The Old Equations – Jake Kerr

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: The Old Equations
  2. Nome do autor: Jake Kerr
  3. Tradutor: Rodrigo Fernandes (tradução ainda em andamento)
  4. Data e local de publicação: 16/08/2014, EUA;
  5. Número de páginas: 45 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Sub-Gênero: Realidade Alternativa;
  8. Nota: ★★★★★ (5)

The Old Equations é uma estória escrita por Jake Kerr, e publicada pela primeira vez na revista Lightspeed Magazine em 2011. Foi uma das finalistas do Prêmio Nebula de 2011 e imediatamente reconhecida pelos fãs e pela crítica especializada como uma das melhores novidades no gênero ficção científica dos últimos anos.

É uma estória curta (apenas 45 páginas) que está disponível no Kindle Unlimited da Amazon ou por R$2,53 para quem não é assinante desse serviço, em inglês, mas o meu amigo Rodrigo Fernandes já conseguiu autorização expressa do autor para traduzir e divulgar a sua tradução para o português! Assim que estiver pronto irei disponibilizar o arquivo.
Jake Kerr parte de uma premissa interessante para compor uma realidade alternativa: E se Albert Einstein tivesse morrido antes de divulgar sua genial teoria da relatividade geral, e suas equações tivessem ficado esquecidas até sermos capazes de lançarmos missões interestelares tripuladas?
Ignorando a existência das equações de Einstein, uma nave é então enviada à Gliese 581d, e apesar de possuir avançadas tecnologias quânticas, como sistemas de comunicação instantâneos através de emaranhamento de partículas subatômicas, efeitos relativísticos de dilatação temporal começam a aparecer, confundindo tanto o astronauta como a equipe responsável pela comunicação na Terra. Eles acabarão por descobrir que as velhas equações do obscuro e excêntrico físico Einstein, que tinham sido ignoradas até então, fazem parte da dura realidade com que eles terão que lidar.

Ficção científica não é um gênero fácil para se aventurar. Não se trata apenas de escrever sobre tecnologia e ciência, mas principalmente de escrever sobre a forma como o homem lida com elas, o que foi feito de forma muito competente pelo autor. Na estória um casal enfrenta a difícil separação (e riscos) de uma viagem interplanetária de oito anos. Eles sabem que a separação será difícil, mas estão preparados para lidar com esse problema. A partir do momento que as velhas equações de Einstein mostram-se verdadeiras, o casal descobre que a separação será muito maior do que poderiam imaginar.
Na minha opinião considero que seria difícil a ciência continuar avançando durante dois séculos e meio sem que ninguém percebesse  os efeitos da dilatação temporal. Os efeitos teriam sido notados em relógios síncronos como o que utilizamos hoje em satélites de GPS que mostram leituras divergentes devido à grande velocidade dos satélites em relação ao solo. Apesar disso, essa premissa é muito interessante e estimula muito a imaginação do leitor.
Outro aspecto digno de nota sobre essa estória foi a excelente escolha de Gliese 581d como destino da missão. Esse é um planeta extrassolar muito promissor para encontrarmos vida, pois reúne várias qualidades: está próximo (apenas 20 anos luz, na constelação de Libra), tem apenas 6,98 vezes a massa terrestre e está no limite da zona habitável em torno de sua estrela.
Jake Kerr realizou um trabalho muito competente nessa obra de ficção, o que explica porquê ele é considerado uma das melhores novidades no mundo da ficção científica contemporânea. Acompanharei ansioso o trabalho desse autor!

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O Carteiro – David Brin

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Ficha Técnica do Livro

  1. Título: O Carteiro (The Postman)
  2. Nome do autor: David Brin
  3. Tradutor: Fábio Fernandes
  4. Data e local de publicação: Internet, 2014;
  5. Número de páginas: 253 páginas;
  6. Gênero: Ficção Científica;
  7. Sub-Gênero: Ficção Pós-apocalíptica;
  8. Nota: ★★★ (3)

    O Carteiro (The Postman) é um romance de ficção científica pós-apocalíptica escrito por David Brin em duas partes: “O Carteiro” em 1982 e ¨Cyclops” em 1984. Posteriormente o livro foi publicado na sua forma completa, tendo sido indicado aos prêmios Hugo e Nebula, e recebeu os prêmios John W. Campbell e o Locus, em 1986. No Brasil o livro foi publicado apenas em duas partes, pela saudosa Isaac Asimov Magazine, a primeira no nº21 e a segunda no nº 23.
No link abaixo você encontrará a edição brasileira na íntegra, apenas foi feita a correção para a nova ortografia e a edição para epub, mobi e PDF.
A tradução não é minha, mas coloquei na categoria Minhas Traduções apenas facilitar a localização.

O Carteiro – David Brin (PDF)
  O Carteiro – David Brin (MOBI)
 O Carteiro – David Brin (EPUB)

   A maioria das pessoas deve conhecer essa história apenas através do péssimo filme com o Kevin Costner. No Brasil o título foi traduzido erroneamente como O Mensageiro. O filme é uma bomba, como quase tudo que Kevin Costner já fez na vida, mas felizmente eu tinha lido o livro na revista Isaac Asimov Magazine antes de assistir ao filme, e sabia que a história era muito mais do que aquilo que foi mostrado. O filme é sem sentido e simplesmente estúpido, Costner apenas tenta imitar Mad Max. Ele é baseado apenas nas primeiras 40 ou 50 páginas do livro. Caso você já tenha perdido tempo assistindo o filme espero que tenha sido há bastante tempo e espero que já tenha esquecido de boa parte dele, para ter um começo limpo nessa história.
O Carteiro é um livro no clássico sub-gênero pós apocalíptico. O mundo enfrentou uma guerra mundial, cujos detalhes (e até mesmo os oponentes dos EUA) são deixados de lado pelo autor. O uso maciço de armas nucleares, armas biológicas e o inverno nuclear destruiu completamente a civilização. O protagonista do livro, Gordon, era um miliciano em Minnesota, que tentava proteger alguns sobreviventes locais até que todos seus companheiros morreram e ele fugiu para o oeste. O livro começa quando Gordon está sendo roubado por uma gangue e sobrevive ao descobrir um carro postal abandonado e o corpo de um carteiro que morreu há muito tempo. Isso acaba salvando sua vida, pois ele tinha sido roubado e morreria de frio se não vestisse o casaco do carteiro. Ele acaba pegando a sacola de cartas do carteiro, sem pensar muito sobre isso. Quando ele chega à Pine View os habitantes locais reagem de forma inesperada e emocionada com a visão do uniforme, e ele acaba vendo-se tentado a encarnar o papel de carteiro.
Gordon acaba fazendo uso dessa mentira para conseguir respeito, atenção, abrigo e alimento. Ele mente dizendo que representa o governo dos Estados Unidos Restaurados, e as pessoas estão tão desesperadas para acreditar em algo que aceitam facilmente suas mentiras. Gordon se reconhece como uma fraude, e fica tentado a desistir da farsa, mas acaba rapidamente preso no papel. O autor mostra Gordon como um personagem amargurado e oportunista, no entanto ele possui uma moralidade inata esperando para mostrar-se.
O livro questiona o significado de heroísmo e liderança, e como alguém nessa situação pode acabar sendo dominado por um papel se desempenhá-lo muito bem ou por muito tempo.
Mas esse livro tem alguns problemas muito sérios. Na primeira metade, que é basicamente um livro de aventura e exploração de um ambiente pós-apocalíptico, existe uma certa estranheza na dinâmica da narrativa, uma impressão de que o autor está enfiando a narrativa goela abaixo do leitor ao invés de conduzi-la suavemente. Mas o pior acontece na segunda parte, quando Gordon irá enfrentar os sobrivencialistas: o livro sai completamente dos trilhos!
David Brin mostra uma reversão do status das mulheres à um padrão quase feudal, como se os direitos femininos fossem uma espécie de produto da civilização moderna. Quando Gordon chega à uma cidade onde existe uma espécie de nova onda de feminismo surgindo, Brin introduz algumas ideias bizarras sobre a necessidade das mulheres em controlar a violência dos homens, e sobre uma espécie de dicotomia no comportamento masculino entre o heroico e o vil, e faz um claro paralelo com a comédia antiguerra Lisístrata escrita por Aristófanes em 411 A.C.. Nessa comédia as mulheres de Atenas fazem uma greve de sexo e conseguem assim fazer com que seus maridos desistam da luta e busquem a paz. Esse paralelo com Lisístrata está até na dedicatória do livro. Próximo do fim do livro tudo se resume à uma briga cheia de testosterona no estilo saloon de filmes de faroeste. David Brin fica preso à esse modelo binário de gêneros, indo da condescendência sincera em tentar reconhecer a força das mulheres à simplificação na descrição do comportamento masculino, agressivo e superficial.
Para piorar tudo, David Brin simplesmente puxa o tapete debaixo dos pés do mundo que ele criou. O tema principal de O Carteiro até próximo do fim é a substituição da ênfase na tecnologia pelo aumento da importância das pessoas, e a necessidade de cooperação entre elas. Em um trecho bem conduzido Brin consegue mostrar as possibilidades de se utilizar a tecnologia como ferramenta para a salvação, e esse tema encaixa perfeitamente com a natureza heróica de Gordon. Mas logo depois o autor introduz vilões caricatos, típicos de revistas em quadrinhos, tudo descamba para a simples violência e acaba desviando o foco para as partes ruins do livro.
Sem dúvida alguma o livro é melhor que o filme, mas isso não quer dizer muita coisa. O livro começa devagar, mas o meio dele é até melhor do que poderíamos esperar. Mas o embaraçoso sub-enredo envolvendo o feminismo e o colapso do mundo que ele criou deixou um gosto amargo na boca do leitor.
Apesar de tudo é um livro que recomendo a leitura, e apesar dos problemas que possui é um livro pós-apocalíptico regular. Se você está procurando um livro pós-apocalíptico melhor experimente ler Um Cântico para Leibowitz (veja minha análise).

