi a primeira vez que ela falou comigo sem reservas.
‒ É um costume, uma tradição. Se a espada não estiver afiada o suficiente para eu me barbear com ela, eu deveria ter vergonha de portá-la. E se estiver afiada o suficiente que necessidade eu teria de uma navalha?
‒ Ainda assim deve ser estranho, segurar uma lâmina tão pesada como essa, e você deve tomar muito cuidado para não se cortar.
‒ O exercício fortalece meus braços. Além disso é bom que eu maneje minha espada a cada chance que possuo, para que ela me seja tão familiar quanto meus membros.
‒ Você é um soldado, então. Eu achava que era.
‒ Eu sou um carrasco.

Em A Espada do Lictor Terminus Est será utilizada várias vezes, e terá um destino dramático no final do livro.

Não perca minha próxima análise, A Cidadela do Autarca e a análise final de O Livro do Novo Sol!

Anúncios

Laranja Mecânica – Anthony Burgess

download-Laranja-Mecanica-Anthony-Burgess-em-ePUB-MOBI-e-PDF

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)
  2. Nome do autor: Anthony Burgess
  3. Tradutor: Fábio Fernandes
  4. Nome da editora: Editora Aleph
  5. Data e local da primeira publicação: Inglaterra, 1962;
  6. Número de páginas: 192 páginas;
  7. Gênero: Romance Distópico;
  8. Sub Gênero: Ficção Científica Social;
  9. Nota: ★★★★★(5)

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) é um romance distópico escrito por Anthony Burgess em 1962, e adaptado por Stanley Kubrick para o cinema em 1971. É considerado um dos melhores romances da língua inglesa já escritos (nº 65 no ranking da Modern Library) tendo influenciado de forma considerável a cultura popular da segunda metade do século. É um livro relativamente difícil de ler, principalmente devido ao uso intensivo de gírias e neologismos que exigem atenção do leitor para entendê-las junto ao contexto, ou então consultas constantes à um glossário presente no final do livro.
O filme de Kubrick é considerado uma obra prima do cinema, e uma excelente adaptação da obra de Burgess, mesmo considerando que o roteiro foi baseado na edição americana, onde o último capítulo foi excluído da adaptação. O próprio Burgess criticou a remoção do último capítulo, mas considero a crítica injusta pois a edição americana foi autorizada por Burgess que cedeu à pressão dos editores americanos que achavam que o personagem principal não deveria passar por nenhum tipo de redenção devido aos crimes cometidos, tendo então concordado com a remoção do capítulo final. Por sua vez, Kubrick disse que só leu a versão original após ter concluído o roteiro do filme, e que considerava o último capítulo como um “capítulo extra” inconveniente e inconsistente com o restante do livro, e não gostava da visão do autor para a conclusão da história. Eu concordo com a opinião de Kubrick, também considero que o capítulo final é um tanto desnecessário, mas, polêmicas à parte, tanto o livro quanto o filme são geniais e merecem nossa atenção.

Uma breve análise do livro

  • Contexto da época
    Burgess escreveu o livro após retornar ao Reino Unido depois de uma longa estada no exterior, quando percebeu que a sociedade britânica passava por várias mudanças. Os jovens estavam desenvolvendo uma cultura permeada por música pop e comportamento radical, muitas vezes reunindo-se em gangues. O temor na Inglaterra era de que a delinquência juvenil começasse a sair de controle. Além desses fatores sociais da época, Burgess também foi influenciado pelo estupro de sua primeira esposa durante a Segunda Guerra Mundial por um grupo de soldados americanos bêbados. Burgess também afirmou que seu livro é uma crítica ao Behaviorismo (ou comportamentalismo), um conjunto de teorias que postula que o comportamento é o objeto de estudo mais adequado na psicologia.
  • Estilo
    Sem dúvida uma das coisas mais interessante e dignas de nota em Laranja Mecânica é o estilo único e inteligente empregado por Burgess. O livro foi escrito numa espécie de dialeto do inglês inventado pelo autor, o nadsat, que é falado pelos delinquentes. O vocabulário utilizado foi baseado na língua russa e no cockney, que é uma palavra utilizada para descrever os habitantes da zona leste de Londres, que possuem um dialeto e sotaques diferentes do restante dos londrinos, além do costume de expressarem-se em calão rimado, que faz um jogo de palavras com um caráter irônico e muitas vezes difícil de compreender até mesmo pelos demais londrinos. Acredita-se que o calão rimado surgiu entre os feirantes e pequenos criminosos nos fins do século XIX para dissimular suas atividades pouco lícitas do público geral e da polícia. Mais informações sobre calão rimado podem ser encontradas aqui. Alguns exemplos de expressões cockney em calão rimado:

    “Can you Adam and Eve it?” (Adam and Eve it = believe it)  → Você acredita nisso?
    “Use your loaf and think next time” (loaf of bread = head) → Use a cabeça e pense da próxima vez.
    “Hello me old china” (china plate = mate)  → Olá amigo.
    “Are you telling porkies?” (porkies = pork pies = lies) → Você está mentindo?
    “That’s an expensive looking whistle” (whistle and flute = suit) → Essa é uma roupa cara.

