Os Despossuídos – Ursula K. Le Guin

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Mais uma capa horrível típica dos anos 70… Não se deixem enganar por ela!

Os Despossuídos (The Dispossessed: An Ambiguous Utopia) é um romance de ficção científica utópica/distópica escrito em 1974 por Ursula K. Le Guin, e sua estória situa-se no mesmo universo ficcional de A Mão Esquerda da Escuridão (veja o review aqui). O livro recebeu o prêmio Nebula em 1974 e os prêmios Hugo e Locus em 1975. É considerado um trabalho de ficção científica pouco usual, por explorar várias ideias e temas, incluindo anarquismo, sociedades revolucionárias, capitalismo, individualismo e coletivismo além da Hipótese Sapir-Whorf. Essa hipótese foi criada nos anos 30 pelos linguistas Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, que chegaram a uma tese que é a base do relativismo linguístico, que pode ser a grosso modo resumida da forma: as pessoas vivem de acordo com suas culturas em universos mentais muito diferentes entre si, sendo que esses universos mentais são exprimidos (e até determinados) pelas línguas que as pessoas falam. Desse modo, o estudo das línguas que as pessoas falam pode levar à elucidação da concepção do universo mental dessas culturas. Essa tese foi muito influente entre antropólogos, psicólogos e linguistas nos anos 40 e 50, e apesar de enfraquecida pela corrente cognitiva e de ser refutada por diversos estudiosos, até hoje a teoria ainda é importante.

Contexto do Livro e do Ciclo Hainish

O livro Os Despossuídos apresenta a teoria fictícia envolvendo o ansible, um dispositivo de comunicação instantânea que tem um papel crítico no Ciclo Hainish de Le Guin. A invenção do ansible coloca esse livro no início da cronologia interna do ciclo, apesar de ter sido o quinto livro a ser publicado, portanto a ordem dos livros é a seguinte:

  1. Os Despossuídos (The Dispossessed) – 1974;
  2. Floresta é o Nome do Mundo (The Word for World Is Forest) – 1976;
  3. Rocannon’s World – 1966;
  4. Planet of Exile -1966;
  5. City of Illusions – 1967;
  6. A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) – 1969;
  7. The Telling – 2000;
    (Veja mais detalhes sobre o Ciclo Hainish e A Mão Esquerda da Escuridão neste outro review).

A estória de Os Despossuídos é ambientada nos mundos de Anarres e Urras os planetas gêmeos habitados por seres humanos em Tau Ceti.

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Urras é dividido em vários estados que são dominados por dois dos maiores, que são rivais, numa clara referência aos EUA e URSS, pois um é capitalista  e patriarcal e o outro é um sistema autoritário que governa em nome do proletariado. As relações dos dois blocos é conturbada, da mesma forma como o nosso cenário político mundial na época da guerra fria. As diferenças sociais em Urras são gritantes: o governo representa os ricos e governa para os ricos, que garantem que os pobres recebam apenas um mínimo suporte e educação do estado. As tensões sociais levaram a uma revolução 150 anos atrás — mas no lugar do resultado tradicional que seria a deposição dos opressores, os revolucionários decidiram fundar sua própria sociedade ideal em um planeta próximo a Urras, chamado de Annares, onde então fundou-se uma sociedade anarquista baseada nos princípios do bem comum, responsabilidade e bens compartilhados. Superficialmente essa sociedade funciona. Mas no início do livro logo percebemos que as coisas não estão indo tão bem assim. Os ideais da revolução estão estagnados. Novas ideias surgem e são temidas, enquanto pessoas gananciosas e egoístas (conhecidas como ‘proprietarianos’, na linguagem que eles criaram) começam a ganhar poder. O descontentamento está crescendo.
Um jovem e brilhante físico chamado Shevek está empreendendo uma viagem de Annares para Urras, sendo que no livro isso é mostrado alternando-se capítulos pares e ímpares entre os dois mundos, onde podemos acompanhar sua crescente desilusão com as duas sociedades. Essa estrutura de alternância entre os mundos, assim como tudo mais nesse livro, serve à um propósito: Shevek está criando a ‘teoria da simultaneidade’ que meche com as ideias de tempo, começo e fim, com o passado acontecendo ao mesmo tempo que o presente. Portanto não estranhe essa estrutura dos capítulos, tudo faz parte do plano de Le Guin.
Em Annares descobrimos que os poderosos não gostam da teoria da simultaneidade porque ela promete fornecer um método de comunicação instantânea que acabaria acabando com sua providencial isolação. Já em Urras descobrimos que o interesse dos poderosos é em conseguir utilizar a tecnologia para esmagar as outras sociedades existentes nos demais planetas humanos. Shevek acaba sendo confrontado com uma série de dilemas morais que Le Guin explora com muita competência.
Um dos maiores méritos de Ursula K. Le Guin é conseguir criar uma espécie de laboratório fictício para estudar como uma sociedade anarquista, que lembra uma comunidade hippie dos anos 70, poderia funcionar (ou não funcionar). O livro é cheio de insights sobre a natureza da liberdade, do livre arbítrio, vida em comunidade, poder e igualdade.
A linguagem falada em Annares, o pravic, foi construída para refletir os aspectos e fundamentos do anarquismo utópico. Por exemplo, não existem palavras para descrever conceitos simples do capitalismo como a propriedade privada, o uso de pronomes possessivos é extremamente desencorajado (vem daí o título do livro!), crianças são treinadas para falar apenas sobre assuntos que possam interessar à coletividade. Uma personagem diz em determinado momento “você pode compartilhar o lenço que eu uso,” no lugar de “Você pode usar o meu lenço” como diríamos normalmente. Tudo isso é uma excelente representação da Hipótese Sapir-Whorf, ou seja, da ideia de que a linguagem pode definir o universo mental e a cultura de uma sociedade. Uma prova do talento da autora é justamente o fato dela ter conseguido fazer essa hipótese funcionar no livro.
Qualquer um que leia um livro de Le Guin percebe rapidamente que a autora escreve bem. Sim, é verdade que muitas vezes a prosa é densa demais, obscura em alguns pontos e até mesmo ocasionalmente absurda; ela simplesmente não se preocupa em facilitar a vida do leitor. Mas encontrei no livro algumas belas descrições da vida em Annares, dos horrores e alegrias em Urras. Temos também uma belo gancho romântico envolvendo Shevek, que evolui delicadamente. Mas Shevek também pode ser considerado o ponto fraco do livro, pois Le Guin não consegue convencer muito que tal personagem possa ser real: A incapacidade dele perceber as falhas do modelo odonista e em reconhecer que o ideal seria um meio termo entre os sistemas existentes em Urrás e Anarres persiste até os momentos finais do livro, o que parece muito estranho ao leitor.
Encontrei também alguns elementos do feminismo que permeia toda a obra da autora, assim como expliquei melhor na análise de A Mão Esquerda da Escuridão.
Uma das melhores características de um bom trabalho de ficção científica é a criação de sistemas sociais para ver como eles poderiam se comportar, e isso foi feito de forma extremamente competente nesse livro.