Red Mars – Kim Stanley Robinson

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 Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Red Mars (Trilogia de Marte #1)
  2. Nome do autor: Kim Stanley Robinson
  3. Tradutor: Não foi traduzido para o português
  4. Nome da editora: Spectra;
  5. Data e local de publicação: EUA, 1993;
  6. Número de páginas: 592 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Sub-Gênero: Ficção Científica Hard;
  9. Nota: ★★★★

Red Mars é o primeiro livro da Trilogia de Marte, tendo recebido o Prêmio Nebula de 1993. Lembro de ter lido ele pela primeira vez em 1994 ou 1995, época em quem eu estudava astronomia na UFRJ e este foi o primeiro livro de ficção científica que li em inglês. Desde então venho esperando por uma tradução, mas infelizmente ela nunca foi feita, e como estou lendo os vencedores do Prêmio Hugo (Green Mars e Blue Mars receberam o prêmio) decidi começar relendo o primeiro livro da trilogia que considero a melhor ficção épica sobre a colonização de Marte.
Hoje temos acesso a muitas imagens de Marte, inclusive através do Google Maps Mars, recomendo a consulta dos mapas e regiões para uma melhor ambientação! Veja algumas das regiões descritas por Robinson em seu livro:

Chryse Planitiae

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Juventae Chasm

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Para uma perspectiva ainda melhor do planeta vermelho recomendo o site da NASA, que tem uma enorme quantidade de material das últimas missões, principalmente da Opportunity:

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A história de Red Mars inicia em 2026 com a primeira viagem colonizadora para Marte feita pelo Ares, a maior espaçonave construída para levar os primeiros colonizadores do planeta vermelho. A nave foi construída através da união de tanques externos dos ônibus espaciais, que após a utilização foram impulsionados até uma órbita para serem utilizados como módulos construtivos. A missão é um joint venture entre os Russos e Americanos, sendo que setenta dos Primeiros Cem são desses países. O livro detalha a viagem, a construção da primeira base (chamada de Underhill) por Nadia Chernyshevski, os relacionamentos complexos entre os colonizadores, os debates sobre terraformação do planeta e o relacionamento da colônia com a Terra.

Existem dois pontos de vistas diametralmente opostos quanto a terraformação de Marte: O personagem Saxifrage “Sax” Russell acredita que própria presença do ser humano no planeta significa que a terraformação de Marte já teve início, e que seria essa a nossa obrigação, pois a vida é a coisa mais rara e preciosa do universo e Marte precisa receber a vida. Já Ann Clayborne assume a posição de que a humanidade não tem o direito de alterar planetas para satisfazer suas necessidades.
O ponto de vista de Russel inicialmente é puramente científico mas acaba misturando-se com as ideias de Hiroko Ai, a chefe da equipe de agricultura que acaba criando um novo sistema de crença (a “Areophania”) que devota-se à admiração e promoção da vida (“viriditas”); os seguidores desses pontos de vistas são chamados de “Verdes”, enquanto os seguidores de Clayborne ficam conhecidos como “Vermelhos”.
O órgão que irá decidir para qual lado a colonização irá seguir será a Autoridade das Nações Unidas para Organização de Marte (UNOMA), e obviamente (contar o óbvio não é spoiler, certo?) os Verdes irão prevalecer.
Entre as técnicas utilizadas para transformar Marte são utilizadas as seguintes:

  1. Instalação de um grande número de cataventos para transformar a energia eólica em térmica para aquecer a atmosfera;
  2. Escavação de túneis profundos na crosta (moholes) para liberar calor retido abaixo da superfície. O nome Mohole é uma homenagem ao Projeto Mohole, que foi conduzido entre 1958 e 1966 e realizou uma tentativa de recuperar uma amostra de material do manto terrestre ao cavar um buraco através da crosta na Descontinuidade de Mohorovicic, ou Moho.
  3. Aumento da concentração de gases na atmosfera através de uma complexa fórmula bio-química que fica conhecida como “coquetel de Russell”;
  4. Detonações nucleares profundas para derretimento do permafrost e liberação de água;
  5. Arremesso de cometas para colisão na atmosfera de Marte, em trajetória rasante, causando sua desintegração e agregação de oxigênio, hidrogênio e água na atmosfera;
  6. Inserção de um asteroide em órbita geossíncrona com Marte, que é batizado de “Clarke” no qual será construído um  elevador espacial;

Além disso Robinson introduz muitas tecnologias que hoje seriam consideradas como o Santo Graal da ciência, tanto na ciência de materiais (com super materiais extremamente resistentes que possibilitariam a construção do elevador espacial e redomas flexíveis capazes de envolver cidades inteiras) como na ciência biológica (tratamentos genéticos e geriátricos que prolongariam a vida e a qualidade de vida em várias décadas).
Considero Red Mars um dos melhores livros de ficção científica hard já escritos, e sem dúvida o melhor livro sobre uma possível colonização de Marte, muito coerente nos princípios científicos apresentados, cheio de aventura, romance e humor. Mas então por quê não dei cinco estrelas para ele? Acredito que a única falha do autor foi dar pouco destaque ao enorme desafio que os colonizadores deveriam enfrentar ao lutar contra um ambiente extremamente hostil: atmosfera rarefeita e tóxica, frio extremo, recursos limitados e ambientes confinados em um sistema ecológico frágil e complexo. Para se ter uma ideia, após mais de um ano da chegada da equipe de cem colonizadores nenhum deles morre ou sofre ferimentos graves. O pior ferimento foi o de Nadia, uma especialista em construções em ambientes hostis, que perdeu apenas um dedo e um acidente. Comparando com as dificuldades enfrentadas pelos colonizadores do Novo Mundo ou com as dificuldades que os exploradores da Antártica enfrentaram, é praticamente um acampamento de verão! A viagem da equipe de geólogos e Nadia ao pólo norte marciano foi descrita rapidamente e transcorre sem nenhuma dificuldade, sendo apresentada mais como uma excursão de férias para Nadia do que como uma missão arriscada com algum propósito científico ou prático. Enquanto isso a maior preocupação de Maya (a líder do grupo russo) é como ela vai lidar com seu triângulo amoroso que mantém com os dois líderes americanos, Frank e John.
Muito pouco do livro é dedicado à questão homem versus ambiente, e muito dele é dedicado aos conflitos entre os próprios seres humanos, questões políticas e econômicas, como se a maior dificuldade de viver em Marte não fosse o ambiente inóspito, mas sim a própria natureza destrutiva do ser humano e as dificuldades de relacionamentos dos colonizadores.
Mas essa é uma pequena falha de Kim Stanley Robinson, e de forma alguma desmerece esse grande livro. Na minha opinião, Red Mars seria ainda melhor se tivesse um pouco mais do estilo que Arthur C. Clarke empregou em Encontro com Rama (veja minha análise), que é muito mais realista e focado na exploração e não nos relacionamentos humanos.

Robinson utiliza o eficiente recurso de alternância da narrativa em terceira pessoa entre os personagens principais, o que permite ao leitor ver Marte e os relacionamentos dos colonizadores sob perspectivas muito diferentes: Nadia com seu pragmatismo cabeça-dura, Ann com sua tristeza quase patológica, John com seu entusiasmo e estilo celebridade de primeiro homem em Marte, Arkady com seu libertarismo revolucionário, o psiquiatra francês Michel Duval sofrendo de saudade crônica da Terra; essa alternância amplia muito a abrangência do trabalho do autor, possibilitando ao leitor identificar-se com um ou outro personagem e suas atitudes em determinados momentos.