    O próprio título pode ter sido inspirado em uma expressão expressão cockney, As queer as a clockwork orange, que pode ser traduzido como “Tão estranho quanto uma laranja mecânica”. (No entanto, existem outras teorias para explicar o título, talvez essa não seja a correta, mas não vou me estender nessa polêmica!)
    Alex, o narrador da história, nunca tenta embelezar ou produzir efeitos dramáticos, ele nitidamente não está preocupado em chocar o leitor com seus atos de violência muito menos em tenta justificar suas ações, o que pode inicialmente parecer frieza dele, mas que podemos também encarar como um exemplo de sua honestidade (mesmo que seja para praticar atos violentos e deploráveis). Alex chega ao ponto de narrar os atos de violência com muitos detalhes, explicando quais golpes está desferindo em suas vítimas, ou quanto sangue está conseguindo tirar delas.
    Muito do tom do livro soa irreverente e imaturo, o texto está repleto de gírias e onomatopeias o que é um reflexo imaturidade do personagem. Podemos detectar uma nota extremamente sutil de angústia, como se Alex estivesse preso à um círculo vicioso e já tivesse aceitado sua situação no mundo em que vive sem questionamentos ou remorsos, o que fica acentuado após o tratamento que recebeu na prisão que o “curou” da violência.
    Uma prova do quanto Burgess é inteligente no uso do nadsat pode ser lido na segunda sentença do primeiro capítulo:

    “There was me, that is Alex, and my three droogs, that is Pete, Georgie, and Dim, Dim being really dim, and we sat in the Korova Milkbar making up our rassoodocks what to do with the evening, a flip dark chill winter bastard though dry”

    (Éramos eu, ou seja, Alex, e meus três druguis, ou seja, Pete, Georgie e Tosko, Tosko porque ele era muito tosco, e estávamos no Lactobar Korova botando nossas rassudoks pra funcionar e ver o que fazer naquela noite de inverno sem vergonha, fria, escura e miserável, embora seca.)

    Apenas pelo contexto, podemos inferir que druguis significa amigos e rassudok significa pensar, ou planejar. No entanto na versão original em inglês também podemos ver um experto jogo de palavras, uma associação livre de palavras sobre como eles deveriam estar sentindo-se quanto à noite de inverno, mas que na tradução a associação de palavras foi explicada, numa tentativa de facilitar a leitura ou por simples falha do tradutor. Dim, traduzido como Tosko em português (ou Tapado, como encontrei em outras edições), na verdade seria algo como turvo, ou embaçado, sendo que a associação à condição intelectual do amigo de Alex é um tanto mais sutil em inglês. Portanto, parte da genialidade de Burgess perde-se na tradução, o que é triste mas nada muito grave para os leitores das edições traduzidas.
    Para quem não tem muita paciência para decifrar o contexto, a utilização do glossário no fim do livro pode ajudar bastante, pelo menos inicialmente até que o leitor assimile o novo vocabulário, no entanto esse glossário não fazia parte da obra original de Burgess, tendo sido incluído na edição americana de 1963 devido à pressões editoriais. A intenção do autor era justamente criar uma forte sensação de estranhamento, jogando o leitor de forma súbita em um universo jovem, violento e de difícil compreensão.

  • Simbolismos
    Todo o livro é permeado por simbolismos que giram em torno do tema da liberdade de escolha, do livre arbítrio. A trama, a caracterização dos eventos, o discurso de Alex, tudo que está no livro gira em torno da livre arbítrio. Isso fica mais evidente quando Alex inscreve-se no tratamento Ludovico, e com isso abandona sua liberdade de pensamento em troca da oportunidade de reinserir-se na sociedade, e claro, ele irá se arrepender de abdicar de sua liberdade de pensamento.
    O nadsat também pode ser visto como um simbolismo ligado à liberdade e imaturidade da juventude. No último capítulo, quando Alex reencontra um antigo drugue e companheiro de ultraviolência percebemos que ele abandonou o uso do nadsat, e começou a falar como um adulto, o que é uma amostra do simbolismo entre nadsat e imaturidade.
    O próprio número de capítulos, 21, é um simbolismo para indicar a idade em que alguém tornaria-se um adulto.
    Todo esse simbolismo desempenha um papel essencial no livro, e certamente Anthony Burgess inseriu-o de forma a possibilitar que qualquer leitor identifique a mensagem, não é um simbolismo oculto, a mensagem do autor é clara.

