O Senhor da Luz – Roger Zelazny

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O Senhor da Luz (Lord of Light) é um romance de ficção científica/fantasia escrito por Roger Zelazny que recebeu Prêmio Hugo de Melhor Romance de 1968, e foi indicado ao Prêmio Nebula no mesmo ano.
Em This Immortal (veja minha resenha), o autor usa o panteão de divindades gregas como cenário e escreve uma grande estória. Dessa vez o foco é o hinduísmo, ou pelo menos uma versão do hinduísmo que agora opera em um planeta similar à Terra (ou à própria Terra, isso não vem ao caso), com o objetivo de manter a humanidade escravizada e na obscuridade.
Deuses como Yama, Khali, Brahma, Ganesha, Vishnu e outros chegaram ao planeta em uma espaçonave, vindos de uma origem desconhecida à milhares de anos atrás. Eles usaram sua tecnologia avançada para desenvolver armas que lhes conferem poderes de deuses, inspirados em Aspectos que identificam-se com esses deuses hindus.
A imortalidade é alcançada com um sistema de transferência da mente para novos corpos, assim que os corpos que ocupam começam a falhar. Eles mantém a humanidade (que é composta pelos descendentes de seus antigos corpos) em um estado de constante ignorância e na obscuridade, e utilizam a religião como controle, onde todos são julgados pelos seus atos em templos e ao fim da vida podem reencarnar em castas superiores ou até mesmo em animais caso tenham desagradado os deuses.
Mas não pense que conhecerá esses detalhes antes da metade do livro. No início os deuses parecem realmente com deuses – apesar de utilizarem algumas gírias e fumarem cigarros como se fossem pessoas comuns, em contraste com a prosa épica que Zelazny utiliza na maioria do livro. O autor revela a verdadeira natureza dos deuses lentamente, e de forma ainda mais lenta a natureza da luta contra eles.
O personagem principal é um grande mistério – um enigma que pode ser resumido, mesmo que não seja explicado completamente pelo primeiro escorregadio primeiro parágrafo do livro:

Os seus seguidores chamavam-lhe Mahasamatman e diziam que era um deus, ele, porém, preferia deixar de lado o Maha- e o atman e intitulava-se Sam. Nunca pretendeu ser um deus. Mas também nunca o negou. Sob as circunstâncias, nem a confirmação nem a negação poderiam trazer benefícios, mas o silêncio, sim.

As complicações não acabam por aí. Os vários personagens dessa estória tem o costume de mudar de nome e até de sexo entre as sucessivas trocas de corpos.
Muitos capítulos não seguem uma ordem cronológica normal, e só fazem sentido à luz dos acontecimentos de outros capítulos. Por exemplo, Tak, o arquivista, começa o livro encarnado como um macaco, mas em um capítulo futuro ele está em sua encarnação humana e só então entendemos o que aconteceu para que encarnasse como macaco. Mas isso não é um problema para o leitor, pois Zelazny escreve com maestria e os leitores dificilmente consideram isso um problema.
É praticamente impossível descobrir se Sam é um personagem sério ou se é uma brincadeira de Zelazny. O autor dedica um capítulo dramático inteiro a um desafortunado personagem chamado Shan, que recebeu o corpo de um epilético, aparentemente apenas para soltar o trocadilho (no original em inglês): “then the fit hit the Shan” (troque o f de fit pelo sh de shan, e você terá “then the shit hit the fan”, literalmente a merda bateu no ventilador!).
E o que Zelazny quis dizer com essa coisa estranha dos Zumbis Cristãos? Seria alguma crítica ao cristianismo, aos ritos cristãos que envolvem a morte e crucificação de seu Deus?
A obscuridade e ambiguidade do livro pode parecer estranha, mas na verdade é a grande sacada do autor. A leitura desse livro é uma experiência estranha e ao mesmo tempo emocionante. Mesmo que o leitor fique perdido na primeira metade do livro isso não importa realmente, pois os diálogos são inteligentes, as cenas de batalha são épicas e muito bem construídas (não deixam nada a desejar para os filmes modernos da Marvel), e daria um belo filme, pois o apelo visual é enorme.
George R. R. Martin, o autor de As Crônicas de Gelo e Fogo, é um grande admirador de Zelazny e especialmente desse livro, e muito do seu trabalho foi inspirado na obra de Zelazny. Veja um trecho de sua homenagem ao autor, que traduzi do que encontrei no seu site oficial:

O Senhor da luz

Ele era um poeta, primeiro, por último, sempre. Suas palavras cantavam.
Ele era um contador de estórias sem igual. Ele criou mundos coloridos, exóticos e memoráveis como nunca antes vistos no gênero.
Mas acima de tudo, eu lembrarei seus personagens. Corwin de Amber e seus irmãos problemáticos. Charles Render, o mestre dos sonhos. O dorminhoco Croyd Crenson, que nunca aprendeu matemática. Fred Cassidy escalando telhados. Conrad. Sagrado e Condenado. Francis Sandow. Billy Blackhorse Singer. Jarry Dark. O Coringa das Sombras. Hell Tanner. Snuff.
E Sam. Ele especialmente. “Os seus seguidores chamavam lhe Mahasamatman e diziam que era um deus, ele, porém, preferia deixar de lado o Maha- e o atman e intitulava-se Sam. Nunca pretendeu ser um deus. Mas também nunca o negou. Sob as circunstâncias, nem a confirmação nem a negação poderiam trazer benefícios, mas o silêncio, sim.”
O Senhor da Luz foi o primeiro livro de Zelazny que eu li. Eu estava no colégio na época, um leitor de longa data que sonhava escrever um dia. Eu tinha acabado de ser desmamado de Andre Norton, perdido meus dentes de leite nos juvenis de Heinlein, sobrevivido ao ginásio com a ajuda de H.P. Lovecraft, Isaac Asimov, “Doc” Smith, Theodore Sturgeon, e J.R.R. Tolkien. Eu lia Ace doubles e pertencia Clube do Livro de Ficção Científica, mas eu não tinha ainda descoberto as revistas. Eu nunca tinha ouvido falar desse cara, Zelazny. Mas quando eu li aquelas palavras pela primeira vez, senti um arrepio, e senti que a Ficção Científica nunca mais seria a mesma. E não foi. Como poucos antes dele, Roger deixou sua marca no gênero.
Ele deixou sua marca na minha vida também. Depois de Senhor da Luz, eu li tudo dele em que pude colocar as mãos. “He Who Shapes”, “And Call me Conrad…”, “A Rose for Ecclesiastes”, “Isle of the Dead”, “The Doors of His Face, the Lamps of His Mouth”, “Creatures of Ligh and Darkness”, e todo o resto. Eu sabia que tinha encontrado um escritor e tanto nesse sujeito com um nome estranho e inesquecível. Eu nunca tinha imaginado que, anos depois, eu também encontraria em Roger um amigo e tanto.
Eu encontrei Roger várias vezes nos anos 70; em um workshop de escritores em Bloomington, Indiana, em Wichita e El Paso, em jantares do Nebula. Na ocasião, eu fiz alguma propaganda minha. Eu fiquei surpreso e assustado quando Roger conheceu meu trabalho. …….
“Mas olhe em torno de você…” ele escreveu em Senhor da Luz. “A Morte e a Luz estão sempre presentes e começam, terminam, participam e observam o Sonho do Indizível, que é o Mundo, queimando as palavras dentro de Samsara, talvez para criar uma coisa bela.”

Assim como This Immortal, O Senhor da Luz é um grande livro, que deixou sua marca no gênero da ficção científica e fantasia, influenciando de forma significativa a próxima geração de autores, como nos contou George R. R. Martin.
Definitivamente é um livro que recomendo a qualquer um, não apenas a fãs do gênero.

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2 comentários sobre “O Senhor da Luz – Roger Zelazny

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