Não deixe de ler também Green Mars e Blue Mars, em breve publicarei minha análise dos outros livros da trilogia!

Serpente do Espaço – Vonda N. McIntyre

55 - Serpente do Espaço

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Serpente do Espaço (Dreamsnake)
  2. Nome do autor: Vonda N. McIntyre
  3. Tradutor: Margarida Gomes, Eduardo Gomes
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC n° 55;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1983
  6. Número de páginas: 264 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica;
  8. Sub Gênero: Ficção Científica Social
  9. Nota: ★★ (4)

Serpente do Espaço (Dreamsnake) é um romance de ficção científica escrito por Vonda N. McIntyre em 1978 e vencedor dos três prêmios mais importantes da ficção científica (Hugo e Locus de 1979 e Nebula de 1978), feito que foi igualado por apenas 13 livros até hoje, o que a coloca ao lado de autores consagrados como Asimov (Os Próprios Deuses), Clarke (Encontro com Rama), Le Guin (Os Despossuídos), Haldeman (Guerra Sem Fim) e Pohl (Gateway).
Não se deixe enganar pela capa e título — no pior estilo anos 70 — pois certamente esse livro merece um lugar de destaque entre os clássicos do gênero.
O livro conta a história de uma curandeira com o sugestivo nome Serpente (Snake) que vaga entre as tribos e clãs de um mundo devastado em um futuro distante, curando os doentes e trazendo conforto aos moribundos, utilizando-se do veneno de algumas cobras que leva consigo para produzir medicamentos. Logo no início uma de suas cobras, que é capaz de induzir torpor e alucinações em seres humanos, sua “cobra dos sonhos”, é morta. Ela então tentará encontrar uma nova cobra para substituí-la, e ao mesmo tempo irá ajudar muitas pessoas em seu caminho.
A história se passa na Terra, mas em um futuro pós-apocalíptico, muito diferente tanto tecnologicamente quanto socialmente do nosso mundo moderno: Uma guerra nuclear tornou vastas regiões da Terra radioativas demais para suportar a vida humana, mas a biotecnologia avançou bastante e a manipulação genética de plantas e animais é coisa rotineira.
Apesar de ter avançado em algumas áreas da ciência, como a biotecnologia, a humanidade regrediu a um tribalismo primitivo, e as tribos ou clãs encontram muitas dificuldades em meio a uma terra devastada, exceto em uma cidade murada e fechada que ignora completamente os clãs e vive em completo isolamento.
Vonda N. McIntyre construiu uma aventura repleta de idéias, utilizando uma prosa ágil, elegante mas sem excesso de ornamentação, bastante evocativa principalmente com suas descrições breves mas intensas dos cenários que conduzem o leitor diretamente ao estranho mundo desértico e devastado por uma guerra nuclear, mas que apesar disso ainda nos é familiar.
A autora abraça completamente a ideia de que a ficção científica deve ser um espelho da nossa sociedade contemporânea, e apesar de descrever um mundo que em muitos aspectos é mais primitivo que o nosso, ela pretende fazer com que questionemos o mundo em que vivemos. Mas, como esse livro foi escrito nos anos 70 ele é repleto de ideias de poliamorismo, bissexualismo,  amor livre e comunalismo, e isso pode causar certa estranheza ao leitor moderno. Recomendo a você um pouco de paciência e que evite entrar em questionamentos sérios que possam ser causados por sua perspectiva idiossincrática, e que evite tratar esse livro como uma leitura política ou ideológica, pois este livro não foi escrito como um crítica disfarçada à nossa realidade sociopolítica, ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.
De certa forma podemos considerar Serpente do Espaço como um livro que nada mais é que uma construção de mundo, sendo que a história é apenas uma desculpa para autora mostrar sua visão. Enquanto outros livros dedicam a narrativa a realizar a construção de mundos, neste livro a autora faz isso de forma muito delicada, em doses pequenas e diluídas no meio da tensão da narrativa. Muitas vezes podemos fazer falsas suposições, para logo em seguida percebermos que estávamos concluindo tudo de forma errada.
Uma das características que não considero uma falha, mas talvez uma fraqueza nessa obra é que existe uma clara divisão entre bons e maus. Os personagens maus não passam de seres desprezíveis que são obstáculos para os bons. E que maldades eles são capazes! São capazes até mesmo de cometer abuso sexual infantil. As pessoas boas são raras, mas muito prestativas e pouco reais. Uma coisa bem anos 70 nesse livro é a tendência que duas pessoas boas tem de se apaixonar à primeira vista, apenas porque são criaturas boas e raras. A personagem principal é sólida e bem construída, mas os demais personagens são muito superficiais e pouco convincentes. Essa superficialidade é uma fraqueza da autora, mas a história é tão original que facilita muito que a perdoemos por isso.
Serpente do Espaço é um livro muito estranho, diferente de tudo que existe no gênero, o que talvez explique nunca ter sido publicado no Brasil, mas você poderá encontrar com relativa facilidade em sebos online uma cópia da edição portuguesa.

Estranheza e méritos de Serpente do Espaço

  • Cobras:  Sim, o livro é repleto de cobras… cobras, cobras e mais cobras… para quem sofre de ofidiofobia este livro pode ser um pesadelo. A personagem principal, além de chamar-se Serpente possui várias cobras que são mais que instrumentos de trabalho, são verdadeiros bichinhos de estimação, que sobem em seu corpo, enrolam-se em seu pescoço e braços. A intimidade dela com as cobras é no mínimo estranha.
  • Controle de natalidade: Controle de natalidade via bio feedback. Sem dúvida uma ideia bastante imaginativa, e apreciada por muitos leitores de McIntyre que não gostam muito de ficção científica high-tech e da dominância do gênero masculino no gênero.
  • Casamentos entre três pessoas: Peguemos o exemplo de uma personagem, Merideth. Apesar da estranheza do nome (pronúncia equivalente à Merry + death, ou morte alegre), o mais interessante é que ela mostra uma característica curiosa da sociedade, os casamentos entre três pessoas. Merideth é casada com um homem e uma mulher… até aí tudo bem, mas quem são os maridos ou esposas? Ei, afinal Merideth é homem ou mulher? Nunca saberemos. Essa androginia e indefinição de papéis é uma característica interessante no livro, que infelizmente perdeu-se na tradução para o português, pois a tradutora em alguns trechos assumiu tratar-se de um homem, mas no original podemos nitidamente perceber a indefinição. Veja os trechos:

Beneath deep tan, Merideth was pale. “Then do something, help her!”
Em português:
Sob o seu tom escuro, Merideth estava pálido:
— Então faz qualquer coisa! Salva-a! (página 52)

“Dear Merry, Alex knows,” Jesse said. “Please try to understand. It’s time for me to let you go.”
Em português:
— Meu querido Merry, Alex tem razão — disse-lhe Jesse — Por favor, tenta compreender. É tempo de eu vos deixar ir. (página 57)

Eu entendo a dificuldade que seria manter essa indefinição entre masculino ou feminino no português, uma língua mais exigente quanto aos gêneros, mas a tradução acabou eliminando um aspecto muito interessante do livro ao determinar que Merideth é homem, o que a autora nunca fez.

  • Subversão através da simpatia: Fugindo dos meios tradicionais de subversão (força, ameça, terror, choque e dor) a autora apresenta uma nova forma de subversão através da bondade da protagonista, que está longe de ser sentimentalista ou cínica. O efeito dessa subversão é paradoxal, age de forma lenta e acaba sendo mais durável, e o leitor é a principal vítima da subversão de McIntyre!
  • Feminismo: De certa forma, o feminismo da autora é mais eficiente até que  o de Ursula K. Le Guin (veja minha análise de A Mão Esquerda da Escuridão), ao mostrar personagens femininos fortes, indefinição de papéis e gêneros, além dos casamentos livres de papéis pré-definidos pela sociedade. Apesar disso o trabalho de Le Guin é muito melhor conceituado que o de McIntyre.
  • Desconstrução de gêneros: Todas as nossas expectativas relacionadas à gêneros e seus papéis na sociedade, que estão solidificados em nossas mentes, são questionados de forma muito competente pela autora, expondo nossos preconceitos e abrindo nossas mentes. Essa desconstrução é típica da contracultura dos anos 70, mas mesmo assim ainda é interessante para o leitor moderno.