Um clássico da literatura inglesa, que gerou um dos melhores filmes do século passado, Laranja Mecânica é uma excelente obra, uma ficção social cujos temas abordados continuam atuais mesmo no nosso tempo: violência gratuita e deliberada, uma sociedade que prefere afastar os jovens ou lobotomizá-los à tentar reinseri-los no convívio social, a tentativa de buscar de uma cura para a violência através da criação de robôs morais, além da hipocrisia dos pais e educadores ao absterem-se da responsabilidade na criação de seus filhos. Por esses motivos, e também pela forma extremamente inteligente como Burgess escreveu o livro com um estilo único, recomendo sua leitura!

A Garra do Conciliador – Gene Wolfe

IMG_0061-0

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: A Garra do Conciliador (Tetralogia do Livro do Novo Sol #2)
  2. Nome do autor: Gene Wolfe
  3. Tradutor: Maria de Lourdes Medeiros
  4. Nome da editora: Publicações Europa-América
  5. Data e local de publicação: Portugal, 1981;
  6. Número de páginas: 272 páginas;
  7. Gênero: Fantasia Científica;
  8. Sub-Gênero: Morte da Terra (Dying Earth);
  9. Nota: ★★★★★ (5!)

A Garra do Conciliador (The Claw of the Conciliator) é o segundo livro da tetralogia do Livro do Novo Sol, de Gene Wolfe. Recebeu os prêmios Nebula em 1981 e o Locus em 1982. Narrado em primeira pessoa, o livro dá continuidade no relato da história de Severian, um exilado da Ordem dos que Procuram a Verdade e a Penitência (Ordem dos Torturadores), descrevendo sua viagem ao norte em direção à cidade de Thrax. No Brasil Gene Wolfe é um ilustre desconhecido, nunca um livro seu foi publicado por aqui. Existe uma edição da Publicações Europa-América, mas infelizmente é muito difícil encontrar um exemplar em sebos brasileiros.
Se você gosta de George R. R. Martin, já leu todos os livros das Crônicas de Gelo e Fogo, já assistiu várias vezes a série da HBO e está apenas aguardando que o Sr. Martin termine logo a série, dou uma dica para você: Considere ler os livros de Gene Wolfe! São várias as razões que justificam que se invista nessa série.
Em primeiro lugar, e o que é uma grande vantagem, a série de Gene Wolfe está completa. São doze livros excelentes que podem garantir a você meses ou até mesmo anos de diversão e deslumbramento com a riqueza do trabalho do autor.
Em segundo lugar, como já disse no meu post anterior, Gene Wolfe é um dos melhores autores da literatura inglesa atual. Seus livros são profundos, complexos e fantásticos muito além do que eu poderia descrever aqui.

Mas a obra de Gene Wolfe não é uma leitura fácil. O leitor deve permitir que o narrador apresente o seu mundo, não se deve criar expectativas ou tentar imaginar o mundo que ele criou antes da hora certa. Se você fizer isso muito provavelmente irá decepcionar-se com o autor. A narrativa em primeira pessoa é convincente, mas segue o ritmo determinado pelo narrador, exigindo que o leitor enxergue o estranho mundo de Urth através dos olhos de Severian, e se você deixar que ele conte sua história, sem criar falsas expectativas, será recompensado por uma das histórias mais estranhas, surpreendentes e convincentes de todo universo da ficção fantástica e científica.

Em A Garra do Conciliador podemos encontrar uma nítida referência à mitologia criada por H. P. Lovecraft, quando Severian ao entrar na caverna dos híbridos símios-humanos (ou humanos degenerados) consegue dominá-los com a Garra do Conciliador, mas assusta-se com passos de alguma criatura gigantesca nas profundezas da terra. Mais tarde, conversando com seu amigo Jonas, ele menciona os monstros gigantescos Erebus e Abaia, criaturas tão grandes quanto montanhas que viveriam nas profundezas do mar. Severian teme o retorno das criaturas, mas Jonas o lembra que são criaturas tão grandes que não poderiam conter o próprio peso, confirmando um sonho que Severian teve anteriormente. Erebus é o vulcão extinto da Antártica em que os exploradores do livro As Montanhas da Loucura de Lovecraft , encontram a misteriosa criatura da raça dos antigos. Já Abaia, a outra criatura citada, é uma criatura da mitologia Melanésia, uma enguia gigante capaz de causar grande destruição ao produzir ondas gigantes com sua cauda.