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12 comentários sobre “Os Despossuídos – Ursula K. Le Guin

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  2. Olá Alessandro,

    Já li “A Mão Esquerda da Escuridão” da Ursula, e tenho “Os Despossuídos” na minha estante que comprei de um sebo, mas ainda não o li.
    Pareceu-me pelos seus comentários que você gostou bem mais de “Os Despossuídos” do que “A Mão Esquerda da Escuridão”.
    Você considera “Os Despossuídos” melhor?

    Grande abraço.

    • Olá Marcos,

      Acho complicado comparar esses livros de Le Guin, pois apesar de ambos serem do ciclo hainish, ou seja, ambientados no mesmo universo, tratam de temas muito diferentes.
      Uma coisa que ambos tem em comum é tratar de comunidades isoladas: Em Mão Esquerda o isolamento causou uma estranha fusão entre os sexos, e no caso de Os Despossuídos uma estranha sociedade anarquista.
      Le Guin fez um ótimo trabalho retratando essa sociedade, mas é uma abordagem utópica e insustentável. Na verdade até o personagem principal, apesar de defender com unhas e dentes o sistema, percebe que a única razão para o relativo sucesso do anarquismo é o total isolamento do resto do universo. Ironicamente ele é o criador da teoria por trás do ansível, que causaria o fim do isolamento entre todas as comunidades humanas.
      Mas estou divagando… quanto à sua pergunta, não considero Os Despossuídos melhor que A Mão Esquerda, acho que os dois estão no mesmo nível.
      Mas se você gostou de A Mão Esquerda da Escuridão com certeza vai gostar de Os Despossuídos.

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  5. Eu acho esse livro fantástico! pena que os outros livros (tirando a “Mão esquerda”) são difíceis de achar. Queria ler na ordem cronológica mas só achei O mundo de Roccanon com muita procura.
    Quanto a relutância de Shevek em ver os problemas de annares, acredito que a negação de certos pressupostos é mais difícil para um cientista do que para quem está de fora da academia. Quando se consegue superá-los uma grande descoberta nasce.

    • No Brasil esses livros são realmente difíceis de encontrar, Davenir! Também acho que cientistas estão sujeitos a preconceitos e sentem muita dificuldade em romper paradigmas, e os grandes avanços científicos sempre foram momentos de ruptura, como foi com Galileu e Copérnico com o heliocentrismo, ou Max Plank e a teoria quântica que até hoje causa estranheza.

  6. Olá, Alessandro. Terminei hoje o meu primeiro livro desse universo: Four Ways to Forgiveness. Escolhi o livro de contos (novelas), pq estava lendo outro livro de contos da autora, mas do Ciclo Terramar. Adorei conhecer esse universo e não vejo a hora de ler Os Despossuídos e A Mão Esquerda da Escuridão. Como nunca li a Ursula em português fico na dúvida se devo correr atrás dos livros dela publicados aqui. Enfim, adorei a resenha e vou acompanhar mais este blog que achei muito bacana.

    Abs!

  7. Alessandro Ciapina, bom dia, vale a pena ler este livro por causa da teoria da simultaneidade, para quem estuda a viagem no tempo na prática rsrsrs (vida física eterna pela reversão molecular e potência do cérebro além dos 16% que conseguimos)?. Eu acho que comprarei este livro, mas gostaria de saber se a autora fala sobre o tempo/simultaneidade muito ou se de tão pouco não devo comprar este texto. Abraços, adorei a resenha, parabéns.

    • Boa tarde João,

      A autora faz algumas considerações sobre tempo e simultaneidade, mas nada a ver com essa teoria que você mencionou. Tudo que ela diz está estritamente no campo dá ficção científica, se você espera encontrar algo para utilizar em sua pesquisa não vale a pena comprar. Acredito que a ideia dela do Ansible pode até ser comparada com alguma coisa dá física quântica, algo sobre pares de partículas transmitirem mensagens de forma instantânea pelo espaço, mas ela não faz essa relação.
      De qualquer forma é uma história interessante.

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