Avaliação do livro

  • Enredo: Possui alguns momentos emocionantes, mas em outros é a narrativa é um pouco lenta. História muito original e intrigante, focada mais no aspecto social que no tecnológico. Nota 4 (★★★★ ).
  • Personagens:  Os personagens ou são completamente bons, ou completamente maus, o que demonstra um pouco de superficialidade. Apesar disso a autora foi muito competente na caracterização deles. Nota 4 (★★★ ).
  • Narrativa: A prosa é elegante, mas sem exageros. Excelente ambientação e criação de mundo. Nota 5 (★★★).
  • Tradução: Existem erros de tradução na edição portuguesa, o mais grosseiro foi a remoção da indefinição do gênero do personagem Merideth. Nota 3 (★★★).
  • Geral: Certamente é um livro que merece ser lido, principalmente por sua originalidade, mas também por sua estranheza. Um verdadeiro clássico que vem sendo esquecido e ignorado há décadas por leitores brasileiros. Nota 4 (★).

Downbelow Station – C. J. Cherryh

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Downbelow Station (Company Wars #1)
  2. Nome do autor: C. J. Cherryh
  3. Tradutor: Não foi traduzido para o português
  4. Nome da editora: DAW Books;
  5. Lugar e data da publicação: EUA, 1982;
  6. Número de páginas: 526 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica Militar;
  8. Nota: ★★

Downbelow Station é um livro sobre guerra. O fato da guerra utilizar espaçonaves e raios lasers não tem qualquer importância. É um livro sobre nacionalismo, ambições pessoais e controle social. De certa forma é uma metáfora sobre a guerra fria, mas não é uma metáfora muito bem feita. Os personagens são soldados entediados, burocratas ambiciosos, aristocratas mimados, mercenários e fugitivos.
O livro envereda-se no território da Space Opera: uma guerra galática entre uma frota esfarrapada de obstinados contra as forças leais à Terra. Apesar de Cherryh partir de uma proposta interessante — mostrar como a humanidade se comporta em uma guerra— ela pede que o leitor tire suas próprias conclusões partindo de um universo estranho em que não vivemos, num futuro distante e sem dar nenhuma dica de como uma espécie alienígena se comportaria e tudo isso  é no mínimo frustante e deixa o leitor perdido.
O estilo de Cherryh é frustrante: muito sério e árido. Ela não facilitará em nada para você: não espere explicações, concessões para suavizar a leitura, nenhum truque ou piada para descontrair. Ela simplesmente coloca seus personagens em situações difíceis e deixa você assistindo enquanto tentam lidar com isso. E fim de conversa.
Apesar dela mostrar a política das facções e suas táticas de forma muito bem elaborada e competente, ela o faz de forma fria e sem graça.
Cada personagem de Downbelow Station é apresentado com um perfil psicológico muito estreito. Em nenhum momento eles irão mostrar ironia, humor ou conflitos morais, e isso para mim é imperdoável! Humor é o mecanismo clássico para se lidar com o stress, e acho difícil aceitar que essa qualidade do ser humano viria a se perder no futuro.
Como explicar que as tripulações das espaçonaves sejam compostas de autômatos leais incapazes de fazer uma simples brincadeira ou piada?
Quando você pretende contar uma história parte do sucesso dela reside na tensão dramática, em descrever como as coisas irão se resolver  e quais princípios irão prevalecer. A vida na estação de Pell é monótona, sem graça. Durante a guerra a vida fica apenas fica tensa. Não existe cores ou sabores que nos façam aceitar que a vale a pena salvar o estilo de vida dos rebeldes. Por quê o estilo de vida dos rebeldes está certo e a o da União errado? Por quê não o contrário? Tudo está em tons de cinza no livro de Cherryh,  mas infelizmente não são os tons de cinza daquele livrinho porno soft de E. L. James!

É correto classificar Downbelow Station como uma Space Opera? Não, pois falta romance, ação, um universo com vida e principalmente emoção! Muitos consideram esse livro genial, e dizem que as críticas à sua aridez são feitas por pessoas que não conseguiram entender a profundidade da história ou não foram inteligentes o suficiente para apreciar o livro. Eu digo que isso é uma grande bobagem, o livro é sem graça, monótono, frio e superficial.

Se você já leu todos os outros clássicos da ficção científica militar de Robert A. Heinlein ou Joe Haldeman então talvez possa tirar algum proveito desse livro, se ainda não leu não perca seu tempo, existe muita coisa melhor.

A Rainha de Gelo – Joan D. Vinge

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: The Snow Queen (A Rainha de Gelo)
  2. Nome do autor: Joan D. Vinge
  3. Tradutor: Maria Luísa Ferreira da Costa
  4. Nome da editora: Editora Europa-América, coleção Livros de Bolso FC ns° 51 e 52;
  5. Lugar e data da publicação: Portugal, 1983
  6. Número de páginas: 448 páginas;
  7. ISBN: 978-972-1-01875-4
  8. Gênero: Ficção Fantástica / Fantasia Científica
  9. Nota: ★★

A Rainha de Gelo é um livro que foi publicado em português apenas em Portugal, talvez por isso seja um livro pouco conhecido do público brasileiro. Apesar de ser classificada como ficção científica ela está tão fortemente imersa no universo da fantasia que prefiro classificá-la como fantasia científica, uma categoria que fica meio abandonada entre a ficção científica e a fantasia.
O livro é inspirado no conto homônimo de Hans Christian Andersen,  de 1844, e assim como ele lida com polaridades e dualidades: claro e escuro, verão e inverno, avanço e atraso tecnológico.
A história acontece em Tiamat, um planeta com uma longa órbita em torno de um buraco negro que conecta Tiamat com o resto da galáxia civilizada, a Hegemonia.
A população de Tiamat divide-se em dois clãs regidos por uma monarquia matriarcal: Summers (Estivais) e Winters (Invernosos). Os Winters relacionam-se com os estrangeiros, e fazem uso da tecnologia deles. Os Summers no entanto desprezam toda tecnologia e vivem como os seres humanos viviam milhares de anos atrás, com tecnologias rudimentares de agricultura e pesca.
A cada 150 anos, a órbita do planeta em torno de um buraco negro produz uma drástica alteração climática, causando o início de uma mini era glacial, e Tiamat durante esse período é governado por uma Rainha de Gelo, escolhida dentre o clã dos Invernosos. Ao encerrar-se o ciclo de 150 anos o clima esquenta novamente, e a Rainha de Gelo é executada em uma cerimônia que coroa a nova Rainha, escolhida entre o clã Estivais, que será conhecida como Rainha do Verão.
Durante o reinado da Rainha do Gelo, viagens estelares são possíveis devido à uma antiga técnica que a Hegemonia herdou do Antigo Império, utilizando o próprio buraco negro como Porta para as viagens para lugares longínquos do universo. Durante esses 150 anos Tiamat é capaz de comunicar-se e negociar com os mundos da Hegemonia mas na fase de governo da Rainha do Verão, essa Porta não é mais acessível, e todo contato fica interrompido.
A história conta como a Rainha do Gelo atual, Arienrhod, pretende prolongar seu reinado para além dos 150 anos através de clones implantados secretamente nos corpos de mulheres do clã Summer.
As pessoas mais ricas do clã Winters conseguem prolongar artificialmente suas vidas através de uma substância extraída do sangue de uma espécie de animal marinho conhecido como mer, a “água da vida”. Essa substância anti-envelhecimento é vendida para os outros mundos da Hegemonia, e a caça ao mer é intensa durante o governo dos Winters, quando os outros mundos tem acesso à Tiamat.
Um desses clones de Arienrhod, uma garota chamada Moon e seu primo Sparks, que estão apaixonados, enveredam-se em uma trama que acaba por afastá-los. Moon tornar-se-á uma profetisa, enquanto Sparks irá assumir a posição de Starbuck, o amante da rainha.
Moon acaba saindo de Tiamat em uma viagem para um mundo da Hegemonia, e retornará para confrontar a Rainha de Gelo e salvar seu primo.