Outra referência mitológica neste livro (mas dessa vez à mitologia grega) é a história que Severian lê para seu amigo Jonas mais tarde, enquanto ele está convalescendo. É A História do Estudante e do Filho, que Jonas reconhece como sendo a história de Teseu e do Minotauro: Era exigido que a cada nove anos sete rapazes e sete garotas fossem enviados para serem devorados pelo Minotauro.
Decidido a acabar com isso Teseu se ofereceu para matar o monstro de Minos, prometendo a seu pai, Egeu, que ordenaria que o navio que o traria de volta erguesse velas brancas em caso de sucesso, ou negras caso ele tivesse morrido. Após matar o monstro o herói esquece de erguer as velas brancas e seu pai, ao ver as velas negras imagina que seu filho morreu então se arremessa ao mar e morre, e desde então o mar leva o nome de Mar Egeu. No futuro longínquo de Urth toda história e mitologia da Terra sofreram profundas transformações, mas na essência podemos notar a permanência dos elementos principais. Jonas mostra conhecer muito mais do passado de Urth que supúnhamos até então, e mais à frente veremos que Jonas não é um simples homem com alguns implantes biônicos.

Um trecho estranho do livro envolve uma chocante cerimônia (uma comunhão?) onde Severian, Vodalus e outros de seu grupo consomem carne do corpo de Thecla, após a utilização de uma droga extraída de uma glândula de uma misteriosa criatura, e com isso adquire muitas das memórias de Thecla e de sua vida na Casa Absoluta, a sede do governo do Autarca.
A Garra do Conciliador é um estranho artefato, que acaba em poder de Severian por acidente mas este logo percebe que a Garra pode ser utilizada para curar doentes, reparar ossos quebrados, afugentar animais selvagens ou até domar touros bravos!
Em A Espada do Lictor, no capítulo XVII, Gene Wolfe chama a Garra do Conciliador de gegenschein do Novo Sol:

A pedra brilhou na luz do sol, mas seu brilho era mero reflexo do sol e não a Luz do Conciliador, o gegenschein do Novo Sol, e então eu a guardei novamente.

Gegenschein é um termo alemão para um efeito astronômico também conhecido como brilho de oposição. É uma mancha elíptica de luz, oposta ao sol no céu, muito mais sutil e difícil de se observar do que a Luz Zodiacal. É causada pelo espalhamento da luz solar pelas partículas interplanetárias de poeira. Gene Wolfe, dessa forma, associa a luz do artefato com a possibilidade de um Novo Sol para Urth, sendo o brilho da pedra uma espécie de reflexo sutil dessa luz prometida.

Para quem deseja iniciar a leitura em inglês, os livros podem ser encontrados na Amazon através dos links abaixo. Desejo boa sorte para quem tentar garimpar a edição portuguesa nos sebos brasileiros, não será uma tarefa fácil! Um bom começo é tentar o site Estante Virtual. É confiável, já comprei dezenas de livros através dele e nunca tive problemas, mas hoje existe apenas uma cópia de A Cidadela do Autarca disponível.

O Livro do Novo Sol (Book of the New Sun)

Book of the Long Sun

Book of the Short Sun

A história independente que Severian conta em A Garra do Conciliador, “A História do Estudante e do Filho,” foi publicada de forma independente e separada na revista The Magazine of Fantasy & Science Fiction, October 1981.

A Sombra do Torturador – Gene Wolfe

20141207_184429

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: A Sombra do Torturador (Tetralogia do Livro do Novo Sol #1)
  2. Nome do autor: Gene Wolfe
  3. Tradutor: Maria de Lourdes Medeiros
  4. Nome da editora: Publicações Europa-América
  5. Data e local de publicação: Portugal, 1981;
  6. Número de páginas: 280 páginas;
  7. Gênero: Fantasia Científica;
  8. Sub-Gênero: Morte da Terra (Dying Earth);
  9. Nota: ★★★★★ (5!)

Estamos convencidos de que inventamos os símbolos. A verdade é que são eles que inventam a nós. Somos criaturas suas, moldados por suas arestas fortes e incisivas.

