A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. Le Guin

a mão esquerda

A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness) é um romance de ficção científica de 1969 escrito pela escritora americana Ursula K. Le Guin, que recebeu pelo seu trabalho os Prêmios Hugo de 1970 e Nebula de 1969. Ele é parte do Ciclo Hainish, que ela começou a escrever em 1966, mas a autora nunca pretendeu escrever uma saga espacial nos moldes de Duna, pois nas sua próprias palavras:

“A coisa é que eles [os livros] não formam um ciclo ou uma saga. Eles não formam uma história coerente. Existem algumas conexões evidentes entre eles, sim, mas também algumas extremamente obscuras.”

De qualquer forma, quer ela pretendesse ou não escrever uma saga, os livros possuem uma ordem cronológica interna (diferente da ordem de publicação):

Nome do Livro Data de Publicação Local da estória Observações
Os Despossuídos
(The Dispossessed)
1974 (341 pág) Urras-Anarres (Tau Ceti); c.2300 AD

Prêmio Nebula (1974);
Prêmio Locus (1975);
Prêmio Hugo de Melhor Romance (1975);
Indicado ao Prêmio John W. Campbell (1975).

Floresta é o Nome do Mundo
(The Word for World Is Forest)
1976 (189 pág) Athshe/New Tahiti; c.2368 AD Prêmio Hugo de Melhor Novela (1973);
Indicado ao Nebula (1973);
Indicado ao Prêmio Locus (1973).
Rocannon’s World 1966 (117 pág) Rokanan (Fomalhaut II); c.2684 AD
Planet of Exile 1966 (113 pág) Werel (Gamma Draconis III); c.3755 AD
City of Illusions 1967 (160 pág) Terra; c.4370 AD
A Mão Esquerda da Escuridão
(The Left Hand of Darkness
1969 (286 pág) Gethen; c.4670 AD Prêmio Nebula (1969);
Prêmio Hugo de Melhor Romance (1970).
The Telling 2000 (264 pág) Aka Prêmio Locus, 2001;

A Mão Esquerda da Escuridão é o mais famoso livro a tratar de androginia na ficção científica, além de estar entre os primeiros livros do sub-gênero ficção científica feminista. Mas o trabalho de Ursula não é apenas uma curiosidade do gênero, ele pode ser considerado uma das maiores contribuições já feitas à literatura fantástica, tendo sido eleito pela revista Locus como o número dois no ranking dos melhores romances de ficção científica de todos os tempos, sendo o trabalho dela comparável ao de Tolkien, como definiu Harold Bloom em 1987:

“Le Guin, mais que Tolkien, elevou a fantasia ao nível da alta literatura no nosso tempo.”

Mas afinal o que é ficção científica feminista?
Abro aqui um parenteses para explicar melhor o papel do feminismo na ficção científica e fantasia. Trata-se de um sub-gênero da ficção científica que foca no papel das mulheres nas sociedades. A ficção científica feminista lida com questões sobre problemas sociais como: a forma como a sociedade constrói os gêneros, o papel da reprodução na definição dos gêneros e diferenças políticas e na relação com o poder entre homens e mulheres. Alguns dos trabalhos mais notáveis nesse gênero da ficção científica usam o recurso de utopias para mostrar uma sociedade onde não existe desequilíbrio entre gêneros na balança de poder ou relações sociais, ou então de distopias para mostrar uma sociedade onde as diferenças de gênero são intensificadas, reforçando a necessidade de um esforço feminista para acabar com as desigualdades.
Um dos primeiros trabalhos nesse gênero de ficção foi o de Mary Shelley com seu notável trabalho em Frankenstein (1818), que lida com a criação assexuada de uma nova vida, revendo de certa forma a estória de Adão e Eva.
Nos início dos anos 60 a ficção científica combinava sensacionalismo com críticas políticas e tecnológicas da sociedade. Nessa época surgiu a segunda do movimento feminista, primeiro nos EUA e depois no resto do mundo ocidental. Nos EUA o movimento prolongou-se até o início dos anos 80, ganhando força depois na Europa e parte da Ásia, como na Turquia e em Israel, onde o movimento começou apenas quando acabou nos EUA. Enquanto a primeira onda do feminismo focava em temas com sufrágio universal e remoção de obstáculos legais à igualdade de gêneros (voto para as mulheres e direitos à propriedade), a segunda onda do feminismo aumentou o debate para temas como: sexualidade, família, local de trabalho, direitos reprodutivos e igualdade de direitos civis. Na época as mulheres começaram a conquistar mais direitos no trabalho, no militarismo, na imprensa e esportes, em grande parte devido à ação desse movimento feminista de segunda onda. A ficção científica feminista da época começou a refletir essa segunda onda do feminismo, onde autoras como Ursula K. Le Guin (A Mão Esquerda da Escuridão, 1969), Marge Piercy (Woman on the Edge of Time, 1976) e Joanna Russ (The Female Man, 1970), encontraram um meio fértil para explorar, devido a vocação “subversiva e expansora de horizontes” que é característica da ficção científica.
Assim como essas outras autoras, Ursula K. Le Guin criou um mundo com uma sociedade sem gênero, como forma de destacar os papéis dos gêneros em nosso mundo. Ursula foi uma feminista crítica da ficção científica dos anos 60 e 70, como podemos ver em seus ensaios que estão reunidos em The Language of the Night (1979).