Existem referências mitológicas e folclóricas muito curiosas em A Rainha de Gelo que são dignas de menção:

  1. Tiamat: O nome do planeta representa o espírito primordial do oceano na mitologia mesopotâmica.
  2. Arienrhod (ou Arianrhod): É uma figura da mitologia celta que aparece no Quarto Ramo do Mabinogion, uma coletânea de textos galeses. É descrita como “A Senhora da Roda de Prata”, que vivia na longínqua terra encantada de Caer Sidi, e personificava uma antiga deusa celta, representada pela constelação Corona Borealis, cujo nome em galês era “Caer Arianrhod” , ou seja, “O castelo girante de Arianrhod”. A lenda de Arianrhod é muito complexa, cheia de elementos contraditórios e de difícil compreensão,  e de contradições decorrentes da interpretação de antigas lendas que foram registradas apenas na tradição oral através dos bardos, monges e historiadores cristãos. Essa história, através de metáforas e intrincados simbolismos celtas, expõe a relação dos celtas com as divindades e cultos lunares.
  3. Moon (Lua): No tarô, a carta da Lua (Moon), é uma carta que indica inteligência instintiva, além do retorno às origens.
  4. Paralelo entre viagens espaciais e místicas: Nos contos de fadas as viagens à outros mundos (ou submundos) normalmente é associada com dissociação da passagem do tempo, e com perdas, o que é representado nesse livro através das viagens através da Porta no buraco negro, que causam dilatação temporal com a perda de vários anos em relação à Tiamat.
  5. Bruxa Má: A Rainha de Gelo encontra referência com a tradicional bruxa má, figura comum em vários trabalhos como nos livros de Andersen, dos Irmãos Grimm, Shakespeare e no folclore celta.

Apesar de possuir algumas semelhanças com o Universo Duna os personagens e a narrativa de Joan D. Vinge não possuem a profundidade e qualidade de um Frank Herbert. Assim como nos contos de fadas clássicos os personagens apresentam-se mais como exigências de roteiro para provar uma moral da história, carecendo de exibir quaisquer nuances psicológicos.
Mas será que essa superficialidade dos personagens é uma falha no trabalho da autora? A resposta é: não! É importante levarmos em conta que o livro A Rainha de Gelo foi escrito como um conto de fadas futurista, como uma tentativa de introduzir uma estrutura folclórica nesse universo da ficção científica, o que foi feito de forma muito competente pela autora, transformando o livro num clássico merecedor não apenas do Prêmio Hugo de 1981 como também a atenção de qualquer um que se interesse por ficção fantástica ou científica.

 

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

Fahrenheit-451

Fahrenheit 451

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: Fahrenheit 451
  2. Nome do autor: Ray Bradbury
  3. Tradutor: Knipel, Cid
  4. Nome da editora: Biblioteca Azul
  5. Lugar e data da publicação: Brasil, 2012
  6. Número de páginas: 215
  7. Primeira publicação: 1953
  8. Gênero: Ficção Científica Soft
  9. Nota: ★★

Fahrenheit 451 é um clássico da ficção científica soft, gênero em que a trama e o tema focam mais no desenvolvimento psicológico dos personagens, seus relacionamentos e sentimentos enquanto detalhes tecnológicos ou científicos ficam em segundo plano ou até mesmo são completamente ignorados.
Bradbury escreveu esse livro no início da guerra fria, o que talvez explique seu profundo descontentamento com o caminho que a sociedade americana vinha seguindo e nos apresentando um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas, e o pensamento crítico foi suprimido. O personagem central, Guy Montag, trabalha como “bombeiro” mas ao contrário dos bombeiros que conhecemos, os bombeiros de sua distopia são os responsáveis por queimar livros (e até as pessoas que os possuem).

O título Fahrenheit 451 sugere que essa é a temperatura em que o papel entraria em combustão. Muitos consideram essa informação incorreta, mas ao verificar as temperaturas de auto ignição podemos notar que o autor utilizou quase exatamente a temperatura média para a auto ignição do papel:

(424–475)/2 °F = 449,50 °F

Alguns interpretam o livro como uma crítica à censura, outros como um retrato de uma sociedade distópica, controlada por um estado totalitário. Eu considero o livro  muito mais uma crítica à sociedade moderna, à TV e a cultura de massa, do que a um estado totalitário, o que foi confirmado pelo próprio autor várias vezes.  Não se trata do estado proibindo os livros e controlando a vida das pessoas, como em 1984 de George Orwell, mas muito mais de uma sociedade onde cada indivíduo desistiu de sua liberdade e exerce o controle sobre si mesmo.
Talvez a crítica de Bradbury à TV e a sua influência estupidificante seja um pouco exagerada, pois todas sociedades sempre buscaram entretenimentos estúpidos. Posso citar rapidamente as arenas de lutas, festas populares onde é imperativo se entorpecer, e as peças de teatro ou até mais recentemente os filmes, novelas e séries de TV que normalmente são obras pouco edificantes.
Bradbury não percebeu que a leitura sempre foi um nicho frequentado  por minorias, não é um fenômeno moderno o fato das pessoas lerem pouco. Na tabela abaixo compilei os dados da pesquisa do NOP World Culture Score:

Horas lidas2

Pela tabela acima podemos perceber, por exemplo, que os brasileiros gastam 5,2 horas semanais com leitura, 18,4 com TV, 10,5 com Internet e 17,2 com rádio. Mas esse problema é global, podemos também perceber que nenhum país no mundo lê mais do que assiste TV.
Mesmo considerando essa baixa média de leitura global, atualmente existem mais livros publicados do que a soma de tudo já foi feito desde que as primeiras civilizações começaram a utilizar a escrita. Hoje considera-se que existam mais de 130 milhões de livros publicados, mesmo considerando a lei de Sturgeon que classifica como lixo 90% de tudo que é publicado, ainda assim teríamos mais de 13 milhões de livros que valeriam a pena ser lidos!
Bradbury sugere que a leitura seria completamente abolida devido à TV, o que não aconteceu. Até mesmo a internet mostrou-se um meio que facilita enormemente o acesso a livros, inclusive possibilitando a leitura e download de clássicos de forma gratuita.
Bradbury considera nesse livro a TV como uma forma de cativar mentes simplórias e destruir interações sociais, o que é uma simplificação grosseira.
Eu considero as várias formas de difusão de cultura (livros, cinema, TV, rádio e agora internet) como meios complementares de distribuição. Uma pessoa que lê mais não é necessariamente mais desenvolvida ou inteligente que uma assiste mais TV. A comparação Coréia x Brasil é um excelente exemplo disso: mesmo considerando que os brasileiros leem mais que os coreanos, somos enormemente mais atrasados e nossa educação é muito inferior em relação a deles. Ou seja, leitura não é garantia de desenvolvimento cultural e educacional. Uma pessoa pode passar a vida lendo livros como os da Suzane Collins ou da série Sabrina que seria tão culta quanto outra que passou a vida assistindo novelas na TV, é um erro culparmos a mídia pelo valor de uma mensagem. O que nos torna mais informados ou mais educados não é o ato de ler em si, mas sim o quê estamos lendo e como interpretamos isso.
De qualquer forma Fahrenheit 451 é um excelente livro, que nos faz questionar a cultura de massa e o consumismo, recomendo a leitura!

Ensaio Sobre a Cegueira – José Saramago

capa

Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: Ensaio Sobre a Cegueira
  2. Nome do autor: José Saramago
  3. Idioma: Português
  4. Nome da editora: Caminho;
  5. Lugar e data da publicação: Lisboa, 1995;
  6. Número de páginas: 425 páginas;
  7. Gênero: Romance;
  8. Nota: 

Ensaio sobre a Cegueira é um romance de José Saramago, escrito em 1995, logo antes de receber o prêmio Nobel de Literatura em 1998.
Assim o próprio autor definiu o livro:

“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”

E Saramago cumpre o que promete: o leitor sofre bastante lendo esse livro! O pessimismo do autor está em cada página, em cada parágrafo. Mas será que somos tão ruins como Saramago insiste em dizer? Será que o mundo realmente tornou-se um lugar tão horrível?  Eu não concordo com o autor e não gosto do seu estilo. Falar mal de Saramago é uma tarefa ingrata, e sei que muitos vão pensar: “Quem é você para criticar um dos maiores escritores da língua portuguesa?”. Sinto ir contra a esmagadora maioria, mas prefiro ser uma solitária voz dissonante do que fingir que gosto de um autor apenas por que ele é idolatrado pela maioria.
Muitos dirão: “É preciso saber separar a obra do escritor de suas ideologias.” O problema é que Saramago nunca pretendeu fazer essa distinção em sua obra, portanto irei relacionar esse livro com a militância do autor, mesmo que quase todos prefiram acreditar que o livro foi escrito apenas como um romance e não como uma crítica ao capitalismo e elogio ao comunismo. O próprio autor definia-se como um “comunista hormonal”, ou seja, o comunismo está entranhado em Saramago, e consequentemente em seus livros, será justo seus defensores esperarem que eu faça alguma distinção entre sua escrita e sua ideologia quando o próprio autor nunca fez?