A Sombra do Torturador (The Shadow of the Torturer) é o primeiro livro da Tetralogia do Livro do Novo Sol, de Gene Wolfe. É considerado por muitos um dos melhores livros de Fantasia Científica já escritos, um gênero que combina elementos da ficção científica com a fantasia. Este primeiro volume relata a história de Severian, um aprendiz na Ordem dos que Procuram a Verdade e a Penitência (a Ordem dos Torturadores) e os eventos que o levaram à sua expulsão da Ordem e sua jornada para fora de sua cidade natal de Nessus. O estilo é o da narrativa em primeira pessoa, onde Severian – que alega possuir uma memória eidética (fotográfica) – conta sua história situada em um futuro muito distante, quando o Sol enfraqueceu transformando a Terra em um mundo frio e moribundo. Os livros dessa série são os seguintes:

  1. A Sombra do Torturador (The Shadow of the Torturer);
  2. A Garra do Conciliador (The Claw of the Conciliator);
  3. A Espada do Lictor (The Sword of the Lictor);
  4. A Cidadela do Autarca (The Citadel of the Autarch);
  5. Urth do Novo Sol (The Urth of the New Sun) – Este último é uma espécie de epílogo para a história de Severian.

Gene Wolfe (83 anos) não é um autor de best-sellers, fato que explica o completo desprezo das editoras brasileiras. Apesar disso ele é muito elogiado pela crítica e é reconhecido no meio literário como um dos maiores escritores vivos da língua inglesa, dono de uma prosa densa, rica em elementos alusivos e sem apego à convenções de gêneros literários. Neil Gaiman o considera possuidor de um “intelecto feroz”, Swanwick disse que Wolfe é “o maior escritor da língua inglesa vivo atualmente” e Disch considerou O Livro do Novo Sol como “uma tetralogia sofisticada, inteligente e suave.”
Os quatro volumes do Livro do Novo Sol são povoados por referências e metáforas cristãs, especialmente católicas – Gene Wolfe é um católico praticante – mas o leitor não precisa conhecer nada de teologia para aproveitar o livro pois essas referências ficam restritas ao background da história.
Um exemplo do uso de símbolos e referências católicas neste livro é o de Santa Catarina de Alexandria que foi presa por censurar a perseguição aos cristãos pelo imperador Maximino Daia. O imperador convocou 50 dos maiores sábios do mundo para convencê-la de que ela estava errada, e que deveria negar o Deus dos cristãos. Mas os argumentos de Catarina era tão eloquentes e convincentes que foi ela quem acabou convertendo os sábios ao cristianismo. Após a tortura Santa Catarina foi decapitada tornando-se uma das maiores mártires do católicos. Ironicamente a santa é apresentada como a padroeira dos Torturadores, e Severian, assim como os sábios da lenda católica, acaba traindo sua Ordem ao mostrar misericórdia à uma exultante da nobreza geneticamente alterada de Urth. Essa “traição”, acaba levando à jornada do exílio de Severian.

Antes de ser expulso para o exílio na longínqua cidade de Thrax, ele recebe de seu mestre a espada Terminus Est, uma impressionante espada, com a ponta quadrada, guarda mão de prata com duas cabeças entalhadas, punho de onyx com fita de prata e uma opala na ponta. As palavras Terminus Est gravadas em sua lâmina significam Esta é a Linha de Divisão. No meio da lâmina existe um canal por onde corre um metal líquido chamado de hidrargiro, mais pesado que o ferro, e que ao erguer a espada acima da cabeça desloca-se para a próximo do punho, e ao descer a espada desloca-se para a ponta, auxiliando o executor a manter o equilíbrio caso seja necessário manter a espada erguida durante muito tempo até o término de uma oração ou a ordem de um inquiridor.

Abro um parênteses para comentar algo sobre o sub-gênero dessa história, o pouco conhecido Morte da Terra (tradução livre de Dying Earth) que difere do popular sub-gênero pós-apocalíptico por não tratar de uma destruição catastrófica, mas sim de uma exaustão entrópica da Terra. O primeiro livro desse gênero foi Le Dernier Homme (1805) que narra a história de Omegarus, o Último Homem na Terra, que mostra uma visão de futuro onde a Terra tornou-se completamente estéril. Outros autores modernos também escreveram excelentes livros nesse sub-gênero, como Arthur C. Clarke em A Cidade e as Estrelas (1956) e George R. R. Martin em Morte da Luz (1977).