Introdução ao roteiro (sem spoilers)
Genly Ai, um nativo da Terra, é enviado como representante do Conselho Ecumênico ao planeta Gethen para tentar convencê-los a unirem-se à coalizão de mundos humanos.
Gethen é um planeta frio. Algumas vezes o planeta é chamado simplesmente de Inverno. A temperatura chega facilmente aos 50°C negativos em algumas regiões, na maior parte do ano, e facilmente abaixo disso no inverno. Em regiões de clima mais ameno a temperatura pode chegar aos 30°C em alguns dias no verão. Aparentemente a gravidade e a atmosfera são parecidas com a da Terra, pois o enviado Genly Ai não mostra sinais de desconforto em relação à isso. O eixo do planeta não é inclinado como o da Terra, mas a excentricidade da órbita produz fortes estações globais. Gethen está enfrentando uma Era do Gelo, mas alguns cientistas acreditam que ela está próxima do fim.
Os gethenianos são fisicamente e culturalmente adaptados ao frio; eles são de natureza mais robusta e de baixa estatura, conhecendo profundamente formas de se alimentar aproveitando ao máximo alimentos mais energéticos. A característica mais impressionante dos gethenianos é o aspecto sexual: eles são hermafroditas, possuindo um ciclo sexual entre 26 e 28 dias; por aproximadamente três semanas em cada mês eles são biologicamente neutros, e na última semana eles assumem a condição de machos ou então de fêmeas, sendo que a escolha do sexo é determinada por feromônios trocados com o parceiro sexual. Todos indivíduos são capazes de gerar filhos, e gestacionar crianças quando assumem a função feminina. A origem dos gethenianos é um mistério, mas alguns acreditam que foram produto de uma manipulação genética pelos Hain, a espécie que semeou muitos mundos que acabaram formando o Conselho Ecumênico, uma reunião de mundos que utiliza um dispositivo de comunicação do tipo ansible que permite comunicação instantânea através do espaço.
Inicialmente Genly faz pouco progresso, sendo auxiliado por Estraven, o primeiro ministro de Karhide, apesar de Genly não confiar nele. Após a tentativa frustrada em Karhide, Genly parte para o país vizinho, Orgoreyn.
Enquanto os karhideanos possuem um intricado conjunto de regras sociais não escritas e cortesias formais, e evitam tratar do motivo da visita diretamente com Ai, os orgorenianos são mais lógicos e tecnologicamente organizados. Eles provêm Ai com acomodações luxuosas e vão direto ao assunto. Mas apesar de Estraven o advertir para não acreditar nos orgorenianos, ele acaba ignorando o aviso pois não confia em Estraven,  e acaba sendo enviado para um campo de trabalhos forçados onde é submetido à várias sessões de interrogatórios sob indução de drogas.
Estraven acaba revelando-se o único amigo de Ai, e após realizar seu resgate ambos partem em uma viagem difícil de retorno até Karhide, através da geleira de Gobrin, em um dos trechos mais emocionantes do livro, em uma tentativa de cumprir a missão de Ai, reunindo Gethen ao Conselho Ecumênico.

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4 comentários sobre “A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. Le Guin

  1. Pingback: Projeto Maratona do Prêmio Hugo | Leituras Paralelas

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  3. Acabei de lê-lo!
    É um bom livro de ficção científica, com um começo meio sem direção, mas tornando-se interessante da metade em diante, com um final muito lindo!
    Não figura entre os melhores livros de FC que já li porque o estilo antropológico e psicológico não é o meu preferido nesta linha. Mas mereceu o prêmio Hugo pelo contexto histórico e andrógeno e por este motivos aconselho a leitura.

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