Saramago, o escritor das longas frases

Antes de mais nada vamos falar sobre o tipo de escrita de José Saramago. Ele utiliza uma descrição fluida, misturando o discurso direto com o indireto, dispensando recursos como parágrafo, travessão e aspas. O discurso direto fica entre vírgulas e para não confundir muito o leitor ele usa letras maiúsculas para diferenciá-lo do indireto. O resultado são frases longas demais e uma escrita confusa, que inicialmente pode parecer difícil, mas a leitura melhora quando nos acostumamos com ela. Depois que nos acostumamos parece apenas simples deselegância do autor.
Acho essa mistura de discursos e sua sintaxe cansativa e desnecessária. De qualquer forma, essa é a marca registrada do autor, quer se goste ou não. E os admiradores de Saramago acham isso lindo, afinal existe gosto para tudo.
Eu acho que o estilo de Saramago é de um modernismo antiquado, muito forçado e exagerado, e o resultado é desagradável.
Em uma única frase que escolhi ao acaso contei 598 palavras e 3.257 caracteres. Saramago era um sádico mesmo! E não sei dizer se é a maior frase do livro, foi um trecho que escolhi aleatoriamente.
Os personagens são tratados de forma rasteira, eles sequer possuem nomes pois Saramago não pretende construir personagens. Ele apenas atribui características físicas superficiais como: a mulher do médico, o rapazinho estrábico, o ladrão, a rapariga de óculos, o cão das lágrimas, e não se preocupa em construir perfis psicológicos complexos. Com isso o autor pretende que o leitor espelhe-se neles, focando em sua crítica à sociedade capitalista.

A ideologia de Saramago

Ah…. a ideologia de Saramago…
Não tenho nada contra um comunista escrever livros, e reconheço que vários escritores comunistas escreveram grandes livros, como é o caso de Graciliano Ramos, mas ao contrário deste Saramago consegue ser muito chato. Ele tenta colocar um sentido moral comunista em tudo que escreve, e o problema é a forma como impõe essa sua moral: com falta de apreço pela ficção e desprezo pela sintaxe e pontuação. Ensaio sobre a Cegueira, a começar pelo título, não pretende ser uma obra de ficção, não pretende mostrar a alma humana, como tantos apregoam. Não passa de uma tentativa de mostrar que o mundo é um lugar horrível, que o capitalismo e o neoliberalismo são os responsáveis pelo mal existente no mundo e que a solução para os males que afligem a humanidade é… O COMUNISMO! E usa de um pessimismo exacerbado para deprimir o leitor  e assim tentar convencer que o homem é uma criatura mesquinha e egoísta, que precisa de um estado forte e rédeas curtas para mantê-lo na linha.
Não tenho nada contra o pessimismo, muitos livros que admiro são pessimistas em relação a humanidade. Mas o pessimismo de Saramago serve apenas para preparar o leitor para sua ideologia.
Mesmo que em seu livro o capitalismo, neoliberalismo e comunismos apareçam disfarçados na forma de alegorias, e não seja apresentado explicitamente o comunismo como a solução para todos os males, ele indiretamente tenta induzir o leitor a concluir isso. Como ele era um militante do comunismo, até mesmo considerado por muitos como o último grande intelectual marxista, imediatamente seu livro foi adotado por toda gente socialista e comunista como uma espécie de bíblia cheia de revelações sociológicas.

A epidemia de cegueira como crítica ao capitalismo

Não é um livro sobre uma doença de origem biológica. Não se trata de castigo divino. Não é um livro no estilo Eu Sou a Lenda de Richard Matheson, ou Dança da Morte de Stephen King, onde é preciso lidar com uma doença devastadora e os personagens lutam para manter sua humanidade. Em determinado trecho através da “mulher do médico” Saramago mostra o que pode significar a cegueira:

“…a mulher do médico compreendeu que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isso, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.”

Quem enxerga (no livro isso está representado pela figura da “mulher do médico”), é quem percebe a crueldade do capitalismo e não aceita viver nesse mundo sem esperança.  Já os cegos entregam-se de tal forma à desesperança que abandonam qualquer traço de humanidade.
Logo mais ele mostra que não acredita na capacidade do governo de nos conduzir em direção à uma sociedade justa:

“…Háverá um governo, disse o primeiro cego, Não creio, mas, no caso de o haver, será um governo de cegos a quererem governar cegos, isto é, o nada a pretender organizar o nada, Então não há futuro, disse o velho da venda preta, Não sei se haverá futuro, do que agora se trata é de saber como poderemos viver neste presente, Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade, o resultado está à vista, qual de nós se considerará ainda tão humano como antes cria ser. …”

Ou seja, como a cegueira é uma metáfora para mostrar seres humanos que não pensam de acordo com a moral comunista, ele quer dizer que não acredita em governos cegos (capitalistas) e acha que a humanidade até poderia viver sem olhos (num mundo capitalista), mas então perderia sua humanidade e o resultado seria a barbárie e o sofrimento.
Então, através da figura da “mulher do médico” — a única que ainda enxerga num mundo dominado pela cegueira (capitalismo), ele mostra que gostaria de ver reconstruída a ordem social, através da ótica comunista em um diálogo entre a rapariga dos óculos escuros, a mulher do médico e o velho da venda preta:

“… Tu não estás cega, disse a rapariga dos óculos escuros, por isso tens sido a que manda e organiza, Não mando, organizo o que posso, sou, unicamente, os olhos que vocês deixaram de ter, Uma espécie de chefe natural, um rei com olhos numa terra de cegos, disse o velho da venda preta, Se assim é, então deixem-se guiar pelos meus olhos enquanto eles durarem, por isso o que proponho é que, em lugar de nos dispersarmos, ela nesta casa, vocês na vossa, tu na tua, continuemos a viver juntos…”

A “mulher do médico”, por ser a única que enxerga assume o papel de organizar (mas singelamente diz que não manda!) pois é quem possui os olhos que os outros deixaram de ter. O velho da venda preta (um alter ego de Saramago) logo a identifica como a chefe natural em uma terra de cegos. Então ela assume a liderança e inicia a organizar a nova ordem comunitária, guiando-os com seus olhos no estilo de vida comunista onde não existe o indivíduo apenas a coletividade.
Em um trecho a  “mulher do médico” é a única que enxerga um corpo sendo dilacerado e devorado por uma matilha de cães, enquanto os outros cegos não percebem o que acontece, mais uma metáfora sobre a exploração do homem pelo sistema capitalista.
No trecho que transcrevo abaixo Saramago usa a figura da mulher do médico e do velho ditado “O pior cego é aquele que não quer ver”:

“… Abramos os olhos, Não podemos, estamos cegos, disse o médico, É uma grande verdade a que diz que o pior cego foi aquele que não quis ver, Mas eu quero ver, disse a rapariga dos óculos escuros, Não será por isso que verás, a única diferença era que deixarias de ser a pior cega…”

Acho esse trecho muito significativo, e muitos estudiosos consideram tratar-se de um julgamento e a anunciação da nova ordem social. Pode-se ver que Saramago praticamente transcende (ou esquece) a ficção e entra no campo do proselitismo através da mulher do médico que convoca os cegos a “abrir os olhos” e os acusa de serem responsáveis por sua cegueira.
Próximo do final temos outra amostra nítida de que esse livro é uma crítica ao capitalismo, onde Saramago usa mais uma vez a figura da mulher do médico quando esta retorna ao supermercado em que esteve anteriormente em busca de comida, dessa vez junto com seu marido, e depara-se com um depósito (cave) repleto de cegos mortos e fogos fátuos mostrando-se como uma verdadeira porta para outro mundo:

“… Fecharam-na com certeza os outros cegos, transformaram a cave num enorme sepulcro, e eu sou a culpada do que aconteceu, quando saí daqui a correr com os sacos suspeitaram de que tratasse de comida e foram à procura, De uma certa maneira, tudo quanto comemos é roubado à boca de outros, e se lhe roubamos demais acabamos por causar-lhes a morte, no fundo somos todos mais ou menos assassinos ….”