A edição portuguesa, possui alguns erros de tradução e vários erros tipográficos, além de não possuir o apêndice que existe na edição em inglês: Social Relationships in Commonwealth. Esse apêndice apresenta, de forma sucinta, a curiosa divisão da sociedade de Urth (uma corruptela para Earth) em sete grupos básicos, entre eles: exultantes, armigers, optimates, religious, pelerines e cacogens. Mais tarde descobrimos que existem mais de 135 classes na complexa sociedade de Urth, algumas com números muito reduzidos como a dos Conservadores, responsáveis pela conservação dos livros da biblioteca de Nessus e manutenção do Jardim Botânico, uma espécie de museu vivo com ecossistemas há muito tempo extintos. Em meio à narrativa podemos entender melhor os papéis desses grupos e é fascinante como o autor consegue apresentar essa estranha sociedade de forma natural e convincente, utilizando-se da visão de Severian, agudamente sensível às impressões do mundo exterior, propiciando uma narrativa extraordinariamente enriquecida pelas reflexões do seu narrador.

É um livro extremamente difícil de encontrar no Brasil e em Portugal, pois existem poucas cópias no mercado de usados. Após buscas exaustivas localizei todos os livros da série: A Sombra do Torturador (Livraria Traça, R$23,27), A Garra do Conciliador (Estante Virtual, R$26,42), A Cidadela do Autarca (Estante Virtual, R$45,16), e o mais difícil de encontrar foi A Espada do Lictor (wook.pt, R$96,86 já incluindo o frete internacional).

Muito mais que uma simples fantasia épica, O Livro do Novo Sol é uma obra como poucas, escrita com qualidades estilísticas inquestionáveis que criaram um mundo cruel mas ao mesmo tempo fascinante e merecedor de nossa atenção. Se você tiver sorte de encontrar esse livro não pense duas vezes, é um livro obrigatório para qualquer estante de ficção!

The Old Equations – Jake Kerr

The-Old-Equations-internal

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: The Old Equations
  2. Nome do autor: Jake Kerr
  3. Tradutor: Rodrigo Fernandes (tradução ainda em andamento)
  4. Data e local de publicação: 16/08/2014, EUA;
  5. Número de páginas: 45 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Sub-Gênero: Realidade Alternativa;
  8. Nota: ★★★★★ (5)

The Old Equations é uma estória escrita por Jake Kerr, e publicada pela primeira vez na revista Lightspeed Magazine em 2011. Foi uma das finalistas do Prêmio Nebula de 2011 e imediatamente reconhecida pelos fãs e pela crítica especializada como uma das melhores novidades no gênero ficção científica dos últimos anos.

É uma estória curta (apenas 45 páginas) que está disponível no Kindle Unlimited da Amazon ou por R$2,53 para quem não é assinante desse serviço, em inglês, mas o meu amigo Rodrigo Fernandes já conseguiu autorização expressa do autor para traduzir e divulgar a sua tradução para o português! Assim que estiver pronto irei disponibilizar o arquivo.
Jake Kerr parte de uma premissa interessante para compor uma realidade alternativa: E se Albert Einstein tivesse morrido antes de divulgar sua genial teoria da relatividade geral, e suas equações tivessem ficado esquecidas até sermos capazes de lançarmos missões interestelares tripuladas?
Ignorando a existência das equações de Einstein, uma nave é então enviada à Gliese 581d, e apesar de possuir avançadas tecnologias quânticas, como sistemas de comunicação instantâneos através de emaranhamento de partículas subatômicas, efeitos relativísticos de dilatação temporal começam a aparecer, confundindo tanto o astronauta como a equipe responsável pela comunicação na Terra. Eles acabarão por descobrir que as velhas equações do obscuro e excêntrico físico Einstein, que tinham sido ignoradas até então, fazem parte da dura realidade com que eles terão que lidar.

Ficção científica não é um gênero fácil para se aventurar. Não se trata apenas de escrever sobre tecnologia e ciência, mas principalmente de escrever sobre a forma como o homem lida com elas, o que foi feito de forma muito competente pelo autor. Na estória um casal enfrenta a difícil separação (e riscos) de uma viagem interplanetária de oito anos. Eles sabem que a separação será difícil, mas estão preparados para lidar com esse problema. A partir do momento que as velhas equações de Einstein mostram-se verdadeiras, o casal descobre que a separação será muito maior do que poderiam imaginar.
Na minha opinião considero que seria difícil a ciência continuar avançando durante dois séculos e meio sem que ninguém percebesse  os efeitos da dilatação temporal. Os efeitos teriam sido notados em relógios síncronos como o que utilizamos hoje em satélites de GPS que mostram leituras divergentes devido à grande velocidade dos satélites em relação ao solo. Apesar disso, essa premissa é muito interessante e estimula muito a imaginação do leitor.
Outro aspecto digno de nota sobre essa estória foi a excelente escolha de Gliese 581d como destino da missão. Esse é um planeta extrassolar muito promissor para encontrarmos vida, pois reúne várias qualidades: está próximo (apenas 20 anos luz, na constelação de Libra), tem apenas 6,98 vezes a massa terrestre e está no limite da zona habitável em torno de sua estrela.
Jake Kerr realizou um trabalho muito competente nessa obra de ficção, o que explica porquê ele é considerado uma das melhores novidades no mundo da ficção científica contemporânea. Acompanharei ansioso o trabalho desse autor!

