O Planeta do Rio – Philip José Farmer

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O Planeta do Rio (To Your Scattered Bodies Go), é um romance de ficção científica de Philip José Farmer, escrito em 1971, sendo o primeiro livro da série Mundo Do Rio, e foi vencedor do Prêmio Hugo de Melhor Romance em 1972. Existem duas edições em língua portuguesa, uma da coleção argonauta de Portugal e outra da Editora Brasiliense, recomendo essa última pois está em português do Brasil.
O título é derivado do poema do inglês John Donne:

At the round earth’s imagin’d corners, blow
Your trumpets, angels, and arise, arise
From death, you numberless infinities
Of souls, and to your scattered bodies go.

Ó Anjos, dos claros flancos da terra
Tocai vossas trombetas, e que vós,
Legião de almas, acorde co’esta voz
E volte aos corpos onde a dor se encerra;

Sem dúvida alguma o título em inglês é carregado de um significado e uma força que perderam-se completamente na escolha do título no Brasil. Ele encapsula a ideia central do livro – de que todo ser humano que viveu desde o início da história é ressuscitado em corpos jovens, dispersos nas margens de um rio com milhões de quilômetros de extensão.
Os ressuscitados estão completamente nus, confusos e sem nenhum pelo ou cabelo no corpo, mas suas necessidades são atendidas, pois cada um acorda com um tubo ao seu lado, que depois é chamado de Gral, que descobre-se que encaixam-se em estranhas pedras em forma de cogumelo que existem por toda parte, e após algum tempo enchem-se de alimentos, bebidas alcoólicas, tabaco e uma estranha droga que depois é chamada de gomorímica. E se eventualmente alguém morre novamente, ele simplesmente é ressuscitado novamente em outro local ao longo do rio.
A partir dessa ideia Philip José Farmer escreve o que poderia ser um interessante livro sobre livre arbítrio e sobre o significado da vida. Mas ele comete alguns erros graves, conforme mostrarei mais abaixo.
Farmer escolhe alguns personagens históricos reais para personagens. O principal é um intrigante explorador do século XIX: Sir Richard Francis Burton.
O Capitão Burton, foi um geógrafo, explorador, tradutor, escritor, soldado, orientalista, cartógrafo, etnologista, espião, linguista, poeta, egitologista, esgrimista e diplomata (ufa!). Ele é conhecido por ter realizado muitas viagens e explorações na Ásia, África e Américas, bem como por seu extraordinário conhecimento de línguas e culturas, e dizem que ele falava pelo menos 29 línguas! Seus principais feitos incluem ter viajado disfarçado até Meca, o que era proibido para ocidentais, ter feito uma tradução das Mil e Uma Noites, por ter levado o Kama Sutra ao ocidente e por ter sido – junto com John Hanning Speke um dos primeiros europeus a visitar os Grandes Lagos na África em busca da nascente do Nilo. Ele foi um prolífico e erudito autor que escreveu inúmeros livros e artigos acadêmicos sobre comportamento humano, viagens, falcoaria, esgrima, práticas sexuais e etnografia. Farmer não poderia ter escolhido melhor personagem para viajar por esse mundo repleto de culturas, que vão desde as do homem de neandertal até as culturas modernas do século XX.
Outro personagem real encontrado por Burton é Hermann Göring, o famigerado vilão nazista. Mas alguns personagens são fictícios, como o alienígena Monat, e o escritor americano Peter Jarius Frigate, que mostra uma admirável semelhança com certo autor chamado Philip José Farmer (PJF, certo?).
O autor tenta mostrar que pessoas colocadas nessa situação acabariam – após passado o choque inicial – regredindo à selvageria e violência, e grupos começariam a se formar para escravizar e dominar os outros.
O cinismo desconcertante do autor produz uma leitura provocativa, onde o leitor é a todo momento confrontado com a violência e egoísmo que existem no âmago de todos seres humanos, independentemente de sua origem ou cultura.
Um dos problemas com esse livro é que Farmer parece estar mais preocupado em seguir uma narrativa em um ritmo forte, num estilo sensacionalista, mas parece desprezar detalhes técnicos e psicológicos. O retrato que ele pinta de Hermann Göring, por exemplo, é no mínimo cartunesco! Todos nós temos uma ideia do quem esse nazista criminoso de guerra foi, mas agora ele é apenas pintado como um ‘malucão pelado’, viciado em drogas que tem uma tendência em sair por aí assassinando pessoas.
Mas antes fosse esse o único problema com o livro de Farmer! No final das contas o que temos é simplesmente uma prosa ruim, com informações sendo despejadas sem piedade sobre o leitor; veja por exemplo o trecho em que Burton é apresentado ao romano Túlio:

“Burton olhou com atenção para o homem. Poderia ele ser o lendário rei da Roma antiga? De Roma quando esta era uma pequena vila ameaçada pelas outras tribos itálicas, os Sabinos, os Aequi e os Volsci? Que por sua vez eram pressionados pelos Umbrianos, e estes empurrados pelos poderosos Etruscos?”

Deus-me-livre de prosa tão ruim! Antes do fim do parágrafo já tinha me perdido e estava até esquecendo de quem ele estava falando…
Se o livro não tivesse sido escrito em 1971 eu diria que Farmer escreveu o livro consultando o Google e a Wikipédia, pois as descrições são do tipo:

“Sir Robert Smithson,” Burton disse. “Se eu me lembro corretamente, ele possuía fábricas de tecidos e metalúrgicas em Manchester. Ele era conhecido por sua filantropia e por suas boas ações entre os pagãos. Morreu em 1870 mais ou menos, na idade de oitenta.”

Mesmo quando ele não esta tentando massacrar o leitor com suas observações sobre as pessoas ou grupos étnicos, ainda assim vemos problemas sérios:

“Ela tinha um rosto grosseiramente bonito e olhos azuis brilhantes” escreve Farmer. “Burton olhou para ela curiosamente e com admiração para seus esplêndido peito.”

Que-é-isso, senhor Farmer! Se você que agora está lendo achou a descrição um tanto sexista, você acertou em cheio. Ainda duvida do sexismo do autor? Veja só esse outro trecho:

“Ele não podia realmente culpar Alice Hargreaves. Ela era um produto da sua sociedade – como todas mulheres, ela era o que os homens a fizeram dela…”

Alice Hargreaves, por sinal, foi a famosa Alice Liddell – a garota que serviu de inspiração para a Alice no País das Maravilhas, Hargreaves foi o nome de casada dela. No livro de Farmer, Alice nada mais é que um objeto sexual para Burton, e mesmo que agora seja crescida e com um busto esplêndido ainda assim é Alice! Provavelmente ao ler isso Ursula K. Le Guin deve ter tido uma síncope mas depois de recuperada deve ter decidido escrever mais uns dois ou três livros de ficção científica feminista!
Tudo bem que Burton foi um grande linguista e conhecia mais de 29 idiomas, mas como seria possível ele apenas bater os olhos sobre um grupo de humanos, enquanto navegava no rio, e classificá-los como maias pré-colombianos? Alguém já ouviu uma palavra da língua Maia? Ou viu um Maia vivo? E por que não os confundiu com Toltecas ou Astecas?
O autor também não convence no fim, que não vai além de criar uma palavra bonitinha (“Cronoscópio”) e não descreve mais nada sobre o dispositivo que olha para trás no tempo para gravar as histórias de cada ser humano e depois as projetar nos novos corpos, nem sobre os verdadeiros motivos de todo esse trabalho que os Éticos tiveram para criar esse mundo e reviver todos seres humanos que já viveram.
O livro propicia uma leitura interessante, talvez seja digno de leitura, apesar de ser uma experiência dolorosa.

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2 comentários sobre “O Planeta do Rio – Philip José Farmer

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