Quem está familiarizado com a Teoria da Exploração (veja meu post anterior) construída por Rodbertus e popularizada por Karl Marx logo nota que trata-se de uma referência à crença dos socialistas de que toda renda obtida por outra fonte que não seja o trabalho é imerecida, e de que a economia capitalista livre submete os assalariados ao poder e ao arbítrio dos industriais ricos que exploram seu trabalho.
Como todo bom comunista não poderiam faltar críticas à religião.  Logo depois da cena do supermercado a mulher do médico e seu marido entram em uma igreja, e a mulher percebe que todas as esculturas estão com vendas brancas sobre os olhos e os santos nos quadros com faixas brancas pintadas sobre os olhos, o médico inicia o diálogo abaixo ao considerar estranho que as imagens que não possam ver estejam com olhos cobertos, mas a mulher esclarece:

“… As imagens não vêem, Engano teu, as imagens vêem com os olhos que as vêem, só agora a cegueira é para todos… Se foi o padre quem tapou os olhos das imagens… esse padre deve ter sido o maior sacrílego de todos os tempos e de todas as religiões, o mais justo, o mais radicalmente humano, o que veio aqui para declarar finalmente que Deus não merece ver…”

Ou seja, Saramago deixa bem claro que considera a religião (e não Deus, pois não poderia criticar algo em que não acredita existir) tão cega quanto o resto da humanidade, e o padre que tapou os olhos das imagens estava fazendo justiça ao revelar a religião como cúmplice da cegueira coletiva em que vive a humanidade.
Logo à frente Saramago expõe mais uma vez a Teoria da Exploração com sua crítica à propriedade e a renda obtida por outros meios que não advindos diretamente do trabalho:

“… O que também não muda é aproveitarem-se uns do mal dos outros, como bem o sabem, desde o princípio do mundo, os herdeiros e os herdeiros dos herdeiros….”

Saramago em Ensaio sobre a Cegueira está muito distante de um Cormac McCarthy em A Estrada. Apesar de Mccarthy mostrar personagens em situações desesperadoras e desumanas, ele sabe valorizar o heroísmo inerente à alma humana, e mostrar que mesmo onde não existe mais esperança, nunca deveríamos desistir.

Mostrei na minha crítica que a cegueira é uma alegoria que Saramago utiliza para mostrar a matéria de que nossa sociedade é formada, nada mais que um pretexto utilizado pelo autor para mostrar os horrores em que nossa civilização está assentada. Em sua visão o ser humano, moralmente e culturalmente é selvagem, egoísta e dominado por apetites bárbaros. Para Saramago não existe heroísmo. O autor de Ensaio sobre a Cegueira não apresenta uma resposta no fim do livro, o seu pessimismo quase patológico o impediu de anunciar o comunismo como a redenção para a humanidade, mas quem conhece seu trabalho como militante comunista entende a mensagem que ele quer passar:  que o único sistema social justo é o comunismo. Saramago pretende mostrar com esse livro que o ser humano, bárbaro e animalesco, precisa ser controlado, seus apetites precisam ser domados, ele precisa da ordem e da justiça social que apenas o comunismo pode garantir. A cegueira de Saramago mostra que individualmente somos menos que animais irracionais, esses pelo menos são capazes de controlar o esfíncter! Saramago tem uma estranha fixação com as fezes. Os cegos de Saramago sequer são capazes de arriar as calças e sujam suas roupas, camas e onde vivem. A todo momento ele insiste em descrever que existem fezes em toda parte. O único momento em que se limpam é quando a mulher do médico assume a responsabilidade sobre o seu grupo de cegos. Precisava ser tão grotesco?
Acho esse pessimismo e sua visão em relação ao ser humano muito exagerada. Nunca o ser humano viveu tão bem, nunca tantas pessoas foram livres e viveram em prosperidade, com índices de mortalidade infantil baixos, expectativa de vida crescendo em todo o mundo, acesso à tecnologia universalizado entre outras coisas que eu poderia citar aqui. É claro que existem muitos problemas, muitas pessoas principalmente na África enfrentam guerras, genocídios, epidemias e fome, mas a tendência é que isso diminua. Reconheço que os países ricos não fazem muito, que eles deveriam investir mais nos países pobres e assim possibilitar que eles participassem mais na economia global para serem capazes de gerar sua própria riqueza. A corrupção deveria ser melhor combatida, e o estado deveria estimular mais o empreendedorismo e reduzir os impostos ao mesmo tempo que melhorasse os investimentos. Isso é possível de se atingir em um regime democrático e capitalista, garantindo as liberdades individuais, coisa que o comunismo é incapaz de fazer.

Será que estou exagerando ao mostrar viés político de Ensaio sobre a Cegueira? Apesar de Saramago não admitir isso, os socialistas e comunistas foram os primeiros a apontarem que sua obra na verdade é uma crítica ao capitalismo e ao neoliberalismo, não sou eu que estou tentando desqualificar um romance, só mostro outro ponto de vista  contrário ao da maioria.

Mas afinal, vale a pena ler Saramago?

Não gosto de Saramago como escritor. A sua prosa é cansativa e desagradável, suas frases são longas demais, sua sintaxe é feia.
Não é como Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido) que nos encanta a cada parágrafo com sua sensibilidade e energia rejuvenescedora, e mesmo sendo uma leitura muito mais difícil que a de Saramago ainda assim mostra-se uma experiência muito mais recompensadora.
Não gosto de Saramago como pensador. Como todo comunista ele vê o mundo através de um espelho que distorce a realidade, e flerta com o totalitarismo e o fim das liberdades individuais.
Não conseguiria indicar a leitura de Ensaio sobre a Cegueira para qualquer um, mesmo considerando que talvez seja seu livro mais importante. Acredito tratar-se de um livro que exige uma postura crítica que a maioria das pessoas não é capaz de assumir. Como ficção não é um bom livro, mas pode ser estudado como peça de propaganda comunista (sei que parece um anacronismo, mas ainda existe quem faça propaganda disso). Mas não se preocupem, ele ainda foi capaz de escrever algo ainda pior: O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo – Eugen von Böhm-Bawerk

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Ficha Técnica do Livro:

  1. Título: A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo
  2. Nome do autor: Eugen Von Böhm-Bawerk
  3. Tradução para o Português: Lya Luft
  4. Nome da editora: Vide Editorial;
  5. Lugar e data da publicação: Brasil, 2013;
  6. Número de páginas: 240 páginas;
  7. Gênero: Política;
  8. Nota: ★★★★★

A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo: A Ideia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômica. 

Primeiramente peço desculpas aos leitores do meu blog por fugir do tema ficção fantástica e científica, mas como estamos em época de eleições achei interessante aproveitar o momento para ler e estudar esse excelente trabalho de Eugen von Böhm-Bawerk escrito em 1921. Após esse parênteses retornarei a ficção, eu prometo! Na verdade esse livro trata-se de um trecho de um trabalho maior, Kapital und Kaptatizins (Capital e Juro), que ainda hoje é considerada uma das maiores e melhores críticas ao socialismo-comunismo já feitas.
Fico profundamente entristecido quando percebo que as teorias da exploração ainda prevalecem em todo mundo hoje, depois de passados mais de 150 anos desde seu surgimento, mesmo após tanto sangue e lágrimas terem sido derramados em nome do socialismo e comunismo. Na época em que Böhm-Bawerk fez sua crítica o socialismo já dominava o mundo:

Hoje, mais de um terço da humanidade vive sob o comunismo, cujos os líderes emitem seus pronunciamentos arrogantes e militantes a partir da plataforma do dogma socialista. Outro terço da humanidade, naquilo que por vezes se chama de “mundo livre”, vive sob sistemas econômicos claramente socialistas. Praticamente todo resto tem organizações sociais e econômicas em que a teoria da exploração é indicador de intervenção governamental.

Alguma coisa mudou desde então? Na minha opinião considero que muito pouco tenha mudado. Apesar do fim da União Soviética e de praticamente apenas três países continuarem comunistas (China, Coréia do Norte e Cuba), o socialismo ainda é uma força dominante na política mundial. No Brasil, por exemplo, temos empresas estatais ineficientes e corruptas (como ignorar a corrupção na Petrobrás?), e os nossos governantes fazem discursos contra o capitalismo e taxam os banqueiros de “exploradores” da “classe operária”. O ex-presidente Lula, ainda ativo e influente no cenário político, faz a todo momento discursos repletos de dogmas socialistas. Até mesmo nos EUA, baluarte do mundo livre, a teoria da exploração influencia fortemente a opinião pública. Essa influência se mostra na crença popular de que uma economia capitalista livre submete os assalariados ao poder e ao arbítrio dos industriais ricos que exploram seu trabalho. Essas ideias, as versões populares da teoria da exploração, invadiram as escolas e universidades de todo o mundo, penetraram em todos os canais, mudaram radicalmente todos os partidos políticos e até mesmo as religiões. Hoje existe um gigantesco movimento de sindicatos submetendo nossa política à uma “nova ordem” em assuntos sociais e políticos. A teoria da exploração continua determinando nossa economia básica e está presente em todos níveis do governo. A legislação trabalhista, a taxação, os programas sociais, tudo reflete a teoria da exploração.
Böhm-Bawerk não limita-se a analisar o trabalho de Karl Marx, por considerar o trabalho O Capital inferior em profundidade e coerência ao trabalho de Johann Karl Rodbertus. Mesmo assim ele prova que a teoria de Rodbertus é mal fundamentada e produz conclusões falsas e contraditórias.
O livro analisa o trabalho iniciado com Johann Karl Rodbertus e depois popularizado por Karl Marx, vamos ver alguns dos pontos analisados pelo autor em um dos melhores momentos do livro onde ele expõe alguns dos erros dos socialistas:

O Problema do Valor de Troca

No cerne da teoria da exploração apregoada pelos socialistas está o dogma de que o valor de troca é composto apenas pela quantidade de trabalho envolvido em sua produção, portanto todo lucro do empresário vem da exploração do trabalhador, mas essa ideia esta completamente errada. Os predecessores de Karl Marx e seus seguidores ignoram completamente os seguintes fatores, por considerá-los apenas pequenas exceções à sua regra:

  1. Bens raros: A teoria socialista lida apenas com bens produzidos em massa, e ignora bens que possuem um valor diferenciado devido sua raridade ou impossibilidade de serem reproduzidos em massa. Como exemplo podemos citar a diferença entre o vinho produzido em massa e os vinhos de safras especiais ou antigos, que possuem evidentemente valores diferenciados. Mesmo que o mesmo vinho tenha recebido a mesma quantidade de trabalho, seu valor pode variar drasticamente devido sua raridade.
  2. Bens produzidos pelo trabalho qualificado: Os socialistas consideram que todos bens que não são produzidos pelo trabalho comum, mas pelo qualificado, são uma exceção. Embora o produto de um artesão que produz um violino não  corporifique mais trabalho que o de um marceneiro comum, os produtos do primeiro normalmente tem um valor de troca mais elevado, que não pode ser medido pela quantidade de trabalho desprendida para a elaboração do bem. Marx, de forma ingênua, considera que o trabalho qualificado corresponde apenas a um múltiplo do trabalho comum, em suas palavras:

    “O trabalho complexo”, diz ele, “vale só como trabalho comum potenciado, ou multiplicado. Assim, uma pequena quantidade de trabalho complexo equivale a uma quantidade maior de trabalho comum. A experiência nos mostra que essa redução acontece constantemente. Uma mercadoria pode ser o produto de um trabalho complexo mas, se seu valor a iguala ao produto de trabalho comum, ela passa a representar apenas determinada quantidade de trabalho comum.”

    Podemos perceber aqui a ingenuidade de Marx. Pois é evidente que por mais que multipliquemos o trabalho comum de marceneiros que trabalham sem qualquer qualificação nunca atingiremos o resultado equivalente ao que apenas um artesão talentoso (como um Stradivarius) poderia atingir sozinho ao fazer um violino.

  3. Bens produzidos por trabalho extraordinariamente mal pago: É sabido que em determinados ramos da produção os salários são extremamente baixos, e produzem bens de valor extraordinariamente baixos, portanto o produto de vários dias de um operário que produz tais bens normalmente vale muito menos que o produto de outro operário. Mais uma vez a quantidade de trabalho desprendida não é suficiente para determinar o valor de troca.
  4. Oscilações no valor de troca devido a oferta e procura: Frequentemente o valor dos bens sofre oscilações devido à oferta e procura, muitas vezes subindo ou descendo além do nível que corresponderia ao trabalho exigido para sua produção. Os socialistas consideram essas variações apenas como irregularidades passageiras que não interferem na determinação do valor de troca, sendo que nunca um teórico defensor do socialismo tentou verificar se não existiria um princípio mais amplo que explicasse essas oscilações.
  5. Incorporação de valor de troca: Pode parecer evidente que de dois bens que precisam de determinada quantidade de trabalho para serem elaborados, aquele que teve uma maior quantidade de trabalho prévio vale mais. Mas os socialistas ignoram isso sistematicamente.

Böhm-Bawerk conclui a análise do problema do valor de troca da seguinte forma:

…pode-se concluir que o dispêndio de trabalho exerce ampla influência sobre o valor de troca de muitos bens. Mas não como causa definitiva, comum a todos os fenômenos de valor, e sim como causa eventual, particular…

Ou seja,  os socialistas consideram o trabalho como o único fator que determina o valor de troca de um bem, e atacam todos os outros fatores que não se coadunam com essa “lei do valor” classificando-os como ilegais, antinaturais e injustos, e esse é um dos maiores erros do socialismo.

Como vimos acima, Böhm-Bawerk fez uma crítica devastadora das ideias defendidas pelos socialistas de que toda renda obtida por outra fonte que não seja o trabalho é imerecida. Infelizmente, apesar de fazer uma crítica devastadora e bem fundamentada ele não conseguiu impedir o crescimento e ascensão do socialismo o que acabou produzindo consequências nefastas até os dias de hoje.
Böhm-Bawerk é impiedoso com a teoria dos socialistas, a atacando de vários ângulos com uma dialética impecável até ter certeza de ter deixado para trás apenas a carcaça sem vida de uma teoria falaciosa. O seu ataque prende a atenção do leitor nessa tarefa de destruir a teoria socialista e seu tom quase informal de escrita é bastante didático e acessível.

As Fontes do Paraíso – Arthur C. Clarke

As Fontes do Paraíso

Ficha Técnica do Livro

  1. Título: As Fontes do Paraíso (The Fountains of Paradise)
  2. Nome do autor: Arthur C. Clarke
  3. Tradutor: Donaldson M. Garschagem
  4. Nome da editora: Círculo do Livro;
  5. Lugar e data da primeira publicação: EUA, 1979;
  6. Número de páginas: 280 páginas;
  7. Gênero: Ficção Científica Hard;
  8. Nota: ★★★★

As Fontes do Paraíso (The Fountais of Paradise) é um livro vencedor dos prêmios Hugo, Nebula e Locus escrito em 1979 por Arthur C. Clarke.  O livro trata da construção de um elevador espacial na Terra. A teoria do elevador espacial realmente existe, tendo sido publicada pela primeira vez em 1895 por Konstantin Tsiolkovsky, um cientista de foguetes russo. Ele propôs um sistema onde um cabo seria ancorado na superfície da Terra e a outra ponta em um contra-peso em órbita geostacionária, que permitiria elevar cargas ou espaçonaves até uma órbita em torno da Terra sem a necessidade de utilização de foguetes, o que seria incomparavelmente mais econômico.
O livro situa-se no século 22, onde o Dr. Vannevar Morgan é um famoso engenheiro estrutural que planeja construir um elevador espacial, mas como se não bastasse os problemas de tecnologias de materiais e recursos necessários, ele tem que lidar com o fato de que o único local viável para a construção da torre de ancoragem ficar no topo de uma montanha em Taprobane (Sri Lanka) onde encontra-se um monastério de monges budistas, que opõe-se implacavelmente ao plano pois consideram a montanha sagrada. O Dr. Morgan não é o primeiro homem com planos ambiciosos para essa montanha. Centenas de anos atrás, o Rei Kalidasa enfrentou a mesma resistência dos monges quando planejou construir um palácio na montanha. A joia de seu projeto era a construção das “Fontes do Paraíso” que mostraria jatos de água espetaculares. Existe portanto um paralelo entre os dois homens e seus projetos ambiciosos e a forma como ambos desafiam tradições.
O Dr. Morgan acaba conseguindo vencer a resistência dos monges, e realiza o sonho da construção do elevador espacial, mas um acidente com uma capsula de transporte acaba deixando um grupo de estudantes, um astrofísico e membros da equipe da torre presos a seiscentos quilômetros de altura. Como o suprimento de ar e alimentos está prestes a se esgotar, o Dr. Morgan parte em uma desesperada tentativa de salvamento, o que garante momentos emocionantes na narrativa.
A montanha é um local fictício, mas situado em Sri Lanka onde Arthur C. Clarke viveu a segunda metade de sua vida. O Rei Kalidasa é inspirado em um rei que também existiu na ilha.
As Fontes do Paraíso é um livro excitante que ainda parece atual depois de mais de 30 anos. A inteligente justaposição dos sonhos de Morgan com os do Rei Kalidasa adiciona muita beleza e riqueza na estória, e junto com o Dr. Morgan, ao descobrirmos mais sobre o Rei Kalidasa nos encantamos com a beleza dessa antiga civilização. Em contraste com esse pedaço de história antiga, somos apresentados à estonteante visão da Terra do futuro onde viagens espaciais são comuns e elevadores espaciais apresentam-se como uma forma barata de transporte espacial.
As contribuições de Arthur C. Clarke ao desenvolvimento dos satélites geostacionários garante ainda mais credibilidade a essa ideia do elevador espacial e apesar da sua construção ainda ser considerada impossível com os materiais e tecnologias existentes hoje, no futuro um elevador espacial poderá realmente ser construído.