A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo – Eugen von Böhm-Bawerk

ATeoriaDaExploracaoDoSocialismoComunismo

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo
  2. Nome do autor: Eugen Von Böhm-Bawerk
  3. Tradução para o Português: Lya Luft
  4. Nome da editora: Vide Editorial;
  5. Lugar e data da publicação: Brasil, 2013;
  6. Número de páginas: 240 páginas;
  7. Gênero: Política;
  8. Nota: ★★★★★

A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo: A Ideia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômica. 

Primeiramente peço desculpas aos leitores do meu blog por fugir do tema ficção fantástica e científica, mas como estamos em época de eleições achei interessante aproveitar o momento para ler e estudar esse excelente trabalho de Eugen von Böhm-Bawerk escrito em 1921. Após esse parênteses retornarei a ficção, eu prometo! Na verdade esse livro trata-se de um trecho de um trabalho maior, Kapital und Kaptatizins (Capital e Juro), que ainda hoje é considerada uma das maiores e melhores críticas ao socialismo-comunismo já feitas.
Fico profundamente entristecido quando percebo que as teorias da exploração ainda prevalecem em todo mundo hoje, depois de passados mais de 150 anos desde seu surgimento, mesmo após tanto sangue e lágrimas terem sido derramados em nome do socialismo e comunismo. Na época em que Böhm-Bawerk fez sua crítica o socialismo já dominava o mundo:

Hoje, mais de um terço da humanidade vive sob o comunismo, cujos os líderes emitem seus pronunciamentos arrogantes e militantes a partir da plataforma do dogma socialista. Outro terço da humanidade, naquilo que por vezes se chama de “mundo livre”, vive sob sistemas econômicos claramente socialistas. Praticamente todo resto tem organizações sociais e econômicas em que a teoria da exploração é indicador de intervenção governamental.

Alguma coisa mudou desde então? Na minha opinião considero que muito pouco tenha mudado. Apesar do fim da União Soviética e de praticamente apenas três países continuarem comunistas (China, Coréia do Norte e Cuba), o socialismo ainda é uma força dominante na política mundial. No Brasil, por exemplo, temos empresas estatais ineficientes e corruptas (como ignorar a corrupção na Petrobrás?), e os nossos governantes fazem discursos contra o capitalismo e taxam os banqueiros de “exploradores” da “classe operária”. O ex-presidente Lula, ainda ativo e influente no cenário político, faz a todo momento discursos repletos de dogmas socialistas. Até mesmo nos EUA, baluarte do mundo livre, a teoria da exploração influencia fortemente a opinião pública. Essa influência se mostra na crença popular de que uma economia capitalista livre submete os assalariados ao poder e ao arbítrio dos industriais ricos que exploram seu trabalho. Essas ideias, as versões populares da teoria da exploração, invadiram as escolas e universidades de todo o mundo, penetraram em todos os canais, mudaram radicalmente todos os partidos políticos e até mesmo as religiões. Hoje existe um gigantesco movimento de sindicatos submetendo nossa política à uma “nova ordem” em assuntos sociais e políticos. A teoria da exploração continua determinando nossa economia básica e está presente em todos níveis do governo. A legislação trabalhista, a taxação, os programas sociais, tudo reflete a teoria da exploração.
Böhm-Bawerk não limita-se a analisar o trabalho de Karl Marx, por considerar o trabalho O Capital inferior em profundidade e coerência ao trabalho de Johann Karl Rodbertus. Mesmo assim ele prova que a teoria de Rodbertus é mal fundamentada e produz conclusões falsas e contraditórias.
O livro analisa o trabalho iniciado com Johann Karl Rodbertus e depois popularizado por Karl Marx, vamos ver alguns dos pontos analisados pelo autor em um dos melhores momentos do livro onde ele expõe alguns dos erros dos socialistas:

O Problema do Valor de Troca

No cerne da teoria da exploração apregoada pelos socialistas está o dogma de que o valor de troca é composto apenas pela quantidade de trabalho envolvido em sua produção, portanto todo lucro do empresário vem da exploração do trabalhador, mas essa ideia esta completamente errada. Os predecessores de Karl Marx e seus seguidores ignoram completamente os seguintes fatores, por considerá-los apenas pequenas exceções à sua regra:

  1. Bens raros: A teoria socialista lida apenas com bens produzidos em massa, e ignora bens que possuem um valor diferenciado devido sua raridade ou impossibilidade de serem reproduzidos em massa. Como exemplo podemos citar a diferença entre o vinho produzido em massa e os vinhos de safras especiais ou antigos, que possuem evidentemente valores diferenciados. Mesmo que o mesmo vinho tenha recebido a mesma quantidade de trabalho, seu valor pode variar drasticamente devido sua raridade.
  2. Bens produzidos pelo trabalho qualificado: Os socialistas consideram que todos bens que não são produzidos pelo trabalho comum, mas pelo qualificado, são uma exceção. Embora o produto de um artesão que produz um violino não  corporifique mais trabalho que o de um marceneiro comum, os produtos do primeiro normalmente tem um valor de troca mais elevado, que não pode ser medido pela quantidade de trabalho desprendida para a elaboração do bem. Marx, de forma ingênua, considera que o trabalho qualificado corresponde apenas a um múltiplo do trabalho comum, em suas palavras:

    “O trabalho complexo”, diz ele, “vale só como trabalho comum potenciado, ou multiplicado. Assim, uma pequena quantidade de trabalho complexo equivale a uma quantidade maior de trabalho comum. A experiência nos mostra que essa redução acontece constantemente. Uma mercadoria pode ser o produto de um trabalho complexo mas, se seu valor a iguala ao produto de trabalho comum, ela passa a representar apenas determinada quantidade de trabalho comum.”

    Podemos perceber aqui a ingenuidade de Marx. Pois é evidente que por mais que multipliquemos o trabalho comum de marceneiros que trabalham sem qualquer qualificação nunca atingiremos o resultado equivalente ao que apenas um artesão talentoso (como um Stradivarius) poderia atingir sozinho ao fazer um violino.

  3. Bens produzidos por trabalho extraordinariamente mal pago: É sabido que em determinados ramos da produção os salários são extremamente baixos, e produzem bens de valor extraordinariamente baixos, portanto o produto de vários dias de um operário que produz tais bens normalmente vale muito menos que o produto de outro operário. Mais uma vez a quantidade de trabalho desprendida não é suficiente para determinar o valor de troca.
  4. Oscilações no valor de troca devido a oferta e procura: Frequentemente o valor dos bens sofre oscilações devido à oferta e procura, muitas vezes subindo ou descendo além do nível que corresponderia ao trabalho exigido para sua produção. Os socialistas consideram essas variações apenas como irregularidades passageiras que não interferem na determinação do valor de troca, sendo que nunca um teórico defensor do socialismo tentou verificar se não existiria um princípio mais amplo que explicasse essas oscilações.
  5. Incorporação de valor de troca: Pode parecer evidente que de dois bens que precisam de determinada quantidade de trabalho para serem elaborados, aquele que teve uma maior quantidade de trabalho prévio vale mais. Mas os socialistas ignoram isso sistematicamente.

Böhm-Bawerk conclui a análise do problema do valor de troca da seguinte forma:

…pode-se concluir que o dispêndio de trabalho exerce ampla influência sobre o valor de troca de muitos bens. Mas não como causa definitiva, comum a todos os fenômenos de valor, e sim como causa eventual, particular…

Ou seja,  os socialistas consideram o trabalho como o único fator que determina o valor de troca de um bem, e atacam todos os outros fatores que não se coadunam com essa “lei do valor” classificando-os como ilegais, antinaturais e injustos, e esse é um dos maiores erros do socialismo.

Como vimos acima, Böhm-Bawerk fez uma crítica devastadora das ideias defendidas pelos socialistas de que toda renda obtida por outra fonte que não seja o trabalho é imerecida. Infelizmente, apesar de fazer uma crítica devastadora e bem fundamentada ele não conseguiu impedir o crescimento e ascensão do socialismo o que acabou produzindo consequências nefastas até os dias de hoje.
Böhm-Bawerk é impiedoso com a teoria dos socialistas, a atacando de vários ângulos com uma dialética impecável até ter certeza de ter deixado para trás apenas a carcaça sem vida de uma teoria falaciosa. O seu ataque prende a atenção do leitor nessa tarefa de destruir a teoria socialista e seu tom quase informal de escrita é bastante didático e acessível.